terça-feira, 2 de julho de 2019

São João Crisóstomo - Tratado do Sacerdócio - Livro Quarto




1.      Depois de um instante de reflexão, Basílio respondeu ao discurso que acabara de escutar: “Se você tivesse desejado o sacerdócio e feito qualquer gestão para obtê-lo, seus temores seriam fundamentados. Ao buscar um posto declaramos ser capazes de preenche-lo, e não podemos atribuir à ignorância as faltas cometidas em sua administração. Desde logo ficamos privados dessa defesa pela pressa ávida com que nos atiramos sobre um emprego para obtê-lo. Chegamos a ele voluntariamente e com plena consciência, e não podemos mais dizer que cometemos tal ou qual falta malgrado nosso empenho, contra minha vontade que perdi tal ou qual alma. O juiz a quem iremos prestar contas responderá: Qual! Você conhecia sua incapacidade, sabia que sua inteligência não estava à altura dessa função, nem era suficiente para administrá-la sem cometer falhas, e você foi audacioso o bastante para correr a receber o encargo, um encargo tão desproporcional às suas forças? Quem o forçou? Que violência foi exercida contra você, para constrange-lo a sofrer esse jugo, apesar de sua resistência e de sua fuga? Mas você jamais escutará semelhantes desaprovações: sua consciência está perfeitamente tranquila a esse respeito; todo mundo sabe muito bem que a ambição pelo cargo não entrou na sua eleição, e que ela se deu apenas pela justiça dos eleitores: sendo assim, a mesma coisa que tira de outros quaisquer desculpas, no seu caso é precisamente o que o absolve”.

Eu acolhi suas palavras sacudindo levemente a cabeça e sorrindo; admirei a candura inocente de meu amigo. Então lhe disse: “Bem que eu gostaria que as coisas fossem como você diz, ó melhor dos meus amigos! Não por não ter me sujeitado a aceitar aquilo que recusei; pois, mesmo supondo que eu não tivesse que temer o castigo que ameaça o pastor negligente e incapaz do rebanho de Cristo, sempre eu traria em mim, no fundo de minha consciência, o mais insuportável dos castigos, o remorso de me achar indigno de tão augustas funções, ao próprio juízo daquele que as confiou a mim. Por que gostaria eu que sua opinião não fosse falsa? No interesse de tantos infelizes (essa é a qualificação que lhes convém, mesmo que você repita mil vezes que eles foram violentados e que pecaram sem o saber), tantos infelizes, digo eu, que ocupam postos cujas obrigações não podem cumprir, no interesse deles eu queria que sua opinião fosse verdadeira, a fim de que esses homens evitassem o fogo eterno, as trevas exteriores, o verme imortal e as cruéis separações que existirão entre os eleitos e os condenados”.

“Mas o que quer você que eu lhe diga? É um erro, incontestavelmente. Para prová-lo, posso começar me apoiando num argumento extraído do poder real, que aos olhos de Deus é bem menor do que a dignidade sacerdotal. O filho de Cis, Saul, não deveu sua coroa às intrigas. Ele tinha ido à procura de suas jumentas, quando encontrou o Profeta, a quem interrogou para saber aonde elas tinham ido; e foi Samuel quem lhe falou da realeza. Ainda que desse crédito às palavras do Profeta, Saul não demonstrou nenhuma pressa; ao contrário, ele se esquivou, e recusou: ‘Quem sou eu, disse ele, e qual é a casa de meu pai?[1]’. Tornando-se rei, Saul não fez bom uso do poder que lhe havia sido imposto; a resistência que mostrara, as palavras que mencionei, defenderam-no da cólera do Senhor, que o havia feito rei? Ele poderia responder às reprimendas que lhe fez o Profeta: ‘Terei eu corrido atrás da realeza? Fui eu que me coloquei no trono? Eu desejava viver a vida de um simples cidadão, vida de paz e de lazer, e você me obrigou a aceitar essa dignidade; se você me tivesse deixado na obscuridade, eu teria facilmente evitado essa pedra de tropeço; homem do povo, ignorado em suas fileiras, certamente eu não teria sido enviado a essa expedição; Deus não teria me ordenado ir contra os Amalecitas, e, se ele não me tivesse ordenado, eu não teria cometido a falha de que me acusam!’”.

“Mas tais escusas são vãs; e não apenas vãs, como perigosas: pois elas excitam primeiramente o fogo da cólera divina. Aquele que foi elevado a uma dignidade superior ao seu mérito, longe de alegar a magnitude de seu cargo para atenuar suas faltas, deve fazer com que sirvam para seu avanço no bem as atenções benevolentes da divina Providência a seu respeito. Pretender que a altura do posto ao qual fomos elevados nos dá o direito de falhar equivale a querer fazer da bondade de Deus a responsável por nossas faltas, como costumam fazer os ímpios e os preguiçosos que, por assim dizer, deixam suas vidas correr ao azar; sacrílega demência na qual devemos evitar cairmos, trabalhando de toda maneira para a obra de Deus, e conservando nossa língua e nosso coração puros de toda blasfêmia.”

“Depois desse exemplo emprestado à realeza, passo a outro mais apropriado ao nosso tema. O grande sacerdote Eli tampouco ambicionara o soberano sacrifício. De que lhe serviria, uma vez que havia pecado? Que digo eu – ambicionado? Ele sequer foi livre para recusá-lo, a lei o constrangeu a aceitar, porque ele era da tribo de Levi, e somente ele possuía o direito de nascença de ocupar essa dignidade hereditária de sua raça. Isso não o impediu de pagar pelas desordens de seus filhos com uma expiação terrível”.

“Antes dele, Aarão, o primeiro grande sacerdote dos Judeus, tantas vezes objeto das conversas familiares que Deus se dignava ter com Moisés, se tornou culpado por não ter resistido com força suficiente ao povo furioso. Poderia ele fazê-lo sozinho? Não lhe teria acontecido menos, se seu irmão não tivesse conseguido diminuir a cólera de Deus com suas preces. E, como falei de Moisés, não faria melhor do que tirar de sua vida um exemplo em favor da verdade que sustento. Longe de demonstrar pressa para se colocar à frente do povo hebreu, Moisés, esse santo personagem, chegou a recusar obedecer a Deus, que lhe ordenava adotar essa conduta, a ponto de provocar Sua cólera. Mais tarde, mesmo depois de ter se tornado chefe do povo de Deus, ele voluntariamente se ofereceu à morte para se ver desembaraçado de sua carga: ‘Deixa-me morrer, disse ele a Deus, se é para me tratar assim![2]’. Mais tarde, quando ele pecou por ocasião das águas da rocha[3], a perseverante recusa que fizera a respeito do soberano poder, serviu-lhe ela para obter Sua graça? Não foi esse o único motivo pelo qual ele não pode desfrutar da entrada na terra prometida? Todo mundo sabe que essa exclusão foi a pena pelo pecado de que falamos; não precisou de mais, para que esse homem de tantos milagres fosse privado de uma recompensa concedida a homens que estavam abaixo dele. Depois de uma infinidade de fadigas e trabalhos, depois de haver errado por tanto tempo no deserto, esse grande homem, marcado por tantos combates e vitórias, morreu sem poder pôr os pés na terra pela qual enfrentara tantos perigos. E aquele que escapara à fúria do mar não teve a felicidade de repousar no porto”.

“Assim, como você vê, quer se obtenham as dignidades pela disputa, quer pelos cuidados de outrem, não resta desculpa alguma para as faltas daqueles que se conduzem mal. Com efeito, se homens que tantas vezes as recusaram, resistindo ao chamado do próprio Deus, foram tão severamente punidos, se nada pôde isentar do castigo nem um Aarão, nem um Eli, nem mesmo esse admirável e santo profeta, Moisés, o mais manso dos homens que existiram sobre a terra, a quem Deus falava com a familiaridade de um amigo: como pretende você que a nós baste, para nos justificarmos, nós que estamos tão longe de suas virtudes, alegar que nada fizemos pela nossa elevação? Ainda mais quando a maior parte das eleições de hoje se faz, não pela graça e a vocação de Deus, mas pelas intrigas dos homens”.

“Tendo Deus escolhido Judas, assinalou a ele um lugar no colégio apostólico, conferindo-lhe a mesma dignidade dos demais apóstolos, e inclusive concedendo a ele um sinal de confiança especial, entregando-lhe o cuidado com o dinheiro[4]. Pois bem! Depois que ele abusou dessa dupla honraria, traindo Aquele cuja divindade deveria proclamar, dissipando indignamente os fundos depositados em suas mãos para usos mais nobres, evitou Judas a punição que ele tanto merecia? Ao contrário, seu castigo foi mais rigoroso do que se Deus o tivesse favorecido menos. Pois não nos é permitido abusar dos dons de Deus para ofendê-lo; mas devemos valorizá-los, para agradá-lo”.

“Aquele que pretende evitar a pena que lhe é devida, por ter sido colocado num posto elevado, raciocina mais ou menos como o teriam feito os Judeus infiéis, de quem Jesus Cristo disse: ‘Se eu não tivesse vindo e não tivesse falado, eles não seriam considerados culpados; e se eu não tivesse operado milagres entre eles, que ninguém fez antes, eles não teriam pecado[5]’. A essas palavras do Salvador, do Benfeitor do gênero humano, quem os impediria de responder: por que veio você? Por que falou você? Por que fez milagres? Foi para ter oportunidade para nos castigar mais severamente?”.

“Mas essa linguagem teria sido a do furor e da perdição. O Médico celeste não veio para fazê-los morrer, mas para curá-los; ele não podia abandoná-los ao seu mal, mas desejava libertá-los inteiramente dele; foram vocês que se privaram voluntariamente dos seus cuidados; assim, sejam vocês punidos com maior severidade. Quando se submeteram aos Seus mandamentos vocês se curaram de suas enfermidades antigas; mas ao fugir, quando Ele se apresentou, vocês se tornaram impotentes para recuperar a saúde; duplamente culpados por sua teimosia, primeiro por prejudicarem a si próprios, depois por desdenhar dos cuidados do médico. Depois de tê-los coberto de benesses Deus não os tratará da mesma maneira como se não tivessem recebido Dele favor algum; Ele os tratará com muito mais rigor. Se os benefícios não os tornarem melhores, eles os tornarão culpados, e passíveis de um castigo mais severo. Assim, o modo de justificação que você me indicou resulta ser sem valor; não apenas não salvaria, como exporia a uma perda mais completa aqueles que lançassem mão dele. É preciso que busquemos um asilo mais seguro”.

Basílio respondeu-me: “Onde poderemos encontrá-lo? Já não sei onde estou, tanto temor me inspira o que você acabou de falar”.

Eu disse: “Pela graça, meu amigo, eu lhe conjuro, não se desencoraje. Nós temos esse asilo; para os fracos, como eu, ele consiste em não se arriscar; para os fortes, como você, a colocar a esperança da salvação no cuidado de nada fazer, com a graça de Deus, que seja indigno de seu cargo, nem Daquele que lho confiou. Certamente os grandes suplícios não têm nada que seja severo demais para aqueles que, depois de obter, à força de disputas, as dignidades do santuário, nele se comportam com indolência, ou com escândalo, ou com incapacidade; mas daí não se segue que não haja esperança de perdão para os que nada disputaram; não, quanto a esses, nada terão que dizer para se escusar. Mesmo exigidos, pressionados por milhares de vozes e votos, eles nada levarão em conta; o que é necessário, acima de tudo, é examinar a si mesmo, jamais ceder às obsessões diante desse olhar que perscruta até o fundo da alma. Ninguém se põe a construir uma casa, se não for arquiteto; ou a curar as moléstias, se não for médico. Por numerosos que sejam os que querem obrigá-lo, é preciso recusar e não enrubescer por confessar ignorância; e quando se trata de tomar como encargo um enorme número de almas, não será necessário nos interrogarmos para saber se somos capazes? E, não obstante a mais completa incapacidade, há quem aceite o santo ministério por complacência com fulano, ou porque cicrano o exige, ou por medo de ofender beltrano! Não equivale isso a correr junto com eles para uma perda certa? Ao invés de nos salvar-nos sozinhos, danamo-nos, a nós e aos outros. De que lado esperar a salvação? Como obter o perdão? Quem serão nossos intercessores? Talvez esses temerários que usaram de violência e que arrastaram o infortúnio a um perigoso extremo? Mas quem os poderá salvar, quando eles mesmos precisarem do auxílios de outros, se quiserem evitar o fogo do inferno?”.

2.      Quando falo assim não é com a intenção de assustar, mas de mostrar a verdade nua. Escute o que disse o apóstolo São Paulo a seu discípulo Timóteo, seu verdadeiro e caro filho: ‘Não se apresse a impor as mãos sobre ninguém, para não participar dos pecados de outrem[6]’. Veja, eu já não digo de que vergonha, mas de que castigo eu salvei, na medida em que pude, aqueles que desejavam minha promoção? Como não bastaria ao eleito dizer que não solicitou ser elevado, eu não fugi, porque não imaginei que pensassem em mim; da mesma forma, seria uma escusa vã para o eleitor dizer que não conhecia aquele a quem iria conceder seu voto. Essa pretensa justificação não faz mais do que agravar o erro. Qual! Não se adquire um escravo sem antes consultar os médicos, sem pedir garantias, sem tomar informações dos seus vizinhos; não contentes com isso, ainda se exige um tempo para testá-lo; mas quando se trata de escolher o sacerdote de Jesus Cristo, sem tomar tantos cuidados, toma-se o primeiro que aparece, desde que essa escolha seja do gosto desse ou daquele eleitor, instrumento dócil do favor ou do desfavor de um terceiro! Mas isso é absurdo. Sendo assim, quem implorará por nós a clemência divina, quando os mesmos que deveriam ser nossos defensores necessitam quem os defenda?”.

