segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Nikolai Berdiaev - Espírito e Liberdade - Capítulo VIII: O Teosofismo e a Gnose

 

 I

 

 

Frequentemente as palavras provocam falsas associações de ideias, que não correspondem ao seu sentido ontológico. É isso que aconteceu com o termo “teosofia”, que pode ter diferentes significados. Os movimentos “teosofistas” contemporâneos o deformaram e nos fizeram esquecer a existência de uma teosofia verdadeiramente cristã, de uma autêntica sabedoria divina. A tradição teosófica se irradia através de toda a história do Cristianismo. O primeiro teósofo cristão, no sentido profundo do termo, representante da gnose cristã, para distingui-lo dos pseudo-gnósticos, foi o apóstolo Paulo. Também Clemente de Alexandria e Orígenes foram teósofos e gnósticos cristãos. As obras do Areopagita e a mística medieval, os escritos do grande Boehme, malgrado alguns desvios, comportam uma autêntica teosofia cristã, em tudo diferente daquela reivindicada por Steiner ou Annie Besant. O mesmo podemos dizer de Baader e Solovieff, numa época mais próxima da nossa. A Cabala é teosófica e exerceu uma considerável influência sobre a mística cristã. Heráclito e Platão foram grandes teósofos do mundo antigo, que em seu declínio ainda chegou a conhecer Plotino. Eram pessoas ébrias, se podemos nos exprimir assim, de sabedoria divina. A teologia mística, não escolástica, foi sempre uma teosofia, assim como toda contemplação na qual se dê a síntese da filosofia com a religião.

 

Mas é evidente que o teosofismo[1] contemporâneo é totalmente distinto da antiga teosofia. O espírito de Blavatsky e de Annie Besant é por demais diferente daquele de Heráclito e Plotino, de Orígenes e do pseudo-Dionísio o Areopagita, de Meister Eckart e de Jacob Boehme, de Baader e de Solovieff. Trata-se de outra formação; eles não pertencem à mesma raça. O selo da inspiração criadora e divina não existe nos escritos dos teosofistas contemporâneos. Aqui, nenhum talento se manifesta; eles são entediantes, seu estilo se parece com o dos manuais de mineralogia e de geografia, quase impossíveis de se ler. Os alunos do moderno teosofismo aprendem de cor os termos dessa geografia, e são constantemente obrigados a compulsar os de Baedecker, pois se arriscam a confundir as montanhas e os rios do mundo espiritual. É fácil se perder na sucessão de encarnações terrestres, confundir Júpiter, Vênus e Mercúrio, pois é desconfortável traduzir esses avatares numa linguagem de experiência espiritual viva. A maior parte dos teosofistas e dos antroposofistas não possuem nenhuma clarividência pessoal. Eles não são capazes de perceber, na memória do mundo, a evolução cósmica, e se socorrem do libro de Steiner, Crônica akashika, ou de qualquer outro, que aprendem e decoram. Assim se cria uma orientação de vida espiritual, na qual até o ponto de partida é falso.

 

O teosofismo abusa de nomes, aos quais não pode pretender. É tão difícil encontrar a Deus no teosofismo de Annie Besant, quanto encontrar o homem na antroposofia de Rudolf Steiner. Abram algumas obras teosofistas: encontrarão aí tratados sobre a formação e a evolução do cosmo, a estrutura complexa do homem como resultado dessa evolução, a reencarnação; mas o nome de Deus não é mencionado. O teosofismo poderia se intitular, com mais justiça, como cosmosofia, ou seja, o ensinamento relativo à composição e ao desenvolvimento do cosmo, pois ela não reconhece nada além disso, e nisso ela é perfeitamente monista. Para ela Deus não existe, só existe o divino, que constitui precisamente o cosmo com seus múltiplos planos. Nele o homem se encontra dissolvido, inteiramente submetido aos processos cósmicos.

 

O teosofismo contemporâneo traz a marca indelével da época intelectual na qual nasceu. Essa época foi a do triunfo do naturalismo, do evolucionismo, do racionalismo e do materialismo. O movimento teosofista contemporâneo, inaugurado por Blavatsky, pretendia afirmar desde o início um naturalismo e um evolucionismo específicos. Ele não se levantou contra os hábitos intelectuais do homem do século XIX, ele não exigiu dele um ato de fé, nenhuma revolução espiritual. O mundo espiritual devia ser conquistado por uma via pacífica, por uma evolução. O intelectualismo do homem contemporâneo, toda sua mentalidade, eram tanto acolhidas, como justificadas. O conhecimento teosófico deve ser assimilado ao naturalismo, ao evolucionismo, quase que ao materialismo da ciência contemporânea.

 

Steiner era um discípulo de Haeckel, a quem venerava como seu mestre. A consciência teosofista adotou o monismo mais vulgar, que as obras do pensamento teosófico mais refinado já haviam ultrapassado. É chocante notar que a teosofismo se uniu aos movimentos filosóficos mais simplistas, evitando aqueles mais complexos e mais profundos; ela rapidamente adotou um caráter popular. Ela se dirigiu às almas contaminadas pelo evolucionismo, o positivismo, o naturalismo, vale dizer, pelas correntes claramente inferiores da consciência filosófica contemporânea, da cultura espiritual de nossa época. Os teosofistas tentam justificar, por isso mesmo, a vulgarização de sua literatura. Chegamos mesmo a ouvir de antroposofistas que Steiner, o mais considerável dos teosofistas, escreveu seus livros para os insensatos, mas que reservou aos iniciados suas palavras mais profundas.

 

Entretanto, malgrado o nível baixíssimo da literatura teosofista popular, malgrado o charlatanismo que aí se encontra frequentemente amalgamado, não devemos tratar com desdém o teosofismo; é preciso reconhecer nele um sintoma importante. Sua popularidade crescente está estreitamente ligada às crises da ciência e do Cristianismo. Esse sintoma denota no homem moderno uma profunda inquietação e um retorno ao mundo espiritual. Tampouco a ciência e a Igreja oficial dão suficiente importância ao teosofismo e ao ocultismo ligado a ele. A popularidade do teosofismo se explica facilmente em nossa época sincretista. O teosofismo escolheu na evolução o caminho mais fácil para passar, do ateísmo contemporâneo, do materialismo e do naturalismo, ao reconhecimento e ao conhecimento dos mundos espirituais. O teosofismo transporta o homem para além desse abismo que separa os dois mundos. Ele prega o aperfeiçoamento, o desenvolvimento de novos órgãos receptivos, mas seus preceitos diferem radicalmente daqueles dos caminhos religiosos ou místicos. O teosofismo não exige a renúncia à sabedoria desse século. Ele se conforma com os instintos do homem médio, que pretende, apenas aflore o mundo espiritual, estender seus domínios e multiplicar suas riquezas. Jamais ele poderá satisfazer a sede espiritual dos povos, pois esses não podem viver senão de uma fé religiosa. Quanto à aristocracia espiritual autêntica, ela está igualmente ausente do teosofismo contemporâneo.

 

O teosofismo contemporâneo está fundado sobre a contradição inerente ao tratamento exotérico de um pretenso esoterismo. Sua preocupação essencial é a revelação do esotérico. Ele não desperta nenhum sentimento de excitação diante dos mistérios derradeiros. Seu esoterismo oferece bem menos um mistério do que um segredo. O esoterismo verdadeiro não dissimula nada, nem esconde enigma algum, mas afirma o mistério, que se revela a uma profundidade maior ou menor, segundo o dom ou o nível espiritual alcançado. A distinção entre o esotérico e o exotérico existe efetivamente, ela e eterna, e podemos encontrá-la mencionada mesmo no apóstolo Paulo. Existe ao mesmo tempo uma compreensão mais profunda e uma compreensão mais exterior do Cristianismo. O esotérico, no Cristianismo, quase coincide com o místico. Os místicos cristãos foram os verdadeiros esotéricos. Mas suas contemplações, inacessíveis aos simples cristãos, nada têm de enigmáticas. Para poder compreendê-las completamente, basta simplesmente ter feito uma experiência semelhante à sua. Para perceber o esoterismo do Cristianismo, é preciso ter uma consciência orientada para o outro mundo. Mas na teosofismo e no ocultismo, que têm pretensões religiosas, o esoterismo se reveste de um caráter equívoco.

 

A diferença entre o exotérico e o esotérico é relativa. O esoterismo pretende colocar a verdade secreta e o mistério ao abrigo da profanação e da incompreensão das massas, incapazes de os assimilar. Mas o que pode haver de esotérico na teosofismo contemporâneo? Será a sabedoria divina ou o monismo naturalista? A qual das confissões predominantes se opõe esse esoterismo? À Igreja cristã, ou ao positivismo e ao materialismo contemporâneos? Talvez o mistério resida em que Deus não existe e que somente exista o cosmo infinito? Os livros teosofistas nos fornecem sérias razões para compreender assim seu esoterismo. Nisso, Blavatsky e Steiner se distinguem radicalmente de Jacob Boehme e de Saint Martin. Na época do politeísmo pagão, o monoteísmo era esotérico; essa verdade era preservada das massas incapazes de se elevar até ela. Na época do domínio cristão da Igreja, o monismo naturalista era esotérico. Mas o que resta a saber, é o que pode subsistir de esotérico em nossa época confusa e perturbada, desprovida de uma fé única, integral e predominante.

 

O teosofismo parece dissimular alguma coisa à consciência da Igreja e à consciência materialista. Mas quando penetramos no fundo de seu esoterismo, é sempre uma forma espiritualista, de naturalismo, de evolucionismo ou de monismo, que aparece. Steiner é um monista, assim como Haeckel, e ele naturaliza os mistérios divinos. Mas seu monismo está ligado a um dualismo maniqueísta particular.

 

O que existe de verdadeiro no ocultismo, é que a diferença que existe entre o esotérico e o exotérico é função dos graus da consciência; o que é justo, também, é sua concepção dinâmica da consciência, pois o estado estático, com seus limites intangíveis, não é senão temporário e passageiro. Estamos cercados de forças invisíveis e desconhecidas, e a receptividade de nossa consciência só está fechada para elas momentaneamente. A esfera do oculto e do mágico existe, e o mundo se encontra penetrado por sua ação. É preciso reconhecê-lo, independentemente de qualquer juízo de valor sobre essas forças. A própria ciência positiva reconhece cada vez mais a existência da “meta-física”. Mas o ocultismo científico tem pouco em comum com as pretensões religiosas do ocultismo e do teosofismo.

