quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Georges Florovsky - Criação e Redenção - XI. A Imortalidade da Alma






I.                    Preliminares

Estarão os Cristãos, enquanto Cristãos, obrigados a crer na Imortalidade da alma humana? E o que exatamente significa a imortalidade no universo Cristão do discurso? Essas questões, de modo algum, são meramente retóricas. Etienne Gilson, em seu Gifford lectures, sentiu-se compelido a expor o seguinte argumento: “No seu todo, o Cristianismo sem a imortalidade da alma não é completamente inconcebível – a prova está em que isso foi concebido. Ao contrário, o que é absolutamente inconcebível é um Cristianismo sem a Ressurreição do Homem”. Um aspecto impactante da história da doutrina primitiva do Cristianismo sobre o Homem está em que muitos escritores importantes do século II negaram enfaticamente a imortalidade (natural) da alma. E isso parece não ter sido uma opinião excepcional ou extravagante de alguns escritores apenas, mas antes o ensinamento comum daquele tempo. Tampouco foi essa convicção completamente abandonada posteriormente. O Bispo Anders Nygren, em seu famoso livro Den kristna karlakstanken genm tiderna, louva os Apologistas do século II precisamente por sua corajosa posição e vê nela uma expressão do verdadeiro espírito Evangélico. A principal ênfase, que na opinião de Nygren deve se manter ainda e sempre, está mais na “Ressurreição do corpo” do que na “Imortalidade da alma”. Um erudito Anglicano do século XVII, Henry Dodwell (1641-1711), publicou em Londres um curioso livro com o desconcertante título: An Epistolary Discourse, proving, from the Scriptures and the First Fathers, that the Soul is a Principle naturally Mortal; but immortalized actually by the Pleasure of God, to Punishment; or to Reward, by its Union with the Divine Baptismal Spirit. Wherein is proved, that None have the Power of giving this Divine Immortalizing Spirit, since the Apostles, but only the Bishops (1706).

A argumentação de Dodwell é frequentemente confusa e complicada. O maior valor do livro, por sua vez, estava na sua imensa erudição. Dodwell, provavelmente pela primeira vez, coletou um enorme volume de informações das antigas doutrinas Cristãs a respeito do Homem, ainda que nem sempre as tenha utilizado com propriedade. E ele estava quase certo em sua alegação de que o Cristianismo não se referia a uma “imortalidade” natura, mas antes a uma Comunhão sobrenatural da alma para com Deus, “o único que possui a Imortalidade[1]”. Não é de espantar que o livro de Dodwell tenha provocado uma violenta controvérsia. Uma acusação formal de heresia foi levantada contra o autor. Mesmo assim, ele conseguiu alguns aliados fervorosos. E um escritor anônimo, “um Presbítero da Igreja da Inglaterra” publicou dois livros a respeito, apresentando um cuidadoso estudo das evidências Patrísticas de que “o Espírito Santo (era) o Autor da Imortalidade, ou a Imortalidade (era) uma Graça peculiar ao Evangelho (e) não um ingrediente natural da Alma”, e de que “a Imortalidade (era) preternatural em relação às almas humanas, o Dom de Jesus Cristo, instituído pelo Espírito Santo no Batismo”. O que constituiu o principal interesse nessa controvérsia foi que a tese de Dodwell sofreu oposição especialmente dos “liberais” da época, tendo sido seu maior oponente o famoso Samuel Clarke, de Saint James, Westminster, um seguidor de Newton e correspondente de Leibnitz, notório por suas crenças e ideias pouco ortodoxas, um típico homem do Latitudinarianismo[2] e do Iluminismo. Tratava-se de uma situação inusitada: a “imortalidade” contestada por um “Ortodoxo” e defendida por um Latitiduinário. Com efeito, era bem isso que se poderia esperar. A crença numa imortalidade natural era um dos poucos “dogmas” do Deísmo iluminista daquele tempo. Um homem do Iluminismo poderia facilmente desprezar as doutrinas da Revelação, mas não poderia aceitar nenhuma dúvida a respeito da “verdade” da Razão. Gilson sugeria que “o que conhecemos pelo nome da doutrina Moralista do século XVII consistia originalmente num retorno da posição dos Primeiros Padres, e não, como se crê usualmente, numa manifestação de um espírito libertino. Enquanto colocação geral, isso é insustentável. A situação no século XVII era muito mais complexa e confusa do que aparentemente supõe Gilson. Mesmo assim, no caso de Dodwell (e outros), a suposição de Gilson é plenamente justificada. Havia um óbvio “retorno às posturas dos Primeiros Padres”.

II.                  A Alma enquanto “criatura”

São Justino, em seu Diálogo com Trifão, conta a história de sua conversão. Em sua busca pela verdade, primeiro ele recorreu aos Filósofos, e por algum tempo esteve plenamente satisfeito com os ensinamentos Platônicos. “A percepção das coisas incorpóreas me subjugou, e a teoria Platônica das ideias deu asas à minha mente”. Então ele encontrou um mestre Cristão, um respeitável ancião. Dentre as questões que foram levantadas no decurso de suas conversações, estavam aquelas a respeito da natureza da alma. O Cristão afirmava que não deveríamos considerar a alma como sendo imortal. “Pois, caso o fosse, seríamos obrigados a dizer que ela tampouco teria tido começo[3]”. Essa, naturalmente, era a tese dos Platônicos. Ora, somente Deus é “não-nascido” e imortal, e é por essa mesma razão que Ele é Divino. Por sua vez, o mundo “começou”, e as almas fazem parte dele. “Talvez tenha havido um tempo em que elas não existiam”. Portanto, elas não seriam imortais, “uma vez que o mundo apareceu para nós como tendo um começo”. A alma não é a vida em si, ela apenas “participa” da vida. Somente Deus e vida, a alma não vai além de ter vida. “Pois o poder de viver não é um atributo da alma, mas de Deus”. De resto, Deus concede vida às almas “conforme Seu agrado”. Todas as coisas criadas “possuem a natureza de se deteriorarem, e são feitas de modo a se apagarem e deixarem de existir”. Essas criaturas são “corruptíveis”. As principais demonstrações clássicas da imortalidade, derivadas do Fedon e do Fedro, são recusadas e refutadas, e seus pressupostos básicos abertamente rejeitados. Como notou o Professor A. E. Taylor, “para a mente Grega, aqanasia ou ajqarsia normalmente significavam praticamente a mesma coisa que “divindade”, e incluíam concepções como não-gerado e indestrutível”. Dizer que “a alma é imortal” equivaleria para um Grego a dizer que ela é “incriada”, isso é, eterna e “divina”. Tudo o que possui um começo deve ter um fim. Em outras palavras, para um Grego a “imortalidade” da alma implicaria imediatamente sua “eternidade”, ou seja, sua eterna “pré-existência”. Apenas aquilo que não tem começo pode durar para sempre. Os Cristãos não podiam concordar com essas assertivas “filosóficas”, na medida em que acreditavam na Criação, e desse modo tiveram que negar a “imortalidade” (no sentido Grego do termo). A alma não constitui um ser independente e autogovernado, ela é uma criatura, e sua existência é devida a Deus, o Criador. De acordo com isso, ela não pode ser “imortal” por natureza, isso é, por si mesma, mas apenas “ao agrado de Deus”, isso é, pela graça. O argumento “filosófico” a respeito da “imortalidade” (natural) estava baseado na “necessidade” da existência. Ao contrário, afirmar que o mundo é criado equivale a enfatizar, primeiramente, sua contingência radical, e mais precisamente, uma contingência na ordem da existência. Em outras palavras, um mundo criado é um mundo que poderia perfeitamente nunca ter existido. Isso equivale a dizer que o mundo é, acima de tudo e inteiramente, ab oleo[4], e em nenhum sentido um se? Como coloca Gilson, “existem alguns seres que são radicalmente diferentes de Deus, no mínimo pelo fato de que, ao contrário Dele, poderiam não existir, e porque ainda poderão, a qualquer tempo, deixar de existir”. “Poderão deixar”, entretanto, não significa necessariamente “irão (verdadeiramente) deixar”. São Justino não era um “condicionalista”, e seu nome foi invocado pelos defensores de uma “imortalidade condicional” praticamente em vão. “Eu não disse, de fato, que toda alma morrerá...”. Toda a argumentação era polêmica, e seu objetivo era o de enfatizar a crença na Criação. Encontramos o mesmo raciocínio em outros escritos do século II. São Teófilo de Antioquia insistia no caráter “neutro” do Homem. “Por natureza”, o Homem não seria nem “imortal”, nem “mortal”, mas “capaz de ambas as coisas”, dektikon amjoterwn. “Porque se Deus tivesse feito o Homem imortal desde o início, Ele o teria feito Deus”. Se no começo o Homem tivesse escolhido as coisas imortais, em obediência ao mandamento de Deus, ele teria sido recompensado com a imortalidade e teria assim se tornado Deus, um “Deus adotivo”, deus assumptus, Qeos anadeicqeis[5]. Taciano foi ainda mais longe. “A alma em si não é imortal, ó Gregos, mas mortal. Mas a ela é possível não morrer[6]”. O pensamento dos primeiros Apologistas não estava livre de contradições, e nem sempre foi expresso com precisão. Mas a principal alegação sempre foi clara: o problema da imortalidade humana tinha que ser encarado no contexto da doutrina da Criação. Podemos dizer também: não apenas como um problema metafísico, mas enquanto problema religioso acima de tudo. A “Imortalidade” não é um atributo da alma, mas algo que, em última instância, depende da relação verdadeira que o homem tem com Deus, seu Mestre e Criador. Não somente o destino derradeiro do Homem só pode ser alcançado na Comunhão com Deus, como a própria existência do Homem e sua “sobrevivência”, ou duração, dependem da vontade de Deus. Santo Irineu prossegue dentro dessa tradição. Em sua disputa com os Gnósticos, ele tinha um motivo especial para enfatizar o caráter criado da alma, ela não provinha de um “outro mundo” isento de corrupção; ela pertencia exatamente a este mundo criado. Foi colocado, diz Santo Irineu, que, para que a alma tenha existência ela deve ser “incriada”, pois de outro modo ela teria que morrer com o corpo. Ele rechaça esse argumento. Enquanto criaturas, as almas “duram tanto quanto Deus quer que elas durem” – perseverant autem quoadusque eas Deus et esse, et perseverare voluerit. A palavra perseverantia corresponde aqui obviamente ao Grego diamonh. Santo Irineu utiliza quase que as mesmas frases de São Justino. A alma não é vida em si; ela participa da vida, concedida por Deus. Somente Deus é Vida, e Ele é o único Doador da Vida[7]. Mesmo Clemente de Alexandria, apesar de seu Platonismo, lembrava ocasionalmente que a alma não era imortal “por natureza”. Santo Atanásio pretendeu demonstrar a imortalidade da alma com argumentos que podem ser rastreados até Platão, mas ele insistia fortemente que todo o criado é “por natureza” instável e está exposto a destruição[8]. Mesmo Santo Agostinho estava consciente da necessidade de qualificar a imortalidade da alma: Anima hominis immortalis est secundum quendam modum suum; non enim moni modo sicut Deus[9]. “Conforme a transitoriedade dessa vida, podemos dizer que ela é mortal[10]”. São João Damasceno dizia que mesmo os Anjos não são imortais por natureza, mas apenas pela graça[11], e provava isso mais ou menos do mesmo modo que os Apologistas[12]. Encontramos a mesma colocação enfática na correspondência sinodal de São Sofrônio, Patriarca de Jerusalém (634), que foi lida e recebida favoravelmente no Sexto Concílio Ecumênico (681). Na última parte dessa correspondência, Sofrônio condena os erros dos Origenistas, a pré-existência da alma e a apokatastasis, e estabelece claramente que “os seres intelectuais” (ta nohta), embora não morram (qnhskei de oudamws), tampouco são “imortais por natureza”, mas apenas pela graça de Deus[13]. Podemos acrescentar que ainda no século XVII essa tradição antiga não estava esquecida no Oriente, e temos também uma interessante notícia de uma disputa contemporânea entre dois Bispos Gregos de Creta, exatamente a respeito dessa questão: em que medida a alma é imortal “por natureza”, ou “pela graça”. Podemos concluir: quando discutimos o problema da Imortalidade de um ponto de vista Cristão, devemos ter em mente a natureza criada da alma. A própria existência da alma é contingente, ou seja, é como se ela fosse “condicional”. Ela é condicionada pelo fiat criador de Deus. Vale dizer, ela tem uma existência que lhe foi concedida, isso é, uma existência que não está necessariamente implicada na sua “essência”, mas que não é necessariamente transitória. O fiat criador foi um ato livre, mas definitivo, de Deus. Deus criou o mundo simplesmente para a existência: ektide gar eis to einai panta[14]. Não há previsão de que esse decreto criador seja revogado. A fisgada da antinomia está exatamente nisso: o mundo possui um começo contingente, mas não um fim. Ele permanece pela vontade imutável de Deus.