“É dever do eleitor dedicar-se a um exame aprofundado, e também é dever do candidato; pois ainda que os que o elegem devam carregar junto com ele a pena pelos seus pecados, isso não significará impunidade para ele. Ele deverá mesmo receber a maior parte do castigo, a menos que os eleitores não tenham agido por um motivo puramente humano, e contra todas as luzes e as inspirações de suas consciências. Se eles estiverem conscientes do crime que constitui terem introduzido no santuário, por motivos quaisquer, uma pessoa notoriamente indigna aos seus olhos, o mesmo castigo estará reservado a todos, e talvez maior àqueles que concederam as ordens. Que responsabilidade recairá sobre a cabeça do temerário que concede ao inimigo de Cristo o poder de devastar Sua Igreja! Pois, se o eleitor não é culpado nesse ponto, se ele diz ter sido enganado pela opinião pública, isso não bastará para absolve-lo inteiramente, mas ele será menos punido do que o eleito. Por que? Porque os eleitores podem ser enganados pela opinião pública ao dar seus votos. Mas ao eleito não será admitido dizer que não conhecia a si próprio, do mesmo modo como não era conhecido pelos demais”.

“Assim como ele deverá ser punido mais severamente do que os que o elegeram, ele deve também examinar a si mesmo e se testar com mais cuidado do que todos os demais. E, se as pessoas que não o conhecem bem quiserem constrange-lo a aceitar, ele deve procurá-los, declarar a eles seus defeitos, tirá-los do erro e se recusar absolutamente a receber sobre suas espáduas um fardo que não será capaz de suportar. Pois quando se trata da arte militar, do comércio, da agricultura ou de qualquer outra profissão da vida civil – por que jamais vemos um agricultor se meter a empreender uma viagem por mar, ou um soldado abrir uma empresa, ou um piloto conduzir uma expedição militar, ainda que se tente constrange-los sob pena de morte? É porque eles preveem perigo ao qual que sua incapacidade os exporia. Para interesses tão mínimos, quanta prudência! Nenhuma violência os faria ceder. Mas quando se trata do suplício eterno que ameaça os dispensadores infiéis dos dons sublimes do sacerdócio, já não se tem senão indiferença em face de tão grande perigo, e a ele se expõem as pessoas com o coração alegre, baseando-se no pretexto de que não houve constrangimento. O soberano juiz não admitirá semelhante escusa. É nosso dever dedicar mais precauções e cuidados aos interesses do espírito do que àqueles da carne. Ora, isso é exatamente o contrário do que fazemos. Você deseja construir um edifício e imagina que será um arquiteto hábil alguém que não entende nada de arquitetura; você o chama, ele vem e começa a trabalhar; mas assim que ele coloca a mão nos materiais preparados para a construção, ele estraga tudo: as madeiras, as pedras; em resumo, ele constrói tão mal o edifício, que ele não pode deixar de ruir em pouco tempo; bastará em sua defesa ele dizer que foi constrangido a fazê-lo, que ele não se apresentou de sua própria vontade? Absolutamente, responderão a razão e a justiça. Ele deveria, apesar de todas as solicitações, declinar da empresa. Mas, como! Um homem que tenha estragado as madeiras e as pedras não encontrará uma desculpa válida para escapar ao castigo; e aquele que perde as almas, que coloca tanta negligência em edificá-las, a esse bastará, para evitar o castigo, dizer que foi constrangido? Que não se fie nisso! Estará grosseiramente enganado.

“Ainda não é hora de demonstrar que ninguém pode violentar alguém que está determinado a recusar. Concordo, por um momento, que alguém tenha sido realmente constrangido; que com ele foram usadas tantas astúcias, que ele foi obrigado a se submeter: você pensa que por causa disso ele evitará a punição? Desiluda-se, e não finjamos ignorar aquilo que até as crianças sabem. No dia em que todas as contas forem prestadas, essa pretenda ignorância não servirá para nada. Você não fez nenhum esforço para ser promovido ao santo ministério, por conhecer sua própria fraqueza: muito bem! Seria então necessário perseverar nessas sábias disposições e não aceitá-lo, apesar de todas as solicitações. Qual! Você não tinha nem talento, nem virtude, tanto que ninguém pensava em você, mas assim que alguém disse: “suba”, você se tornou subitamente um outro homem! Isso não passa de uma gaiatice, até mesmo de loucura, para a qual nenhum suplício será severo demais. Não disse nosso Senhor: ‘quem deseja construir uma torre não deve iniciar as fundações sem antes haver calculado suas forças, se não quiser se tornar motivo de riso dos demais[7]’? E nesse caso, todo o risco que se corre é o de suportar algumas zombarias; aqui, trata-se de uma punição bem diferente, do fogo eterno, do verme que não morre, do ranger de dentes, das trevas exteriores, da separação dos bons, de um lugar no inferno entre os hipócritas”.

“Eis o que não querem ver aqueles que me acusam. De outro modo, eles não me apontariam como crime o fato de não ter corrido apressadamente para minha própria perda. Não se trata aqui de cultivar o trigo ou a cevada, de apascentar bois ou ovelhas, nem de cuidar de alguma mercadoria semelhante; trata-se do próprio corpo de Cristo. Pois, segundo São Paulo, a Igreja é o próprio corpo de Jesus Cristo. Convém assim que aquele a quem esse corpo foi confiado, trabalhe para mantê-lo em perfeita saúde e numa beleza irrepreensível, como lhe convém; que, por meio de uma supervisão ativa, ele o preserve das manchas, das rugas, em suma, de todo de defeito que possa alterar sua forma e brilho; não deve ele, de fato, na medida em que o permita a natureza humana, mostrá-lo digno do divino chefe, do chefe imortal e bem-aventurado que o domina? Se os que desejam estar prontos para os combates dos atletas precisam de médicos, de instrutores, de um regime minuciosamente observado, de exercícios contínuos e de mil outros cuidados, como aqueles que são escolhidos para governar o corpo de Jesus Cristo, cujo exercício não é corporal, mas espiritual, consistindo em combater os poderes invisíveis, poderão conservar-lhe a saúde e o vigor, se não possuírem todos os métodos necessários para tratá-lo de suas enfermidades, e se não estiverem dotados de uma virtude sobre-humana?”.

3.      “Não sabe você que o corpo místico está sujeito a mais enfermidades e acidentes do que nosso corpo material, que ele se altera mais depressa e se cura com mais dificuldade? Ora, aqueles que tratam dos nossos corpos inventaram uma grande variedade de remédios, toda espécie de instrumentos e aparelhos, bem como alimentos apropriados a cada espécie de doenças: algumas vezes basta uma simples mudança de ares, ou o sono adequado, bastam para curar a doença e tirar o médico do embaraço. O tratamento das doenças espirituais não tem os mesmos recursos. Além de um bom exemplo, o ministério sacerdotal não conhece outro método para curar, senão a predicação. Somente a palavra lhe serve de instrumento, de alimento e de ar salubre. A palavra é o remédio que ele administra, a palavra é o fogo de que se serve para cauterizar, a palavra é o ferro com o qual ele corta: ele não tem outras coisas à sua disposição; se a palavra for impotente, o sacerdote chegou ao fim dos seus recursos. Pela palavra levantamos a alma abatida, devolvemos ao seu estado natural aquela que está inchada, afastamos as superficialidades, preenchemos as faltas; em resumo, é por meio dela que fazemos todas as operações que podem ser úteis à saúde da alma”.

“Nos que se refere ao bom regramento da vida, o exemplo dos outros pode estimular nossa emulação e nos levar a imitá-los; mas quando se trata de curar uma alma imbuída de uma má doutrina, o emprego da palavra é indispensável, não apenas para confirmar aqueles que pensam como nós, como para combater nossos adversários. Se estivéssemos armados com a espada do espírito e o escudo da fé até o ponto de fazermos milagres e fecharmos a boca dos incrédulos à custa de prodígios, poderíamos passar sem o auxílio da eloquência; mas eu me engano, pois ela será sempre útil e necessária. O apóstolo Paulo fazia uso dela, embora o brilho de seus milagres ofuscasse todos os olhares. Outro membro desse mesmo colégio dos apóstolos nos exorta a não negligenciar o poder da palavra: ‘Estejais prontos, disse ele, a responder a quem quer que vos peça contas da esperança que há em vós[8]’. Santo Estevão e os demais diáconos não foram colocados a serviço das viúvas, senão para deixar aos apóstolos tempo para se dedicar ao ministério da palavra. Todavia, o dom da palavra nos seria menos indispensável se tivéssemos o dom dos milagres. Mas como não restou entre nós nenhum vestígio desse último poder, e como numerosos inimigos não cessam de nos ameaçar de todos os lados, é preciso necessariamente que estejamos armados com a espada da palavra, tanto para repelir seus ataques, como para feri-los por nossa vez”.

4.      “É por isso que devemos cuidar para que a palavra de Jesus Cristo habite em nós com abundância[9]; porque devemos nos manter prontos para todas as sortes de combates; estamos diante de inimigos diversos, numerosos, que não se servem das mesmas armas nem seguem o mesmo plano de ataque. É preciso assim que aquele que deseja enfrentá-los conheça seus diferentes modos de combate, que saiba manejar igualmente o arco e a funda, que seja ao mesmo tempo infante e cavaleiro, soldado e capitão, pronto para os combates no mar e para os ataques aos postos terrestres. Nos combates normais, basta, para sustentar o choque com os inimigos, que cada um se mantenha em seu posto; naqueles aos quais nos referimos, é preciso conhecer a fundo cada uma das peculiaridades da arte do ataque e da defesa. Se houver um único local mal guardado, o inimigo saberá descobri-lo e introduzir no capril seus demônios devastadores para roubar as ovelhas; mas ele não tentará isso, se perceber que terá que enfrentar um pastor vigilante, que está a par de suas manobras artificiosas”.

“É preciso que estejamos munidos de todos os lados. Uma cidade cercada inteiramente por boas muralhas, ri dos esforços dos assaltantes e vive em segurança; mas basta que uma brecha seja aberta na muralha, da largura de uma porta, e todo o restante do cercamento já de nada serve, ainda que esteja em bom estado. O mesmo acontece com a cidade de Deus. Enquanto a solicitude e a prudência do pastor lhe servem de muralha e cercamento, as tentativas do inimigo se voltam contra ele, e ninguém está em perigo na cidade; mas, por menor que seja feita uma abertura ali, a queda de uma só parte arrasta consigo rapidamente a ruína de tudo”.

“Com efeito, de que serviria derrotar os Gentios, se os Judeus saqueassem o lugar? Ou triunfar sobre Gentios e Judeus, se os Maniqueus o entregassem à pilhagem? Qual o ganho em ter vencido os Maniqueus, se os fatalistas viessem degolar carneiros em plena Igreja? Mas de que serve apresentar aqui um catálogo completo das heresias inventadas pelo Diabo, das quais basta uma, se o pastor não souber repelir a todas, para lançar o rebanho inteiro na goela do lobo? Na guerra, é preciso estar presente no campo de batalha para vencer ou sucumbir; aqui, acontece com frequência que um combate entre dois lados acaba por dar a vitória a um terceiro que não havia aparecido no começo da ação, e que, por ser estranho à disputa, permanecera calmamente sentado em sua tenda. Ou bem, por ter negligenciado em se exercitar previamente, nos ferimos com nossas próprias armas, tornando-nos o riso de amigos e inimigos. Vou esclarecer meu pensamento por meio de um exemplo: os seguidores da loucura de Valentim e Marcion, além de outros doentes cuja moléstia é da mesma espécie, separa do cânone das divinas Escrituras a lei dada a Moisés pelo Senhor; por outro lado, os Judeus têm tão grande respeito por essa lei, que hoje, malgrado sua ab-rogação, eles ainda sustentam que se deve guardar todos os seus preceitos, ainda que contra os mandamentos do próprio Senhor; mas a Igreja de Deus, evitando ambos os excessos, tomou o caminho do meio: a Igreja não pensa que se deva carregar o jugo dessa lei, mas não tolera que a maldiga. Ela ainda a elogia, ainda que tenha sido suprimida, porque se trata de uma lei que foi útil durante o tempo em que esteve em vigor”.

“Para combater inimigos tão opostos entre si, é preciso manter um temperamento justo; pois, se ao querer ensinar aos Judeus que não é mais tempo de praticar as cerimônias dessa antiga lei, começamos a criticá-la sem reservas, daremos motivos aos heréticos que a rejeitam por completo; mas, se fecharmos a boca desses, como se ainda fosse preciso observá-la nos tempos atuais, abrimos o caminho para as declamações dos Judeus. Excessos contrários foram postos fora da verdadeira lei, tanto os maníacos sectários de Sabélio, como os Ários furiosos. Uns e outros utilizam o nome de cristãos; mas quando examinamos o fundo de suas doutrinas temos a convicção de que, ponto por ponto, os primeiros não valem mais do que os Judeus, e que os segundos se aproximam da heresia de Paulo de Samosate; e que, aliás, ambos se encontram igualmente longe da verdade”.

“Corremos grande perigo nos encontros com esses hereges, e caminhamos por uma via apertada, escarpada de ambos os lados com precipícios. Devemos temer que, pretendendo atingir um desses adversários, descobrimos nosso flanco ao outro. Com efeito, se dizemos que a divindade é una, logo Sabélio explora a proposição em proveito de sua louca impiedade; por outro lado, se a distinguimos e dizemos que um é o Pai, outro o Filho e outro o Espírito Santo, eis que Ários deduz, da diferença entre as pessoas, pela diversidade da essência. É preciso rejeitar igualmente a ímpia confusão de um e a divisão não menos sacrílega do outro; evitamos esses dois escolhos confessando que a divindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo é uma, e reconhecendo as três Pessoas ou Hipóstases; é assim que podemos construir uma muralha contra o duplo ataque dos nossos inimigos. Eu poderia ainda assinalar muitos outros encontros, onde precisamos unir o ardor da coragem à precisão das manobras, sob pena de nos retirarmos cobertos de ferimentos”.