 

 

II

Em suas concepções a respeito do homem, o Cristianismo e o teosofismo se diferenciam profunda e radicalmente. Não existe similaridade alguma entre a antropologia cristã e a antropologia teosofista popular. É preciso seguir, até suas últimas consequências, o conflito entre essas duas concepções do destino humano. O Cristianismo é antropocêntrico e antroposófico, no sentido mais autêntico da palavra. Segundo ele, o homem constitui o grau supremo do ser, sendo superior inclusive à hierarquia angélica. O Filho de Deus se encarnou num homem, não num anjo. O homem existe desde toda eternidade e ele herda a eternidade; ele foi criado à imagem e semelhança de Deus, ele não surgiu nem se reabsorve na evolução cósmica; ele não é produto dessa evolução, ele não é filho da natureza, nem dos processos que se realizam nela. O homem é “filho de Deus”. A espécie humana não pode ser superada por uma nova raça, como a de um super-homem, de um anjo ou de um demônio. Nenhuma evolução pode transformar uma hierarquia em outra. O desígnio divino relativo ao homem não pode ser modificado, ele só pode ser realizado ou destruído. O homem herda a vida divina eterna; por intermédio de Cristo, o Deus-homem, ele está enraizado nas profundezas mesmas da vida divina. O homem pode se colocar em contato imediato com Deus, e nenhuma evolução cósmica pode separá-los. Se existe alguma coisa esotérica no Cristianismo, certamente não é a noção de que o homem é um produto da evolução cósmica, que ele pode ser ultrapassado por ela, que um novo éon universal virá a acontecer sob o signo de uma nova raça super-humana, mas sim a ideia de que o homem é mais do que uma simples criatura, que a segunda Hipóstase da Trindade é o Homem nascido na eternidade.

 

Na Cabala havia uma teosofia, uma antroposofia e um esoterismo autênticos. Esse esoterismo era estranho ao teosofismo moderno; quaisquer que fossem suas formas e nuances, a Cabala possuía seu próprio esoterismo, que favorecia o orgulho humano no tempo e diminuía o homem perante a eternidade. A concepção cristã do homem é hierárquica e não evolucionista. O homem não é uma parte fracionada, transitória, do cosmo, um grau em sua evolução, mas lhe é superior, independente de sua infinitude e, em princípio, ele o abarca por inteiro.

 

A consciência teosofista, embora admitindo as subordinações cósmicas, é inteiramente evolucionista; para ela, todo grau hierárquico pode se transformar em outro grau. As correntes predominantes do teosofismo negam radicalmente a ideia cristã do homem. Segundo elas, o homem nem sempre existiu e tampouco herdará ele a eternidade. O cosmo é eterno; mas o homem não é mais do que temporário e passageiro, ele não corresponde senão a um éon da evolução cósmica. Ele não existia nos períodos precedentes e não existirá mais nos ulteriores. O homem é oprimido pelos mundos inferiores e superiores, ele não está enraizado senão no tempo, não na eternidade, enraizado no cosmo e não em Deus.

 

A consciência teosofista é monista, monofisita; ela não reconhece senão uma natureza: o cosmo divino e impessoal. O homem é o produto e o instrumento da evolução, ele se agrega e desagrega em seu processo. Ele é uma entidade composta por três corpos (o físico, o etérico e o astral) e por um “eu” espiritual impessoal. Ele não passa de uma síntese temporária das forças cósmicas. Sua estrutura evocaria aquela desses ovos de Páscoa que se embutem uns dentro dos outros; ele não possui um núcleo espiritual sólido, e mesmo que exista algum, esse núcleo não é humano, mas algo impessoal e cósmico. A antroposofia, cujo nome provém da palavra “homem”, pressupõe que um único éon universal se encontra sob o signo do homem, e que esse será ultrapassado. Esse período cósmico consiste, de certo modo, no Antropo desagregado, cujos fragmentos compõem o mundo desse éon. Mas esse exagero aparente do valor do homem não implica seu significado absoluto e eterno. Tudo não passa de um jogo de forças cósmicas. As épocas seguintes não estarão sob seu signo; deverá se formar um novo gênero que não será humano. Existe uma hierarquia de espíritos que é superior ao homem, e que o dirige. Entre Deus e o homem se encontra uma gradação complexa de anjos e demônios, que torna impossível sua comunicação imediata. Mas, de resto, Deus não existe; o que existe não é mais do que uma hierarquia cósmica divinizada. O teosofismo restabelece uma vez mais a antiga demonolatria, e o homem permanece sob o jugo dos gênios.

 

A libertação cristã do espirito do homem é eliminada e assistimos ao retorno do antigo gnosticismo semi-cristão, semi-pagão. O homem se ensombrece e desaparece, sua imagem se dilui nas hierarquias e nas evoluções cósmicas, na sucessão infinita dos éons. O teosofismo e a antroposofia, quaisquer que sejam suas variedades, negam a personalidade, lutam contra esse princípio em nome do comunismo cósmico. Elas complicam o problema, pelo fato de que não levam em conta a distinção existente entre a personalidade e a individualidade. Para a consciência cristã, a personalidade é uma categoria espiritual, enquanto que a individualidade é uma categoria biológica. Para os teosofistas, assim como para a escola filosófica de E. Hartmann, a personalidade não é, na realidade, mais do que o resultado do aprisionamento do espírito na matéria, no corpo físico, e, por causa disso, ela deve ser superada por uma evolução ulterior. A doutrina teosofista da reencarnação, emprestada da Índia, destrói o ser integral. A síntese temporal das forças cósmicas, dos fragmentos planetários das evoluções, se desagrega em partes constitutivas e numa nova síntese, numa nova coesão de forma. Mas a unidade e a integridade da personalidade, sua unicidade, desaparece.

 

Os teosofistas têm razão quando ensinam a estrutura complexa do homem, a presença, nele, de superposições cósmicas. Eles também têm razão quando recusam ver no homem natural o substrato intangível e imutável da personalidade. A personalidade é a ideia que Deus tem do homem, e seu destino eterno está indissoluvelmente ligado a essa ideia divina única. Sua imagem permanece em Deus e não no mundo aqui de baixo, na substancialidade natural. Mas para os teosofistas existe entre o ser divino e o ser humano, uma evolução infinita de mundos espirituais. Na realidade, essa evolução infinita constitui precisamente a existência divina.

 

A experiência mística da comunhão com Deus é considerada por eles como sendo irrealizável. O teosofismo é obrigado a negar que a imagem humana integral e única repousa em Deus, que essa imagem é a ideia divina, por considerá-la sempre como resultado de processos complexos que se desenrolam no mundo. A consciência teosofista e antroposofista nega o homem enquanto desígnio divino, enquanto nome eterno. Nisso ela se aproxima do comunismo. O teosofismo popular constitui um naturalismo transferido aos mundos espirituais, um monismo naturalista do tipo de Haeckel. É por isso que Steiner se permite afirmar que Haeckel corrigiu e aperfeiçoou Boehme. Mas, se nesse último encontramos uma doutrina cristã sobre o homem, sobre o primeiro Adão, em Steiner, discípulo de Haeckel, não subsiste nenhum traço dela. Schuré pretende que o homem procede de um ser metade peixe, metade serpente. Vemos que esse tipo de antropogênese já não possui nenhuma relação com o Cristianismo. O evolucionismo naturalista dos teosofistas é o oposto da doutrina platônica relativa às ideias, aos gêneros, à hierarquia do ser. O teosofismo é anti-hierárquico, como de resto o é todo evolucionismo, e ele não admite que uma espécie possa ter existido eternamente, e que existirá por toda eternidade. Ele também nega isso para o homem. existe nele um darwinismo espiritual. Para a consciência cristã hierárquica, o homem não provém do animal e não pode evoluir até um super-homem. Ele pode decair, assim como pode se desenvolver, mas ele permanecerá sendo homem, mesmo no Reino de Deus.

 

Já mostramos de que maneira nossa antropologia varia segundo o caráter de nossa cristologia. Nossa atitude para com o homem é determinada por nossa atitude para com Cristo. O homem não atinge uma consciência absoluta de si mesmo senão por Cristo, o Deus-homem. A cristologia teosofista é elaborada de tal maneira que ela termina necessariamente pela negação do homem. Ou bem o teosofismo se encontra no terreno pré-cristão da consciência hindu, que não vê Cristo senão como um iniciado entre outros, ou bem ele criou uma cristologia naturalista que vê em Cristo um impulso cósmico. Mas todas as formas de teosofismo separam, na mesma medida, Jesus de Cristo, e negam o Deus-humanidade. Madame Blavatsky nãopodia suportar o Cristianismo, e considerava o Brahmanismo como uma forma de consciência religiosa superior a ele. Já o teosofismo moderno tende a se adaptar ao Cristianismo. Havia no Brahmanismo uma verdade religiosa pré-cristã, da qual o teosofismo atual nada possui. Steiner considerava seu teosofismo como sendo pré-cristão; ele reconhecia que uma nova época universal começara com a vida de Cristo, e estava quase pronto para qualificar de reacionário o teosofismo oriental. Entretanto, sua cristologia se reveste de um caráter naturalista e evolucionista, que influenciam sua antropologia.

 

O homem é um conjunto, composto de fragmentos de evoluções planetárias; ele e a terra não passam de etapas dessa evolução cósmica. O homem se reencarna, perdendo assim sua imagem, o substrato de sua personalidade. A própria terra está também submetida a essas peregrinações; a entidade única e integral, o núcleo ontológico se perde, em tudo e por toda parte. A personalidade se agrega e se desagrega, reaparecendo em outras personalidades. Toda a humanidade passa por um processo análogo, reencarnando-se num gênero que já não é mais humano. Existe no homem um corpo físico que corresponde aos minerais, um corpo etérico que corresponde às plantas, um corpo astral que corresponde aos animais e um “Eu” espiritual que o aparenta a Deus. Todas essas partes constitutivas se dissociam, e então a personalidade desaparece. O “Eu” espiritual não constitui em si mesmo a personalidade; essa só se forma pela união com os corpos físicos, etérico e astral, como síntese evolutiva, passageira e transitória de elementos aptos a se unir e se dissociar. Jesus e Cristo são distintos, e não se unem senão no momento do batismo, mas mesmo a imagem de Jesus se fraciona, pois, segundo Steiner, existem duas crianças Jesus. Cristo, enquanto Logos, enquanto agente cósmico, é uma reencarnação de Zoroastro em Jesus.