III.                O Homem é mortal


No pensamento atual, a “imortalidade da alma” costuma ser de tal modo enfatizada que a mais básica “mortalidade do homem” é deixada de lado. Apenas nas filosofias “existencialistas” recentes somos novamente fortemente lembrados de que a existência do homem permanece intrinsecamente sub specie mortis. A morte é uma catástrofe para o homem. Ela é seu “último” (ou melhor, definitivo) inimigo – escatos ecqros[15]. “Imortalidade” é, obviamente, um termo negativo; ele é correlativo do termo “morte”. E aqui encontramos mais uma vez o Cristianismo num conflito aberto e radical com o “Helenismo”, e em primeiro lugar com o Platonismo. W. H. V. Reade, em seu livro recente, The Christian Challenge do Philosophy, confronte habilmente duas colocações: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós[16]”, e “Plotino, o filósofo de nosso tempo, parecei se envergonhar por ser de carne[17]”. Reade prossegue: “Quando a mensagem do Natal e o breve sumário de Porfírio sobre o credo de seu mestre são colocados em comparação direta, parece não restar dúvida de que ambos são totalmente incompatíveis; de que nenhum Cristão pode ser Platônico, e nenhuma Platônico, Cristão; a respeito desse fato elementar os Platônicos estavam perfeitamente conscientes; mas devo acrescentar que, infelizmente, os Cristãos parecem não terem se dado conta desse fato”. Por séculos, até a nossa época, o Platonismo foi a filosofia favorita dos sábios Cristãos. Não é nosso propósito aqui explicar o modo como isso aconteceu. Mas essa infeliz confusão (para não dizermos mais) resultou numa confusão posterior no pensamento moderno a respeito da imortalidade e da morte. Podemos utilizar ainda a antiga definição de morte: trata-se da separação da alma em relação ao corpo – yucis cwrismos apo swmatos[18]. Para um Grego, tratava-se de uma libertação, de um “retorno” à esfera nativa dos espíritos. Para um Cristão era uma catástrofe, a frustração da existência humana. A doutrina Grega da Imortalidade jamais poderia resolver o problema Cristão. A única solução adequada havia sido oferecida pela mensagem da Ressurreição de Cristo e pela promessa de uma Ressurreição Geral dos mortos. Se nos voltarmos novamente para a antiguidade Cristã, encontraremos esse ponto claramente estabelecido desde uma data muito recuada. São Justino foi especialmente enfático a esse respeito: “pessoas que dizem não haver ressurreição dos mortos, e que suas almas, após a morte, são levadas ao céu, não são Cristãos de modo algum[19]”. O autor desconhecido do tratado Sobre a Ressurreição (tradicionalmente atribuído a São Justino) coloca o problema com muita precisão: “Pois o que é o homem senão um animal racional, composto de corpo e alma? Será a alma por si só o homem? Não, ela é a alma do homem. Será o corpo por si só o homem? Não, mas ele é chamado de corpo do homem. Se nenhum desses dois são em si o homem, ao contrário, aquilo que é formado por ambos é chamado de homem, e Deus chamou o homem à vida e à ressurreição. Ele chamou, não uma parte, mas o todo, que é composto de corpo e alma[20]”. Atenágoras de Atenas desenvolve o mesmo argumento sem seu admirável tratado Sobre a ressurreição dos mortos. O homem foi criado por Deus com um propósito definido, para a existência perpétua: “Deus concedeu existência e vida, não à natureza da alma em si, nem à natureza do corpo em separado, mas ao homem, composto de corpo e alma, de maneira que, com as mesmas partes com que ele é composto, tendo nascido e vivido, eles possam alcançar, depois do término de sua vida, seu fim comum; a alma e o corpo, compondo no homem uma entidade viva”. Já não haveria um homem, argumenta Atenágoras, se a completude dessa estrutura fosse rompida, pois nesse caso a identidade do indivíduo seria rompida também. A estabilidade do corpo, sua continuidade dentro de sua natureza própria, deve ter seu correspondente na imortalidade da alma. “A entidade que recebe o intelecto e a razão é um homem, e não apenas uma alma. Por conseguinte, o homem deve permanecer para sempre composto de corpo e alma”. De outro modo não haveria um homem, mas apenas partes de um homem. “E isso é impossível, caso não exista a ressurreição. Pois, se não houver ressurreição, a natureza do homem enquanto homem não poderá continuar”. O pressuposto básico dessa argumentação é de que o corpo pertence intrinsecamente à totalidade da existência humana. Assim sendo, o homem, enquanto homem, cessaria de existir, se a alma tivesse que permanecer para sempre “desincorporada”. Isso é exatamente o oposto do que os Platônicos sustentam. Os Gregos sonhavam mais com uma completa e definitiva desencarnação. Receber um corpo era precisamente a maldição da alma. Para os Cristãos, por outro lado, a morte não constituía um fim normal para a existência humana. A morte do homem é considerada anormal, uma falha. A morte do homem é “o salário do pecado[21]”. Trata-se de uma perda e de uma corrupção. E desde a Queda o mistério da vida foi deslocado pelo mistério da morte. Tão misteriosa quanto a “união” da alma com o corpo de fato é, a consciência imediata do homem testemunha a completude orgânica de sua estrutura psico-física. Anima autem et Spiritus pars hominis esse possunt, homo autem nequaquam, disse Santo Irineu[22]. Um corpo sem uma alma é um cadáver, e uma alma sem um corpo é um fantasma. O homem não é um fantasma sem corpo, e um cadáver não é uma parte do homem. O homem não é um “demônio sem corpo”, simplesmente confinado na prisão do corpo. É por isso que a “separação” da alma e do corpo consiste na morte do homem em si, na descontinuidade de sua existência, de sua existência enquanto homem. Consequentemente, a morte e a corrupção do corpo são uma espécie de desvanecimento da “imagem de Deus” no homem. Um homem morto não é plenamente humano. São João Damasceno, em um de seus gloriosos hinos dos Ofícios memoriais, diz o seguinte: “Eu soluço e me lamento, quando contemplo a morte, e vejo nossa beleza, moldada segundo a imagem de Deus, jazer desfigurada num sepulcro, desonrada e desprovida de forma”. São João fala, não do corpo do homem, mas do próprio homem. “Nossa beleza à imagem de Deus”, não consiste no corpo, mas no homem. Ele é de fato uma “imagem da insondável glória de Deus”, ainda que “marcada pelo pecado”. E, na morte, revela-se que o homem, essa “estátua racional” moldada por Deus – para usarmos a frase de São Metódio[23] – não passa de um cadáver. “O homem não passa de ossos secos, mau odor e comida de vermes”. Podemos falar do homem como sendo “uma hipóstase em duas naturezas”, e não apenas de, mas em duas naturezas. E na morte essa hipóstase humana se rompe, e já não existe homem ali. A partir de então, o homem espera pela “redenção de seu corpo[24]”. Conforme diz São Paulo em outra parte, “porque não queremos ser despojados da nossa veste, mas revestir a outra por cima desta, e assim, aquilo que é mortal seja absorvido pela vida[25]”. O aguilhão da morte está precisamente em que ela é “o salário do pecado”, isso é, a consequência de uma relação distorcida com Deus. Não se trata de uma imperfeição natural, nem de um impasse metafísico. A mortalidade do homem reflete o distanciamento do homem em relação a Deus, que é o único Dispensador da Vida. E, nesse distanciamento de Deus, o homem simplesmente não pode “perdurar” como homem, não pode permanecer inteiramente humano. O status da mortalidade é essencialmente “sub-humano”.  Enfatizar a mortalidade do homem não implica oferecer uma interpretação “naturalística” da tragédia humana, mas, ao contrário, significa traçar a condição humana até sua derradeira raiz religiosa. A ênfase da teologia Patrística estava precisamente em seu interesse na mortalidade humana, e, por conseguinte, na mensagem da Ressurreição. A miséria da existência no pecado não era de modo algum subestimada, mas interpretada, não apenas em categorias éticas e morais, mas em categorias teológicas. O fardo do pecado consistia não só em autoacusações da consciência humana, não apenas na consciência da culpa, mas na extrema desintegração do complexo total da natureza humana. O homem decaído já não era um homem, ele se encontrava existencialmente “degradado”. E o sinal dessa “degradação” estava na mortalidade humana, na morte do homem. Ao se separar de Deus, a natureza humana se torna deslocada, como se estivesse fora do tom. A própria estrutura do homem se torna instável. A “união” entre a alma e o corpo se torna insegura. A alma perde sua força vital, já não é capaz de impulsionar o corpo. O corpo se torna um túmulo e uma prisão para a alma. E a morte física se torna inevitável. O corpo e a alma já não estão, podemos dizer, assegurados e ajustados entre si. A transgressão do mandamento Divino “restabeleceu o homem no estado da natureza”, como coloca Santo Atanásio – eis to kata fusin epestreyen. “Tendo sido feito a partir do nada, em sua própria existência ele sofre, no devido tempo, a corrupção de acordo com a justiça total”. Pois, tendo sido feita a partir do nada, a criatura passa a existir sobre um abismo de nada, sempre prestes a cair nele[26]. “Pois é necessário que ele morra, sendo como água derramada sobre a terra, que não pode ser outra vez ajuntada[27]”. O “estado de natureza” de que fala Santo Atanásio, é o movimento cíclico do Cosmo, no qual o homem decaído está enredado sem esperança, e esse enredamento significa a sua degradação. Ele perdeu sua posição privilegiada na ordem da Criação. Mas essa catástrofe metafísica consiste justamente na manifestação de sua relação rompida com Deus.