5.      “Quanto não teríamos nós a dizer das contendas e das disputas que se levantam entre os fiéis? Não menores do que os ataques vindos de fora, eles dão ainda mais trabalho àquele que ensina. Uns, levados pelo excesso de curiosidade, se ocupam, sem razão e por pura fantasia, de questões impossíveis de resolver, e cuja solução não conduz a nada de útil. Outros pedem contas a Deus de seus julgamentos; eles tentam medir o abismo sem fundo de seus conselhos: ‘Vossos julgamentos, diz o Profeta, são um abismo infinito[10]’. Poucos são os que se aplicam em conhecer os dogmas da fé e a regra dos costumes: muitos perdem seu tempo estudando aquilo que jamais conhecerão, e cujo estudo, por si só, já é uma ofensa a Deus. Pretender penetrar absolutamente naquilo que Deus nos proibiu saber, constitui um esforço inútil (quem seria capaz de violentar a Deus?), esforços culpáveis e perigosos. E, no entanto, se lançarmos mão da autoridade para reprimir esses pesquisadores de coisas inencontráveis, atrairemos a reputação de orgulhosos e de ignorantes. Esse é mais um ponto que exige do bispo uma grande prudência, tanto para afastar os espíritos de questões ociosas e absurdas, como para evitar acusações embaraçosas. Contra tantas dificuldades, a única arma que ele possui é a palavra, nada além da palavra. Se ele for desprovido de palavras, as almas, cujo governo lhe foi confiado, e em especial as almas fracas e exaustas pelo excesso de curiosidade, ficarão numa agitação contínua, como um navio batido pela tempestade: o que não deve então fazer um sacerdote para adquirir o talento com as palavras?”.

6.      Basílio disse: “Então, por que o apóstolo Paulo não se preocupou em adquiri-lo? Pois ele não se envergonhava de sua pobreza em matéria de eloquência; mas ele confessava abertamente sua ignorância, ao escrever aos Coríntios, admirados com seu excelente modo de falar, do qual gostavam tanto”.

Eu respondi: “É precisamente essa passagem que você alude que enganou a muitos, e os tornou negligentes no estudo da verdadeira doutrina. Na falta de ir ao fundo do pensamento do Apóstolo, e de compreender o sentido de suas palavras, eles passaram toda a vida na sonolência e na preguiça, seguidores fiéis da ignorância, não daquela confessada por São Paulo, mas de outra, da qual ele estava mais afastado do que de tudo nesse mundo. Mas reservarei esse ponto para mais tarde, e, para o momento, suponhamos que o Apóstolo tenha ignorado a arte de falar, como se pretende, e nesse caso o que podemos concluir dos homens de nosso tempo? Ele possuía um poder bem superior à eloquência, e capaz de produzir grandes efeitos; pois sua simples presença e figura, sem que sequer precisasse abrir a boca, bastavam para fazer tremer os demônios. Se todos os homens de hoje se pusessem a orar e chorar, eles não poderiam tanto quanto o podiam as simples vestes de São Paulo. Paulo ressuscitava os mortos com suas orações; ele operava tantos prodígios, que era visto como um Deus pelos infiéis. Ainda que revestido de um corpo mortal, ele foi considerado digno de ser arrebatado ao terceiro céu, e de ouvir coisas que o ouvido humano não é capaz sequer de escutar. Mas os homens de nossos dias... Eu paro por aqui, para não dizer nada que seja demasiado severo. Minha vontade não é de insultá-los; eu apenas me espanto de que eles não enrubesçam de se comparar àquele grande homem”.

“Com efeito, se considerarmos, não mais os prodígios, mas a vida do bem-aventurado Apóstolo, e sua conduta angélica, nós os veremos ainda mais triunfante por suas virtudes do que pelos seus milagres. Quem poderia representar a vivacidade de seu zelo, sua doçura, os constantes perigos, sua incessante solicitude, sua ansiedade constante pela salvação de todas as Igrejas; sua compaixão para com os que sofrem, suas tribulações; as perseguições renovadas sem cessar, suas mortes todos os dias? Qual lugar da terra habitada, qual continente, qual mar, não conheceram os combates desse justo? O próprio deserto o viu mais de uma vez, quando lhe ofereceu abrigo contra o perigo. Não há embustes a que ele não tenha sido exposto, mas também não há vitória que ele não tenha obtido. Sempre combater, sempre vencer, essa foi sua vida”.

“Mas estarei eu sendo suficientemente respeitoso com esse grande homem, ao ousar fazer seu elogio? Não estão seus grandes atos acima de todos os discursos, e tão acima dos meus quanto estão acima de mim os grandes oradores? Entretanto, persuadido de que o bem-aventurado Apóstolo teria mais atenção à intenção do que ao sucesso, não me deterei sem que fale de um ato que ultrapassa a tudo o que eu disse, tanto quanto São Paulo ultrapassa a todos os mortais. Que ato é esse? É que, depois de tão belas ações, e depois de ter merecido uma infinidade de coroas, ele aceitou ir ao inferno, a ser entregue a um suplício eterno para salvar e entregar a Jesus Cristo esses Judeus, que tantas vezes o lapidaram, e que o teriam morto se pudessem. Alguém mais amou Jesus Cristo a esse ponto, se é que podemos chamar de amor a esse sentimento que necessitaria de um termo ainda mais expressivo?”.

“Podemos nos comparar ainda com tal homem, depois da imensa graça que ele recebeu do alto, e da enorme virtude que ele extraiu do fundo de si mesmo? Isso seria o cúmulo da presunção e da temeridade. Mas era ele tão ignorante quanto pretendia? Absolutamente, como veremos. Chamamos de ignorante, não a quem não é versado nos prestígios da eloquência profana, mas a quem não sabe combater pela defesa dos dogmas e da verdade; e nisso temos razão. Ora, Paulo não se declarou ignorante sob o primeiro e o segundo aspecto, mas apenas sob o primeiro. Ele próprio o afirmou, e fez expressamente essa distinção, ao dizer que ele era ignorante na arte da palavra, mas não na doutrina[11]. É bem verdade que, se ao ministro da santa palavra, eu pedisse a polidez de Isócrates, a veemência de Demóstenes, a majestade de Tucídites, a sublimidade de Platão, poder-se-ia opor a isso a passagem de São Paulo mencionada acima, mas eu inocento de tudo isso o pregador do Evangelho; para mim são coisas supérfluas todas essas disposições oratórias dos profanos; que me importam toda a harmonia dos períodos e as elegâncias das declamações? Que seja pobre, se quiser, pela dicção, que seja simples e sem arte no arranjo das palavras, desde que seja rico em ciência e que possua a arte de jamais falhar na regra dos dogmas; mas não permitirei que se chegue, para desculpar sua própria negligência e preguiça, arrebatar de São Paulo a mais ilustre de suas vantagens, e seu principal título a merecer a admiração geral”.

7.      De que modo confundiu ele os Judeus de Damasco[12], antes de ter começado a fazer milagres? Como arrasou ele os Judeus helenistas?  Por que foi ele enviado a Tarso[13], senão porque com a força irresistível de sua palavra ele vencera todos os seus adversários, e os pressionou de tal maneira que, não podendo suportar a derrota, eles se exasperaram a ponto de jurá-lo de morte? Pois, repito, nesse momento ele ainda não havia feito milagres. Não podemos assim dizer que, admirando-o a multidão como taumaturgo, tenham sido arrasados seus adversários pela imposição de seu renome. Ele até então não tinha outro poder do que a força de suas palavras. De que armas se serviu ele em Antioquia para combater os judaizantes[14]? Não foi somente por sua eloquência que em Atenas, a cidade mais supersticiosa do mundo, ele conquistou o Areopagita e sua esposa? Que encanto maravilhoso não possuía ele ao falar, pois passava-se a noite a ouvi-lo, como atesta Eutíquio que caiu da janela? Em Tessalônica, em Corinto, em Éfeso, em Roma, que fez ele? Ele pregou por dias inteiros, e por noites inteiras, explicando as Escrituras, discutindo com epicuristas e estoicos. Eu não terminaria nunca, se fosse mencionar todas as ocasiões em que ele mostrou seu talento pela palavra”.

“Antes que tivesse feito milagres, assim como ao longo de seus prodígios, nós o vemos usando frequentemente da palavra. Então, quem ousará chamar de ignorante a alguém que, quer estivesse em lide com um adversário, quer estivesse discursando perante uma multidão, fazia a admiração de todo mundo? Os Licônios pensavam ver nele Mercúrio; seus milagres, e os de Barnabé, os fizeram passar por deuses; mas somente a eloquência bastou para que Paulo fosse tido como o deus da eloquência[15]. Não foi assim que ele ultrapassou a todos os demais Apóstolos? Por qual outro motivo, por toda a terra seu nome se encontra com tanta frequência na boca dos homens? De onde vem que ele seja mais admirado do que todos os outros, não apenas entre nós, mas mesmo entre os Gregos e os Judeus? Não será por causa do prodigioso mérito de suas epístolas, que tanto bem fizeram aos fiéis de seu tempo e aos que vieram depois, e ainda aos que estão por vir, até o advento final de Cristo? Pois elas não deixarão de ser úteis aos homens enquanto durar o gênero humano. Seus escritos admiráveis são como uma muralha de diamante que envolve e protege as Igrejas em todas as partes do mundo. Campeão imortal de Cristo, ele permanece ainda hoje de pé no centro da Igreja, acorrentando todos os pensamentos sob obediência a Cristo, derrubando os presunçosos, abatendo toda altivez que se eleva contra a ciência de Deus[16]. Ora, tudo isso ele fez por meio das admiráveis epístolas que nos deixou, epístolas todas cheias de sabedoria divina”.

“Seus preciosos escritos serviram não apenas para derrubar as falsas doutrinas e para o sólido estabelecimento da verdadeira fé, como ainda foram de grande utilidade para instituir a regra dos bons costumes. É por meio deles que até hoje os bispos vestem e ornamentam a casta Virgem que ele denominou como sendo a esposa de Jesus Cristo, e que eles trabalham para conformar nela todos os traços da beleza espiritual; é por meio deles que eles afastam os males que rondam a Igreja, e conservam a saúde de que ela desfruta. Tais são os remédios que esse ignorante nos legou, e tal é sua virtude, como ensina a experiência àqueles que deles se utilizam continuamente. De tudo isso, concluímos que São Paulo dava grande importância ao talento da palavra”.

8.      “Escute agora em que termos Paulo escreve a seu discípulo: ‘Aplique-se à leitura, à exortação, à instrução’. E, para mostrar-lhe os frutos que ele extrairia daí, ele acrescenta: ‘Com isso você se salvará, e a todos os que o escutarem[17]’. E, em outra parte: ‘Um servidor de Deus não deve discutir; que ele seja manso com relação a todos, capaz de instruir e paciente[18]’. Em seguida, ele diz: ‘Quanto a você, permaneça firme no que aprendeu e que lhe foi confiado, sabendo de quem o aprendeu, lembrando-se de que, desde a sua infância, você foi instruído nas letras santas capazes de iluminá-lo para a salvação[19]’. E ainda: ‘Toda escrita que é divinamente inspirada é útil para ensinar, para repreender e para corrigir, para conformar à justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito[20]’”.

“Escute ainda o que ele diz a Tito sobre a ordenação dos bispos: ‘É preciso que um bispo esteja ligado à verdadeira palavra, àquela que é conforme ao ensinamento, a fim de que ele possa convencer os contraditores[21]’. Como então um ignorante poderá convencer os contraditores da verdadeira fé, e calar-lhes a boca? De que serve aplicar-se à leitura e às Escrituras, e ao mesmo tempo manter-se nessa ignorância? Isso não passa de desculpas vãs e falsos pretextos, atrás dos quais se escondem a preguiça e a indolência”.

“Mas, dir-me-ão, esses conselhos estão endereçados aos sacerdotes. E eu responderei desde logo que é exatamente deles que se trata aqui. Mas acrescento que eles também se dirigem aos simples fiéis, pois escute o que diz o Apóstolo em outra epístola, desta vez falando não apenas aos sacerdotes, mas a todo mundo: ‘Que a palavra de Cristo habite em vocês abundantemente e com toda sabedoria[22]’. E mais: ‘Que todas as suas palavras sejam acompanhadas da graça, e temperadas com o sal da sabedoria, de modo a que vocês saibam responder a cada um como convém[23]’. Ora, o preceito de que estejamos prontos a responder diz respeito a todo mundo. Escrevendo aos Tessalonicenses, ele diz: ‘Edifiquem uns aos outros, como costumam fazer[24]’. Quando ele fala aos sacerdotes, eis o que ele diz: ‘Que os sacerdotes que bem governam sejam duplamente honrados, principalmente os que trabalham para a predicação e a instrução[25]’. Pois o fim último da perfeição é alcançado na instrução quando, tanto por seus exemplos como por suas palavras, os pregadores conduzem os homens à vida bem-aventurada preparada por Jesus Cristo. Somente os exemplos não bastam para instruir; e não sou eu que o digo, mas o próprio Salvador: ‘Aquele que praticar e ensinar será chamado de grande[26]’. Se praticar fosse a mesma coisa que instruir, seria supérfluo acrescentar o segundo; bastava dizer ‘aquele que praticar’. Mas ao distinguir as duas coisas, nosso Senhor nos ensina que as obras não são as palavras; e que, para edificar perfeitamente os povos, o exemplo e os discursos devem auxiliar uns aos outros. Você não escutou o que disse o vaso de eleição aos sacerdotes de Éfeso: ‘Vigiem, e não se esqueçam que durante três anos, noite e dia, eu não cessei de advertir com lágrimas a cada um de vocês[27]’. Por que essas lágrimas, esses discursos, essas advertências, enquanto que o brilho de sua vida apostólica ainda estava tão vivo? Sem dúvida, o bom exemplo contribui muito para o cumprimento dos mandamentos; porém, mesmo nessa parte, não ousarei dizer que basta”.