 

A cristologia de Steiner consiste numa reconstituição original e modernizada das antigas heresias, de um lado o maniqueísmo, de outro o nestorianismo, para as quais as duas naturezas de Cristo permaneciam distintas. Steiner nega o mistério da humanidade divina em Cristo, Sua Imagem integral. Cristo não constitui uma Personalidade, mas um impulso, um agente cósmico. Para outros teosofistas, Jesus Cristo faria parte da mesma linhagem de Buda, Zoroastro e outros grandes iniciados. O teosofismo e a antroposofia veem Cristo, não em Deus, não na Trindade Divina, mas na natureza, no processo cósmico. A infinidade cósmica engole a Imagem de Cristo, e nisso ela engole também a imagem do homem que partilhe de Seu destino.

 

Tal é a consciência teosofista, que se arroga sem ter o direito, os nomes de teosofia e antroposofia. Essa consciência não quer conhecer nem Deus, nem o homem, nem a personalidade, mas um cósmico impessoal idêntico ao divino impessoal, não existem limites hierárquicos, nem fronteiras, nem distâncias, e, por conseguinte, não existe integridade, seja lá de que espécie for; tudo é confundido, tudo está em tudo, e tudo passa por tudo. Aqui nós encontramos a antiga consciência hindu que oprime a consciência teosofista. A verdade da mística, a da unidade, da profundidade do mundo espiritual, aqui se encontra naturalizada e vulgarizada.

 

O teosofismo se vê na obrigação de negar o valor eterno da alma individual; ele não é capaz de reconhecer o significado indefectível do nome humano. Ele não acolhe em si a revelação cristã da personalidade, mas permanece num período pré-cristão. E mesmo Steiner, que gosta de falar do impulso de Cristo, da época universal colocada sob Seu signo, ignora essa revelação. O Cristianismo é personalista; para ele, todo ser constitui uma personalidade única e concreta. O teosofismo e a antroposofia são antipersonalistas. A doutrina antroposófica do “eu” espiritual não é uma doutrina da personalidade. Esse “ego” é totalmente impessoal, ele se agrega a corpos que fazem parte de outros planos e deles se separa a seguir. A personalidade humana não passa de uma coesão passageira. Um coletivismo original é próprio ao teosofismo; ele afirma, de certa forma, um comunismo anti-hierárquico do ser. A imagem humana é obscurecida e fracionada por um medíocre infinito de mundos. É por isso que a consciência teosofista ignora o mistério do amor cristão, como também o ignoram a religião e a filosofia hindus.

 

 O mistério do amor é o mistério da personalidade, a penetração na identidade única, que não se renova, de um outro homem, a visão de sua imagem em Deus. Somente o sujeito que ama pode contemplar a face do amado. A imagem humana é sempre deformada e mascarada por aquele que não ama. Somente por meio do amor podemos ver a beleza da face humana. O amor não é a confirmação da identidade, a descoberta de um só e mesmo princípio em mim e no outro, tat twan asi, como afirma a consciência religiosa da Índia. Se “eu” e “você” não somos senão um, então meu amor por você não passa de um amor por mim mesmo. Não existe mais um e outro. O sujeito amoroso e seu amor implicam sempre o outro, pressupõe a saída de si em direção a esse outro, o mistério da união de dois seres que desfrutam realidades distintas e independentes. A imagem eterna e absoluta do amor nos é dada na Trindade Divina, e ela não pode ser adquirida num monoteísmo ou num panteísmo abstratos. A bem dizer, o teosofismo nega o “eu” e o “você”. Ora, o amor é sempre uma relação de personalidade a personalidade. Se não existe a personalidade, não pode haver amor. A imortalidade, a ressurreição, a eternidade da personalidade são uma reivindicação do amor, a afirmação do ser amado em Deus, vale dizer, na eternidade.

 

É evidente que, para a consciência teosofista, que professa a agregação e a dissolução cósmica da personalidade, seu caráter composto e efêmero, a personalidade não pode desfrutar da eternidade. A personalidade, o amor e a imortalidade estão unidos na experiência espiritual, e ali se acham indissoluvelmente ligados. O amor possui um sentido eterno, quando se orienta para o ser eterno, e quando afirma essa eternidade com toda a sua energia. O mistério da unicidade, daquilo que não pode se repetir, é estranho e inconcebível para o teosofismo, assim como o é para a consciência religiosa da Índia. O teosofismo considera que tudo se reproduz, que tudo é múltiplo. A personalidade única de Jesus Cristo não existe. Cristo se reencarnou diversas vezes. O homem e a terra estão submetidos a essas reiteradas peregrinações. Não existe acontecimento único na história que, por isso, que confira um sentido único. O sentido e a individualidade da história estão, no entanto, ligados a essa unicidade de seus eventos e, antes de tudo, à vinda única de Cristo. Toda a vida espiritual e concreta repousa sobre essa mesma unicidade. A consciência hindu pré-cristã, assim como o teosofismo, não veem a personalidade e não compreendem a história, precisamente porque negam esse fato essencial.

 

O teosofismo recusa-se a ver o fim, a eternidade divina, que dá sentido a tudo o que é único e pessoal. A negação do fim divino, da saída final, está intimamente ligada à negação do mistério absoluto. O mistério nos mergulha no absoluto divino. a negação desse mistério nos submerge na infinitude do processo universal. Tudo aqui se acha inelutavelmente ligado: a personalidade, a unicidade, a eternidade e o mistério. A afirmação do mistério não é o agnosticismo. No conhecimento, é possível um movimento infinito em profundidade. Mas toda gnose desemboca no mistério, o que significa que toda gnose se dirige a Deus. Ora, Deus é um mistério, no qual todas as coisas encontram seu fim.

 

A gnose teosofista jamais desemboca em Deus; ela está completamente imersa no mundo, na evolução cósmica. Ou bem o mundo encontra seu fim em Deus, ou bem o mundo é infinito. Se ele encontra seu objetivo final em Deus, então sua solução última está mergulhada no mistério, o qual devemos considerar com religioso recolhimento. Se o mundo é infinito, então não há nem solução, nem mistério final, nem veneração religiosa. O teosofismo, tal como o encontramos expresso na sua literatura popular, afirma a infinitude do mundo, não considera a Deus como sua saída, ignora o mistério e só conhece o segredo. Ora, quando esse segredo se entreabre, não vemos nele mais do que as evoluções de mundos infinitos, nada além da divinização do próprio mundo. Não existe aí nem a personalidade do homem, nem a personalidade de Deus, mas apenas e tão somente uma divindade cósmica impessoal e neutra. A gnose teosofista r3ecusa-se a reconhecer a antinomia da consciência religiosa, ela estabelece uma continuidade evolutiva. O Cristianismo é, antes de tudo, histórico, ele libera o conhecimento de Deus e do homem do jugo esmagador da infinitude cósmica, ele afirma a existência de uma origem única, não sujeita a repetições, sobre a qual se fundamenta a história, e que a diferencia da natureza.

 

O teosofismo não tem uma consciência do mistério da liberdade. Esse não repousa, para ela, na base do mundo. É por isso que ele não compreende o mal: ela o considera exclusivamente do ponto de vista do evolucionismo. Steiner, no início de suas atividades, escreveu A filosofia da liberdade. Mas não existe liberdade alguma nesse livro, ou antes, a que existe não passa de um produto da necessidade. O homem chega à liberdade em consequência da evolução, mas não procede dela. Steiner desconhece a liberdade inicial. Percebemos em suas obras a influência de Haeckel e Max Stirner. De resto, nenhum livro teosofista menciona essa liberdade inicial. O espírito humano está acorrentado à evolução cósmica; ele se liberta dela, mas isso demonstra precisamente que a liberdade não é resultado dessa evolução. Para o teosofismo, homem não foi criado à imagem e à semelhança divinas, e é por isso que a liberdade, como princípio inicial e eterno, não é inerente a ele.

 

O homem é filho do processo universal; por conseguinte, sua força propulsora é a necessidade. É verdade que Steiner afirma que o homem deve ser livre, e que o será. Mas isso não passará de um momento no processo cósmico, pois o homem está condenado a desaparecer. Ele nem sempre existiu, e não existirá para sempre, ele será substituído pelas hierarquias superiores; um novo éon virá em seu lugar. Com essa concepção do ser, na qual o “eu” espiritual impessoal não passa de um dos elementos constituintes, nos perguntamos porque o homem teria necessidade de liberdade.

 

Por negar a liberdade, o teosofismo está obrigado a negar o mal. Ele adotou, no que lhe concerne, o ponto de vista evolucionista, ao qual ele acrescenta às vezes um certo maniqueísmo. Se a liberdade não existe, tampouco o mal existirá. Os teosofistas oscilam entre o monismo evolucionista e naturalista e o dualismo maniqueísta. Mas o monismo e o dualismo são ambos incapazes, não apenas de resolver o problema do mal, como simplesmente colocá-lo. Com efeito, o dualismo também concebe o mal de uma perspectiva naturalista, por não ver nele mais do que uma esfera particular, independente do ser, nada além da natureza inferior e má. A interpretação espiritual do mal está sempre ligada à liberdade. O mal tem sua fonte na liberdade e não na natureza, e é por isso que ele é irracional. Esse é o ponto de vista do Cristianismo. O teosofismo, ao contrário, faz o mal derivar da evolução cósmica e não admite que ele possa ser derrotado nela. O problema do mal, como o do homem e de Deus, se escurece na infinitude cósmica. Definitivamente, não existe nem liberdade, nem mal, nem homem, nem Deus, mas unicamente um processo cósmico, uma alternância infinita de éons, uma agregação e uma dissolução de planos universais. Existe um infinito em potência, mas não um infinito atual, um infinito cósmico, mas não um infinito divino, e nenhuma eternidade.