IV.                “Eu sou a Ressurreição e a Vida”

A Encarnação do Verbo foi uma manifestação absoluta de Deus. E acima de tudo foi uma revelação da Vida. Cristo é o Verbo da Vida – o logos ths zwhs[28]. A Encarnação em si foi, num certo sentido, um reavivamento do homem, como que uma ressurreição da natureza humana. Na Encarnação, a natureza humana não foi simplesmente ungida com um superabundante influxo de Graça, mas foi assumida numa unidade íntima e “hipostática” com a própria Divindade. Nesse reerguimento da natureza humana a uma comunhão perene com a Vida Divina, os Padres da Igreja primitiva viram unanimemente a própria essência da salvação: “É salvo aquilo que está unido a Deus”, disse São Gregório de Nazianze. E o que não estava unido não poderia ser salvo de modo algum[29]. Esse foi o tema central por toda a teologia primitiva – em Santo Irineu, Santo Atanásio, os Capadócios, São Cirilo de Alexandria, São Máximo o Confessor. Entretanto, o clímax da Vida Encarnada foi a Cruz, a morte do Senhor Encarnado. A Vida se revelou plenamente através da morte. Esse é o mistério paradoxal da fé Cristã: a vida por intermédio da morte, a vida desde o sepulcro e a partir dele, o mistério do sepulcro vivificador. E os Cristãos só renascem para a vida real e eterna através de sua morte batismal e de seu sepultamento em Cristo: eles são regenerados com Cristo na fonte batismal[30]. Essa é a lei invariável da verdadeira vida. “Aquilo que você semeia não volta à vida, a não ser que morra[31]”. A salvação se completou no Gólgota, não no Tabor, e a Cruz de Jesus já havia sido mencionada no Tabor[32]. Cristo tinha que morrer, de modo a conceder a vida abundante a toda a humanidade. Não foi pela necessidade do mundo. Foi, podemos dizer, pela necessidade do Amor Divino, uma necessidade de ordem Divina. E nós falhamos em compreender esse mistério. Por que deveria a verdadeira vida ser revelada através da morte do Único que era, Ele próprio, “a Ressurreição e a Vida”? A única resposta é que a Salvação teria que constituir-se numa vitória sobre a morte e a mortalidade do homem. O último inimigo do homem era precisamente a morte. A Redenção não consistia apenas no perdão dos pecados, nem era ela uma reconciliação do homem com Deus. Ela era a libertação do pecado e da morte. “A penitência não liberta do estado da natureza (no qual o home foi mergulhado pelo pecado), ela apenas descontinua o pecado”, diz Santo Atanásio. Pois o homem não apenas pecou, ele “caiu na corrupção”. Porém, a misericórdia de Deus não permitiu que “a criatura, feita racional e participando do Verbo, prosseguisse até a ruína e retornasse à não-existência por causa da corrupção”. Por isso o Verbo de Deus desceu e se tornou homem, assumindo nosso corpo, “para que, tendo o homem se voltado para a corrupção, Ele pudesse reconduzi-lo à incorrupção, e erguê-lo da morte pela apropriação de seu corpo e pela graça da Ressurreição, banindo dele a morte, como quem retira uma palha do fogo[33]. Assim é que, de acordo com Santo Atanásio, o Verbo se tornou carne, a fim de abolir a “corrupção” da natureza humana. Mas a morte foi vencida, não pela aparição da Vida num corpo mortal, mas pela morte voluntária da Vida Encarnada. O Verbo se tornou encarnado com vistas à morte na carne, enfatiza Santo Atanásio. “Foi para aceitar a morte que Ele recebeu um corpo[34]”. Ou, para citarmos Tertuliano, forma moriendi causa nascendi est[35]. A razão definitiva para a morte de Cristo deve ser encontrada na mortalidade do homem. Cristo sofreu a morte, mas passou por ela e superou a mortalidade e a corrupção. Ele reviveu a própria morte. “Ele destruiu a morte com a morte”. A morte de Cristo foi assim, podemos dizer, como que uma extensão de Sua Encarnação. A morte na Cruz foi efetiva, não enquanto morte de um Inocente, mas na medida em que foi a morte do Senhor Encarnado. “Precisávamos de um Deus Encarnado, de um Deus que pudesse ser levado à morte, para que pudéssemos viver”, para usarmos  a  surpreendente   e  ousada  frase  de   São  Gregório  de  Nazianze  –  edehqhmen Qeou
sarkomenou kai nekroumenou[36]. Não foi um homem que morreu na Cruz. Em Cristo não havia uma hipóstase humana. Sua personalidade era Divina, ainda que encarnada. “Pois Aquele que sofreu não era um homem comum, mas Deus feito homem, combatendo a batalha do sofrimento”, diz São Cirilo de Alexandria[37]. Podemos dizer corretamente que Deus morreu na Cruz, mas em Sua própria humanidade (a qual era, contudo, “consubstancial” à nossa). Essa foi a morte voluntária Daquele que era Ele próprio a Vida Eterna. Uma morte humana, de fato, uma morte “conforme e humanidade”, e ainda assim uma morte dentro da hipóstase do Verbo, do Verbo Encarnado. Portanto, uma morte ressuscitadora. “Eu tenho um batismo com o qual serei batizado[38]”. Foi a morte na Cruz, e o derramamento de sangue – “o batismo do martírio e do sangue, com o qual o próprio Cristo foi batizado”, conforme sugeriu São Gregório de Nazianze[39]. A morte na Cruz foi um batismo de sangue, e ela constitui a verdadeira essência do mistério redentor da Cruz. O batismo é uma purificação. E o Batismo na Cruz é como se tivesse sido a purificação da natureza humana, que seguia o caminho da restauração na Hipóstase do Verbo Encarnado. É como se a natureza humana fosse lavada no sangue sacrificial derramado da Cordeiro Divino, e, em primeiro lugar, uma limpeza do corpo: não apenas uma lavagem dos pecados, mas uma limpeza das enfermidades humanas e da própria mortalidade. Tratava-se da purificação com vistas à ressurreição por vir: uma limpeza de toda a natureza humana, de toda a humanidade, na pessoa de seu novo e místico Primogênito, o “Último Adão”. Tal foi o batismo de sangue de toda a Igreja, e, de fato, de todo o mundo. “Uma purificação, não para uma pequena parcela do mundo humano, não por um curto período de tempo, mas para todo o universo e por toda a eternidade”, para citarmos ainda uma vez São Gregório de Nazianze[40]. O Senhor morreu na Cruz. Foi uma morte verdadeira. Porém, não foi uma morte total, como é a nossa, simplesmente porque foi a morte do Verbo Encarnado, uma morte dentro da indivisível Hipóstase da Verbo feito homem, a morte da humanidade “enipostatizada”. Isso não alterou o caráter ontológico da morte, mas mudou seu significado. A “União Hipostática” não foi rompida nem destruída pela morte, e dessa maneira a alma e o corpo, embora separados um do outro, permaneceram unidos através da Divindade do Verbo, do qual nenhum dos dois se afastou. Essa foi a “morte incorrupta”, e desse modo a “corrupção” e a “mortalidade” foram superadas nela, e com isso começou a ressurreição. A própria morte do Encarnado revelou a ressurreição da natureza humana[41]. “Hoje celebramos a festa, porque nosso Senhor foi pregado na Cruz”, na sentença incisiva de São João Crisóstomo[42]. A morte na Cruz é uma vitória sobre a morte, e não apenas por ter sido seguida da Ressurreição. Ela foi em si uma vitória. A Ressurreição apenas revelou e estabeleceu a vitória conquistada na Cruz. Ela já se realizara com a dormição do Deus-homem. “Tu morreste e me reviveste”. Como coloca São Gregório de Nazianze: “Ele deixou Sua vida, mas tinha o poder de tomá-la de volta; e o véu se rasgou, pois as misteriosas portas dos Céus se abriram; as pedras se romperam, os mortos despertaram (...) Ele morreu, mas deu a vida, e com Sua morte destruiu a morte. Ele foi sepultado, mas voltou a viver. Ele desceu ao Hades, mas de lá trouxe as almas[43]”. Esse mistério da Cruz ressuscitadora é comemorado especialmente no Sábado Santo. Esse é o dia da descida ao Hades. E a descida ao Hades é, desde logo, a Ressurreição dos mortos. Pelo simples fato de Sua morte, Cristo se fez acompanhar pelos que partiram. Essa foi uma nova extensão da Encarnação. O Hades não passa da escuridão e da sombra da morte, mais o lugar de uma angústia mortal do que o lugar de tormentos penais, um “sheol” escuro, um lugar de desencarnação e descorporificação desesperançadas, iluminado fracamente pelos raios oblíquos de um Sol não nascido, pelas esperanças e a expectativas não cumpridas. É como se fosse uma espécie de enfermidade ontológica da alma, a qual, na separação da morte, perdeu a faculdade de ser a verdadeira enteléquia[44] de seu próprio corpo – a desesperança de uma natureza decaída e ferida. Não se trata de um “lugar”, mas de um estado espiritual: “os espíritos aprisionados[45]”. Foi a essa prisão, a esse “Inferno” que Cristo o Salvador desceu. Em meio à escuridão da pálida morte brilhou a luz inesgotável da Vida, da Vida Divina. A “descida ao Inferno” constituiu a manifestação da Vida no meio da desesperança da dissolução mortal, a vitória sobre a morte. “Não foi por causa de qualquer fraqueza natural do Verbo que o habitava, que morreu o corpo, mas para que, por meio dele, pudesse a morte ser derrotada pelo poder do Salvador”, diz Santo Atanásio[46]. O Sábado Santo é mais do que a véspera da Páscoa. Ele é o “Sabbath bendito”, “Sanctum Sabbatum” – requies Sabbati magni, nas palavras de Santo Ambrósio. “Esse é o Sábado bendito, o dia do repouso, quando o Filho Unigênito de Deus descansou de todos os seus feitos[47]”. “Eu sou o primeiro e o último, Eu sou o que Vive, e estava morto; mas vede, Eu estou vivo para todo o sempre. Amém. E eu tenho as chaves da morte e do Hades[48]”. A esperança Cristã na imortalidade está enraizada e assegurada nessa vitória de Cristo, e não em algum tipo de doação “natural”. E isso significa também que essa esperança está baseada num evento histórico, isso é, na auto-revelação histórica de Deus, e não numa disposição estática ou constitutiva da natureza humana.


V.                  O Último Adão

A realidade da morte não foi propriamente abolida, mas revelou-se sua impotência. “É verdade que ainda morremos – diz São Joao Crisóstomo – mas já não permanecemos na morte, e isso não é morrer (...) o poder e a própria realidade da morte consiste apenas nisso, em quem um homem morto não tem a possibilidade de voltar à vida; mas se, após a morte, ele for reavivado e, mais do que isso, receber uma vida melhor, então ele não terá morrido, mas simplesmente adormecido[49]”. Ora, na frase de Santo Atanásio, “tal como uma semente lançada à terra, não perecemos ao morrer, mas, tendo sido semeados, renascemos[50]”. Isso constitui a cura e a renovação da “natureza” humana, e por isso todos irão renascer, todos serão reavivados e restaurados na plenitude de sua existência natural, agora transformada. Doravante, toda desincorporação será temporária. O escuro vale do Hades foi abolido pelo poder da vivificadora Cruz. A potencialidade inerente da morte pela desobediência foi revelada e efetivada no primeiro Adão. No segundo Adão, a potencialidade da imortalidade, pela pureza e a obediência, foi sublimada e realizada na impossibilidade da morte. Esse paralelo já havia sido estabelecido por Santo Irineu. Sem a esperança na Ressurreição Geral, a crença em Cristo seria vã e sem propósito. “Mas agora Cristo levantou-se da morte e se tornou as primícias de todos os que estão adormecidos[51]”. A Ressurreição de Cristo é um novo começo. Trata-se de uma “nova criação” – h kainh ktiisis. Podemos mesmo dizer que é um começo escatológico, um passo definitivo na história da Salvação. Mas ainda temos que fazer uma clara distinção entre a cura da natureza e a cura da vontade. A “natureza” é curada e restaurada de certo modo compulsoriamente, pelo poder do Deus onipotente e por sua invencível graça. A totalidade dessa cura é como que “forçada” à natureza humana. Pois em Cristo toda a natureza humana (a “semente de Adão”) é plena e completamente curada de sua incompletude e mortalidade. Essa restauração será efetivada e revelada em toda sua extensão no devido tempo, na Ressurreição Geral, na ressurreição de todos, tanto dos justos como dos ímpios. E ninguém, até onde chega a natureza, pode escapar desse mandamento real de Cristo, ou escusar-se ao invencível poder da ressurreição. Mas a vontade do homem não pode ser curada da mesma maneira incoercível. A vontade do homem deve volta-se para Deus por si mesma. Deve haver uma resposta de amor e de adoração, livre e espontânea, uma “conversão livre”. A vontade do homem só pode ser curada no contexto do “mistério da liberdade”. Somente por meio desse esforço livre pode o homem entrar nessa nova e eterna vida que é revelada em Cristo Jesus. Uma regeneração espiritual só pode ser forjada em perfeita liberdade, numa obediência de amor, por uma autoconsagração e uma autodedicação a Deus, em Cristo. Essa distinção foi estabelecida com grande insistência por Nicholas Cabasilas em seu memorável tratado A Vida em Cristo: a Ressurreição é a “retificação da natureza” – h anastasis jusews estin epanorqwsis – e isso é concedido gratuitamente por Deus. Mas o Reino dos Céus, a visão beatífica e a união com Cristo, pressupõem do desejo – trojh estin ths qelhsews – e, dessa forma, só estão disponíveis para aqueles que esperaram, amaram e desejaram essas coisas. A imortalidade será concedida a todos, assim como todos podem desfrutar da Divina providência. Não depende de nossa vontade se vamos ou não renascer após a morte, assim como não dependeu de nós o termos nascido. A morte e a ressurreição de Cristo trouxeram imortalidade e incorrupção para todos igualmente, porque todos possuímos a mesma natureza que o Homem Cristo Jesus. Mas ninguém pode ser obrigado a desejar. Assim, a Ressurreição e um dom comum concedido a todos, mas a beatitude será dada a apenas alguns[52]. Novamente: o caminho da vida é o caminho da renúncia, da mortificação, do auto-sacrifício e da auto-oblação. É preciso morrer para si, para viver em Cristo. Cada um deve, livre e pessoalmente, associar-se a Cristo, o Senhor, o Salvador e o Redentor, na confissão da fé, na escolha do amor, num voto místico de entrega e dedicação. Quem não morre com Cristo não pode com Ele. “A menos que, por nossa livre escolha, aceitemos morrer em Sua paixão, Sua vida não virá a nós[53]”. Não se trata de uma mera regra ascética ou moral, de uma simples disciplina. Essa é a lei ontológica da existência espiritual, é a lei da própria vida. Pois apenas em comunhão com Deus e através da vida em Cristo pode a restauração da totalidade humana ter significado. Para os que vivem na escuridão total, que deliberadamente se confinaram “fora de Deus”, a própria Ressurreição pode parecer mais como desnecessária e sem motivação. Mas ela virá, como “ressurreição do julgamento[54]”. E nela se completará a tragédia da liberdade humana. Aqui ainda estamos no limiar do inconcebível e do incompreensível. A apokatastasis da natureza não abole a vontade livre, e a vontade deve ser movida desde dentro pelo amor. São Gregório de Nissa tinha um claro entendimento a esse respeito. Ele anteviu uma espécie de conversão universal das almas após a morte, quando a Verdade de Deus se revelar e se manifestar com evidência definitiva e convincente, quase obrigatória. É nesse ponto que que as limitações do pensamento Grego ficam óbvias. Para este, a evidência aparecia como a razão decisiva, ou o motivo da vontade, como se o “pecado” não passasse de uma “ignorância”. O pensamento Helenístico teve que passar por sua longa e difícil experiência de ascetismo, de autoexame e autocontrole ascéticos, para poder se libertar desse intelectualismo naïve e ilusório, e descobrir o abismo escuro da alma decaída. Apenas em São Máximo, depois de alguns séculos de preparação ascética, poderemos encontrar uma nova, mais profunda e remodelada interpretação da apokatastasis. São Máximo não acreditava na conversão inevitável das almas obstinadas. Ele supunha uma apokatastasis da natureza, isso é, uma restituição de todos os seres a uma integridade de natureza, uma manifestação universal da Vida Divina, que será evidente para todos. Mas aqueles que deliberadamente desperdiçaram suas vidas na terra em desejos carnais, “contra a natureza”, serão incapazes de desfrutar dessa bênção eterna. O Verbo é a Luz que ilumina as mentes naturais dos fiéis, mas, como o fogo ardente do julgamento, th kausei ths krisews, Ele pune aqueles que, através de suas vidas na carne, penderam para a escuridão noturna dessa vida. A distinção se dá entre epignwsis e meqexsis[55]. “Conhecer” não é o mesmo q eu “participar”. Deus estará realmente em todos, mas estará presente apenas nos Santos, “com graça” (dia thncarin); nos que forem reprovados, Ele estará presente “sem graça” (para thn carin). E os ímpios ficarão separados de Deus por causa de sua falta de uma resoluta opção pelo bem. Estamos aqui diante da mesma dualidade entre natureza e vontade. Na ressurreição toda a criação será restaurada, isso é, será levada à perfeição e à estabilidade definitiva. Mas o pecado e o mal estão enraizados na vontade. O pensamento Helenístico concluiu daí que o mal é instável e que, por causa disso, ele deverá inevitavelmente desaparecer. Pois nada pode ser perpétuo, a menos que esteja enraizado num decreto Divino. A inferência Cristã é exatamente o oposto. Existe uma inércia e uma obstinação da vontade, e essa obstinação permanecera sem cura mesmo na “Restauração universal”. Deus jamais violenta o homem, e a comunhão com Deus não pode ser forçada aos obstinados. Na frase de São Máximo, “o Espírito não produz uma resolução indesejada, mas transforma um propósito escolhido em theosis[56]”. Vivemos num mundo transformado: ele foi transformado pela Ressurreição redentora de Cristo. A vida foi dada, e ela deve prevalecer. O Senhor Encarnado é verdadeiramente o Segundo Adão e Nele toda a nova humanidade será inaugurada. Não apenas está assegurada uma “sobrevivência” definitiva, como também a realização total do propósito criador de Deus. O homem foi criado “imortal”. Ele não pode cometer um “suicídio metafísico” último e lançar a si mesmo para fora da existência. Mesmo a vitória de Cristo não forçou a “Vida Eterna” às existências “fechadas”. Pois, como disse Santo Agostinho, para a criatura, “existir não é o mesmo que viver[57]”.