9.      Quando se desenrolar um combate no terreno do dogma, e tivermos que combater com armas tiradas das divinas Escrituras, de que nos servirá a santidade da vida? De que servirão as fadigas e o suor, se depois dessas austeridades cairmos na heresia por ignorância, e formos separados do corpo da Igreja? Conheço muitos que sofreram essa infelicidade. Que frutos obtiveram eles de sua paciência? Nenhum; não mais do que se possuíssem uma fé santa e uma conduta viciosa. É preciso, portanto, uma grande habilidade nesses combates pela fé¸ para quem está encarregado de ensinar os demais. Ainda que ele seja inabalável na fé e invulnerável aos golpes do inimigo, a multidão de almas simples que lhe está submetida, vendo seu chefe vencido e reduzido ao silêncio por seus contraditores, mostrará não a imbecilidade do homem, mas a fraqueza do dogma; e assim, a ignorância de um único causará a perda de todo o povo. Ele não se entregará imediatamente ao inimigo, mas começará a duvidar dos princípios, mesmo os mais acreditados; já não se verá mais tão solidamente ligado a determinadas crenças, que havia antes abraçado com todas as forças de sua fé. A derrota do mestre produz nas almas uma tempestade tão violenta, que só pode terminar em naufrágio. Dizer-lhe agora quais calamidades, quais carvões em brasa se acumularão sobre a cabeça do infeliz, que será acusado pela perda de tantos homens, será coisa supérflua; você o sabe melhor do que eu”.

“Eis, portanto, esse crime de orgulho e de vanglória que pretendem me imputar, porque recusei ser a causa da ruína de tantas almas, e assim atrair sobre mim um castigo terrível no dia do juízo. Quem ousará ainda sustentá-lo? Certamente, ninguém; a menos que se pretenda persistir numa acusação sem motivo, e fazer filosofia com a infelicidade de outrem”.




[1] 1 Reis 9: 21.
[2] Números 11: 15.
[3] Cf. Números 20: 12.
[4] Cf. João 12: 6.
[5] João 14: 22.
[6] 1 Timóteo 5: 22.
[7] Lucas 15: 28.
[8] 1 Pedro 3: 15.
[9] Colossenses 3: 16.
[10] Salmo 35: 7.
[11] Cf. 2 Coríntios 11: 6.
[12] Atos 9: 22.
[13] Atos 9: 29-30.
[14] Gálatas 2: 11.
[15] Atos 14: 11.
[16] 2 Coríntios 10: 5.
[17] 1 Timóteo 5: 16.
[18] 2 Timóteo 4: 16.
[19] 2 Timóteo 3: 14-15.
[20] 2 Timóteo 3: 16.
[21] Tito 1: 9.
[22] Colossenses 3: 16.
[23] Colossenses 4: 6.
[24] 1 Tessalonicenses 5: 11.
[25] 1 Timóteo 5: 17.
[26] Mateus 5: 19.
[27] Atos 20: 31.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

São João Crisóstomo - Tratado do Sacerdócio - Livro Terceiro





1.      Eu continuei minha explanação: “Isso quanto à suposta ofensa feita àqueles que me honraram com seus votos, eis o que posso dizer para mostrar que jamais quis ferir alguém quando recusei a dignidade sacerdotal. Desde o começo, não me perdi na neblina do orgulho; e tentarei agora demonstrá-lo até ficar evidente”.

“Se tivessem me oferecido o comando de uma arma da ou o governo de um império, e tivesse eu recusado igualmente, a acusação poderia ter alguma verossimilhança; ou melhor, não haveria quem visse nessa recusa um traço de loucura. Mas quando se trata do Sacerdócio, dignidade que se eleva acima da realeza tanto quanto a alma se eleva acima do corpo, quem ousará me acusar de orgulho? Alguém desdenha um emprego de pouca importância, e se diz que trata-se de um insensato; outro recusa funções de uma ordem incomparavelmente mais relevante, e a esse se concede não acusá-lo de demência, para culpá-lo de orgulho; não é absurdo? Da mesma forma acusar-se-ia não de excesso de amor próprio, mas de alienação mental, a um homem que não aceitasse um rebanho de bois, que não quisesse ser boiadeiro, e ao mesmo tempo seria declarado, não louco, mas apenas orgulhoso, alguém que recusasse o império do mundo e o comando dos exércitos de todos os países da terra”.

“Não, esse raciocínio não se sustenta; e semelhantes calúnias desacreditam muito mais seus autores do que a mim. O único pensamento que podem aqui ter no mundo os homens que desdenham o sacerdócio, trai, dentre aqueles que ousam expressá-lo, a ideia pouco elogiosa que eles têm de si mesmos. Claro, se eles não vissem o santo ministério como uma coisa banal e de pouca valia, tal suspeita lhes viria ao espírito? Por que jamais alguém ousou supor algo semelhante a respeito da dignidade dos anjos, dizendo: eis uma alma humana que recusou por orgulho ascender ao nível da natureza angélica? É porque temos, a respeito dessas potências celestes, um alto conceito que não nos permite pensar que um homem possa aspirar a qualquer coisa mais relevante do que seu estado. De sorte que se poderia, com todo direito, acusar de orgulho aqueles que me dirigem tal reprimenda. Jamais, com efeito, eles teriam feito tal suposição a respeito do próximo, se, primeiramente, não tivessem desprezado o sacerdócio como uma coisa sem importância. Dirão eles que o desejo da glória me fez agir assim? Eu os convencerei de que eles refutam a si próprios e se combatem abertamente. Em verdade, não vejo o que eles poderiam ter imaginado de melhor, se quisessem me defender contra a acusação de vanglória”.

2.      “Pois se eu me deixasse levar por esse amor à glória, antes eu deveria aceitar do que recusar. Por que? Porque, aceitando, eu teria adquirido ainda maior glória. Como! Um homem tão jovem, um homem mal saído das confusões do século, e que de repente atrai a admiração do mundo, até ser preferido dentre aqueles que envelheceram a serviço da Igreja, até superá-los pelo número de votos obtidos; o que seria mais apropriado para fazer com que eu formasse a meu respeito uma grande e magnifica opinião, a posar diante dos olhos de todos como um venerável e ilustre personagem? Hoje em dia, ao contrário, com exceção de um pequeno número, toda a Igreja ignora até meu nome. De sorte que minha recusa não será conhecida mais do que de um pequeno número, os quais tampouco conhecerão a exata verdade sobre isso. Provavelmente muitos pensarão, ou que eu não fui eleito, ou que eu fui recusado após eleição por ter sido reconhecido como indigno, e não por ter recusado voluntariamente a eleição”.

3.       Basílio disse: “Mas os que souberem da verdade o admirarão”.

Eu disse: “Mas não me disse você que eles me acusam de vaidade e de orgulho? De quem, então poderei esperar aprovação? Da multidão? Ela ignora o que se passou. De alguns indivíduos melhor informados? Mas desse lado as coisas viraram ao contrário; pois o único motivo que o trouxe aqui agora, foi para saber o que lhes responder. De resto, por que insistir sobre isso com tanto cuidado, uma vez que, ainda que todo mundo fosse informado da verdade, nem por isso poderiam me acusar de orgulho, nem de vaidade; um pouco de paciência, e eu o farei ver isso claramente. Por outro lado, você compreenderá que não apenas aqueles que têm a respeito do sacerdócio uma ideia tão temerária (se é que existem, coisa que de minha parte não creio), como ainda os que atribuem gratuitamente essa temeridade aos outros, se expõem a um perigo terrível”.

4.      “O Sacerdócio se exerce sobre a terra, mas seu lugar está na ordem das coisas celestes: e isso está correto. Pois não foi um homem, nem um anjo, nem um arcanjo, nem nenhuma outra potência criada, mas o próprio divino Paráclito que estabeleceu esse lugar: foi ele quem deu aos homens a sublime confiança de exercer, ainda que revestidos de carne, o ministério dos puros espíritos. É preciso então que o sacerdote seja puro, como se ele estivesse no céu junto com os espíritos bem-aventurados. Que majestosa paramentação havia antes da lei da graça! Como tudo inspirava um santo temor! As sinetas, as granadas, as pedras preciosas que brilham sobre o peito e a éfode do Grande Sacerdote; o diadema, a tiara, o manto que se arrasta no chão, a espada de ouro, o santo dos santos e sua impenetrável solidão! E se considerarmos os mistérios da lei da graça, veremos como era vã a pompa exterior da antiga lei, e compreenderemos bem, nesse caso particular, a verdade de tudo o que foi dito sobre essa lei em geral: o que havia de notável nesse primeiro ministério sequer constitui uma glória, quando comparada à glória supereminente da segunda[1]. Quando você vê o Senhor imolado e estendido sobre o altar, o sacerdote que se inclina sobre a vítima e ora, e todos os fiéis cobertos de púrpura desse sangue precioso, você ainda crê estar entre os homens, e mesmo sobre a terra? Não foi antes você transportado aos céus, e, tendo banido todo pensamento carnal, como se fosse puro espírito, despojado da carne, não contempla você as maravilhas do mundo superior? Ó prodígio! Ó bondade de Deus! Aquele que assenta no alto, à direita do Pai, deixa-se nesse momento tomar pelas mãos de todos, e se entrega aos que desejam recebê-lo e apertá-lo junto ao coração; é isso que se passa aos olhos da fé. Essas coisas parecem-lhe dignas de desdém? São elas de natureza tal que as possamos considerar abaixo de nós?”.

“Vamos considerar a excelência de nossos santos mistérios por um outro prodígio. Imagine Elias, uma multidão imensa de pé ao redor dele, e a vítima estendida sobre as pedras; todos os assistentes aguardando no mais profundo silêncio, apenas o Profeta que ora em alta voz; e, de repente, a chama se precipita do céu para o holocausto. Tudo isso é maravilhoso, e próprio para penetrar a alma de temor. Mas agora passe desse espetáculo para a celebração de nossos mistérios, e verá coisas que excitam e ultrapassam toda admiração. O sacerdote está de pé, e ele faz com que desça do céu, não o fogo, mas o Espírito Santo. Sua oração é longa: ela se eleva, não para que uma chama venha do alto devorar as oferendas que foram preparadas, mas para que a graça, descendo sobre a hóstia, abrase por meio dela a todas as almas, tornando-as mais brilhantes do que a prata depurada no fogo. Não é preciso estar privado de razão e de senso para ser capaz de desprezar um mistério tão temível? Não sabe você que uma alma humana jamais suportaria o fogo do sacrifício, mas que seríamos prontamente destruídos sem o socorro poderoso da graça de Deus?”.

5.      “Se refletirmos que é um mortal, envolvido pelos laços da carne e do sangue, que pode se aproximar dessa natureza bem-aventurada e imortal, ficaremos espantados com a profundidade desse mistério, e ao mesmo tempo penetrados pela grandeza do poder que a graça do Espírito Santo confere aos sacerdotes. É por meio deles que essas maravilhas se realizam, e muitas outras não menos importantes, tanto para nossa salvação como para nossa glória. Criaturas que habitam sobre a terram que têm sua existência ligada à terra, são chamadas à administração das coisas do céu, ao exercício do poder que Deus não concedeu sequer aos anjos e arcanjos! Pois não é a eles que foi dito: ‘O que ligardes na terra será ligado no céu, e o que desligardes na terra será desligado no céu[2]’. Também os poderosos da terra têm o poder de ligar, mas somente os corpos; a ligação de que fala o Evangelho é um laço que arrebata a alma, e tudo o que se estende até os céus, daquilo que aqui em baixo fazem os sacerdotes, Deus o ratifica no alto; o Mestre confirma a sentença dos servidores”.

“Ele lhes deu, por assim dizer, a onipotência no céu. Ele disse: ‘Aqueles a quem perdoardes os pecados, esses lhes serão perdoados; aos que os retiverdes, ser-lhes-ão retidos[3]’.  Pode haver maior poder do que esse? O Pai entregou ao Filho todo julgamento, e vemos agora o Filho entregar esse mesmo poder inteiramente nas mãos dos seus sacerdotes. Não diríamos que Deus primeiramente os introduziu no céu, que os elevou acima da natureza humana e que os libertou das paixões, para em seguida revesti-los dessa suprema autoridade? Se um rei admite que um de seus súditos partilhe de seu poder, concedendo-lhe o privilégio de aprisionar ou libertar a quem melhor lhe parecer, tamanha honra atrairia contra ele a inveja e a consideração de todo o mundo; e aquele que recebe de Deus um poder tão superior àquele, tanto quanto o céu é superior à terra e a alma ao corpo, não terá recebido, segundo o juízo de algumas pessoas, mais do que uma dignidade medíocre, uma dignidade da qual se pudesse pensar que alguém desdenharia tanto a honra como o dom! Que extravagância! Desprezar uma função sem a qual não existe a salvação para nós, nem a realização das promessas divinas! Ninguém pode entrar no reino de Deus, se não renascer da água e do Espírito Santo[4]; quem não comer da carne do Senhor e não beber de seu sangue, estará excluído da vida eterna’[5]. Então, se esses benefícios não podem ser conferidos senão por mãos santificadas, ou seja, pelas mãos dos sacerdotes, de que meio disporíamos, sem seu ministério, para evitar o fogo do inferno, ou para alcançar as coroas que nos foram reservadas?”.

“A gravidez espiritual das almas é seu privilégio; somente eles as fazem nascer para a vida da graça por meio do batismo; por meio deles somos sepultados com o Filho de Deus, por meio deles nos tornamos membros desse Chefe divino. Assim é que devemos respeitá-los mais do que os príncipes e reis, e ainda amá-los mais do que aos nossos próprios pais. Esses nos fizeram nascer do sangue e da vontade da carne; os sacerdotes nos fazem nascer como filhos de Deus; nós lhes devemos nossa feliz regeneração, a verdadeira liberdade da qual desfrutamos, a nossa adoção na ordem da graça”.

“Somente os sacerdotes da antiga lei tinham o direito de curar a lepra, ou melhor: eles não a curavam, mas julgavam se as pessoas estavam curadas; e você sabe com quanto ardor se buscava a dignidade sacerdotal entre os judeus[6]. Quanto aos nossos sacerdotes, não é a lepra do corpo, mas a da alma, que eles receberam o poder de curar, não de verificar, mas de operar a cura por inteiro. Aqueles que os desprezam são assim mais sacrílegos do que Datã e seus companheiros[7], e merecedores de um castigo mais severo. Eles, desejando uma dignidade que não lhes cabia, ao menos deram provas de uma estima especial naquilo que faziam, pela própria ambição que os levara à usurpação. Mas hoje em dia, quando o sacerdócio está de posse de uma autoridade e de uma excelência muito mais relevantes do que outrora, desprezá-la constitui um crime ainda mais odioso do que o de pretendê-la por motivos de ambição. Não há nenhuma paridade, sob o aspecto do ultraje, entre pretender uma dignidade cujo direito não se tem, e desprezar os grandes bens que o Sacerdócio guarda em si, tanto está longe a admiração do desdém, tanto o segundo crime é mais grave do que o primeiro. Que alma seria tão miserável para desprezar tão augustas prerrogativas? Nenhuma, a menos que estivesse submetida ao aguilhão e ao poder de Satanás. Mas voltemos ao tema que deixamos para trás”.