 

 

III

 

A distinção fundamental entre o Cristianismo e o teosofismo reside em que um é a religião da graça, enquanto que o outro ignora a graça. A concepção teosofista do mundo traz a marca da lei, não da graça. O caminho professado pelo teosofismo, e que é seguido pelos teosofistas, é exclusivamente aquele que vai de baixo para cima. O homem natural faz esforços sobre-humanos para alcançar os mundos espirituais, subindo pelos degraus de uma escada sombria. Mas nenhum raio de luz vem do alto para iluminar esse caminho temível em meio à escuridão. O homem se encaminha para a luz através de trevas espessas, sem receber apoio algum.

 

Segundo o teosofismo, o destino humano é regido ela lei e não pela graça. Esse naturalismo atinge mesmo as profundezas da vida espiritual e divina. A justiça se identifica com essa lei naturalista, com a lei da natureza espiritual. O karma é precisamente uma dessas leis do destino humano, da qual o homem não pode escapar, devendo resgatar, no decurso de suas infinitas reencarnações no devir, as consequências de suas infinitas encarnações do passado. O passado se estende indefinidamente em direção ao futuro, ele é invencível. O karma é, de um lado, a lei natural da evolução espiritual, que indica que o destino humano é regido pela lei e que ele não se beneficia da graça; e, de outro lado, ele é a lei da justiça, a recompensa merecida, a colheita do que foi semeado, o resgate do que foi cometido. Para a consciência teosofista, a lei natural e a lei moral se identificam.

 

Podemos contemplar sob um prisma sinistro e inextricavelmente sombrio a perspectiva dessas transmigrações e dessas evoluções; e, no entanto, a própria doutrina teosofista está baseada sobre a hipótese otimista que admite na evolução natural dos mundos espirituais a manifestação de uma lei equitativa, o triunfo de uma justiça cósmica e divina. O teosofismo não considera a incursão do mal livre e irracional na vida universal; por isso, ele não sente necessidade de ser libertado do mal pela graça. Tudo e adquirido pelo trabalho, nada é concedido gratuitamente. A graça é gratuita, e por isso ela é incompreensível e inadmissível para o teosofismo. A justiça karmica, que subordina o homem à evolução cósmica natural, nega igualmente a superabundância criadora. A natureza do home não é chamada à criação, mas ao desenvolvimento, à evolução, ao resgate do passado no devir.

 

Em tudo isso o Cristianismo se distingue radicalmente do teosofismo, porque ele é a religião da graça superabundante e gratuita. No mistério da redenção, a lei e a justiça karmicas do destino humano são superadas. O Cristianismo é a religião do amor; ele triunfa, ao mesmo, sobre a lei da natureza e sobre a lei da justiça. O homem que comungou do mistério da Redenção, que recebeu a Cristo em si e que participa da geração de Cristo, já não pode estar submetido à lei karmica, já não pode ser obrigado a resgatar o passado, de superá-lo através de infinitas transmigrações, por um longo processo de justiça em conformidade com a lei. O ladrão sobre a cruz, que, num impulso espontâneo, recebeu o socorro de Cristo, já não estava mais subordinado à lei e à justificação karmicas; ele atingiu subitamente o final do caminho espiritual, que, segundo as leis da evolução e da  justiça, ele não poderia alcançar senão depois de percorrer uma série interminável de encarnações. Ele, que viveu uma vida de pecados e crimes, foi colocado com Cristo no paraíso, no seio do Pai Celeste.

 

Do ponto de vista teosofista, o destino do ladrão do Evangelho é inconcebível, ainda que por vezes os teosofistas admitam a possibilidade de uma redução do karma. No destino do ladrão, essa lei foi ab-rogada. A natureza mais profunda do Cristianismo reside nessa supressão do karma, na vitória da graça sobre o destino humano submetido à lei. O Cristianismo subtrai o homem a esse poder do tempo e dos processos transitórios, enquanto que o teosofismo o mantém aí. Não há livro teosofista em que possamos encontrar, não apenas a solução do problema relativo ao tempo e à eternidade, mas mesmo sua colocação. O homem permanece separado de Deus pelo infinito processo cósmico; ele não pode comungar imediatamente da eternidade, da vida divina, mas permanece encadeado à vida cósmica.

 

A Igreja cristã coloca o homem face a face com Deus e lhe abre o caminho de acesso que conduz à comunhão com Ele. Esse caminho se abre, antes de tudo, pela prece. Nessa experiência, o homem se coloca diante de Deus sem o intermediário de hierarquias e de evoluções; ele sai do tempo para entrar na eternidade, ele deixa a vida do mundo para penetrar na vida divina. A experiência da comunhão com Deus, estabelecida pela prece, não é justificada pela consciência teosofista. A prece, para ela, adquire um sentido totalmente diferente, ela não passa de uma das formas de meditação.

 

Ao subordinar o homem à evolução cósmica, ao lhe recusar a luz absoluta adquirida por toda eternidade, o teosofismo torna ininteligível o sentido, o Logos da vida universal e humana. O sentido não procede da evolução, pois essa pressupõe um sentido que plana acima de cada processo temporal e seu precedente. Aluz deve estar no começo, e não no fim do caminho, pois ela deve iluminar a rota seguida pelo homem. O teosofismo conduz o homem pelo caminho de uma evolução cósmica, cujo sentido é inexplicável, que permanece obscuro e cujo término ignoramos. Se a luz só se coloca no final no termo da evolução infinita, ela não ilumina o caminho e não é capaz de explicar seu significado. O homem se vê assim como um instrumento de agentes cósmicos que são ininteligíveis para ele. O Logos, sendo um desses agentes, não domina o processo cósmico e o homem não tem nenhuma possibilidade de comungar com ele. Mas o sentido não é adquirido senão na eternidade, ele é inacessível na infinitude, na qual todo sentido é engolido. Recusa-se ao homem o ponto de apoio na eternidade, ele não está enraizado senão no tempo infinito. A ausência da graça no teosofismo nos torna ininteligível o sentido do mundo e o significado da vida humana. Em nome de que, em nome de quem, deve o home percorrer seu caminho de evolução? A bem dizer, o teosofismo ignora a revelação, e isso determina todas as suas peculiaridades.

 

O Cristianismo é menos otimista, porque ele reconhece o princípio irracional do mal no mundo e porque ele não presume que a lei de evolução espiritual seja necessariamente boa. Mas ele é infinitamente mais alegre e mais luminoso do que o teosofismo, porque ele tem fé na boa nova da libertação do mal e da vinda do Reino de Deus. A noção desse Reino não desempenha nenhum papel na doutrina teosofista. Ela não aborda a escatologia, pois o karma, as evoluções das encarnações infinitas e mesmo a fusão com a divindade impessoal, não oferecem nenhuma solução para o destino final do homem. Para a consciência teosofista, a redenção parece não ter sido realizada, ou ao menos ela não lhe atribui mais importância do que a consciência hindu, embora os teosofistas se encontrem numa épica cristã da vida universal. Pata eles, o mundo permanece enfeitiçado pela magia, pela sua necessidade. Sua concepção do mundo é mágica, e não mística. O teosofismo consiste numa reação, dentro cristão, dos princípios espirituais pré-cristãos, mas, como ele é um sincretismo, ele absorve alguns elementos do Cristianismo, mas deformando inevitavelmente as noções cristãs sobre o homem, a liberdade e a graça. Os teosofistas consideram evidentemente como inexata tal interpretação de suas doutrinas. Eles tentaram provar que o teosofismo ensina uma antiga sabedoria divina, anterior a toda evolução de nosso mundo, a ciência dos grandes iniciados, que dirigiriam toda essa evolução. Eu já conhecia essas objeções, mas elas não me farão admitir que o sentido da evolução universal se revele assim ao homem e santifique seu caminho por toda eternidade. Sua relação diante da sabedoria antiga e dos grandes iniciados, é uma relação autoritária, e dela eles pretendem ser os únicos a possuir o segredo.

 

 

IV

 

As correntes teosofistas e ocultistas, que se tornaram mais ou menos populares, levantam o problema da gnose perante a consciência cristã. É nisso que reside seu significado positivo. O próprio Cristianismo, ou mais exatamente a humanidade cristã, é responsável por sua popularidade. O teosofismo seduz por sua negação dos suplícios eternos do inferno, que a consciência moral do homem contemporâneo se recusa a admitir. Ele seduz também por sua tentativa de resolver o problema da origem, do desenvolvimento e do destino da alma, problema que não tem solução determinada e admissível fora da consciência da Igreja. Ele seduz ainda por sua reconciliação entre a fé e o conhecimento, entre a religião e a ciência.

 

Os que acreditam que o problema da gnose pode ser resolvido pela teologia oficial não aprofundam a questão. Na consciência da Igreja subsiste um forte agnosticismo, consequência de sua luta contra o gnosticismo. A convicção de que a gnose autorizada foi depositada e cristalizada na teologia ortodoxa da Igreja, de que toda outra gnose é proibida e herética, predomina oficialmente no mundo cristão. Porém, por sua natureza e seus métodos, a teologia não é uma gnose. Nela os resultados são conhecidos previamente, e não são obtidos pelo próprio processo de conhecimento, e a teologia não é chamada senão para os sustentar e motivar. Na teologia, a doutrina do cosmo não é, em absoluto, revelada, e a doutrina do homem só o é de maneira unilateral. A cosmologia sempre se revestiu, no Cristianismo, de um caráter de contrabando. A doutrina da Sabedoria (Sophia) foi uma das tentativas que teve por objetivo preencher essa lacuna. É curioso constatar que todas as doutrinas cosmológicas na teologia e na filosofia cristãs tenham sempre despertado certa desconfiança. A consciência teológica oficial concedia uma preferência ao positivismo científico e à doutrina mecanicista da natureza, em detrimento de qualquer gnose cosmológica. De medo de divinizar o mundo, era preferível torná-lo ateu.

 

No Cristianismo moderno foi estabelecida uma concordata, um equilíbrio relativo, uma paz, entre a religião e a ciência. A consciência cristã, predominante em nossa época, acusa em si uma perda do sentido do cosmo e da faculdade de sua contemplação. O mundo medieval, assim como o mundo antigo, ambos entreviam no cosmo o sistema hierárquico da natureza. O homem moderno perdeu essa faculdade de contemplar o cosmo, e a natureza se transformou para ele em um objeto submetido ao conhecimento das ciências matemáticas e físicas, e à reação prática da técnica.