VI.                “E Vida Eterna”


Existe uma tensão inevitável entre as concepções Cristãs a respeito do que “é dado” e do que “é esperado”. Os Cristãos esperam “pela Vida no mundo que virá”, mas eles não estão menos conscientes da Vida que já veio: “pois a Vida se manifestou, e nós a vimos, e disso damos testemunho, e lhes mostramos a Vida eterna, que está com o Pai e se manifestou a nós[58]”. Isso não constitui apenas uma tensão no tempo – entre o passado, o presente e o futuro. Trata-se de uma tensão entre destino e decisão. Talvez se possa dizer: a Vida eterna foi oferecida ao homem, mas ele precisa recebê-la. Para o indivíduo, a realização do “destino” depende de uma “decisão da fé”, que não é uma “conscientização” apenas, mas uma “participação” desejada. A vida Cristã se inicia com um novo nascimento, pela água e pelo Espírito. E, em primeiro lugar, é preciso um “arrependimento” – h metanoia - uma mudança interior, íntima e resoluta. O simbolismo do Santo Batismo é complexo e multifacetado. Mas acima de tudo ele é um simbolismo de morte e ressurreição, da morte e ressurreição de Cristo[59]. Trata-se de uma ressureição sacramental com Cristo, pela participação em Sua morte, um reerguimento com Ele e Nele para uma nova e eterna Vida[60]. Os Cristãos ressuscitam junto com Cristo precisamente por meio do sepultamento: “se morremos com Ele, com Ele viveremos[61]”. Cristo é o Segundo Adão, mas os homens devem renascer e serem incorporados a Ele, para poderem participar dessa nova Vida que é Ele. São Paulo fala de uma “semelhança” na morte de Cristo[62] - sumjutoi (...) tw omoiwmati tou qanatou autou. mas essa "semelhança" vai além de uma parecença. Ela é mais do que um simples sinal ou uma lembrança. O sentido dessa semelhança, para o próprio São Paulo, está em que, em cada um de nós, Cristo pode e deve ser “formado[63]”. Cristo é a Cabeça, todos os fiéis são Seus membros, e Sua vida se atualiza neles. Esse é o mistério do Cristo Total – totus Christus, Caput et Corpus. Todos somos chamados, e cada qual é capaz de crer, e de ser reavivado pela fé e o batismo, para viver com Ele. O Batismo é, assim, uma “regeneração”, uma anagennhsis, um nascimento novo, espiritual e carismático. Conforme diz Cabasilas, o Batismo é a causa da vida beatífica em Cristo, não meramente da vida[64]. São Cirilo de Jerusalém explica de maneira lúcida a verdadeira realidade de todo o simbolismo batismal. É verdade, diz ele, que na fonte batismal morremos (e somos sepultados) apenas “por imitação”, apenas, digamos, “simbolicamente” – dia sumbolou – e não renascemos de um sepulcro real. Porém, “se a imitação está numa imagem, a salvação é bem real”. Pois Cristo foi de fato crucificado e sepultado, e realmente levantou-se do túmulo. A palavra Grega é ontws. ela é mais forte do que simplesmente alhqws, “verdadeiramente”. Ela enfatiza o significado último da morte e da ressurreição de Cristo. Ela foi uma nova conquista. A partir dela Ele nos deu a chance, na participação “imitativa” de Sua Paixão – th mimhsei (...) koinwnhsantes – para adquirimos a salvação “realmente”. Não se trata apenas de uma “imitação”, mas de uma “similitude” – to onoiwma. “Cristo foi realmente crucificado e sepultado, mas a você é concedido ser crucificado, sepultado e ressuscitar com Ele em similitude”. Em outras palavras, no batismo o homem desce “sacramentalmente” às trevas da morte, mas ele renasce outra vez com o Senhor renascido e passa da morte para a vida. “E a imagem se completa em você, pois é você a imagem de Cristo”, conclui São Cirilo. Em outras palavras, somos postos juntos por Cristo e em Cristo; daí advém a possibilidade real de uma “semelhança” sacramental[65]. São Gregório de Nissa se ocupa desse mesmo ponto. Existem dois aspectos no batismo. O batismo é um nascimento e uma morte. O nascimento natural é o começo da existência mortal, que começa e termina em corrupção. O outro, o novo nascimento, precisa ser descoberto, e ele irá iniciar para a vida eterna. No batismo “a presença do poder Divino transforma aquilo que nasceu com uma natureza corruptível, num estado de incorrupção[66]”. Ela é transformada ao seguir e imitar; e assim, aquilo que havia sido prefigurado pelo Senhor é agora realizado. Apenas seguindo a Cristo é possível passar através do labirinto da vida e sair dele. “Pois ao inescapável guarda da morte, que mantém prisioneira a humanidade entristecida, eu chamo de labirinto”. Cristo escapou daí após três dias morto. Na fonte batismal, “se cumpre a imitação de tudo o que Ele fez”. A morte é “representada” pelo elemento água. E, assim como Cristo renasceu da morte, também o recém batizado, unido a Ele segundo a natureza corporal, “imita a ressurreição ao terceiro dia”. Trata-se apenas de uma “imitação” – mimhysis – não de uma “identidade”. No batismo o home não renasce verdadeiramente, mas ele se livra do mal natural e da inescapabilidade da morte. Nele é cortada a “continuidade do vício”. Ele não ressuscita, porque não morreu, mas ainda permanece nessa vida. O batismo apenas prefigura a ressurreição; no batismo se antecipa a graça da ressurreição final. O batismo é o início, arch, e a ressurreição é o final e a consumação, peras; e tudo o que acontecerá na grande Ressurreição tem já seu início e causa no batismo. Podemos dizer que o batismo é uma “ressurreição homiomática[67]”. Devemos ressaltar que São Gregório enfatizava especialmente a necessidade de conservar e de se agarrar à graça batismal. Pois no batismo não é apenas a natureza, mas também a vontade, que é transformada e transfigurada, tornando-se livre a longo do processo. E se a alma não foi lavada e purificada pelo livre exercício da vontade, o batismo se mostra infrutífero. A transfiguração não é realizada, a nova vida não se consuma. Isso não subordina a graça batismal à licença humana; a graça de fato desce. Mas ela não pode ser forçada a alguém que é livre e feito à imagem de Deus; ela deve ser correspondida e corroborada pela sinergia entre amor e vontade. A graça não reaviva nem faz brilhar as almas fechadas e obstinadas, aquelas almas “verdadeiramente mortas”. É preciso que haja resposta e cooperação. Isso acontece porque o batismo é a morte sacramental com Cristo, uma participação em Sua morte voluntária, em seu amor sacrificial; e isso só pode se cumprir em liberdade. Assim, no bat8ismo a morte de Cristo na Cruz se reflete como se fosse uma imagem viva e sacramental. O batismo é, em primeiro lugar, uma morte e um nascimento, um sepultamento e um “banho de regeneração”, “um tempo de morte e um tempo de nascimento[68]”, para citarmos São Cirilo de Jerusalém. O mesmo é verdade para todos os sacramentos. Todos os sacramentos foram instituídos para permitir aos fiéis “participarem” da morte redentora de Cristo, para assim ganhar a graça de Sua ressurreição. Nos sacramentos, o caráter único e universal da vitória e do sacrifício de Cristo são apresentados e enfatizados. Essa era a ideia central de Nicolas Cabasilas em seu tratado A Vida em Cristo, no qual se encontra sintetizada admiravelmente toda a doutrina sacramental da Igreja do Oriente. “Somos batizados exatamente para que morramos com Sua morte e renasçamos com Sua ressurreição. Somos ungidos com o crisma para que possamos partilhar de Sua unção real de deificação (theosis). E quando somos alimentados com o santíssimo Pão e quando bebemos do Divino Cálice, partilhamos da mesma carne e do mesmo sangue que o Senhor assumiu, e assim nos unimos a Ele, que se encarnou por nós, morreu e ressuscitou (...) O Batismo é um nascimento, e o Crisma é a causa de atos e movimentos, e o Pão da vida e o Cálice de ação de graças são o verdadeiro alimento e a verdadeira bebida[69]”. Em toda a vida sacramental da Igreja a Cruz e a Ressurreição são “imitadas” e refletidas em múltiplos símbolos. todo esse simbolismo é realista. Os símbolos não apenas nos lembram algo no passado, algo que aconteceu. O que teve lugar “no passado” foi o começo daquilo que “dura Eternamente”. Sob todos esses “símbolos” sagrados, e neles próprios, a Realidade derradeira está de fato revelada e expressa. Esse simbolismo hierático culmina no augusto Mistério do Santo Altar. A Eucaristia é o coração da Igreja, o Sacramento da Redenção em sentido eminente. É mais do que uma “imitação”, do que uma “comemoração” simplesmente. Trata-se da própria Realidade, até então velada, e que é rebelada no Sacramento, como diz Cabasilas, “e não é possível ir além, nem nada existe que possa ser acrescentado”. Esse é o “limite da vida” – zwhs to peras. “Depois da Eucaristia não existe mais nada a se esperar, mas temos que permanecer aqui e aprender como podemos preservar esse tesouro até o fim[70]”. A Eucaristia é a própria Última Ceia, reapresentada por assim dizer uma e outra vez, embora jamais repetida. Pois cada nova celebração não apenas “reapresenta”, mas em verdade constitui a mesma “Ceia Mística” que foi celebrada pela primeira vez (e para sempre) pelo próprio Divino Altíssimo Sacerdote, como uma antecipação e uma iniciação voluntárias ao Sacrifício sobre a Cruz. E o verdadeiro Celebrante de cada Eucaristia é sempre o próprio Cristo. São João Crisóstomo é bastante enfático a esse respeito: “Acreditem, portanto, que ainda agora é aquela mesma Ceia, na qual Ele próprio estava sentado. Pois esta, sob todos os aspectos, não é diferente daquela[71]”. “Aquele mesmo que operou essas coisas naquela Ceia, é o mesmo que as opera agora. Estamos apenas presentes dentre seus ministros. Aquele que as santifica e transmuta é o Mesmo. Essa mesa é a mesma que aquela, e nada lhe falta. Pois não é que Cristo operou então, e agora opera o homem, mas é Ele quem opera em ambas as ocasiões. Essa é a mesma Câmara Alta aonde estavam todos então[72]”. Tudo isso é de uma importância básica. A Última Ceia foi a oferta do sacrifício, do sacrifício da Cruz. A oferenda continua ainda, cristo ainda age como o Alto Sacerdote nessa Sua Igreja. O Mistério é o mesmo, o Sacerdote é o mesmo, a Mesa é a mesma. Para citarmos Cabasilas mais uma vez: “Ao oferecer e sacrificar a Si mesmo de uma vez por todas, Ele não encerrou Seu Sacerdócio, mas exerceu Seu ministério por nós, no qual Ele é nosso advogado perante Deus eternamente[73]”. E o poder ressuscitador e o significado da morte de Cristo estão plenamente manifestados na Eucaristia. Trata-se da “medicina da imortalidade e de um antídoto, para que possamos não morrer, mas viver para sempre em Jesus Cristo”, para citarmos a famosa frase de Santo Inácio[74]. É o “Pão celestial e o Cálice da vida”. Esse Sacramento tremendo é para o fiel a verdadeira “Núpcia da Vida Eterna”, exatamente porque a morte de Cristo foi em si a Vitória e a Ressurreição. Na Eucaristia o começo e o fim estão amarrados: as memórias do Evangelho e as profecias da Revelação. Trata-se de um sacramentum juturi porque constitui uma anamnese da Cruz. A Eucaristia é uma antecipação sacramental, uma prefiguração da Ressurreição, uma “imagem da Ressurreição” – o tupos ths
amnasyasews, conforme a prece de consagração de São Basílio. Ela ainda não passa de uma “imagem”, não porque seja um mero signo, mas porque a história da Salvação continua, e é preciso olhar para a frente “para ver a vida do século futuro”.