6.      “Quer se trate de punições a infligir, quer se trate de graças a distribuir, os sacerdotes receberam de Deus um poder maior do que o de nossos pais na ordem da natureza. Entre uns e outros existe uma diferença tão grande quanto a que há entre a vida presente e a futura. Nossos pais nos geraram para a primeira, os sacerdotes o fazem para a segunda. Aqueles não poderiam nos preservar da morte corporal, nem afastar as moléstias que sobrevêm; esses frequentemente curam a alma enferma e que está perecendo; tanto eles aliviam as penas devidas ao pecado, como eles previnem a própria queda, pela instrução e a exortação e também pelo socorro de suas orações. Eles têm o poder de remir os pecados quando nos regeneram pelo batismo, e mesmo depois. Como disse o apóstolo Tiago, ‘se houver um doente entre vós, que chame pelos sacerdotes da Igreja; que eles orem sobre o doente, ungindo-o com óleo em nome do Senhor; e a prece da fé salvará o enfermo, e Deus o aliviará; e se ele cometeu pecados, esses lhe serão remidos[8]’. Por fim, os pais segundo a carne nada podem fazer por seus filhos, caso esses ofendam algum príncipe ou algum poderoso do mundo. Os sacerdotes os reconciliam, não com príncipes e reis, mas com Deus, quando esse se irrita com eles”.

“Depois de tudo isso, ainda nos vêm acusar de orgulho? Me parece que as razões que expus, se chegassem aos ouvidos de um auditório, seriam capazes de impressionar fortemente suas almas, para que a acusação de orgulho e de audácia fosse lançada, não contra os que fogem do sacerdócio, mas contra aqueles que aí se introduzem por conta própria, e que o buscam com temerária confiança. Se aqueles a quem confiamos a administração de uma cidade a arruínam e perdem a si mesmos, caso não se dediquem com sabedoria e atenção contínuas, de quanta virtude, tanto natural como divina, não deve estar dotado, para não falhar, aquele a quem cabe a missão de adornar a Esposa de Cristo!”,

7.      “Jamais alguém amou a Jesus mais do que São Paulo. Jamais alguém testemunhou por Ele um zelo mais ardente, nem Dele recebeu mais graças; e, no entanto, mesmo com todos esses benefícios, nós o vemos espantar-se com a grandeza de seu ministério e tremer pelos fiéis dos quais foi encarregado. ‘Eu temo, disse ele, que assim como Eva foi seduzida pelas artimanhas da serpente, vocês se deixem corromper e involuir da simplicidade cristã[9]'. E em outra parte: “Eu estive entre vós no temor e na angústia[10]”. Assim falou um homem que foi arrebatado até o terceiro céu, que o próprio Deus se dignou iniciar no conhecimento de seus mistérios, um apóstolo que sofreu tantas mortes quantos dias passou sobre a terra após sua conversão, que se abstinha de usar todo o poder que lhe fora dado por Cristo, a fim de não escandalizar o menor de seus irmãos. Se esse homem, que não se contentava simplesmente em observar os preceitos de Deus, mas que ia além, que jamais buscava seu próprio interesse, mas sempre o dos fiéis a quem governava, se sentia penetrado de um temor contínuo ante o pensamento do ministério do qual fora encarregado, que faremos nós, que estamos acostumados a nos reportar apenas a nós mesmos, nós que não apenas jamais vamos além dos preceitos de Jesus Cristo na prática do bem, como frequentemente ficamos bem aquém do limite rigoroso do dever”.

“Dizia Paulo: ‘Quem sofre, sem que eu sofra com ele? Quem se escandaliza sem que eu queime?’. Assim deve ser o sacerdote, ou melhor, nem isso basta: isso ainda é pouco, é nada em comparação com o que vou dizer”.

“Escute: ‘Eu gostaria que Jesus Cristo tornasse a mim próprio anátema em favor de meus irmãos, eles que são de minha própria raça segundo a carne[11]’. Todo homem que for capaz de proferir essas palavras, cuja alma for sublime o bastante para se elevar às alturas de tal desejo, merecerá ser condenado caso fuja do episcopado. Mas quem se afastar dessa virtude tanto quanto eu, será odioso, não se recusar, mas se aceitar”.

“Se se tratasse de uma eleição para um comando militar, e que aqueles que fossem os eleitores mestres fossem na busca de um ferreiro, de um sapateiro, ou de qualquer outro artesão, para lhe conferir semelhante insígnia, certamente esse miserável não mereceria elogios caso não recusasse, se fizesse de tudo ao seu alcance para não se lançar em tão perigosa honra. Ora! Se para ser bispo bastasse o título, bastasse exercer uma função tal e qual, sem que houvesse risco algum a correr, pode me acusar de vanglória quem quiser. Mas se, para aceitar tal encargo, for preciso uma prudência consumada, e, antes dessa prudência, uma graça especial de Deus, uma retidão de costumes, uma pureza de vida irrepreensível, uma virtude superior às meras forças humanas, eu lhe peço que perdoe a resolução que tomei, de não me expor indiscretamente a uma perda inevitável”.

“Se alguém, mostrando-me um grande navio, cheio de numerosa equipagem, carregado com mercadorias preciosas, me colocasse em seu comendo e me propusesse atravessar o mar Egeu ou o mar Tirreno, eu certamente recuaria em pânico diante da primeira palavra. E se me perguntassem o porquê, eu responderia ser por medo de perder o navio. Pois bem! Numa circunstância em que se trata apenas de riquezas perecíveis, de uma vida que logo irá findar, ninguém se admira que mostremos tanta prudência e desconfiança em relação a nós mesmos; mas diante da apreensão de um naufrágio que diz respeito tanto à alma como ao corpo, e que ameaça, não com os abismos do mar, mas com um precipício de chamas eternas, eu seria alvo da cólera e da raiva, por não ter me atirado imprudentemente em tão temível infelicidade! Que isso não aconteça, eu lhe peço, eu lhe conjuro”.

8.      “Eu conheço minha alma, sua fraqueza, sua pequenez. Eu conheço a grandeza do santo ministério e suas imensas dificuldades. A alma do sacerdote é açoitada por muito mais tempestades do que os ventos que revoltam os mares”.

9.      De todos os recifes contra os quais se pode naufragar, o mais terrível é o da vanglória, abrolho ainda mais perigoso do que o das Sirenas, tão celebrado pelos poetas em suas ficções. Por esse, muitos passaram sem revezes; mas aquele é para mim tão perigoso, que ainda hoje, quando nenhuma violência me empurra a esse abismo, eu sofro todas as penas do mundo para me impedir de nele mergulhar. Colocar sobre meus braços o fardo do episcopado, seria como amarrar minhas mãos às costas, e me atirar, para servir de pasto, às bestas ferozes que se abrigam nesse recife: falo da ira, do abatimento, da inveja, das disputas, da calúnia, das acusações, da mentira, da hipocrisia, dos embustes, das aversões sem objeto, das alegrias secretas causadas pelas quedas e vergonhas de nossos colegas, pelo ciúme que sentimos diante do sucesso dos outros, do amor desordenado aos elogios, da sede das honrarias (uma das paixões que mais corrompem a alma humana); a pregação evangélica se torna um meio para agradar; as adulações servis, a preguiçosa complacência, o soberbo desdém diante dos pobres, os rebaixamentos oficiosos diante dos ricos; os sinais de honra prodigados em razão e não sem prejuízo; as graças igualmente perniciosas, tanto àqueles a quem são concedidas, como aos que as concedem; os temores servis, dignos do último dos miseráveis; a ausência da liberdade sacerdotal; as máscaras afetadas da modéstia, mas nenhuma modéstia no fundo; nenhuma coragem para reprender ou reprimir, ou antes o abuso desse direito perante os pequenos, mas, tratando-se dos grandes, uma licenciosidade que não ousa sequer abrir a boca”.

“São esses os monstros, e eu sequer nomeei a todos, os monstros que esse recife abriga; uma vez aprisionado por eles, seguimo-los por onde nos arrastarem, e descemos tão baixo na servidão que, para agradar às mulheres, fazemos coisas que não convém nem mencionar. É em vão que a lei de Deus excluiu as mulheres desse santo ministério, pois, querendo forçar as portas do santuário por si mesmas e não o podendo fazer, elas fazem tudo pela mão de seus agentes, cuja autoridade usuraram, tendo-os elevado ao episcopado e fazendo-os descer até virar tudo de cabeça para baixo, demonstrando a aplicação do provérbio: os de baixo governam os chefes.  E quisesse Deus que esses de baixo fossem homens! Mas são as mulheres, que sequer têm o direito de ensinar. Que digo eu, ensinar? Pois a elas o bem-aventurado Paulo proibiu até mesmo a palavra dentro da Igreja! Entretanto, pelo que ouvi dizer, deixaram-nas ganhar tamanha liberdade, que as vemos manipular imperiosamente os bispos, e falar-lhes com mais superioridade do que os mestres a seus escravos.

10.   “Não se pense, porém, que eu lanço essas acusações sobre todos os ministros da Igreja. Existem também os que escapam a essa espécie de rede, e são inclusive mais numerosos do que os que se deixam prender. Praza a Deus que eu não seja culpado da imprudência de acusar o sacerdócio desses vícios que não pertencem senão ao homem! O ferro não é culpado das mortes, nem o vinho da embriaguez, nem a força da violência, nem a coragem da temeridade cega; os culpados são aqueles que fazem mau uso dos dons de Deus, e são esses que as pessoas sensatas acusam e punem. É o Sacerdócio que terá o direito de nos acusar, se exercermos mal nossas funções. Longe de ser ele a causa dos males que assinalei; somos nós que o desonramos, na medida em que tais máculas existem em nós, quando o entregamos aos primeiros que aparecem, a homens que, sem ter previamente consultado suas forças, nem atentado para o peso do fardo, em apoderam do sacerdócio como de uma presa que lhes é oferecida; mas quando eles começam a trabalhar, se perdem por sua imperícia, e afligem com males sem número os povos que foram encarregados de conduzir. É essa infelicidade que iria me atingir, se Deus, por piedade de Sua Igreja e pela minha alma, não tivesse prontamente me arrancado de tais perigos”.

“De onde nascem, pensará você, essas perturbações que desolam nossas Igrejas? Por minha conta, não posso assinalar outra causa que a falta de prudência e de circunspecção na escolha e na eleição dos ministros. É preciso que a cabeça seja muito forte para dominar e para dissipar os vapores perniciosos que as partes inferiores do corpo lhe enviam. Se acontecer de ela ser fraca, então, impotente para afastar essas influências malignas, ela se torna ainda mais fraca do que era naturalmente, e arrasta todo o resto à sua ruína. Deus quis prevenir essa infelicidade, e por esse motivo Ele me reteve num nível inferior dentro do corpo místico da Igreja, análogo ao que é ocupado pelos pés no corpo humano: esse é meu lugar natural”.

“Independentemente das qualidades que indiquei, existem muitas outras, meu amigo, não menos necessárias para ser um bom bispo, e das quais sou totalmente desprovido; a primeira de todas, é que o desejo de se tornar bispo jamais ofusque a pura simplicidade do coração. Dificilmente alguém que arde por possuir essa dignidade desfrutará dessa qualidade, pois uma chama de ambição ainda maior crescerá em seu coração para conservá-la; a ambição, cuja violência o empurrará involuntariamente a toda espécie de indignidades, às bajulações, às torpezas, e até ao sacrifício financeiro, se necessário. Quanto aos assassinatos com que alguns encheram as igrejas, às cidades que arruinaram em combate pela conquista ou a conservação dessa dignidade, nem quero falar, de medo de parecer dizer coisas inacreditáveis. Deveria haver pelo sacerdócio um respeito que fizesse temer recebê-lo como encargo; um respeito que fizesse com que os que dele se revestem se demitissem de suas funções caso cometessem qualquer falta mais grave, antes de esperarem pelo julgamento dos outros e pela deposição. Esse seria um meio de atrair para si a misericórdia divina. De outro modo, obstinar-se em ganhar um lugar do qual não se é digno, equivale a se tornar indigno do perdão, a atiçar o fogo da cólera de Deus, por acrescentar ao primeiro pecado um segundo ainda mais grave”.

11.   “Mas onde estão os homens capazes de tão generosa resolução? A sede das dignidades é verdadeiramente algo terrível. E quando eu falo assim, longe de contradizer o bem-aventurado Paulo, eu estou perfeitamente de acordo com ele. Com efeito, eis o que ele diz: ‘Quem deseja o episcopado, deseja uma boa obra[12]’. O que eu condeno, não é a obra em si, mas o desejo de dominação e poder. É preciso sufocar até a última centelha desse desejo, para subtrair a dignidade episcopal ao seu império, e para assegurar o livre exercício de suas funções. Quando não se deseja alcançar o episcopado, não se teme perdê-lo; isento desse temor, é possível agir com toda a liberdade que convém a cristãos. O medo de ser precipitado desse alto posto curva a alma ao jugo da mais humilhante servidão, servidão cheia de males, e que força a faltar tanto ao que é devido a Deus, como ao que se deve aos homens. Nada é mais funesto do que tal disposição. Os mais bravos soldados são aqueles que combatem com ardor e morrem com coragem. Esse é o espírito que deve animar o bispo: é preciso estar pronto, seja para deixar, seja para exercer o cargo, como convém a um cristão, certo de que abandoná-lo assim não lhe trará a menor das honras. Quando nos expomos a cair assim, por não termos consentido com nada que fosse contrário à honra do episcopado, preparamos para nós uma recompensa mais gloriosa, e um castigo mais glorioso aos autores de uma desgraça não merecida”.