 

A consciência da Igreja perdeu cada vez mais em nossa época seu caráter cósmico. Começou-se a ver na Igreja não mais do que uma comunidade de crentes, uma instituição; começou-se a interpretar os dogmas de um ponto de vista moralista, já não se distingue nos sacramentos nada além de seu aspecto psicológico e social, esquecendo-se de seu elemento cósmico. O nominalismo na consciência da Igreja triunfou sobre o realismo.

 

A realidade do cosmo desaparece e se concentra exclusivamente sobre as realidades da psíquica e social. Avalia-se a religião de um ponto de vista prático, na medida apenas em que ela constitui uma força social e organizadora. Desaparece da teologia a doutrina que via na Igreja o Corpo místico de Cristo, como um corpo cósmico e não unicamente como um corpo social. Um espírito de positivismo, sem que nos déssemos conta, penetrou no Cristianismo e na consciência da Igreja. Esse positivismo teológico de natureza bastante peculiar é desprovido de todo sentido místico da vida. É curioso constatar que o positivismo que concerne à concepção da natureza penetrara desde muito tempo o Cristianismo, e que essa concepção teria mesmo nascido sobre o terreno do Cristianismo.

 

A obra de São Basílio o Grande, que é uma interpretação livre do Gênesis, é um exemplo desse positivismo sui generis. Ela é consiste num tratado naturalista que, para o nível científico daquela épica, poderia ser comparado aos de Haeckel. O positivismo e o naturalismo dessa obra ficam particularmente manifestos, mormente se os aproximamos do Mysterium Magnum de Boehme, que também comporta uma interpretação do Gênesis. Em São Basílio encontramos uma física descritiva, em Boehme uma gnose cosmológica. Mas essa gnose não é reconhecida pela consciência da Igreja, que permanece na defensiva em relação a suas doutrinas. No Cristianismo e na ciência moderna, o conhecimento antigo foi perdido, e os ocultistas têm razão quando o afirmam. Como compreende a consciência cristã a relação entre o gnosticismo e o agnosticismo?

 

Até os nossos dias, as consequências últimas da controvérsia entre gnosticismo e agnosticismo não foram esclarecidas. A teologia oficialmente predominante rejeita os dois sistemas e tenta se afirmar numa esfera intermediária. Mas é impossível se manter por muito temo nessa zona mediana. A consciência dogmática da Igreja foi elaborada na luta contra o gnosticismo. Por esse motivo, muitas coisas foram predeterminadas. O anti-gnosticismo se tornou, num certo sentido, o agnosticismo. O conhecimento dos mistérios da vida cósmica foi proibido. A obra dogmática dos Doutores da Igreja e dos Concílios Ecumênicos não constituiu uma gnose; as fórmulas foram elaboradas tendo em vista uma experiência religiosa normativa, e essa elaboração se realizou com base na refutação de doutrinas errôneas. A consciência da Igreja fazia uma associação entre a gnose e a deformação da experiência religiosa.

 

A Igreja cristã escolheu primordialmente como missão retirar o homem do domínio da natureza, libertá-lo do poder dos elementos e dos demônios. O agnosticismo da Igreja preservava o espírito humano desse jugo dos elementos naturais, desse infinito cósmico que ameaçava engoli-lo. Foi uma luta que se travou pelo homem, pela sua imagem, pela liberdade de seu espírito. Eis porque não devemos considerar com desdém o agnosticismo da Igreja, nem criticá-lo de forma inconsequente, mas, ao contrário, é preciso captar seu sentido. A consciência da Igreja admite com mais facilidade a concepção mecanicista da natureza, o positivismo, do que admitir o gnosticismo, a cosmologia gnóstica. Ela teme o poder da magia sobre a alma humana e pretende libertar dela seu espírito.

 

Os antigos gnósticos eram, sob muitos aspectos, notáveis pensadores. Os Doutores da Igreja foram, sem dúvida, injustos para com eles, e deformaram suas ideias. Valentino foi um homem genial; podemos constatá-lo mesmo a partir do tratado extremamente parcial feito por Santo Irineu. Mas entre os gnósticos, cuja atitude perante o cosmo seguia sendo pagã, o homem não estava livre do poder dos espíritos e dos demônios, mas permanecia sob o feitiço da magia. A bem dizer, os gnósticos não eram heréticos cristãos, mas iniciados pagãos, que absorveram de modo sincrético alguns elementos da sabedoria cristã. Jamais, porém, eles acolheram o mistério fundamental do Cristianismo, o da redenção do homem, da transfiguração da natureza inferior em natureza superior. Eles tinham, na realidade, uma concepção estática do mundo, e não concebiam o dinamismo cristão. Podemos encontrar neles rudimentos de evolucionismo: eles falavam em épocas e períodos históricos. Essas noções apresentavam certo interesse, mas estavam muito distantes do dinamismo cristão, que prega a transubstanciação, a transfiguração da natureza inferior. Para os gnósticos, a imagem de Deus e a imagem do homem se esvaem e se fragmentam nos processos cósmicos. O cosmo, com sua estrutura hierárquica extremamente complexa, com seus éons infinitos, não esmagava apenas o homem, esmagava a Deus também.

 

A consciência da Igreja se rebelou, em nome de Deus e do homem, contra essa forma de gnosticismo, e se recusou a deixar que o homem se tornasse presa das forças cósmicas. A libertação espiritual, a libertação em relação ao poder dessas forças, essa foi a obra significativa da consciência da Igreja. Para compreender o mistério da transfiguração do inferior no superior, é preciso retirar o homem da lei cósmica. Assim sendo, enquanto o homem não se emancipar espiritualmente em relação ao elemento natural, enquanto ele não tiver unido sua natureza espiritual a Deus, a Igreja estabeleceu limites à sua penetração gnóstica aos mistérios da vida cósmica. O gnosticismo exaltou o orgulho dos homens “pneumáticos” e sua presunção de superioridade sobre os homens “psíquicos” e os homens “carnais”, mas não foi capaz de encontrar o caminho de santificação da alma e do corpo, de sua transfiguração e de sua inserção no espírito.

 

A consequência do agnosticismo na Igreja, na história intelectual da humanidade, apareceu no desenvolvimento da ciência e da técnica, na mecanização da natureza. O Cristianismo libertou o homem das forças que a seguir se levantaram contra ele. tal é o trágico destino do ser humano. E até agora existem homens, os quais, mesmo tendo o sentido da Igreja, dão preferência à mecânica e à física positivistas, que, segundo eles, não apresentam nenhum perigo para o Cristianismo, em detrimento da cosmologia gnóstica, que eles veem como uma concorrência. Mas a união do Cristianismo com a concepção mecanicista da natureza não é, em princípio, obrigatória.

 

Seria errôneo concluir que o Cristianismo não admite a gnose, que ele não é capaz de tolerar o conhecimento dos mistérios cósmicos. Não é isso que pretende a consciência dogmática da Igreja. Clemente de Alexandria, Orígenes, São Gregório de Nissa e São Máximo o Confessor foram todos gnósticos cristãos. A gnose cristã é, portanto, possível. O Cristianismo não pode admitir um retorno à concepção pagã da natureza, à demonolatria, à dominação da magia sobre o espírito humano, à desagregação da imagem humana pelos espíritos dos elementos.

 

Foi dito: “Sejam prudentes como as serpentes e simples como as pombas[2]”. Por isso, a sabedoria da serpente, a gnose, se encontra afirmada. Mas essa sabedoria não tem nada de incompatível com a simplicidade do coração. O Cristianismo nega que o homem possa alcançar a Deus e os mistérios divinos pelo caminho de uma incessante evolução do pensamento; ele afirma que, sobre as vias do conhecimento divino, o homem sofre uma catástrofe intelectual ao modificar sua consciência e seu pensamento, que ele passa pela experiência da fé, na qual o mundo das coisas invisíveis é demonstrado. Nessa experiência se entreabre a possibilidade de um conhecimento. A fé não nega a gnose, ela aplaina seu caminho na experiência espiritual.

 

Essa questão se coloca, para nós ortodoxos, de modo bem diferente do que o é para a consciência católica. Essa afirma que Deus pode ser conhecido não apenas pela revelação, mas também pelas forças naturais da razão humana. Essa noção constitui a pedra de ângulo do sistema tomista. Existe aí um racionalismo que recusa admitir que possa haver, em todo conhecimento de Deus, uma antinomia para a razão. O Concílio Vaticano condenou ao anátema todo ser que afirme que Deus, único e autêntico, nosso Criador e Mestre, não possa ser conhecido por intermédio das coisas criadas, pela luz natural da razão humana. Essa sentença, que censura o fideísmo e condena pensadores católicos como Pascal e Joseph de Maistre, afirma na consciência da Igreja um naturalismo racional, um modo de pensar em categorias racionais. A teologia natural é reconhecida assim como obrigatória.

 

Para a consciência ortodoxa, o problema se coloca de outra maneira: não existe aí nenhuma doutrina racional obrigatória semelhante ao tomismo. Esse naturalismo racionalista é o fruto do agnosticismo e se dirige contra toda gnose. Deus e o mistério da vida divina são incognoscíveis; mas na natureza, na criação, é possível, por meio de um caminho racionalista e naturalista, adquirir as provas da existência divina. Estabelece-se uma paz entre a revelação e o conhecimento natural de Deus, entre a religião e a ciência. Essa concórdia entre as ordens sobrenaturais e naturais não expande o domínio da gnose, mas, ao contrário, o estreita; ela resulta de uma falta de fé na possibilidade de iluminação da razão, na possibilidade de um conhecimento no Espírito, de um conhecimento teândrico. Mas, se a gnose cristã é possível, ela não pode ser outra coisa do que um conhecimento espiritual, místico, e não natural ou racional.

 

O trabalho do pensamento foi menos intenso no Oriente ortodoxo do que no Ocidente católico. O pensamento ortodoxo não elaborou uma doutrina precisa, e, no entanto, o Oriente é mais gnóstico do que o Ocidente, pois ele crê desde o início na possibilidade de uma gnose mística, de uma gnose que o Ocidente frequentemente considera como heresia. Os Doutores da Igreja do Oriente são mais gnósticos do que os Doutores ocidentais. Da mesma forma, a gnose crista pode se desenvolver com mais facilidade sobre o terreno espiritual da ortodoxia do que sobre o do catolicismo. Os movimentos russos, religiosos e filosóficos, dão testemunho disso. O agnosticismo cristão, que subsiste e se afirma integralmente no racionalismo católico, tinha sua justificação.