VII.              Conclusão

Os Cristãos, enquanto Cristãos, não estão obrigados a nenhuma doutrina filosófica sobre a imortalidade. Mas eles são compelidos a acreditar na Ressurreição Geral. O homem é uma criatura. Sua própria existência é uma dádiva de Deus. Sua existência é contingente. Ele existe pela graça de Deus. Mas Deus criou o homem para a existência, isso é, para um destino eterno. Esse destino pode ser adquirido e consumado apenas em comunhão com Deus. O rompimento dessa comunhão frustra a existência humana, mas mesmo assim o homem não deixa de existir. A morte e a mortalidade do homem são sinais de uma comunhão rompida, o sinal do isolamento do homem, de seu distanciamento da fonte e da meta de sua existência. Mas, mesmo assim, o fiat criador continua a operar. A comunhão é restaurada na Encarnação. A vida se manifesta outra vez na sombra da morte. O Encarnado é Vida e Ressurreição. O Encarnado é o Conquistador da morte e do Hades. E Ele constitui as primícias da Nova Criação, as primícias para todos os que estão adormecidos. A morte física do homem não é apenas um “fenômeno natural” irrelevante, mas um sinal fatídico da tragédia original. Uma “imortalidade” de “almas” desincorporadas não resolve o problema humano. Uma “imortalidade” num mundo sem Deus, uma “imortalidade” sem Deus ou “fora de Deus”, equivaleria à danação eterna. Os Cristãos, enquanto Cristãos, aspiram a algo maior do que uma imortalidade “natural”. Eles aspiram a uma comunhão eterna com Deus, ou, para usarmos a ousada expressão dos primeiros Padres, a uma theosis. Não existe nada de “naturalista” ou de panteísta a respeito do termo. Theosis significa nada mais do que uma comunhão íntima das pessoas humanas com o Deus vivo. Estar com Deus significa habitar Nele e partilhar de Sua perfeição. “Assim o Filho de Deus se tornou o filho do homem, para que o homem possa se tornar filho de Deus[75]”. Nele, o homem está para sempre unido a Deus. Nele temos a Vida Eterna. “E nós que, com a face descoberta, refletimos como num espelho a glória do Senhor, somos transfigurados nessa mesma imagem, cada vez mais resplandecente pela ação do Senhor, que é Espírito[76]”. E ao final, para toda a criação, o “Sábado Santo”, o verdadeiro “Dia do descanso”, o misterioso “Sétimo dia da criação” será inaugurado, na Ressurreição Geral e no “Mundo que há de vir”.



[1] I Timóteo 6: 16.
[2] Latitudinarianismo é a doutrina esposada por teólogos, estudiosos e clérigos ingleses da Universidade de Cambridge que também eram anglicanos moderados. Em particular, eles acreditavam que aderir a doutrinas muito específicas, liturgias muito determinadas e formas organizacionais rígidas, como faziam os puritanos era desnecessário e poderia ser até prejudicial: "a sensação de se ter instruções especiais de Deus faz os indivíduos menos acessíveis à moderação e à transigência, ou à própria razão". Assim, os latitudinários apoiavam um protestantismo de amplas bases.
[3] Aqanatos esti kai agennhtos dhladh.
[4] Ab oleo: expressão figurada que indica algo que foi criado a partir de algum trabalho. Ou seja, “o mundo é, acima de tudo e inteiramente, ab oleo (vale dizer, criado), e em nenhum sentido um se (ou seja, ele não existe por si).
[5] Ad Autolycum II, 24, 27.
[6] Oratio ad Graecos, 13.
[7] Adversus haereses II, 34.
[8] Adversus Gentes, 33, 41: fusin reusthn ousan kai dialuomenhn.
[9] Epist. VFF ad Hieronymun.
[10] In Jo. Tr. 23, 9; cf. De Trinitate, I.9.15, e De Civ. Dei, 19.3: mortalis in quantum mutabilis.
[11] De fide Orth., ii, 3: ou yusei allacariti.
[12] Dial. c. Manich., 21.
[13] Mansi, XI, 490-492; Aligne, LXXXVII, 3, 3181.
[14] “Ele criou tudo para a existência...” (Sabedoria 1: 14.
[15] I Coríntios 15: 26.
[16] João 1: 14.
[17] Porfírio, Vida de Plotino, I.
[18] Nemésio, De natura hominis, 2.
[19] Diálogos, 80.
[20] Sobre a Ressurreição, 8.
[21] Romanos 6: 23.
[22] Adv. Haereses, V, 6.1.
[23] De ressurrectione I, 34: 4 – to agalma to logikon.
[24] Romanos 8: 23 – thn apolutrwsin tou swmatos hmwn.
[25] II Coríntios 5: 4.
[26] De incarnatione, 4 e 5.
[27] II Samuel 14: 14.
[28] I João 1: 1.
[29] Epist. 101 ad Cledonium.
[30] Cf. Romanos 6: 3-5.
[31] I Coríntios 15: 36.
[32] Cf. Lucas 9: 31.
[33] De Incarnatione, 6-8.
[34] Ibid., 44.
[35] De carne Christi, 6.
[36] Orat. 45, in S. Pascha, 28.
[37] Catech. 13, 6.
[38] Lucas 12: 50.
[39] Orat. 37, 17.
[40] Orat. 45, 13.
[41] São João Damasceno, De fide Orth., 3: 37; cf. Homil. in Magn. Sabbat., 29.
[42] In crucem et latronem, hom. 1.
[43] Orat. 41.
[44] Enteléquia: realização plena e completa de uma tendência, potencialidade ou finalidade natural, com a conclusão de um processo transformativo até então em curso em qualquer um dos seres animados e inanimados do universo.
[45] I Pedro 3: 19.
[46] De inc., 26.
[47] Hino, Vésperas do Domingo de Páscoa, rito Oriental.
[48] Apocalipse 1: 17-18.
[49] In Hebr., hom. 17, 2 – ou qanatos touto estin, ala koihsis.
[50] De Inc., 21.
[51] I Coríntios 15: 20.
[52] De Vita in Christo II, 86-96.
[53] Santo Inácio, Magnes, 5.
[54] João 5: 29 – anastasis ths kpisews.
[55] Conhecimento e participação.
[56] Quaest. Ad Thalass., 6.
[57] De Genest ad litt., I, 5.
[58] I João 1: 2.
[59] Romanos 6: 3-4.
[60] Colossenses 2: 12; Filipenses 3: 10.
[61] II Timóteo 2: 11.
[62] Romanos 6: 5 – “Se permanecermos completamente unidos a Cristo com morte semelhante à dele, também permaneceremos com ressurreição semelhante à dele”.
[63] Gálatas 4: 19.
[64] De vita in Christo II, 95.
[65] Mystag. 2: 4-5, 7; 3: 1.
[66] Orat. Cat., 33.
[67] Orat. Cat., 35.
[68] Mystag. II, 4 – loutron ths paliggenesias.
[69] De vita II, 3, 4, 6, etc.
[70] De vita IV, i, 4, 15.
[71] In Matt., hom, 50, 3.
[72] Ibid., hom. 82, 5.
[73] Expla. Div. Liturg., c. 23.
[74] Jarnakon aqanasias, antidwtos tou mh apoqanein, allaszhn em Ihsou Cristw. Efésios 20: 2.
[75] Santo Irineu, Adv. Haeres., III, 10.2.
[76] II Coríntios 3: 18.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Georges Florovsky - Criação e Redenção - X. Os Santos Ícones






O primeiro domingo da Quaresma é o Domingo da Ortodoxia. Ele foi estabelecido como um dia especial de rememoração do Concílio de Constantinopla em 843. Acima de tudo, ele comemora a vitória da Igreja sobre a heresia dos iconoclastas. O uso e a veneração dos Santos Ícones foram restaurados. Nesse dia cantamos até hoje o Tropário da Santa Imagem de Cristo: “Diante de Teu venerável ícone prostramo-nos...”.

À primeira vista, parece ser uma ocasião inapropriada para comemorar a glória da Igreja e todos os heróis e mártires da Fé Ortodoxa. Não seria mais razoável fazê-lo nos dias dedicados à memória dos grandes Concílios Ecumênicos, ou aos Padres da Igreja? Não será a veneração dos Ícones senão uma peça de um ritual exterior e cerimonial? Não será a pintura de Ícones apenas uma decoração, bonita sem dúvida, e instrutiva de muitas maneiras, mas dificilmente um artigo de Fé? Essa é a opinião comum, infelizmente muito difundida, mesmo entre os próprios Ortodoxos. E ela é responsável por sensível decadência da arte religiosa. Normalmente, confundem-se os Ícones com “pintura religiosa”, e assim não há dificuldades em utilizar as figuras mais inadequadas como Ícones, mesmo em nossas igrejas. Esquecemos do verdadeiro papel e do propósito último dos Ícones.

Vejamos o testemunho de São João Damasceno – um dos primeiros e maiores defensores dos Santos Ícones durante o período do Iconoclasmo – grande teólogo e poeta devocional de nossa Igreja. Em um de seus sermões em defesa dos Ícones, ele disse: “Eu vi a imagem humana de Deus, e minha alma se salvou”. Trata-se de uma colocação forte e comovente. Deus é invisível, Ele habita na luz inacessível. Como pode um frágil homem contemplá-Lo? Mas Deus manifestou-se na carne. O Filho de Deus, que está no seio do Pai, “desceu dos céus” e “se fez homem”. Ele habitou entre os homens. Esse foi o maior movimento do Amor Divino. O Pai Celestial comoveu-se com a miséria do homem e enviou Seu Filho, porque Ele amou o mundo. “Nenhum homem jamais viu a Deus; apenas o Filho Único, que está no seio do Pai, o revelou a nós[1]”. O Ícone de Cristo, Deus Encarnado, constitui um testemunho permanente da Igreja relativo ao mistério da Santa Encarnação, que é a base e a substância de nossa fé e de nossa esperança. Jesus Cristo, nosso Senhor, é o Deus Encarnado. Isso implica que desde a Encarnação, Deus é visível. Podemos agora ter uma verdadeira imagem de Deus.

A Encarnação constitui uma identificação íntima e pessoal de Deus para com o homem, para com as necessidades e a miséria do homem. O Filho de Deus “se fez homem”, conforme é declarado no Credo, “por nós e por nossa salvação”. Ele tomou sobre Si os pecados do mundo, e morreu por nós, pecadores, sobre o madeiro da Cruz, e desse modo Ele transformou a Cruz na nova árvores da vida para os fiéis. Ele se tornou o novo e Último Adão, a Cabeça de uma nova e renovada Humanidade. A Encarnação representou uma intervenção pessoal de Deus na vida do homem, uma intervenção de Amor e Misericórdia. O Santo Ícone de Cristo é um símbolo disso, mas vai além de um mero símbolo ou signo. Ele é também um sinal eficiente e uma prova da presença de Cristo na Igreja, que é Seu Corpo. Mesmo num retrato comum, sempre existe algo da pessoa representada. Um retrato não apenas nos lembra a pessoa, como, de certo modo, carrega em si alguma coisa dela, isso é, representa a pessoa, ou seja, “torna a pessoa presente”. Isso é ainda mais verdadeiro quando se trata da sagrada Imagem de Cristo. Como nos ensinaram os professores da Igreja – em especial São Teodoro Estudita, outro grande confessor e defensor dos Ícones – um Ícone, de certa forma, pertence à própria personalidade de Cristo. O Senhor está ali, em suas “Santas Imagens”.

Por isso, não é a todos que é permitido realizar ou pintar um Ícone, se é que deverá ser um verdadeiro Ícone. O iconógrafo deve ser um fiel membro da Igreja, e deve se preparar para essa tarefa sagrada por meio de jejuns e orações. Não se trata apenas de uma questão de arte, ou de habilidades artística ou técnica. Trata-se de um testemunho, de uma profissão de fé. Pela mesma razão, a arte em si deve ser subordinada em sua materialidade à regra da fé. Existem limites para a imaginação artística. Existem determinados padrões estabelecidos que devem ser seguidos. Em qualquer caso, o Ícone de Cristo deve ser executado de modo a se encaixar na verdadeira concepção de Sua pessoa, isto é, deve testemunhar Sua Divindade, ainda que Encarnada. Todas essas regras foram estritamente conservadas pela Igreja por séculos, até um momento em que foram esquecidas. Mesmo pessoas sem fé foram autorizadas a pintar ícones de Cristo nas igrejas, de tal maneira que alguns desses “ícones” modernos não passam de pinturas mostrando um homem qualquer. Essas pinturas falham em ser “Ícones” no sentido próprio e verdadeiro, e deixam de ser testemunhos da Encarnação. Em casos como esses, não se faz mais do que “decorar” nossas igrejas.

A utilização dos Santos Ícones foi sempre um dos caracteres distintivos da Igreja Ortodoxa do Oriente. O Ocidente Cristão, mesmo antes do Cisma, tinha pouco entendimento a respeito da essência dogmática e devocional da pintura de Ícones. No Ocidente eles nunca passaram de decoração. E foi sob a influência do Ocidente que a pintura de Ícones se deteriorou no Oriente Ortodoxo nos tempos modernos. A decadência da pintura de Ícones foi um sintoma do enfraquecimento da fé. A arte dos Santos Ícones não é uma questão neutra. Ela pertence à fé.

Não pode haver acaso, nem “improvisação” na pintura de nossas igrejas. Cristo jamais está sozinho, conforme o argumento de São João Damasceno. Ele está sempre com Seus santos, que são Seus amigos por todo o sempre. Cristo é a Cabeça, e os verdadeiros fiéis são Seu Corpo. Nas igrejas antigas, toda a Igreja Triunfante tinha que ser representada sobre as paredes. Repetimos, não se tratava de decoração, nem de uma mera história contada em cores e linhas para os ignorantes e os iletrados. Antes, tratava-se de uma visão da realidade invisível da Igreja. Todo o mundo celestial estava representado sobre as paredes, porque ele estava presente ali, embora invisivelmente. Nós sempre rezamos a Deus na Divina Liturgia, durante a Pequena Entrada, que “conceda que, juntamente com a nossa entrada, se realize também a dos (Teus) santos Anjos que conosco concelebram (e glorificam a Tua bondade)”. E não há dúvidas de que nossa prece é atendida. Claro, não vemos os Anjos. Nossa vista é fraca. Mas é dito que São Serafim costumava vê-los, pois eles de fato estavam lá. O eleito do Senhor podia vê-los, e a toda a Igreja Triunfante. “Quando nos encontramos no templo em Tua glória, parece-nos estarmos nos Céus”.