“Disse o Senhor: ‘Sereis felizes, quando os homens vos ultrajarem e vos perseguirem, quando digam falsamente toda espécie de mal contra vós, por minha causa; alegrai-vos e tremei de alegria, porque uma grande recompensa vos estará reservada nos céus[13]’. Esse é o caso, quando os próprios colegas cassam e depõem alguém por inveja, por uma frouxa complacência para com estranhos, por inimizade ou por qualquer outro motivo injusto; mas sofrer a mesma perseguição da parte de inimigos declarados é algo de mais meritório ainda, e a malícia dos perseguidores traz então benefícios que é inútil descrever”.

“É preciso assim visitar todos os recantos de nosso coração, e buscar cuidadosamente se alguma chama, mal extinta, desse desejo, não se esconde ali contra nossa vontade. Não basta estar isento dessa paixão desde o começo, é preciso ainda se considerar feliz por tê-la sob domínio, mesmo no seio do poder e da elevação. Quanto àquele que, antes de alcançar as honrarias, nutre em si mesmo esse desejo insaciável e pernicioso, não somos capazes de dizer em qual ardente fornalha ele estará se atirando se conseguir chegar aonde quer. Quanto a mim, confesso – e não creia que minto por modéstia – sinto que essa paixão é grande em mim; e é uma das razões que mais fortemente determinaram a resolução que tomei de fugir.  Aqueles a quem o amor carnal feriu com suas flechas, não sofrem tão rude provação senão quando estão próximos do objeto de sua paixão; afastando-se, o mal cessa; direi o mesmo dos corações ambiciosos que cobiçam a dignidade sacerdotal. A febre que os devora redobra com suas esperanças; eles só se livram dela renunciando à esperança de alcançá-la”.

12.   “Esse motivo não é sem valor, e só ele bastaria para me afastar do sacerdócio. Mas a ele devo acrescentar outro não menos poderoso; qual será? É preciso que um sacerdote seja sóbrio, clarividente; que ele tenha olhos para observar a tudo, pois ele não vive apenas para si, mas para todo o povo[14]. E eu, eu sou preguiçoso, não tenho energia, é com grande dificuldade que procuro minha própria salvação; você mesmo concordará, você cuja amizade é, no entanto, tão atenta em dissimular meus erros. Jejuar, velar, dormir sobre a terra nua, e outras macerações corporais, nem é bom falar; você sabe o quanto estou longe dessas perfeições; e, ainda que as possuísse, como me serviria delas no exercício do ministério episcopal, com essa preguiça e indolência que me são naturais? Esses exercícios, é verdade, são de grande proveito ao solitário encerrado em sai cela, e que não tem mais a fazer do que trabalhar por sua salvação pessoal. Mas o homem que deve se dedicar a um povo inteiro, que concentra em si mesmo os interesses particulares de todos os seus administrados, não vejo que fruto extrairá dessas coisas, a menos que acrescente a elas uma força de alma inquebrantável”.

13.   “Não se surpreenda que, para julgar a energia de uma alma, eu peça outras provas além da austeridade da vida. Com efeito, vemos pessoas para as quais não é problema algum deixar de comer ou beber, e que não se importam se o leito é duro ou mole; existe aquelas que são naturalmente rudes; para outras, é questão de educação, de temperamento, de hábito, coisas que podem tornar fáceis aquilo que para nós parece penoso. Mas os ultrajes, as injustiças, uma palavra ofensiva, um dardo lançado com ou sem reflexão por um inferior, uma reprimenda ao acaso e sem fundamento feita por superiores ou subordinados; isso bem poucos são capazes de suportar com firmeza; você mesmo conhece um ou dois casos. Alguém suporta corajosamente a fome e a sede, mas diante dessas provações pode perder a razão, e, tomado de uma vertigem, se tornará mais furioso do que um animal feroz. São sobretudo esses que nós afastamos do santuário. Que um bispo não se extenue com jejuns, que não ande descalço, que benefício isso traz para o rebanho? Mas um caráter violento, é o que existe de mais fecundo em malefícios para si mesmo e para os outros”.

“Nenhuma ameaça saiu da boca de Deus contra aqueles que não se torturam; mas para os que se encolerizam, é com o inferno e com o fogo do inferno que Ele os ameaça[15]. Quando o homem, presa da vanglória, adquire um grande poder, ele oferece mais alimento ao fogo que o queima; o mesmo acontece com aquele que, no particular ou em pequenas reuniões, não é capaz de dominar sua cólera, e se enfurece por nada. Se ele for colocado à cabeça de um governo, veremos aí um animal feroz, ainda mais enfurecido pelos milhares de provocações que recebe de todos os lados ao mesmo tempo. Já não existe repouso para ele, e para seu povo os males serão incalculáveis”.

14.   “Nada perturba mais a clareza da inteligência, nada ofusca mais a penetração do espírito, do que a cólera, desordenada e impetuosa. A cólera, foi dito, põe a perder até mesmo os sábios[16]. É como um combate noturno, em meio do qual a vista obscurecida já não distingue os amigos dos inimigos, nem o homem honesto do homem desprezível; a cólera faz com todos da mesma maneira; pouco importa o mal que ela faz a si própria; ela se resolve assim, ela sente uma espécie de prazer que tem que satisfazer a qualquer custo. Sim, esse abrasamento do coração não vem sem um certo prazer, e ele chega a exercer sobre a alma uma tirania mais imperiosa do que qualquer outro prazer, e assim vira de cabeça para baixo seu estado normal. A cólera arrasta naturalmente atrás de si o orgulho insolente, as inimizades sem causa, os ódios cegos, as ofensas gratuitas; ela dispõe constantemente às provocações e ultrajes. O que não faz ela dizer, aquele a quem possui! A alma aturdida em seu tumulto, arrastada por sua violência, já não encontra apoio para resistir aos seus violentos ataques”.

Basílio interrompeu-me: “Pare, você já falou muito contra seu pensamento. Quem não sabe que ninguém mais do que fosse é isento dessa doença?”.

Eu lhe respondi: “Mas por que, caro amigo, expor-me a esse fogo? Por que despertar a besta feroz que dorme? Não sabe você que eu devo essa calma, não à minha virtude, mas ao meu amor pela solidão? Quando alguém tem inclinação para a cólera, precisa viver só, ou em sociedade com um ou dois amigos; dessa maneira evitará o incêndio que, ao contrário, irá devorá-lo caso caia no abismo das preocupações de um encargo pesado. E ele não se perderá só, mas arrastará muitos ao precipício, tornando-os menos atentos em manter a moderação. Os povos são naturalmente dispostos a considerar a conduta de seus chefes como um modelo a seguir em sua formação. Como acalmar nos outros as efervescências de humor, quando se é incapaz de dominar a própria? Que homem do povo consentirá em corrigir seus furores, vendo que seu bispo se enfurece? Sua dignidade, que ele expõe ante todos os olhares, não permite que nenhum desses vícios permaneça oculto; até os menores se tornam públicos rapidamente. O atleta que não se expõe, que não luta, esconde facilmente sua fraqueza; mas quando ele se despe e desce à arena, vemos prontamente quem ele é. Da mesma forma, os homens que vivem em retiro e longe dos negócios podem estender sobre seus vícios o véu da solidão. Mas coloquem-nos no mundo, e ei-los obrigados a deixar o manto que os cobria – falo da solidão – e a mostrar desnuda sua alma ante a agitação do século”.

“Tanto os bons exemplos servem para inflamar a santa emulação da virtude, quanto os maus contribuem para espalhar entre os povos o relaxamento e a negligência na observação do dever. É preciso assim que o sacerdote tenha uma alma que irradia beleza e cuja luz ilumine e alegre as almas daqueles que têm os olhos voltados para ele. As faltas dos homens vulgares permanecem enterradas na sombra e só prejudicam aqueles que as cometem. O escândalo de um home que ocupa uma posição elevada no mundo está exposto a todos os olhares e se torna uma espécie de flagelo público, tanto por autorizar a tibieza daqueles que se assustam com os rudes exercícios da virtude, como por desencorajar os que desejariam levar uma vida melhor. Acrescente a isso que as faltas das pessoas individuais, quando conhecidas, não têm uma influência perigosa sobre as disposições dos demais; mas o sacerdote, nada do que ele faz permanece oculto, e cada uma de suas ações, indiferentes em si, tomam um aspecto sério perante a opinião geral. Os erros são medidos mens pela gravidade do delito quanto pela posição daqueles que os comete. Que o sacerdote se revista, por assim dizer, de um zelo estrito, de uma contínua vigilância sobre si mesmo, como se fosse de uma armadura de diamante que não deixa nenhum ponto fraco ou espaço a descoberto por onde possa penetrar o golpe mortal. Tudo o que o cerca tanta a todo tempo feri-lo e abatê-lo, não apenas seus inimigos declarados, como ainda os que fingem ser seus amigos”.

“É preciso escolher, para o sacerdócio, almas semelhantes aos corpos dos três jovens que a graça divina tornou invulneráveis em plena fornalha da Babilônia. O fogo com que estão ameaçados não se alimenta de gravetos, de resina ou de estopas, mas de materiais mais perigosos; é um fogo que não se vê, é o fogo da inveja que envolve o sacerdote com suas chamas devoradoras, chamas que se erguem, que se estendem e se atiram sobre sua vida, e que a penetram por inteiro com uma atividade que jamais o fogo material chegou a ter contra os corpos dos três jovens. Assim que a inveja encontra uma ponta de matéria combustível, sua chama se agarra a ela imediatamente, consumindo essa parte defeituosa; quanto ao restante do edifício, ainda que ele seja mais brilhante do que os raios do sol, ela o destrói com sua fumaça e o enegrece por completo. Enquanto a vida do sacerdote está em perfeito acordo com a regra de seus deveres, nada há para temer das armadilhas de seus inimigos. Mas se uma única irregularidade, por menor que seja, escapar à sua atenção (ainda que isso seja mais do que perdoável, por ser ele homem, e por estar atravessando esse mar semeado de recifes que se chama ‘vida’), e eis que todas as suas virtudes já não lhe servem de nada contra as línguas de seus acusadores; basta um nadinha para ofuscar toda sua vida. Todo mundo julga o sacerdote, e o julga como se ele já não estivesse em sua carne, como se não pertencesse à raiz comum a todos, como se fosse um anjo liberto de todas as fraquezas do homem”.

“Enquanto um tirano é forte ele é temido, bajulado, não se pode derrubá-lo; mas se seus negócios declinam, adeus ao respeito simulado; aqueles que no dia anterior se diziam seus partidários logo se declaram contra ele e lhe fazem guerra; eles procuram os pontos vulneráveis de seu poder e solapam seus fundamentos, destruindo-o afinal. O mesmo acontece a um bispo: mal aqueles que o cercam com suas homenagens e bajulações, crendo-o solidamente estabelecido, o veem balançar, ainda que ligeiramente, aproveitam-se da ocasião e se põem a trabalhar em comum acordo e com todas as suas forças para fazê-lo cair como um tirano, ou pior. O tirano teme sua guarda pessoal; também o bispo se vê reduzido a temer aqueles que dele se aproximam mais de perto. São esses que cobiçam seu posto, são eles que melhor conhecem sua vida e seus negócios. Testemunhas diárias de suas ações, são os primeiros a pegar a primeira falta que lhe escapar, e podem obter crédito em suas calúnias, fazendo passar por grave o que é leve, e assim por a perder seu bispo que sucumbe vítima de suas mentiras. É o contrário da palavra do Apóstolo: ‘Se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele; se é glorificado, todos se alegram com ele[17]’. Contra tais assaltos não existe recurso senão numa piedade a toda prova”.

“Eis o tipo de guerra na qual você quer que eu me engaje. Eis a confusão terrível da qual você crê que eu seja capaz de me defender. Quem lhe disse isso? Se foi Deus, mostre-me seu oráculo e eu me submeterei. Mas se você não possui mais do que a vã opinião dos homens, não se iluda. Numa causa que me é tão fortemente pessoal, não ache ruim que eu confie mais no meu sentimento do que no dos outros; pois ‘ninguém conhece melhor o que existe no homem do que o espírito do homem[18]’, como disse o Apóstolo”.

“Creio ter dito o bastante para persuadi-lo, caso você ainda tivesse qualquer dúvida, de o quanto eu estaria exposto ao ridículo, eu e os que houvessem eleito, se, depois de aceitar o episcopado, eu me visse obrigado a retomar meu primeiro modo de vida”.

“E além da inveja, existe ainda outra paixão mais violente, que arma muitos homens contra um bispo, que é a cobiça que essa dignidade excita. Assim como existem filhos ambiciosos que se afligem com a vida longa de seus pais, existem também homens para os quais a longa duração de um reinado episcopal causa uma impaciência extraordinária. Não ousando atentar contra a vida do titular, eles trabalham por sua deposição com tanto mais ardor, na medida em que cada um aspira substituí-lo, em que cada um espera que a escolha recairá sobre si”.

15.   “Quer que lhe apresente sob outro aspecto essa luta tão pródiga em perigos de toda espécie? Transporte-se a qualquer uma dessas solenidades públicas que acontecem para as eleições eclesiásticas, e observe: tantos quantos indivíduos as compõem, tantas serão as línguas afiadas para destroçar a reputação do sacerdote. Os eleitores se dividem em facções diversas; não existe nenhum acordo dentro do colégio dos sacerdotes, nem entre si nem com seu chefe; ninguém se entende; um quer esse, outro aquele. A causa dessa confusão é que ninguém considera a única coisa que deveria ser considerada, as qualidades interiores. São outros os motivos que decidem a eleição. ‘Aquele ali é de boa família, eu lhe dou meu voto’, diz um; ‘e eu, replica outro, dou o meu àquele outro porque é rico e pode passar sem os recursos da Igreja’; escolhe-se alguém por ter mudado de um lado para outro, ao qual pertence o que vota; outro, porque possui relações de sociedade ou de parentesco; outro, porque soube captar as simpatias com bajulações. Mas, terão eles as virtudes e os talentos necessários? Isso é coisa que não embaraça ninguém”.