 

Mas pode chegar o dia em que ele deverá desaparecer do Cristianismo, por se tornar perigoso. Esse agnosticismo cristão afirma um pragmatismo do não conhecimento. É preciso limitar a receptividade do homem, a fim de que ele não se torne surdo ou cego pelos trovões e a luz cósmicos. Somos protegidos por nossa insensibilidade, pela ausência de receptividade, contra tudo o que é perigoso para nós, e para as coisas para as quais não estamos espiritualmente maduros. O não conhecimento pode ser uma salvaguarda, tanto quanto o conhecimento. Se pudéssemos ver e conhecer no mundo tudo o que não vemos nem conhecemos, não seríamos capazes de suportar e seríamos dispersos pelos elementos do mundo. A clarividência é perigosa, ela não pode ser acessível senão a uma minoria, pois ela exige uma grande preparação espiritual. O homem não seria capaz de suportar a visão da aura que envolve os seres.

 

Mas pode vir um tempo em que o não conhecimento seja mais perigoso do que o conhecimento, do que a receptividade sensível. O sentido pragmático do não conhecimento pode perder seu valor; é então que o pragmatismo do conhecimento fará valer seus direitos. O conhecimento é útil, enquanto proteção contra as forças hostis do mundo. Não é apenas o conhecimento mecânico da natureza, que nos arma com a técnica, que nos é indispensável, mas também o conhecimento da vida interior do cosmo, da estrutura do mundo. Para essa, o homem deve estar espiritualmente fortalecido, ele deve adquirir a sabedoria de Cristo, não essa inteligência validada pelo Concílio Vaticano, que é racional e natural, mas uma inteligência iluminada. A partir daí, o homem não mais correrá o risco de ser despedaçado pelos elementos cósmicos, ele já não correrá o risco de cair sob o poder dos demônios. A gnose cristã repousa sobre a aquisição da sabedoria de Cristo, sobre o conhecimento teândrico em Cristo e por Cristo. Não podemos vencer a pseudo-gnose, senão opondo a ela uma gnose autêntica, a gnose de Cristo. É isso que nos ensinaram os místicos cristãos. Chegou o tempo em que a ciência já não pode permanecer neutra; ou bem ela será cristã, ou bem se tornará uma magia negra.

 

Encontramos no teosofismo algumas verdades e alguns elementos de conhecimentos antigos. O teosofismo está ligado ao ocultismo; esse último não constitui uma tendência contemporânea, mas remonta a uma antiquíssima tradição, que se perpetua através de toda a história do espírito humano. As chamadas ciências ocultas não comportam mais do que o charlatanismo. A esfera do oculto, a magia, enquanto força real, existe no mundo natural. Essas forças secretas, que ainda não foram estudadas pela ciência, agem sobre o homem e no cosmo. No decurso das últimas décadas, a ciência contemporânea se orientou progressivamente para o estudo desses fenômenos ocultos, que se manifestam no homem e na natureza. A esfera do subconsciente, que era conhecida pelos homens da antiguidade, mas que parecia estar fechada para a humanidade moderna, se expande pouco a pouco. A ciência começa a admitir, no campo de suas pesquisas, manifestações mágicas, que por muito tempo foram consideradas como sobrevivências de superstições e como imposturas. Du Prel, representante do ocultismo científico, afirmava, há tempos, que a ciência deveria inevitavelmente retornar às suas verdades mágicas, que a magia consiste precisamente na ciência física desconhecida. Fenômenos como a telepatia, a clarividência, o magnetismo animal, o sonambulismo, a materialização, e outros, devem se tornar objetos de análise científica. A ciência está obrigada a reconhecer certos fatos que ela negou até hoje. A Sociedade de Estudos Psíquicos da Inglaterra consagra-se há muito tempo ao estudo desses fatos, e numerosas descobertas foram efetuadas nesse domínio por psiquiatras e neuropatologistas.

 

A opinião oficial predominante, que, estabelecendo limites intransponíveis ao conhecimento, determina previamente aquilo que não pode ser obtido pela experiência, já não é admissível, pois nele podemos discernir um caráter supersticioso e dogmático. Hoje em dia reconhece-se o campo ilimitado da experimentação e já não se crê nas proibições mantidas pelo empirismo racionalista. Não nos encontramos artificialmente subtraídos à receptividade de toda uma classe de fenômenos ocultos da natureza, que eram percebidos em épocas anteriores, quando a consciência ainda não estava oprimida pelas limitações racionalistas. A ciência se vê obrigada a recuar até o infinito o seu horizonte, e a estudar todos os fenômenos, por mais inacreditáveis, ocultos e milagrosos que lhe possam parecer. A natureza do universo e a do homem são infinitamente mais ricas em forças, do que consegue conceber a consciência científica da época das “luzes”. A esfera do subconsciente faz definitivamente parte da esfera das pesquisas científicas, e essa esfera constitui uma fonte inesgotável. Todo poder criativo da humanidade provém do subconsciente. O desenvolvimento da ciência nessa direção confirma muitas das asserções da tradição oculta. A magia primitiva não chegou a se cristalizar definitivamente na ciência, que ela própria gerou; mas ela possui igualmente sua linha diferenciada de progresso. Não existe apenas a magia dos selvagens, existe também uma magia dos homens civilizados. Esse caminho seguiu paralelamente ao do desenvolvimento da ciência. Mas chegou um momento em que essas duas paralelas se encontraram num ponto comum, no qual a ciência, chegada aos seus últimos aperfeiçoamentos, voltou a se unir à magia. É esse processo que estamos assistindo atualmente. A popularidade das correntes ocultistas não passa de um sintoma disso.

 

O ocultismo, na medida em que constitui uma expansão da esfera relativa ao conhecimento do mundo e do homem, é conciliável, ao menos em princípio, com o Cristianismo, que não se opõe a ele, assim como não se opõe à ciência. O ocultismo não está em maior contradição com o Cristianismo do que a física ou a psicologia. Mas ele se choca com o Cristianismo e provoca uma viva reação da parte da consciência cristã, cada vez que pretende se substituir à religião. O ocultismo, enquanto religião, é o antípoda do Cristianismo. Podemos dizer o mesmo do espiritismo, que tanto pode ser um estudo científico como uma pseudo-religião, como ocorre em Alan Kardec. Dentro da consciência cristã o ocultismo pseudo-religioso dá lugar às mesmas objeções que antigamente provocava o ensinamento dos gnósticos. Nosso conhecimento de Deus, nossa cristologia e nossa concepção da missão do homem, não podem resultar de conhecimentos ocultos. As ciências ocultas fazem buscas em cima de forças ocultas da natureza, mas não conseguem resolver os problemas últimos da existência. Podemos ver, nas contemplações teosofistas da vida cósmica, o lado perigoso do ocultismo, quando ele transgride seus limites.

 

O teosofismo pretende fazer a anatomia do homem e do cosmo, ele disseca tudo o que possui uma perfeita unidade orgânica, e contempla o estado cadavérico do mundo. Não se trata de uma contemplação, ou de um conhecimento vivo. A vida se extingue em contato com os teosofistas e com os ocultistas que pretendem conhecer o mistério derradeiro. Eles são capazes de perceber as partículas do ser, mas não lhe é dado ver sua integridade. O teosofismo pretende constituir uma vastíssima síntese, mas na realidade ele é analítico; ele faz a autópsia dos tecidos vivos do corpo universal e procede à sua preparação, e a isso corresponde bem o esquematismo extremo da doutrina teosofista. Em seus esquemas, que é preciso aprender e decorar, existe um quase cheiro de cadáver. O teosofismo nos dá os traçados do despedaçamento terrestre, no qual tudo é dissecado em partes constituintes. Quanto ao mistério da agregação dessas partes num corpo vivo, num organismo integral, isso ele ignora. O teosofismo não constitui uma síntese da religião, da filosofia e da ciência, mas, ao contrário, uma mistura confusa no qual já não se pode encontrar nem religião, nem filosofia, nem ciência verdadeiras.

 

O ocultismo deve ser inteiramente referenciado ao domínio da ciência, cujos horizontes ele amplia. Mas, de modo algum, a religião pode ser submetida a ele. A gnose cristã autêntica pressupõe um fundamento religioso positivo, ela extrai sua força das revelações do mundo espiritual, e ela une a religião, a filosofia e a ciência, sem subordinar a fé a uma pseudociência.

 

A consciência da personalidade pode e deve ser desenvolvida; e a esse desabrochar deverá corresponder uma nova interpretação da natureza, que não mais será percebida de um modo estático. Mas a afirmação de uma consciência cósmica também apresenta alguns perigos. A emancipação da personalidade, que lhe permite alcançar a extensão do cosmo, pode conduzir à perda dos seus limites, ou à sua absorção pelo infinito cósmico. Ora, a consciência cristã não pode admitir mais do que uma gnose cósmica, na qual a natureza da personalidade permanecerá precisa, na qual nada ela não será perturbada, nem dissociada por essa infinitude.  O problema da gnose é, para toda a consciência cristã, uma questão de dois gumes. A proibição da gnose concede a supremacia à pseudo-gnose, gera a doutrina teosofista, onde as verdades esparsas são artificialmente sintetizadas. É preciso opor ao falso teosofismo uma teosofia cristã autêntica.

 

 

V

 

O ocultismo tem razão quando vê na natureza, não um mecanismo, mas uma hierarquia de espíritos; ele também tem razão quando nega a unicidade, o isolamento e a estagnação de nosso éon universal. Não apenas a consciência positivista, como a própria consciência da Igreja identifica, de certo modo, o universo e a criação com o éon de nosso mundo. Não existem limites precisos que o isolem daquilo que o precedeu, daquilo que lhe sucederá, ou daquilo que se encontra além dele.

 

Na aurora da vida universal, a natureza se encontrava menos materializada, menos condensada do que ela o é na evolução de nosso éon. As tradições ocultas nos falam dessa incandescência do mundo, e elas encerram grandes verdades esquecidas por nossa consciência religiosa e científica. No início de nossa vida universal a consciência do homem era sonolenta; a esse estado corresponde uma ausência de limites precisos entre nosso mundo e os outros. A própria crônica akashika contém elementos de verdade a esse respeito. O endurecimento da natureza material não constitui a verdade última. Na consciência cristã, a concepção materialista da natureza sofrerá inevitavelmente uma crise. Presentemente, o homem já receia essa espécie de mecanicismo mumificado. O ocultismo se perde na contemplação da natureza viva e animada, mas a questão que ele propõe é justa.