Assim, é quase natural que no Domingo da Ortodoxia celebremos, não apenas a restauração da veneração dos Ícones, como ainda comemoremos esse glorioso coro de testemunhos e fiéis que professaram sua fé, ainda que a custo de sua segurança terrena, de sua prosperidade e de suas próprias vidas. É um grande dia para a Igreja. De fato, nesse Domingo celebramos a Igreja do Verbo Encarnado: celebramos o Amor redentor do Pai, o Amor Crucificado do Filho e a Amizade do Espírito Santo, que se tornaram visíveis para nós, na companhia de todos os fiéis, inclusive dos que já estraram no Repouso Celestial, na Alegria eterna de seu Senhor e Mestre. Os santos Ícones são nosso testemunho da glória do Reino que virá, e que já está presente entre nós.


[1] João 1: 18.

sábado, 2 de novembro de 2019

Georges Florovisky - Criação e Redenção - IX. A Veneração dos Santos





Cristo conquistou o mundo. Essa vitória foi posteriormente revelada e realizada no fato de que Ele construiu Sua Igreja. Em Cristo e por Cristo a unidade da humanidade foi verdadeiramente realizada pela primeira vez, pois aqueles que creram em Seu Nome se tornaram o Corpo de Cristo. E ao se unirem a Cristo eles, da mesma forma, uniram-se uns aos outros na mais sincera concórdia de amor. Nessa grande unidade todas as distinções empíricas e todas as barreiras foram também afastadas: diferenças de nascimento na carne foram apagadas dentro da unidade do nascimento espiritual. A Igreja é um novo povo cheio de graça, que não coincide com nenhuma fronteira física nem com nenhuma nação terrestre – nem Gregos, nem Judeus, nem Citas, nem bárbaros – e essa nação não surge de uma relação de sangue, mas através da liberdade num Corpo. Todo o significado do Santo Batismo consiste no fato de que se trata de uma misteriosa aceitação para entrar na Igreja, na Cidade de Deus, no Reino da Graça. Através do Batismo o fiel se torna um membro da Igreja, ele entra para “a Igreja única de anjos e homens”, se torna “co-cidadão dos santos, para sempre com Deus”, de acordo com as misteriosas e solenes palavras de São Paulo – a pessoa chega ao “monte Sião, e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celeste, a uma inumerável companhia de anjos, à assembleia geral e à Igreja do primogênito, que está inscrita nos céus, ela chega a Deus, o Juiz de todas as coisas, e aos espíritos dos homens que se tornaram perfeitos”. E em meio a essa grande multidão ela se une a Cristo. Pois “unnus Christianus, nullus Christianus[1]”.

A essência da Igreja reside em sua unidade. Pois a Igreja é a Morada do Espírito Único. Não se trata de uma unidade, ou catolicidade, externa ou empírica. O caráter Ecumênico da Igreja não é algo externo, quantitativo, espacial, nem mesmo qualquer qualidade geográfica, e de modo algum depende de uma dispersão universal de fiéis. A unidade visível da Igreja é meramente um resultado, mas nunca um fundamento para a catolicidade da Igreja. A “universalidade” geográfica é uma derivação e não uma necessidade essencial. A catolicidade da Igreja não foi menor nas primeiras eras da Cristandade, quando as comunidades dos fiéis eram espalhadas como pequenas ilhas, quase perdidas num imenso mundo de descrença e resistência. Tampouco ela se vê diminuída agora, quando a maior parte da humanidade não está com Cristo. “Embora uma cidade, ou mesmo uma província, possa abandonar a Igreja Ecumênica, diz o Metropolita Filareta, esta permanecerá sempre sendo um corpo completo e incorruptível”. Da mesma forma a Igreja continuará Ecumênica nos “últimos dias”, quando ela for reduzida ao “pequeno rebanho”, quando o mistério da “retirada” for revelado e quando a fé quase não for mais encontrada sobre a terra. Pois a Igreja é Católica de acordo com a sua natureza.

Se buscarmos por definições externas, talvez a natureza Ecumênica da Igreja possa ser melhor expressada pelo seu aspecto de “atemporalidade” (por perpassar todas as eras). Pois fiéis de todas as idades e de todas as gerações, que vivem, viveram ou viverão, pertencem a ela da mesma maneira. Todos formam um corpo, e por meio da mesma oração se veem unidos em um diante do Trono único do Senhor da Glória. A experiência dessa unidade através de todos os tempos é revelada e selada no ciclo total da adoração Divina. Na Igreja, o tempo é ultrapassado misteriosamente. O transbordamento da graça parece parar o tempo, deter a marcha dos minutos e das estações, ultrapassar inclusive a ordem geral da sucessão e da separação das coisas que parecem acontecer em tempos diferentes[2]. Numa unidade com Cristo através da graça, no dom da comunhão com o Espírito Único, homens de diferentes épocas e gerações se tornam nossos contemporâneos vivos. Cristo reina por igual na Igreja – dentre os que partiram e dentre os que estão vivos, pois Deus não é um Deus dos mortos, mas dos vivos.

A Igreja constitui um Reino que não é deste mundo, mas que é um Reino eterno, porque possui um Rei eterno: Cristo. A Igreja é uma espécie de imagem misteriosa da eternidade e uma antevisão da Ressurreição geral. Pois Cristo, a Cabeça do Corpo, é “vida e ressurreição” de Seus servos e irmãos.  O montante dos nascimentos ainda não se completou, e o rio da vida ainda corre. A Igreja continua nas suas andanças, mas mesmo agora o tempo não tem força nem poder sobre ela. É como se o momento do Apocalipse tivesse sido antecipado – quando já não houver tempo, e quando todo tempo houver cessado. A morte terrestre, a separação da alma em relação ao corpo, já não destrói o laço entre aqueles que têm fé, já não divide nem separa os que são co-membros em Cristo, já não exclui os falecidos dos limites e da composição da Igreja. Na oração pelos mortos e em outros ofícios fúnebres oramos a Cristo, “nosso Rei e Deus imortal” para que envie as almas dos falecidos para “onde vivem os santos”, “a morada dos justos”, “o seio de Abrahão”, onde todos os justos encontram o repouso. E, com particular expressividade, nessas preces fúnebres, lembramos e clamamos pelas hostes dos justos, e pela Mãe de Deus, pelos poderes celestiais, pelos santos mártires e por todos os santos, enquanto nossos concidadãos celestiais na Igreja. Com poderosa ênfase a sempre presente e católica consciência da Igreja se abre no ofício do sepultamento. O fiel que alcança uma genuína união com o próprio Cristo, em sua luta e dentro dos “mistérios” salvífico, não pode ser separado Dele, mesmo na morte. “Benditos os que morrem no Senhor, pois suas almas habitarão com o Abençoado”. E as preces pelos falecidos são a testemunha e a medida da consciência católica da Igreja.

Reverentemente, a Igreja procura quaisquer sinais da graça que testemunhem e confirmem o esforço terreno dos que partiram. Com uma visão interior a Igreja reconhece tanto os justos vivos como os falecidos, e o sentimento da Igreja é selado pelo testemunho do sacerdócio da Igreja. É nesse reconhecimento de seus irmãos e membros que “alcançaram a perfeição”, que consiste a essência mística daquilo que o Cristianismo Ocidental denominou como “a canonização dos santos”, e que é entendido pelo Oriente Ortodoxo como sua glorificação, magnificação e bênção. Primeiramente, é a glorificação do Deus – “Maravilhoso é o Senhor em Seus santos”. “Os santos de Deus, diz São João Damasceno, governaram e dominaram suas paixões e mantiveram intacta a semelhança e a imagem de Deus, segundo a qual foram criados; por sua livre vontade eles se uniram a Deus e receberam-No na morada de seus corações, e, tendo-O recebido em comunhão, através da graça, tornaram-se em suas naturezas tais como Ele”. Deus repousa neles – eles se tornaram “os tesouros e as puras moradas de Deus”. Nisso é que se realiza o mistério. Pois, como diziam os antigos Padres, o Filho de Deus se tornou homem, para que os homens pudessem ser deificados, para que os filhos dos homens pudessem se tornar filhos de Deus. E é no justo que chega a amar dessa maneira, que se realiza o crescimento e a “semelhança” em Cristo. “Durante suas vidas os santos já estavam cheios do Espírito Santo, continua São João Damasceno, e quando eles morreram a graça do Espírito Santo continuou presente em suas almas e seus corpos nos sepulcros, bem como em suas imagens e em seus santos ícones, não por causa de sua natureza, mas por causa da graça e de sua atividade (...) os santos estão vivos e com coragem e ousadia eles se postam diante do Senhor; eles não estão mortos (...) a morte dos santos se parece mais com um adormecimento do que com uma morte (...) pois eles “habitam nas mãos de Deus” – vale dizer, na vida e na luz – e “depois que Aquele que é a própria Vida e a fonte de toda vida foi contado entre os mortos, já não consideramos como mortos aqueles que partiram com a esperança da ressurreição e com fé Nele”. E não é apenas para obter ajuda e intercessão, que o Espírito Santo ensina a todos os fiéis a orar aos santos glorificados, mas também porque esse chamado, mediante a comunhão na prece, aprofunda a consciência da unidade católica da Igreja. Em nossa invocação dos santos demonstramos a medida de nosso amor Cristão, e expressa-se um sentimento vivo de unanimidade e do poder da unidade da Igreja; e, inversamente, as dúvidas e a incapacidade de sentir a intercessão da graça e a intervenção dos santos perante Deus em nosso favor mostra não apenas um enfraquecimento do amor e da fraternidade nos laços e relações da Igreja, como ainda um declínio na plenitude da fé no valor Ecumênico e no poder da Encarnação e da Ressurreição.

Uma das mais misteriosas antecipações da Igreja Ortodoxa é a contemplação do “Véu Protetor da Mãe de Deus”, de sua incansável intercessão pelo mundo, rodeada por todos os santos, diante do trono de Deus. “Hoje a Virgem se coloca na Igreja e, juntamente com as hostes invisíveis dos santos, ora a Deus por todos nós; os anjos e os altos sacerdotes adoram; os apóstolos e os profetas abraçam-se mutuamente – pois é por nós que a Mãe de Deus ora diante do Deus Eterno”. É assim que a Igreja recorda a visão que teve Santo André, o louco de Cristo. E aquilo que foi visivelmente revelado naquele momento permanece ainda e permanecerá por todas as eras. A “Contemplação do Véu Protetor” da Mãe de Deus é a visão da Igreja celestial, a visão da unidade indestrutível e duradoura entre as Igrejas celestial e terrestre. E é também uma antevisão de toda a existência de além-túmulo, dos justos e dos santos, numa prece incansável, numa incessante intercessão e mediação. Pois o amor é “a união de todas as perfeições”. E a veneração dos santos é uma espera no amor. O grande santo do Oriente, Isaac o Sírio, com ousadia incomparável, deu testemunho do abarcante poder que coroa o esforço do Cristão. De acordo com suas palavras, esse esforço por Deus adquire sua realização e plenitude, e alcança seu objetivo, na pureza – e a pureza é “um coração misericordioso para com todos os seres criados”. E o que é um coração misericordioso?, pergunta o santo, e ele próprio responde: “Um coração que queima por toda a criação, pelo homem, os pássaros, os animais, os demônios e todas as demais criaturas. E os olhos desse homem derramam lágrimas à sua recordação e à sua contemplação; por causa da enorme compaixão que esse coração possui, e por sua grande fidelidade, ele é inundado por uma terna piedade e não é capaz de suportar, nem ouvir ou ver a menor ofensa a eles, a menor tristeza sofrida por esses animais. E assim ele ora a todo momento pelos animais irracionais, pelos inimigos da Verdade e por aqueles que o prejudicam, para que eles sejam guardados e que recebam misericórdia; e ele ora também pelos répteis, por causa dessa grande compaixão que brota constantemente em seu coração à semelhança de Deus”. E se tão ardente é a oração dos santos sobre a terra, ainda mais ardentemente ela queima “lá”, no “regaço do Pai”, no seio do Amor Divino, junto a Deus, cujo Nome é Amor, cuja atenção para com o mundo é Amor. E na Igreja Triunfante jamais cessam as orações por toda a Igreja Católica. Como disse São Cipriano, “a prece Cristã é ara todo o mundo”; todos oram, não apenas por si mesmos, mas para todo o povo, pois todos formam um só, e assim oramos não com uma prece individual particular, mas com uma prece que é comum a todos, com uma só alma. Todo o ato de orar deve ser determinado por uma consciência ecumênica e um amor unânime, que inclui do mesmo modo aqueles cujos nomes são conhecidos apenas por Deus. Não é típico de um  Cristão sentir-se só e separado de todos, porque ele só pode ser salvo na unidade da Igreja. E o coroamento de todas as orações consiste nesse amor ardente que foi expresso na prece de Moisés: “Perdoa seus pecados; mas, se não o fizeres, eu Te peço, apaga-me desse livro que Tu próprio escreveste”. O centro da adoração da Igreja é a adoração Eucarística. Aqui toda a Igreja se encontra unida. Aqui se realiza o sacrifício e são oferecidas as orações “por todos e por tudo”, aqui toda a Igreja é lembrada, a militante e a triunfante. No misterioso ato da Liturgia “os poderes celestes celebram invisivelmente conosco”, eles estão presentes e celebram junto com o sacerdote celebrante. E aos grandes santos às vezes se concede pela graça de Deus contemplar de forma visível aquilo que está oculto aos olhos dos pecadores – a concelebração dos anjos. É sabido, por exemplo, que em certa ocasião foi concedido a São Serafim de Sarov ver a entrada triunfante do Senhor da Glória, rodeado pelas hostes de anjos. Essa entrada do Senhor da Glória é comumente representada na forma de ícone sobre a parede do santo Altar, e não apenas como símbolo, mas como uma indicação de que, invisivelmente, isso verdadeiramente acontece. E toda a decoração em ícones da Igreja fala da misteriosa unidade, da presença real dos santos entre nós. “Representamos a Cristo, o Rei e Senhor, sem separá-Lo de Seu exército, pois o exército do Senhor são os Seus santos”, disse São João Damasceno. Os santos ícones não são simplesmente imagens de recordação, “imagens do passado e dos justos”, eles não são meras figuras, mas são de fato objetos sagrados por intermédio dos quais, conforme explicaram os Padres, o Senhor está “presente” e, por meio da graça, ‘em comunhão” com eles. Existe uma ligação misteriosa entre a “imagem” e o “Protótipo”, entre a semelhança e aquele que está representado, coisa que é especialmente marcada nos ícones milagrosos que mostram o poder de Deus. O “culto de veneração” dos santos ícones expressa claramente a ideia que a Igreja concebe a respeito do passado: não se trata de uma recordação dirigida a algo que se passou, mas de uma visão pela graça de algo que está fixado na eternidade, uma visão de algo misterioso, uma presença pela graça daqueles que morreram e partiram, uma “alegre visão da unidade de toda a criação”.