“Quanto a mim, estou tão longe de considerar esses títulos de recomendação como sendo suficientes para garantir o mérito do candidato ao sacerdócio, que, mesmo supondo piedade da parte deles – coisa que já é um grande ponto – não me arriscaria a admiti-lo de pronto, caso não sejam apresentadas testemunhas de consumada prudência. Conheci homens que de longa data se dedicavam à solidão e aos jejuns; eles agradaram a Deus por todo o tempo em que tiveram a felicidade de viver a sós consigo mesmos, e de não ter que se preocupar senão com sua salvação pessoal; eles faziam a cada dia grandes progressos na santidade; mas, transportados ao teatro do mundo e forçados a endireitar os desvios dos povos, alguns logo deixaram claro que estavam aquém de semelhante tarefa, e tiveram que renunciar a ela; outros, obrigados a permanecer, se afastaram da santa austeridade de sua primeira vida, e se perderam sem nenhum benefícios para os outros”.

“Pode mesmo acontecer que um homem tenha encanecido nas funções subalternas do ministério, sem que eu o considere digno de ser promovido a um grau mais elevado apenas por respeito à sua velhice. Por que seria ele elevado, se a idade não o tornou mais digno? Não digo isso para desconsiderar os cabelos brancos, nem para excluir aqueles que ganharemos na solidão: podemos citar mais de um que honraram seu ministério de maneira notável; o que quero mostrar é que, se uma grande piedade ou uma longa idade não fazem com que aqueles que as possui seja digno do episcopado, com mais razão os motivos expostos acima serão insuficientes. Entretanto, motivos ainda mais absurdos são colocados em primeiro lugar. Por exemplo, existem aqueles que são admitidos ao sacerdócio para impedi-los de aderir ao partido contrário; outros são eleitos por causa de sua malícia mesma, por medo que, rejeitados, não façam um mal ainda maior. É possível coisa mais iníqua? Qual! Homens miseráveis, cheios de vícios, serem honrados quando deveriam ser punidos! Suas ações mereceriam que fossem proibidos de passar dos umbrais da igreja, e eles recebem a recompensa de subir os degraus do santuário! E nós encontraremos ainda causas para a cólera de Deus, nós que entregamos as coisas mais santas e os mistérios mais temíveis nas mãos de perversos e de incapazes! É assim que confiamos a autoridade a mãos tão impuras, que profanam sua santidade, e mãos tão débeis que não podem suportar tal fardo, e eis porque a Igreja se vê mais agitada do que Euripe[19]”.

“Houve época em que eu zombava dos príncipes seculares, porque, na distribuição das honras, eles viam menos os méritos das pessoas do que a riqueza, a idade ou o crédito. Mas depois não considerei mais essa desordem como estranha, porque o mesmo escândalo vi acontecer entre nós”.

“Eu já me espanto que pessoas inteiramente dedicadas a interesses terrestres, sem outra motivação do que sua paixão pela glória e o dinheiro, cometam faltas desse gênero; mas que aqueles que, ao menos exteriormente, professam renunciar a todas as vaidades da terra, não deixem de agir segundo os mesmos princípios; que tratem os interesses do céu como se fossem de um pedaço de  terra ou qualquer coisa do gênero; que tomem às cegas homens que em nada se distinguem da multidão para confiar-lhes o governo das almas – almas pelas quais o Filho único de Deus quis se despojar de sua glória, se fazer homem, tomar a forma de escravo[20], expor sua face aos escarros, às bofetadas, para afinal morrer, em sua carne, a morte mais ignominiosa?”.

“E as coisas não param por aí; abusos mais gritantes acontecem. Não apenas os indignos são admitidos, como são expulsos os bons. É como se fosse preciso, a todo custo, sacudir dos dois lados a segurança da Igreja; como se o primeiro meio não fosse suficiente para acender a cólera de Deus, e que fosse preciso acrescentar-lhe um segundo, não menos funesto. Aos meus olhos, é um mal igual afastar os homens úteis, como admitir os inúteis. Mas é o que acontece, e, por conseguinte, o rebanho de Jesus Cristo não encontra consolo em parte alguma, e quase não pode respirar. Não merecem essas coisas os raios do céu, todos os fogos de um inferno ainda mais rigoroso do que aquele com o qual somos ameaçados? Assim sofre e suporta esses grandes males, Aquele que não deseja a morte do pecador, mas que ele se converta e viva[21]. Quem não se admiraria de tamanha bondade? Quem não ficaria estupefato à vista de tanta misericórdia?”.

“Os filhos de Cristo arruínam o império de Cristo mais funestamente do que seus inimigos declarados, e Ele, sempre bom, sempre misericordioso, ainda os chama à penitência! Glória a Ti, ó Senhor, glória a Ti! Que abismo de bondade existe Nele, que tesouro de paciência! Homens que, à sombra de Seu nome, de obscuros que eram se tornaram ilustres, abusam das honras, contra Aquele mesmo a quem as devem, ousam o que não é permitido ousar, insultam as coisas santas, afastam ou expulsam do santuário os homens virtuosos, a fim de dar aos ladrões a maior liberdade de fazer o que bem entendem”.

“Se você quiser conhecer as causas de tantos males, verá que são as mesmas dos anteriores. Sua raiz, sua mãe, por assim dizer, é a inveja; mas elas apresentam uma enorme variedade de formas. Um é demasiado jovem, outro não sabe bajular; esse não é bem visto por aquele; determinado figurão veria com desaprovação a eleição de alguém em detrimento do candidato que ele próprio apresentou; um é bom e paciente, outro é terrível com os pecadores; para outros, será por qualquer pretexto igualmente bem escolhido. Pois pretextos não faltam às pessoas de quem eu falo, e elas os encontram tantos quantos querem, e considerarão até mesmo crime ser rico, se não encontrarem outra objeção a fazer.  Sem elevações intempestivas, dizem eles ainda, essa dignidade exige que se chegue a ela gradualmente. Dali a pouco, mostram-se de uma fecundidade inesgotável para encontrar motivos. Aqui eu me pergunto o que deve fazer um bispo contra quem sopram tantos ventos contrários. Como se manter firme em meio às vagas? Como afastar tantos ataques? Se ele quiser determinar seu voto pelas luzes de sua consciência e de sua razão, logo uma nuvem de inimigos se declaram, tanto contra ele como contra aquele que ele deseja eleger; a contradição não tem fim; surgem novas especulações todos os dias; sarcasmos amargos caem como geada sobre os candidatos; e a batalha dura até que se seja forçado a bater em retirada, para favorecer os candidatos favorecidos pela outra parte”.

“Podemos comparar o bispo a um piloto que tenha recebido piratas a bordo de seu navio, os quais, durante toda a travessia, aguardaram a ocasião favorável para matá-lo, a ele, à tripulação e aos passageiros. Se ele preferir agradar aos homens do que salvar sua alma, e se admitir aqueles aquém deveria afastar, será a Deus mesmo, ao invés dos homens, que ele terá como inimigo que situação pode ser mais embaraçosa? Sua posição, perante os ladrões, se torna ainda mais crítica do que antes, porque eles agem em comum acordo, e esse concerto aumenta suas forças. Quando os ventos violentos começam a soprar em direções contrárias e a se digladiar, o mar, até então tranquilo, se torna de súbito furioso, levanta suas ondas e engole os navegadores; da mesma forma, quando a Igreja admite em seu seio homens perversos, sua calma se transforma numa tempestade que a enche de naufrágios”.

16.   “Imagine como se deve ser para resistir a tão grandes tempestades, e para afastar com habilidade os obstáculos que se opõem à salvação de todo o povo. É preciso ser inteiramente grave e sem ostentação; fazer-se temido, mas ser bom; saber comandar e ser afável; incorruptível e obsequioso; humilde, sem rastejar; enérgico e manso: é com todas essas qualidades reunidas que se poderá enfrentar a luta; é com essas condições que ele poderá adquirir autoridade bastante para fazer aprovar, malgrado a oposição geral, um candidato digno, bem como afastar um indigno contra o favorecimento do público, demonstrando não ter olhos senão para uma única coisa: a edificação da Igreja, e sendo ainda inacessível à raiva e ao favor”.

“Pois bem! Estaria eu errado em recusar uma honra tão perigosa? E eu ainda não disse tudo, ainda falta muito a dizer. Não deixe de escutar um amigo, um irmão que tenta se justificar dos erros que você acusa. Além do benefício de me desculpar em seu espírito, eu terei ainda o de ser útil para a sua administração. Quando estamos a ponto de ingressar nessa carreira, é preciso sondar o terreno antes de qualquer coisa; é uma precaução que devemos ter antes de se engajar aí para todo o bem. Por que isso? Porque assim teremos a vantagem de não sermos considerados desprevenidos; as dificuldades virão, mas encontrarão um homem pronto a combatê-las pelo fato de as conhecer bem”.

“Devo falar-lhe ainda da direção das viúvas, da solicitude com que devemos cercar as virgens, das dificuldades que apresenta a jurisdição eclesiástica? São grandes os cuidados que reclamam cada um desses ramos da administração eclesiástica, e maiores ainda os perigos que o bispo encontra neles”.

“Comecemos pelo que parece mais fácil, o cuidado com as viúvas. Pode parecer a princípio que se trata de algo bem simples, e que quem se ocupa disso resolve tudo dispensando uma certa soma de dinheiro distribuindo auxílios[22]. Parece nada, mas uma grande circunspecção é ainda aí necessária, sobretudo quando se trata de inscrevê-las no registro da Igreja; inscrevê-las ao acaso, como se costuma fazer, produz graves males. Já vimos viúvas arruinar as casas, perturbar a gestão dos bens, se desonrar roubando, frequentando cabarés ou outras desordens vexatórias. Alimentar tais mulheres com recursos da Igreja é atrair sobre si a vingança de Deus e a severa condenação dos homens, e esfriar a caridade dos benfeitores. Quem poderá suportar que a caridade que lhe é pedida, e que é feita em nome de Jesus Cristo, passe às mãos de quem desonra o nome de Jesus Cristo? Eis as razões que tornam um severo exame necessário; esse também é preciso para impedir que outras viúvas, que podem se manter sozinhas, não se juntem a essas de que falei, para devastar a mesa dos pobres”.

“Tomadas essas precauções, outro cuidado se apresenta, e grave: é preciso tomar medidas para que as coisas necessárias ao seu sustento não faltem, mas venham de uma fonte que não seca jamais. A infelicidade da pobreza involuntária é ser insaciável; ela se queixa sem cessar, ela é ingrata. É preciso muita prudência, muito zelo, para lhe calar a boca, retirando-lhe todo motivo de queixa. Entretanto, basta que um homem se mostre superior ao amor pelo dinheiro, e a multidão imediatamente o proclama capaz de suprir esse encargo; quanto a mim, reconheço que o desinteresse é uma qualidade indispensável, sem a qual seríamos não administradores, mas devastadores, lobos e não cordeiros; mas não creio que ela baste por si só; junto com ela existe outra virtude que é preciso encontrar num candidato”.

“Essa virtude é, para os homens, fontes dos maiores bens; ela conduz a alma como a um porto tranquilo e ao abrigo das tempestades: é a paciência. Ora, a classe das viúvas, assegurada por sua pobreza, sua idade, seu sexo, costuma usar uma linguagem bem pouco limitada, para dizer o mínimo. Elas gritam intempestivamente, elas acusam a torto e a direito, elas se lamentam quando deveriam expressar reconhecimento, elas condenam quando deveria aprovar. É preciso que o bispo tenha a coragem de suportar a tudo: seus clamores inoportunos, suas lamúrias indiscretas – nada deve excitar sua cólera. Suas misérias são mais dignas de compaixão do que de reprovação: insultar seus infortúnios, aumentar a afronta às amarguras de sua pobreza, seria o cúmulo da barbárie. É por isso que o Sábio[23], considerando de um lado a alteração e o orgulho naturais ao homem, e sabendo, por outro lado, o quanto a pobreza é capaz de abater a mais nobre alma, aconselhando-lhe uma importuna impertinência, não deseja que quem sofre por suas desgostosas solicitações, se encolerize. Ao se irritar contra os pobres por causa da frequência de suas demandas, ele se exporia a se tornar seu inimigo, ao invés de seu consolador, como se deve. O Sábio lhe recomenda mostrar-se afável e amistoso: incline sem mau humor seu ouvido ao pobre, responda a ele com doçura palavras de paz[24]. O mesmo Sábio, sem dizer uma palavra de reprimenda ao importuno (quem teria essa coragem diante de um suplicante prosternado?) continua a se dirigir àquele que deverá socorrer o indigente, e o exorta a erguer o pobre com um olhar doce e uma boa palavra, antes de lhe dar a esmola”.

“Ora, se alguém, sem roubar os bens das viúvas, se enfurece a ponto de maltratá-las com palavras ou coisa assim, não apenas não aliviará o peso de sua pobreza, como há de agravá-lo. A impertinência a que elas são levadas pela necessidade não as impede de sentir a injúria. O medo da fome as obriga a mendigar, a mendicância produz a impertinência, e essa atrai as humilhações, círculo fatal que mantém a alma encerrada nas trevas e no desespero”.

“É preciso que um administrador tenha suficiente paciência para não aumentar sua dor com suas violências, para acalmar em grande parte sua aflição com palavras de consolação. O pobre a quem insultamos e pouco tocado pela esmola que damos, por abundante que seja; o socorro em dinheiro não compensa a ferida deita ao amor próprio. Ao contrário, aquele que escuta uma boa palavra, que recebe uma consolação junto com a esmola, sente uma alegria e uma satisfação muito maior. A maneira de dar duplica o dom. o que eu digo não falo por mim, mas por aquele que nos exorta todo o tempo: ‘meu filho, diz ele, não misture reprimendas ao bem que você fizer, não acompanhe os dons com palavras que afligem: o orvalho não refresca um grande calor? Uma palavra doce vale mais do que o dom. Sim, uma só palavra é melhor do que a oferenda; e ambas as coisas se encontram no homem caridoso’[25]”.