 

Os filósofos e os teósofos da época da Renascença abordavam melhor os mistérios da natureza do que os homens contemporâneos. Boehme considerava que a vida do cosmos se desenrolava em categorias de bem e de mal, de pecado e redenção, de trevas e de luz, vale dizer, em categorias de vida espiritual; Paracelso, rico em ideias profundas, já seguira essa via, e nós podemos sempre nos socorrer deles. Sua teosofia e sua cosmologia são infinitamente superiores ao teosofismo de Besant ou de Steiner. Não podemos conceber o cosmo senão como um organismo vivo. É preciso ver o espírito na natureza e a natureza no espirito. É preciso perceber o subjetivo no objetivo, o natural no espiritual, o cósmico no antropológico. A cosmologia sempre foi fundamentada sobre a visão da identidade interior entre o espírito e a natureza, vale dizer, sobre uma concepção da natureza que contempla o fenômeno do espírito.

 

A doutrina sofiológica do pensamento religioso russo é uma dessas tentativas que têm por objetivo restituir ao Cristianismo sua consciência cósmica, de dar em Cristo um lugar para a cosmologia e a cosmosofia. Ela possui um valor sintomático, pois ela se esforça em superar o positivismo da Igreja. Encontramos aqui uma das expressões do platonismo cristão, a penetração do mundo das Ideias na consciência da Igreja, da doutrina relativa à alma universal, do realismo platônico, que podemos opor à degeneração nominalista do Cristianismo. É preciso reconhecer que a consciência da Igreja, nas suas formas oficiais e dominantes, não crê na realidade do cosmo, que ela encara o mundo sob o ângulo do positivismo, adotando uma interpretação moralista do Cristianismo. A natureza cósmica da Igreja é totalmente inacessível a essa consciência, que não entrevê mais do que seu alcance social. Mas a doutrina sofiológica se reveste de um caráter tal, que o problema do cosmo ameaça absorver definitivamente o problema do homem; sua liberdade e sua atividade criativa desaparecem aí. Entretanto, em nossa época, o problema religioso capital é o do homem, e não o da Sophia ou do cosmo. A sofiologia deve ser conectada ao problema antropológico. Boehme, nesse sentido, é um grande precursor. Para nossa consciência, ele tem mais valor do que Platão. Sua doutrina é também menos panteísta do que a dos adeptos da sofiologia russa. Lembremos aqui brevemente o que foi dito sobre essa doutrina de Boehme, e tentemos tirar algumas conclusões daí.

 

A Sophia é a Virgem do homem, sua Virginitæt. O homem é andrógino quando nele habita sua Virgem, ou seja, quando ele é virgem, casto e integral. A queda do homem-andrógino significa para ele a perda da Virgem, que retorna ao céu, ao passo que sobre a terra aparece a mulher, que resgata seu pecado na maternidade. A natureza feminina atrai e seduz eternamente o princípio masculino desprovido de integridade, ao mesmo tempo em que aspira a se unir a ele sem jamais obter satisfação. O homem cai sob o poder do elemento sexual e se submete à necessidade natural. Ademais, a perda da Virgem marca, para ele, a perda da liberdade, pois a integridade e a castidade constituem a liberdade. O mundo natural não é Virgem, pois ele não é regido por um elemento feminino sábio. Mas a Virgem celeste penetra novamente no mundo natural sob a forma da Virgem Maria, e dela nasce em espírito a geração do novo Adão, na qual a virgindade sábia e a maternidade santa devem vencer a feminilidade inferior. A veneração da Sophia, da Virgem celeste, se une à veneração da Mãe de Deus. Dela nasce o Deus-Homem, no qual, pela primeira vez na história do mundo natural, aparece a virgindade absoluta, a absoluta integridade, vale dizer, o estado andrógino da natureza humana.

 

A alma universal é feminina, ela é decaída, mas é nela, assim como é na alma humana, que o restabelecimento da virgindade é possível. A Virgem Maria aparece como o princípio virginal da alma universal. A cosmosofia é o conhecimento desse princípio, vale dizer, de sua beleza eterna. A Sophia é a Beleza. A Beleza é a Virgem Celeste. A iluminação e a transfiguração do mundo natural criado são manifestações da Beleza. E quando a arte, no sentido mais amplo do termo, penetra na beleza do cosmo, ela percebe, para além da pesandez do mundo natural, a virgindade do mundo, a ideia divina que a ele se refere. Mas a sabedoria do mundo está ligada à virgindade do homem. A doutrina sofiológica russa parece negar que o homem seja o centro do mundo, que o cosmo esteja nele, e assim ela não constitui uma doutrina viril, pois ela submete o espírito masculino à alma feminina.

 

Devemos voltar de maneira nova ao sentimento do cosmo. A tarefa da gnose cristã consiste em estabelecer um equilíbrio ideal entre a teo-sofia, a cosmo-sofia e a antropo-sofia. Pois a mística, o ocultismo e a religião coexistem na consciência humana. A mística é a comunhão imediata com Deus, a contemplação de Deus e a união com Ele. o ocultismo é a união com as forças secretas do cosmos, e constitui também um desenvolvimento cósmico. A religião é a atitude organizada da humanidade perante Deus, a via hierárquica e normativa da comunhão com Ele. Boehme, mais do que os outros gnósticos, soube unir em si os momentos místicos, ocultos e religiosos; também a gnose, malgrado alguns desvios, se aproxima mais da gnose cristã autêntica. O esoterismo e o exoterismo não se excluem mutuamente; o exoterismo deve ser compreendido a partir da profundeza do esoterismo.

 

O teosofismo é um sincretismo religioso. Tais movimentos surgem em épocas de pesquisas e de crises espirituais. Fragmentos de conhecimentos antigos e de tradições ocultas nele se misturam à consciência moderna, ao naturalismo e ao racionalismo contemporâneos. O que mais choca no teosofismo e no antroposofismo, é sua presunção, sua pretensão a um conhecimento que eles não possuem, a reivindicação de uma atitude específica em relação aos seus escritos, a certeza com que afirmam que os não-iniciados não são capazes de alcançar as alturas de seus ensinamentos. A atitude espiritual dos teosofistas não é cristã; ela é marcada pela suficiência. O teosofismo seduz pela ideia da fraternidade entre os homens e os povos, que ela jamais será capaz de realizar. Entretanto, correntes desse tipo costumam ser precursores de uma forte luz espiritual.



[1] Empregamos o termo “teosofismo” ao invés de “teosofia”, e “teosofista” em lugar de “teósofo”, para distinguir essa deformação contemporânea da verdadeira teosofia.

[2] Mateus 10: 16.

sábado, 22 de agosto de 2020

Nikolai Berdiaev - Espírito e Liberdade - Capítulo VII: A mística e o caminho espiritual

 

 

I

 

 

Se a palavra místico deriva do termo mistério, então a mística deve ser considerada como a base da religião e como a fonte de seu movimento criador. A experiência religiosa nasce do contato imediato e vivo com o mistério último. Na vida religiosa, o torpor e a paralisia são superados e o renascimento é adquirido por um retorno ao mistério último da existência – vale dizer: pela mística. Nela a vida religiosa ainda está incandescente, ela não está nem extinta, nem fixada. Todos os grandes iniciadores e criadores da vida religiosa conheceram essa experiência inicial, esses encontros místicos, que os colocaram face a face com Deus, com o divino. Foi no fogo da experiência mística que São Paulo teve a revelação sobre a essência do Cristianismo. A mística é o solo nutriz da religião, a qual perece ao se separar dele.

 

Mas, na história, as relações efetivas entre a mística e a religião foram delicadas e confusas. A religião temia a mística e nela via frequentemente a fonte de heresias. A mística entravava, de certo modo, seu trabalho organizador e ameaçava subverter suas normas. Todavia, a religião tinha necessidade da mística, e assim ela sancionava sua própria forma de mística, como sendo a flor e o coroamento de sua vida. Existe uma mística ortodoxa autorizada e recomendada, uma mística cristã, assim como existe uma mística das religiões não-cristãs. A confissão religiosa se esforça sempre por submeter às suas normas o elemento místico, que muitas vezes era voluntário e violento. Dessa forma, existe sempre uma dificuldade nas relações entre a mística e a religião.

 

Essa dificuldade se tornou ainda mais aguda em nossa época, pelo fato de que a mística está na moda, e que essa palavra é frequentemente empregada num sentido obscuro e indeterminado. A introdução da mística na literatura contemporânea teve consequências fatais. Tentou-se dar a ela atributos de uma cultura refinada, mas o que conseguiram com isso foi deformar sua natureza eterna. A mística não constitui um psicologismo refinado, ela não é uma paixão anímica irracional, nem simplesmente uma música da alma. É por isso que a religião cristã, com toda razão, se levanta contra esse sentido que se pretendeu atribuir à mística. O psicologismo do final do século XIX e início do XX está em contradição com o significado da mística, como, de resto, também o está do Logos. Mas se considerarmos, não as obras literárias contemporâneas, mas os modelos clássicos e eternos da mística, seremos obrigados a reconhecer, antes de tudo, que ela não tem uma natureza psíquica, mas uma natureza espiritual, ou seja, ela não é psicológica, mas sim “pneumática”.

 

Na experiência mística, o homem se evade sempre de seu mundo anímico isolado e entra em contato com a origem espiritual da existência, com a realidade divina. Costumamos dizer a certos protestantes, que atribuem à mística um caráter de individualismo religioso, que a mística consiste na evasão de um estado individualista, que ela ultrapassa. A mística é a profundidade e o cume da vida espiritual, ela é uma de suas qualidades. Ela é intima e oculta, mas ela não é individualista. Windelband expressa do seguinte modo a contradição que, segundo ele, existe na mística alemã: ao mesmo tempo em que ela procede do individual, ela considera a individualidade como pecado. Mas existe aí uma contradição no plano psíquico, que cessa de existir no plano espiritual. É preciso afirmar com insistência que a mística não é um estado ou um romantismo subjetivo, que ela está isenta da oposição entre o subjetivo e o objetivo. Ela não é um estado de alma sonhador. Ela é realista, sóbria no discernimento e na descoberta das realidades. Não é um verdadeiro místico senão aquele capaz de ver as realidades e que sabe distingui-las dos fantasmas.