Toda a criação tem sua Cabeça em Cristo. E por intermédio de Sua Encarnação, o Filho de Deus, de acordo com a maravilhosa expressão de Santo Irineu de Lyon, “inicia-se uma nova linhagem de seres humanos”. A Igreja constitui a posteridade espiritual do Segundo Adão, e, na sua história, Sua obra redentora se realiza e se completa, enquanto seu Amor brota nela e a inflama. A Igreja constitui a plenitude de Cristo e Seu Corpo. De acordo com as palavras de São João Crisóstomo, “somente então Aquele que a tudo preenche se torna a Cabeça, tendo formado um corpo perfeito”. Existe um movimento misterioso, que começa no formidável dia de Pentecostes, quando, na figura dos poucos primeiros escolhidos toda a criação tivesse recebido um batismo abrasador pelo Espírito, que apontou para o fim derradeiro, quando em toda a sua glória a Nova Jerusalém deverá aparecer e o Noivado do Cordeiro se iniciará. Ao longo das eras, os convidados e os escolhido vêm sendo buscados. O povo do Reino eterno está sendo reunido em assembleia. O Reino está sendo eleito e colocado além dos limites do tempo. A plenitude será realizada na ressurreição última – e então a completa plenitude, a glória e o significado total da catolicidade da Igreja serão revelados.


[1] “Um só Cristão, nenhum Cristão”.
[2] “...to overcome even the general order of consecutiveness and the disconnectedness of those things which took place at different times.”

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Georges Florovsky - Criação e Redenção - VIII. O Sacramento do Pentecostes







A Igreja é uma. Isso não significa simplesmente que existe apenas uma Igreja, mas também que a Igreja é uma unidade. Nela a humanidade é transportada a um novo plano de existência, de modo a que possa aperfeiçoar-se como unidade na imagem da vida da Trindade. A Igreja é uma no Espírito Santo e o Espírito a “constrói” no Corpo perfeito e completo de Cristo. A Igreja é predominantemente uma na irmandade dos sacramentos. Colocando de outra maneira, a Igreja é uma no Pentecostes, que foi o dia da misteriosa fundação e consagração da Igreja, quando todas profecias a ser respeito se cumpriram. Nessa “celebração temível e desconhecida”, o Espírito Consolador descer e entrou no mundo no qual nunca estivera antes presente do mesmo modo como Ele então passou a habitar. Ele então entrou no mundo para morar nele e para se tornar a fonte onipotente da transfiguração e da deificação. A concessão e descida do Espírito consistiu numa única e irrepetível Revelação. Naquele dia, naquele momento, uma fonte inexaurível de água viva e Vida Eterna se abriu aqui na terra.

O Pentecostes, assim, constitui a plenitude e a fonte de todos os sacramentos e de todas as ações sacramentais, a fonte única e inexaurível para toda a misteriosa e espiritual vida da Igreja. Habitar ou viver na Igreja implica a participação no Pentecostes. Mais do que isso, o Pentecostes se torna eterno na Sucessão Apostólica, na ordenação hierárquica ininterrupta na qual todas as partes da Igreja estão, a todo momento, organicamente unidas à sua fonte primária. As linhas do poder procedem da Câmara Alta. A Sucessão Apostólica não é meramente uma espécie de esqueleto canônico da Igreja. Falando de modo geral, a hierarquia é, em primeiro lugar, um princípio carismático, ou seja, um “ministério dos sacramentos”, ou uma “economia divina”. E é precisamente nessa capacitação que a hierarquia constitui um órgão da unidade Católica da Igreja. Essa é a unidade da graça. Ela é para a Igreja aquilo que a circulação do sangue é para o corpo humano. A Sucessão Apostólica não e tanto uma fundação mística e canônica da unidade da Igreja. Ela está mais associada ao lado divino do que ao lado humano da Igreja. Do ponto de vista histórico a Igreja se mantém uma no seu sacerdócio. É pela ininterruptibilidade das ordenações sucessivas que a totalidade da Igreja é conectada a uma unidade de corpo a partir de uma unidade de Espírito. E aí só existe um caminho e uma perspectiva: aproximar-se e beber da fonte única da vida, agora revelada.

A função específica dos bispos é de serem o órgão da Sucessão Apostólica. Os bispos diferem dos padres por seu poder de ordenar, e somente por isso. Isso sequer constitui um privilégio canônico, mas apenas um poder de jurisdição. Trata-se de um poder de ação sacramental que está além daquele que o padre possui. Na celebração da Eucaristia o bispo não tem nenhuma precedência sobre o padre, nem pode ter, pois o padre tem pleno poder para celebrar, sendo seu propósito primário exatamente o de oferecer o Sacrifício Eucarístico. É enquanto celebrante da divina Eucaristia que o padre é ministro e construtor da unidade da Igreja. A unidade do Corpo de Cristo se derrama a partir da unidade do alimento Eucarístico. Mas adicionalmente a isso o bispo tem sua função particular na construção da unidade da Igreja, não como aquele que oferece o Sacrifício Incruento, mas como aquele que o ordena. A Última Ceia e o Pentecostes estão inseparavelmente ligados um ao outro. O Consolador desce quando o Filho é glorificado em Sua morte na Cruz. Mas eles permanecem sendo dois sacramentos que não podem ser mesclados um ao outro.

O mesmo se aplica aos dois graus em ordem: o bispo está acima do padre e é através do episcopado que o Pentecostes se torna universal e eterno. Mais do que isso, toda Igreja em particular, através de seu bispo – ou melhor, em seu bispo – se vê incluída na plenitude Católica da Igreja como um todo. Através de seu bispo ela se liga com o passado e com a antiguidade. Através de seu bispo ela toma parte do organismo vivo do Corpo da Igreja Universal. Pois todo bispo é ordenado por muitos bispos em nome do episcopado indiviso. Em seu bispo toda Igreja particular cresce e transcende seus próprios limites, entre em contato e se mistura às demais Igrejas, não meramente num amor fraterno ou numa lembrança comum, mas na unidade de uma misteriosa vida na graça.

Assim é que cada Igreja local encontra seu centro e sua unidade no bispo, não tanto por ser ele o cabeça e o pastor local, mas porque é através dele que ela está incluída na misteriosa sobornost (“catolicidade”) da Igreja-corpo por todos os tempos. “Afirmamos que a ordem dos bispos é tão necessária à Igreja que, sem ela, a Igreja não é a Igreja e um Cristão não é um Cristão, e sequer podem receber esse nome. Pois o bispo é um sucessor dos Apóstolos por meio da imposição das mãos e da invocação do Espírito Santo, recebendo sucessivamente o poder concedido por Deus ligar e desligar. Ele é uma imagem viva de Deus sobre a terra, e devido à atividade divina e ao poder do Espírito Santo ele se torna a fonte abundante de todos os sacramentos da Igreja Universal por meio dos quais a salvação pode ser obtida. Consideramos que o bispo é essencial à Igreja, como a respiração o é para o homem, e o sol para o mundo[1]”.

No Dia de Pentecostes o Espírito desceu não apenas sobre os Apóstolos, como também sobre todos os que estavam ali presentes com eles: não só sobre os Doze, mas sobre uma quase multidão (compare-se com os Discursos de Crisóstomo e sua interpretação dos Atos). Isso significa que o Espírito desceu sobre toda a Igreja Primitiva então presente em Jerusalém. Mas, embora o Espírito seja um, os dons e os ministérios da Igreja são muitos e variados, de modo que, no Sacramento de Pentecostes, o Espírito desceu sobre todos, mas apenas aos Doze ele concedeu o poder e o grau do sacerdócio prometido a eles por nosso Senhor nos dias de Sua carne. As qualidades distintivas do sacerdócio não foram ofuscadas pela plenitude abarcante do Pentecostes. Mas a simultaneidade dessa aspersão Católica do Espírito sobre toda a Igreja testemunha o fato de que o sacerdócio foi fundado dentro da sobornost da Igreja. 

É com isso que se relaciona especificamente a proibição direta da ordenação num sentido “geral” ou “abastrato” (por exemplo, sem a nomeação definida para uma Igreja ou congregação), conforme a Regra No. 6 do IV Concílio Ecumênico. Também é proibida a ordenação secreta. Ela deve ser sempre pública e aberta, na própria Igreja, diante do povo e com o povo. Mais do que isso, a participação do “povo” é requerida na própria ordenação, e não apenas como espectadores reverentes que acompanham as orações. O “aksios” ou “amém” obrigatórios não constituem um mero acompanhamento, mas também um testemunho e uma aceitação. O poder de ordenar é concedido aos bispos, e somente a eles, mas foi concedido a eles dentro da Igreja, enquanto pastores de um rebanho definido. E eles podem e devem realizar esse poder apenas na sobornost da Igreja, e em acordo com todo o Corpo – vale dizer, os sacerdotes e o povo – e não “em geral” ou de modo “abstrato” isso implica que o bispo deve habitar a Igreja, e a Igreja deve habitar o bispo.

A antiga determinação de que um bispo deve ser ordenado por dois ou três bispos é especialmente significativa. A implicação desse requisito é quase óbvia[2]. Mas o que estão testemunhando os bispos que ordenam? Na ordenação de um bispo, nenhum bispo isoladamente pode agir por si como bispo de uma Igreja local específica e definida, pois nesse caso ele permaneceria como um estranho tanto quanto como em relação a qualquer outra diocese ou bispado. Ele age como representante da sobornost dos demais bispos, como um membro e um participante dessa sobornost. Ademais, está implícito que esses bispos pertencem a alguma diocese particular, e como bispos dirigentes eles não estão separados, nem podem ser separados de seus rebanhos. Cada bispo que ordena age em nome da sobornost e da plenitude Católica, conforme o I Sínodo Ecumênico, regra 4: “é mais digno para um bispo ser indicado por todos os bispos de sua região; mas se isso for inconveniente por alguma razão especifica, ou devido à distância, que pelo menos três se reúnam num lugar, e que os ausentes expressem sua aquiescência por carta, permitindo que se prossiga com a ordenação”.

Mais uma vez, essas não são medidas canônicas, administrativas ou disciplinares. Existe uma profundidade mística aqui. Nenhuma realização ou extensão da Sucessão Apostólica é possível de outra forma, que não dentro da inquebrantável sobornost de toda a Igreja. A Sucessão Apostólica não pode ser prejudicada ou divorciada do contexto orgânico da vida de toda a Igreja, embora possuindo sua própria raiz divina. No rito Romano apenas um bispo ordena, mas a presença de “testemunhas” ou “assistentes” é necessária, de modo a confirmar a plenitude e a sobornost do ato sacramental. O ponto principal reside aqui na cooperação de toda a Igreja, ainda que isso seja concedido e representado simbolicamente. Sob condições normais da vida da Igreja a Sucessão Apostólica jamais pode ser reduzida a uma enumeração abstrata de ordenadores sucessivos. Nos tempos antigos, a Sucessão Apostólica usualmente implicava, antes de tudo, a sucessão a uma cátedra definida, a uma sobornost específica e local. A Sucessão Apostólica não representa uma cadeia autossuficiente, nem uma lista ordenada de bispos. Ela é um órgão e um sistema da unicidade singular da Igreja. Mais do que isso, não apenas as “santas ordens” (ordo), como também o “poder sacerdotal” (jurisdictio) são congruentes na graça. A “jurisdição” significa a concretude do poder e da dignidade do bispo, e ela se mantém precisamente pela sobornost, vale dizer, pela unidade orgânica com o corpo específico do povo de uma Igreja. Dessa maneira, fora da “jurisdição”, ou seja, na mera autossuficiência do grau episcopal, o poder de ordenar não pode ser praticado. Se uma ordenação “abstrata” não pode ser reconhecida como válida, ela será ainda não apenas “ilegal (ilícita), como também será misticamente deficiente. Pois toda ruptura dos limites canônicos implica simultaneamente uma certa perda da graça, a saber: o isolamento, a separação, o abandono, o esquecimento místico, a limitação da vigilância da Igreja, e uma diminuição do amor. Pois a Sucessão Apostólica foi estabelecida para a garantia da unidade e da sobornost, e jamais deve se tornar um veículo de exclusivismo e divisão.