“Quem toma a seu cargo as viúvas deve possuir, além da doçura e da paciência, o conhecimento da economia. Se lhe faltar essa qualidade, também os bens dos pobres sofrerão. Eu ouvi contar de um homem que, sendo encarregado dessa parte da administração, não destinava aos pobres mais do que uma pequena parte do dinheiro, considerável, destinado às esmolas. É verdade que ele não reservava o resto para seu uso próprio, mas o escondia cuidadosamente sob a terra, onde conservava essa riqueza. Sobreveio uma guerra, o dinheiro foi descoberto e levado pelo inimigo. Existe aqui uma justa medida a se conservar, que é não ser a Igreja nem rica, nem pobre. Na medida em que você recebe, distribua aos indigentes. Se a Igreja possuir tesouros, que eles residam nos corações dos fiéis”.

“No capítulo das viúvas, acrescentemos a hospitalidade que devemos oferecer aos estrangeiros, e o auxílio que é devido aos enfermos; quantas despesas você acha que exigem esses detalhes, e quanta prudência não é necessária para bem se desincumbir deles? Os gastos não são menores do que acabamos de mencionar, e muitas vezes são consideráveis. Quanto ao que responde pelos gastos, é preciso que ele tenha talento para obter recursos; mas ser-lhe-ão necessárias discrição e prudência para atrair os homens capazes de doar, voluntária e generosamente; ele deve prover o alívio dos enfermos sem ferir o espírito dos benfeitores. O cuidado com os doentes exige toda a atividade e diligência possíveis; eles em geral estão enfraquecidos e sem energia, e, se não forem tomadas precauções e solicitudes infinitas, a menor negligência pode ser-lhes extremamente prejudicial”.

17.   “A direção das virgens é uma atividade tanto mais delicada, na medida em que elas formam a parte mais preciosa e verdadeiramente real do rebanho de Jesus Cristo. Hoje em dia uma infinidade de pessoas cheias de uma infinidade de vícios invadiu escandalosamente o coro das castas esposas de Cristo. Isso constitui para a Igreja objeto de lágrimas abundantes. Assim como existe uma grande diferença entre a falta cometida por uma pessoa jovem e de condição livre, e a que comete seu escravo, da mesma forma não se pode comparar as faltas das virgens com as das viúvas. Essas últimas podem, sem maiores consequências, se entregar à dissipação; tanto podem despedaçar umas às outras pelos farrapos da mendicância, como podem prodigalizar adulações; elas podem afetar maneiras audaciosas, se mostrar por toda parte, até nas praças públicas. Mas a virgem tem combates maiores a sustentar; elas aspiram à mais alta perfeição; é a vida dos anjos que elas têm por missão viver na terra; elas se propõem a fazer, ainda que revestidas de carne mortal, aquilo que parece pertencer apenas às potências imateriais. Assim sendo, as saídas frequentes, as visitações ociosas, as conversas sem objetivo nem razão lhes são proibidas, e elas devem mesmo ignorar toda palavra que possa cheirar a injúria ou bajulação”.

“As virgens têm necessidade de uma guarda segura, de uma proteção assídua: o Inimigo da santidade as ataca de preferência; ele as espicaça sem cessar, ele lhes estende armadilhas, sempre pronto a devorá-las, caso alguma vacile e caia; também os homens procuram seduzi-las; juntamente com esses inimigos, conspira o arrebatamento dos sentidos: assim são duas guerras a sustentar a um só tempo, uma que assalta desde fora, outra que provoca a perturbação desde dentro”.

“Quantos motivos de alarme para um diretor! Quantos perigos! E, sobretudo, que dor, se – não o queira Deus! – explode alguma desordem imprevista entre elas! Se uma jovem que jamais saiu da casa paterna é motivo de insônia para seu pai; se os cuidados que ele tem para com ela afasta o sono de suas pálpebras, tanto ele teme para que ela não seja estéril, que não passe da idade de se casar, que não desagrade a seu marido. Se é assim com o pai segundo a carne, que devemos pensar do pai espiritual que, é verdade, não tem nenhum desses temores, mas que sente outros bem mais graves?”.

“Aqui não se trata de ofender um marido, mas o próprio Jesus Cristo. Se existe uma esterilidade a se temer, não é aquela que se detém na vergonha, mas a que vai até a perda da alma; pois foi dito: ‘toda árvore que não dá bons frutos será cortada e atirada ao fogo[26]’. A virgem repudiada pelo Esposo celeste não fica quite por receber o ato de repúdio e se retirar: ela expiará sua falta por um suplício eterno. O pai segundo a carne possui muitos recursos para tornar fácil a guarda de sua filha: a mãe, a babá, o número de seus domésticos, a segurança da casa o auxiliam na supervisão e na proteção da jovem virgem. Ela não tem liberdade para se mostrar com frequência no exterior; e, quando ela sai, ninguém a obriga a se deixar ver, pois a obscuridade da tarde pode, tanto quanto os muros de seu quarto, esconder aquela que não quer ser vista”.

“Por outro lado, ela está livre de tudo o que poderia obrigá-la a aparecer aos olhares dos homens; nem a necessidade de buscar as coisas que precisa, nem as atenções aos seus interesses, nem qualquer outro motivo a obrigam a se encontrar com estranhos; seu pai a dispensa de todos esses cuidados e não lhe deixa senão o de conservar sua decência virginal em sua conduta e em sua linguagem”.

“Ao contrário, o pai espiritual está cercado de circunstâncias que tornam sua supervisão difícil, para não dizer impossível. Não lhe é permitido sequer ter em sua casa a jovem que ele deve vigiar. Tal coabitação não seria nem decente, nem isenta de perigos: eles poderiam se preservar do mal, e manter intacta sua castidade; mas sempre haveria o escândalo causado às almas fracas, de que eles teriam que prestar contas com não menos severidade do que se existissem entre eles relações criminosas. Sendo a coabitação ilícita, como agir para conhecer os movimentos que se levantam no coração da jovem, para reprimir aqueles que são desregrados e cultivar e desenvolver os que estão em ordem e pedem uma boa direção? O bispo sequer pode estar informado com exatidão das saídas das virgens, nem dos motivos que as chamam para fora de suas casas. Pobres como são, em sua maioria, donas de si mesmas, obrigadas a prover suas necessidades básicas pessoalmente, quantas ocasiões têm para se dispersar fora quando querem, quantos pretextos para escapar à supervisão! O bispo prescreverá a elas que permaneçam em suas casas, e para cortar pela raiz todas as idas e vindas, ele lhes fornecerá todas as coisas necessárias à sua subsistência, e fará com que sejam servidas por uma pessoa do mesmo sexo. Ele não lhes permitirá ir aos funerais ou às vigílias noturnas. A astuciosa serpente sabe muito bem aproveitar até o pretexto das boas obras para destilar seu veneno. É preciso que a virgem cristã guarde uma clausura rigorosa; umas poucas vezes ao ano ela poderá franquear os umbrais de sua moradia, quando a forçarem motivos indispensáveis e necessários”.

“Poder-se-á me dizer: que necessidade tem um bispo de descer até todos esses detalhes? É preciso saber que não pode existir parte de uma administração que lhe seja estranha; que todas as queixas que podem se levantar a esse respeito recairão sobre ele, de modo que mais vale que ele as gerencie por si próprio, do que deixá-las à responsabilidade de outros. Com isso, ele evitará as acusações às quais estaria exposto por causa de faltas cometidas em seu nome. Ademais, ao fazer tudo por si mesmo, ele expede facilmente todo seu trabalho. Pois diz a experiência que quem se sujeita a ouvir a opinião de todo mundo extrai daí menos benefício do auxílio que lhe é prestado, na medida em que a diversidade de opiniões ou a pouca concordância dos cooperadores lhe causa mais aborrecimentos e embaraços”.

“De resto, não é possível marcar em detalhes todas as solicitações que pede o governo das virgens. Ainda que não se tratasse do discernimento das que devem pertencer à Igreja, só esse trabalho bastaria para tornar esse ministério extremamente laborioso”.

18.   A jurisdição é para o bispo uma fonte de contrariedades sem número, ela lhe impõe um trabalho infinito, ela está eriçada de dificuldades que os juízes regulares não encontram. Encontrar o direito é coisa difícil, e mais difícil ainda é não violá-lo depois de tê-lo encontrado. É um trabalho laborioso e, acrescentarei, perigoso. Já vimos cristãos fracos renunciar à fé depois de algum assunto infeliz no qual lhe faltou proteção; pois aqueles que se queixam de injustiça devotam ódio igual aos que o ofenderam e aos que recusaram defendê-lo. Eles não querem saber, nem da complicação dos negócios, nem da dificuldade das circunstâncias, nem das limitações restritas do poder sacerdotal, nem de nada no mundo. Juízes inexoráveis de suas próprias causas, eles não compreendem mais do que uma justificação: que se livrem dos males que os oprimem. Se você não puder obter-lhes essa libertação, poderá apresentar-lhes todas as razões imagináveis que não escapará de sua condenação. E, como eu falei de proteção, existe outro tipo de queixas que você irá descobrir”.

“Se a cada dia o bispo não percorrer casa por casa, com mais assiduidades do que quem não tem outra coisa para fazer, uma infinidade de gente se sentirá ofendida. Não apenas os doentes, mas também os sãos querem receber a visita de seu bispo; e bom seria que fosse a religião que lhes inspirasse esse desejo! Mas não, é simplesmente a honra, uma distinção da qual se sentem orgulhosos. Se, por infelicidade, existe alguém rico, um homem poderoso a quem ele visita com mais frequência do que a outros - no próprio interesse e bem comum da Igreja – logo se vê condenado com os nomes de bajulador e cortesão”. 

“Mas por que falar de proteções e de visitas? Não é preciso mais do que uma simples saudação para atrair sobre o bispo uma quantidade de lamúrias, a ponto de sufocá-lo e sucumbi-lo debaixo de tantos desgostos. Pedem-lhe até um simples olhar. Suas ações mais simples passam pela balança da crítica; nota-se o tom de sua voz, os movimentos dos olhos, até o sorriso: como ele sorriu graciosamente para um, como saudou a outro em voz alta e um rosto aberto! A mim ele mal dirigiu a palavra, e apenas por educação. Quando ele entra em um lugar, se esquecer de olhar ao redor e saudar a todos, um após outro, é um homem que não sabe viver. Assim, quem, a menos que possua uma força extraordinária, poderá se bastar contra tantos acusadores, seja para prevenir todos os seus ataques, seja para afastá-los vitoriosamente? Seria preciso que um bispo não tivesse acusadores; sendo isso impossível, que ele pudesse reduzir a nada as acusações; e mesmo isso não é fácil! Quantas pessoas se divertem falando mal a torto e a direito, sem o menor fundamento! Ele deve enfrentar corajosamente os boatos maliciosos, e, na medida do possível, não se deixar levar pela emoção. Suportamos com mais facilidade uma reprovação merecida, porque a consciência, o mais formidável dos acusadores, já o fizera, e com muito mais severidade; mas, quando a acusação é sem fundamento, nos enfurecemos por um primeiro movimento de cólera, ao qual se segue logo o desencorajamento e o abatimento, a menos que um longo exercício de paciência não tenha habituado a alma a se elevar acima da vã opinião dos homens. Quanto a receber as flechas lançadas pela calúnia sem perder a calma e o sangue frio, isso é coisa bem difícil, podemos dizer mesmo, quase impossível”.

“Devo falar anda do quanto custa a um bispo, quando se vê na aflitiva necessidade de afastar alguém da comunhão da Igreja? E ainda que fosse o caso de deplorar apenas a dor do bispo; mas que temível infelicidade! E quanto não devemos temer que o culpado, exasperado por uma punição demasiado severa, não chegue ao extremo de que fala São Paulo, e que não sucumba ao excesso de tristeza[27]”.

A maior prudência é aqui necessária para que o mal não venha a dominar, pelo efeito do próprio remédio que se destinava a curar. Todas as faltas cometidas depois recaem sobre o médico ignorante que não foi capaz de avaliar o ferimento, e exagerou na cauterização. Quanto temor não deverá ter o bispo, quando pensar que deverá prestar contas, não só de seus próprios pecados, como daqueles de todo seu povo? Se nossas próprias ofensas já bastam para nos gelar de medo, e nos fazer perder a esperança de evitar o castigo eterno, o que poderá esperar aquele que terá que se defender de tantos acusadores? Escute São Paulo, ou melhor, Jesus Cristo falando pela boca de seu apóstolo: ‘Obedecei aos vossos superiores, e sede-lhes submissos, porque eles velam por vossas almas, como se delas prestassem contas[28]’. Não existe nessa ameaça tudo o que é preciso para sermos penetrados do mais vivo terror? Por mim, sinto-me ainda além dessa expressão”.

“Eu concluo que não existe ninguém, por mais duro, por mais difícil de persuadir, que não se sinta agora convencido de que, ao recusar o episcopado, eu agi, não por orgulho nem por presunção, mas pelo temor de destruir minha salvação num ministério tão grave”.





[1] 2 Coríntios 3: 10.
[2] Mateus 28: 18.
[3] João 20: 23.
[4] João 3: 5.
[5] João 6: 54.
[6] Levítico 14.
[7] Números 16.
[8] Tiago 5: 14-15.
[9] 2 Coríntios 11: 3.
[10] 1 Coríntios 2: 3.
[11] Romanos 9: 3.
[12] 1 Timóteo 3: 1.
[13] Mateus 5: 11-12.
[14] Cf. 1 Timóteo 3: 2.
[15] CF. Mateus 5: 22.
[16] Cf. Provérbios 15: 4.
[17] 1 Coríntios 12: 28.
[18] 1 Coríntios 2: 11.
[19] Estreito que separa a Eubeia (Negroponte) da Beócia, no mar Egeu.
[20] Filipenses 2: 7.
[21] Ezequiel 18: 23; 33: 11.
[22] Timóteo 5: 16.
[23] Salomão.
[24] Eclesiástico 4: 8.
[25] Eclesiástico 18: 15, 17.
[26] Mateus 3: 10.
[27] Cf. 2 Coríntios 2: 7.
[28] Hebreus 13: 17.