A Apostolicidade da Igreja não se esgota pelo caráter ininterrupto da sucessão sacerdotal a partir dos Apóstolos. A Sucessão Apostólica não deve ser separada da Tradição Apostólica, e, de fato, não pode. A Tradição Apostólica não constitui uma reminiscência histórica, e tampouco a fidelidade à Tradição significa apenas uma obstinada insistência no que é antigo, nem exige uma adaptação arcaica do presente aos modos e costumes do passado. A Tradição não é uma arqueologia da Igreja, mas uma vida espiritual. Ela é a memória da Igreja. Ela é, em primeiro lugar, uma corrente de vida espiritual ininterrupta que procede desde a Câmara Alta. Tampouco a fidelidade à Tradição Apostólica uma fidelidade restrita apenas à antiguidade, mas uma ligação viva com a plenitude da vida da Igreja. A fidelidade à Tradição é, similarmente, uma participação no Pentecostes, e a Tradição representa a realização do Pentecostes: “Quando vier o Espírito da Verdade, ele encaminhará vocês para toda a verdade[3]”. Falando de modo geral, a Tradição não é tanto uma salvaguarda e um princípio conservador, quanto um princípio progressista e condutor, o começo da vida, a renovação e o crescimento. Os tempos Apostólicos não constituem apenas um exemplo exterior a serem imitados ou repetidos, mas uma fonte eternamente renovada, uma experiência da vida na graça. A Tradição é o poder de ensinar, confessar, testemunhar e proclamar a profundidade da experiência da Igreja, que permanece sempre a mesma e incomparável. E esse “poder de ensinar” (potestas magisterii) está incluído na Sucessão Apostólica e se baseia nela. O poder de ensinar é conferido exatamente no episcopado – ele é o “poder” mais apostólico de todos.

Mas esse “poder” é uma função da plenitude Católica da Igreja. “De omnium fidelium ore pendeamus, quia in omnem fidelem Spiritus Dei spirat”. Podemos dizer que a hierarquia, em sua capacidade de ensinar, representa os lábios da Igreja. Isso não significa que a hierarquia adquire do povo da Igreja sua credencial para ensinar, pois ela a recebe do Espírito Santo, como uma “unção de verdade” (charisma veritatis certum), de acordo com a expressão de Santo Irineu de Lyon, no sacramento da ordenação. Esse é o direito, ou o poder, de expressar e dar testemunho da fé e da experiência da Igreja. A hierarquia ensina enquanto órgão da Igreja. Por isso ela é limitada pelo “consenso da Igreja” (consensu ecclesiae), e mais uma vez não tanto na ordem dos cânones quanto na vida e na evidência espiritual. Somente à hierarquia é concedido o direito de ensinar e testemunhar na Igreja. Mas a hierarquia não constitui um “corpo de ensinamento” completo e autossuficiente na Igreja. A hierarquia só ensina de modo Católico quando deveras tem e contém a Igreja dentro de si. Toda Igreja local tem direito a uma “voz que ensina” na exclusiva pessoa de seu bispo, o que, naturalmente, não exclui o direito à liberdade de opinião. Por outro lado, o bispo possui seu “poder de ensinar” somente dentro da Igreja, somente dentro da verdadeira sobornost de seu povo e de seu rebanho. O bispo recebe esse poder e essa capacidade de ensinar, não de seu rebanho, mas do próprio Cristo, de cujo ministério de ensinamento ele participa através da graça da Sucessão Apostólica. Mas o poder de ser uma espécie de coração de seu povo é conferido a ele, e desse modo o povo também tem um direito e uma obrigação de dar testemunho, de consentir, e de recusar seu consentimento, na busca pela total unanimidade e plenitude da sobornost.

O poder de ensinar está. Portanto, baseado numa dupla continuidade. Primeiramente, no caráter ininterrupto da vida espiritual da Igreja, enquanto “plenitude Daquele que plenifica tudo[4]”. Todo o sentido e a grandeza da vida Cristã consiste em receber o Espírito. Entramos em comunhão com o Espírito por intermédio dos sacramentos, e devemos nos esforçar para estarmos cheios do Espírito nas orações e nas ações. Nisso consiste o mistério de nossa vida interior. Mas, mesmo nessa vida interior, é pressuposto que pertençamos à Igreja e que sejamos parte de sua própria textura. Cada maneira de vida individual está incluída na sobornost, e isso significa que ela é condicionada e limitada pela Sucessão Apostólica. Em segundo lugar, a comunhão universal por todo o tempo ou a união nos sacramentos só é possível mediante a não interrupção da sucessão sacerdotal. O desenvolvimento histórico da Igreja, sua integridade orgânica em revelar o “depositum fidei” fundamental é, da mesma forma, baseada na Sucessão Apostólica. A plenitude Católica do ensinamento da Igreja só é possível para nós mediante a Sucessão Apostólica, que ultrapassa a relatividade histórica das eras separadas, e que ainda age como um verificador interno entre o que é variável e o que é permanente. A liberdade de investigação teológica e de opinião encontra suporte e fundamento para si na “unção de verdade” hierárquica. É precisamente a Sucessão Apostólica que nos permite, em nossa teologia, nos erguermos acima e além do espírito de nosso tempo e penetrar na plenitude da verdade.

Genericamente falando, a eficácia e a realidade dos sacramentos não dependem da fé daqueles que deles participam. Pois os sacramentos são cumpridos pelo poder de Deus, e não do homem, e a fragilidade e imperfeição de um sacerdote individualmente são tornadas boas pela misteriosa participação de toda a Igreja em suas ações – da mesma Igreja que o escolheu e autorizou a realizar o “ministério dos Sacramentos”. De qualquer forma, independentemente disso, é quase impossível isolar por completo o momento objetivo em que a graça se manifesta nos sacramentos. Por exemplo, como pode a Sucessão Apostólica ser preservada quando a Tradição Apostólica foi rompida juntamente com a continuidade da vida espiritual? Em nenhum caso uma injúria à fé deixa de se refletir de alguma maneira na hierarquia dessas comunidades nas quais o “depósito de fé” Apostólico não foi preservado, e onde a plenitude da Tradição foi diminuída pelas brechas na continuidade histórica. Isso se aplica especialmente aos casos em que a injúria atinge os motivos básicos da própria “sucessão”, quando a fé Eucarística se torna turva, e quando a ideia de sacerdócio se torna vaga e imprecisa. Podemos acrescentar que em tais casos a ligação empírica com a plenitude da vida da Igreja, tanto passada quanto presente, costuma ser rompida, e a comunidade se torna contida em si mesma e isolada, de modo que surge aí uma separação empírica – um cisma. Esse desejo de isolamento e, podemos dizer, essa solidão, não pode deixar de afetar esse ministério da Igreja, cujo sentido total reside na preservação e na expressão da unidade. Mais uma vez, não se trata apenas de uma questão de legalidade ou “jurisdição”. Não é tanto canonicamente, quanto misticamente, que cada sacerdote age em favor e em nome de toda a Igreja – e somente então seu ministério Divino se enche de valor místico. A Eucaristia é uma e indivisível, e só pode ser celebrada dentro dos limites místicos da Igreja Católica. Como poderia um “dissidente” celebrar a Eucaristia?

Ainda mais equivocada é a continuidade da Sucessão Apostólica nos corpos cismáticos, em especial se ela foi continuada, ou mesmo “restabelecida” com o objetivo de tornar a separação permanente. Como pode uma corrente hierárquica persistir na divisão, quando sua própria razão de ser é a unidade? Como podem hierarcas cismáticos agir em favor ou em nome da Igreja Católica? Ainda assim, a vida da Igreja na prática testemunha o fato de que isso é possível, e que a vida na graça dentro dos corpos cismáticos não se extingue nem se esgota, a qualquer custo, pelo menos não imediatamente. Entretanto, não podemos pensar que seja possível que isso prossiga inalterado, precisamente pela razão de que não se pode isolar diferentes aspectos do todo orgânico da vida da Igreja. O isolamento humano e histórico, ainda que juntos não cheguem a romper com a Sucessão Apostólica, devem, de um modo ou de outro, enfraquece-la misticamente. Pois a unidade na graça só pode ser revelada no “mistério da liberdade”, e apenas por meio de um retorno à plenitude e à comunhão Católica, cada corpo hierárquico separado pode recobrar todo seu significado místico. Simultaneamente a esse retorno, acontece a aceitação do “depósito de fé” Apostólico na sua totalidade. A Sucessão Apostólica só pode ser fortalecida pela fidelidade e a realização da Tradição Apostólica. Nessa inseparabilidade reside a plenitude do Pentecostes.

CONSENSUS ECCLESIAE, Nov. 24, 1934

[Duas notas explicativas ao artigo do Professor Florovsky sobre “O Sacramento do Pentecostes”]

I.        “Somente à hierarquia é dado o direito de ensinar e testemunhar na Igreja”. Isso não significa que o clero e os leigos estejam destinados simplesmente a uma obediência formal e incondicional do episcopado. Similarmente, isso não implica que o “direito de ensinar” seja conferido aos bispos, independentemente do povo. Ao contrário, não existe espaço para o exclusivismo dentro da Igreja. Dessa forma, o agudo contraste que existe na Igreja Romana entre as Igrejas “que ensinam” e “que aprendem” é abandonado. É mais correto falar em coordenação entre os estratos, ou elementos, dentro da Igreja. Mais uma vez, enfatizo que “o bispo tem o poder de ensinar” apenas dentro da Igreja, apenas dentro da sobornost de seu povo e de seu rebanho. Todos na Igreja são chamados não somente à obediência, como também ao entendimento. Precisamente em questões de fé e dogma, todos são compelidos a uma responsabilidade pessoal. É preferível não falar em “responsabilidade” – o termo é demasiado formal – e é melhor dizer que todos devem residir na verdade. O rebanho deve não apenas ouvir, como também aquiescer. Não é tanto a autoridade que decide, quanto uma evidência interior de vida espiritual. Dentro dos limites da sobornost intacta existe uma atribuição de atividades e de tarefas. Para todos os efeitos, todos são chamados a ser um exemplo vivo e um testemunho de sua fé e de sua verdade, para ensinar e ajudar qualquer pessoa. Essa questão não se coloca aqui, como também não se coloca um problema de busca teológica, que formalmente não pode ser delimitada por nenhuma posição da Igreja. A questão é como relação ao direito ao testemunho dogmático a favor da Igreja.

Mais uma vez, o poder da hierarquia não implica que a verdade seja como que revelada ao bispo automaticamente, por força de sua ordenação e dignidade, ou que ele possa descobri-la sem consulta ou comunhão com a Igreja, fora da qual ele perde todo seu “poder”. Porém, apenas a ele é dado o poder de falar de maneira Católica. Não se trata apenas de um direito ou privilégio canônico. Isso está vinculado ao fato de que o bispo enquanto tal constitui um centro místico de seu rebanho, unindo em si a unicidade da agremiação sacramental. O fato de que com muita frequência os bispos não sejam bons teólogos não contradiz essa determinação. Nesses casos eles são forçados a encontrar apoio em outros sacerdotes mais instruídos do que eles. Isso aconteceu desde os tempos mais antigos: basta lembrar Eusébio de Cesareia, cujo conselheiro principal era Basílio o Grande. Não se trata de uma contradição maior do que o simples fato de que existem bispos indignos, tanto quanto existem Cristãos indignos. Mesmo os leigos podem e devem estudar, discutir, pregar, escrever e argumentar; e eles podem ainda discordar dos bispos. Mas testemunhar em favor da Igreja, somente os bispos podem fazê-lo. Podemos também colocar as coisas da seguinte maneira: o direito de opinião e aconselhamento é dado a todos, mas o “poder de ensinar” é concedido apenas à hierarquia – naturalmente, dentro da agremiação intacta da sobornost. A falta de bispos instruídos dentro da Igreja Ortodoxa nos tempos recente é lamentável, mas de modo algum está ligado a esse postulado.

Com relação aos “teólogos leigos” na Rússia, não se pode dizer que eles tenham o poder de ensinar em favor de toda a Igreja – o que, de modo algum, limita seu grande significado histórico. Pois a voz dos leigos deve ser ouvida no coro Ortodoxo. O líder do coro, naturalmente, só pode ser um bispo. Existem inúmeros dons, e todos os dons são necessários. Porém, somente um é apontado como pastor, e o cajado é confiado a ele. “E o rebanho o segue, pois conhece a Sua voz[5]”.  

II.      A desunião dentre os Cristão implica, naturalmente, uma fraqueza mística, e aqui nada é muito claro. Eu gostaria apenas de enfatizar um ponto. O simples fato de que exista uma divisão na Igreja é um paradoxo e uma antinomia. Um abandono da Igreja é mais compreensível do que uma divisão na Igreja, na medida em que, num cisma, a própria eficácia dos sacramentos em si não elimina o fato indubitável de que o espírito de divisão constitui um sintoma de falta de saúde. Não é fácil desenvolver esse ponto de vista, pois se trata precisamente de um paradoxo. Porém, creio que foi o Ocidente que se separou do Oriente, e que a culpa do Ocidente é maior. Toda a história do desvio Romano dá testemunho disso, e ainda sobrecarrega a Igreja Anglicana tanto quanto. Mas isso nos levaria a um novo e complicado tema, a saber, a divisão entre as Igrejas, e é mais aconselhável voltar em separado a ele em outra ocasião.


[1] Epistola dos Patriarcas do Oriente aos Bispos da Grã-Bretanha, 1723, §10.
[2] “...tome com você mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas” (Mateus 18: 16).
[3] João 16: 13.
[4] Efésios 1: 23.
[5] João 10: 14.