 

Antes de qualquer coisa, é preciso estabelecer uma distinção radical entre a mística e a magia. Essas esferas, conquanto totalmente diferentes, são facilmente confundidas. Enquanto que a natureza da mística é espiritual, a da magia é naturalista. A mística consiste na união com Deus, a magia é a união com os espíritos da natureza, com suas forças elementares. A mística é a esfera da liberdade, a magia é a esfera da necessidade. A mística é desembaraçada e contemplativa, a magia, ao contrário, é ativa e militante; ela revela as forças secretas do homem e do mundo, sem, no entanto, alcançar a profundidade de sua origem divina. A experiência mística constitui precisamente uma libertação espiritual da magia do mundo natural. Nós estamos pregados a essa magia que nem sempre reconhecemos. A técnica científica possui uma natureza e uma origem mágicas, ela é alimentada pelo desejo de conquista das forças naturais. A magia, por essência, é distinta da religião e frequentemente se opõe a ela, embora, apesar de tudo, a religião contenha em si certos elementos de magia.

 

Uma compreensão mais profunda da natureza é sempre mágica. As energias mágicas agem por toda parte no mundo. A mística é comparada à magia em razão da existência de uma pseudomística. Existem dois tipos de falsa mística: a mística naturalista e a mística psicológica, a mística da natureza e a da alma. Mas nenhuma das duas chega a alcançar efetivamente a profundidade da experiência autêntica; nelas sempre subsiste o isolamento do mundo natural e psíquico. A verdadeira mística é a mística espiritual. Nela são ultrapassadas a falsa magia e o falso psicologismo. Somente na profundidade da experiência espiritual o homem pode alcançar a Deus, somente aí ele sai dos limites do mundo natural e psíquico. Mas a mística não pode ser simplesmente identificada à vida espiritual, cuja extensão é infinitamente mais ampla. Não podemos chamar de mística senão a profundeza e o cume da vida espiritual. É nessa profundeza e nessa elevação que o homem toca o mistério final.

 

A mística pressupõe o mistério, vale dizer, a profundidade abissal, inesgotável e inefável. Mas ela pressupõe igualmente a possibilidade de um contato vivo com esse mistério, de uma vida com ele e nele. Reconhecer a existência do mistério e não admitir sua experiência viva equivale a negar a mística. Spencer reconhecia que na origem do ser repousa o incognoscível, vale dizer, um certo mistério. Mas sendo Spencer um positivista e não um místico, o incognoscível era para ele não mais do que um limite negativo. O enigma da mística não é o incognoscível e não implica o agnosticismo. Assim é que o homem não atinge a profundeza mística da vida na gnoseologia, na qual ele só entre em contanto com o incognoscível; a profundidade mística se atinge na própria vida, na experiência, na união.

 

O mistério não é uma categoria negativa, um limite. Ele resume a plenitude positiva e a infinita profundidade da vida. E, quando ele desaparece, tudo se torna superficial, limitado, desprovido de profundidade. O homem é atraído pelo mistério; assim surge uma possibilidade de viver nele e de se unir a ele. É como Mistério que a Face Divina está voltada para o mundo criado, e não a podemos ver senão como Mistério.

 

A mística tem por fundamento um parentesco interior, uma união entre o espírito humano e o espírito divino, entre a criação e o Criador; uma vitória sobre o abismo da transcendência e sobre a exterioridade. Assim é que a mística nos mostra sempre, não a transcendência da divindade, mas sua imanência, alcançada e vivida na experiência. É por isso que a mística emprega sempre uma linguagem diferente daquela da teologia. É essa também a razão pela qual, do ponto de vista teológico, ela sempre pode ser suspeita de variações heréticas. Mas a mística repousa em tal profundidade, que não é possível aplicar a ela dos critérios superficiais da heresia. Os místicos são sempre suspeito de estar orientados para o panteísmo, e quando tentamos compreendê-los racionalmente, traduzi-los em linguagem teológica ou metafísica, chegamos facilmente a esse ponto. O panteísmo constitui na realidade uma doutrina profundamente racionalista. Ora, a mística emprega uma linguagem paradoxal e antinômica; para ela, tanto a identidade como o abismo entre a criatura e o Criador podem existir na mesma medida. A mística não pode ser expressa nem pelo monismo panteísta, nem pelo dualismo teísta.

 

A teologia e a metafísica que predominam oficialmente na consciência da Igreja, em especial na consciência católica, elaboram um dualismo ontológico que separa o Criador da criação, o sobrenatural do natural. Tudo é repartido e dividido, e não se permite nenhuma confusão. É verdade que São Tomás de Aquino admitia a mística paralelamente a filosofia natural e à teologia, e nisso podemos ver nele a influência do pseudo-Dionísio. Mas a metafísica e a teologia do tomismo não favorecem o mistério, pois elas afirmam as contradições que esse último se esforça em superar; elas não o admitem senão como um domínio diferencial, mas para elas o Cristianismo não é místico.

 

No que consiste a essência da mística?  A MÍSTICA É O TRIUNFO SOBRE O ESTADO DE CRIATURA. Ela é a definição mais profunda e mais intrínseca de sua natureza. Na experiência mística, já não existe o dualismo insuperável que opõe o sobrenatural ao natural, o divino à criatura; nela, o natural se torna sobrenatural, e a criatura se deifica. Mas a união perfeita com Deus não implica a desaparição do homem, nem a da distinção entre as duas naturezas. Somente o nada é superado. A mística é o caminho da deificação, da Theosis do homem e do mundo. Sobre esse ponto, os místicos de todas as épocas e de todas as confissões estão de acordo.

 

A religião mantém a oposição transcendente e dualista entre Deus e o homem, entre o Criador e a criação. Nossa devoção religiosa está baseada na distância, num sentimento de nossa insignificância enquanto criatura. A mística nos mostra que a oposição transcendente entre Deus e o homem, a consciência da infinita pequenez desse último, não é a expressão definitiva do mistério da vida, do mistério de existência. O imanentismo é próprio a toda mística, mas trata-se de um imanentismo inteiramente particular, que difere absolutamente daquele que os diversos gnoseólogos imanentistas apresentam. Trata-se da imanência do Espírito Santo no mundo criado.

 

A mística é também supra confessional por natureza, embora existam tipos de mística confessional, com métodos específicos que devem permitir superar a limitação confessional. Existe na mística uma profundidade na qual se unem não apenas os tipos confessionais da mística cristã, como também alguns tipos de místicas pagãs. O Orfismo de Plotino, a mística hindu e sufi, São Simeão o Novo Teólogo e São João da Cruz, Eckart e Jacob Boheme, convergem de certo modo; eles interpelam a partir de mundos diferentes, e muitas vezes falam uma única e mesma língua. Esse é um fato indubitável, por mais desagradável que possa parecer aos fanáticos da mística confessional.

 

Encontramos esse triunfo sobre o estado de criatura nos mais autênticos místicos da Ortodoxia e do Catolicismo. O grande místico do Oriente ortodoxo, São Simeão o Novo Teólogo, disse: “Eu Te agradeço, ó Deus que reina acima de todos, porque Te tornaste, não conjuntamente, infalivelmente, imutavelmente, um só espírito comigo”. E eis como ele descreve a luz que entreviu na sua experiência espiritual: “Essa luz não é do mundo, nem qualquer coisa que seja desse mundo, nem a criatura, pois ela é incriada e permanece fora das criaturas, como algo incriado entre as coisas criadas”. Ele igualmente traduz a união mística e a fusão com Deus nos seguintes termos: “Mas ainda que tivéssemos nos tornado um, eu e Aquele a quem eu me uni, eu, que Ele criou duplo, como poderia eu me chamar de Deus, que é duplo por Sua natureza e único por Sua Hipóstase? Mas tenho me criado duplo, Ele me concedeu, como você pode ver, um nome duplo. Eis a distinção: eu sou homem pela minha natureza, e Deus pela graça”. “Ele subitamente veio até mim e se uniu a mim de maneira inefável, e sem confusão Se confundiu comigo, como o fogo no ferro e a luz no vidro”. “De que outra maneira poderia o fogo divino descer em seu coração, abrasar-se nele, inflamá-lo e uni-lo a Deus, tornando indivisíveis a criação e o criador!”.

 

A via mística conduz à transfiguração e à iluminação da criatura. “Eu me alegro por Teu amor e por Tua beleza, e me sinto cumulado de felicidade e de doçura divinas. Eu comungo da luz e da glória: minha face reluz como a de meu Bem-amado, e todos os meus membros se tornam luminosos. Agora eu sou mais belo do que os belos, mais rico do que os ricos, mais forte do que os mais fortes, maior do que os imperadores e mais honorável do que tudo o que é visível, não apenas na terra e sobre a terra, como no céu e além do céu”. “Pois ao mergulhar em Tua luz, a inteligência se ilumina e se torna uma luz semelhante à Tua glória, e ela se chama agora Tua inteligência, pois aquele que é digno se tornar tal, é digno antão de possuir Tua inteligência e se unir a Ti indivisivelmente”. “Ele (o Criador) tornará incorruptível todo corpo, e te fará Deus pela graça, semelhante ao Princípio Original”. “Minhas mãos são as de um infeliz, e meus pés são os de Cristo. Eu, indigno, sou a mão e o pé de Cristo. Eu movo minha mão e minha mão é Cristo inteiro, pois a divindade de Deus se uniu a mim indivisivelmente, e eu movo meu pé e ele brilha como Ele”.

 

Falando de um certo asceta, São Simeão diz: “Pois ele possuía Cristo inteiro, e ele próprio era como Cristo, ele tinha seus membros e os membros do outro, ele os tinha únicos e múltiplos. Ele meditava todo o tempo como Cristo, sempre imóvel, invulnerável e impassível, Cristo por inteiro, e é assim que ele via a Cristo em todos os que são batizados em Cristo e que de Cristo se revestiram”.

 

Na mística extática de São Simeão são descritos os cumes aos quais a criatura é transportada, nos quais ela é iluminada e deificada. Estados análogos são descritos nos famosos diálogos de Motoviloff com São Serafim de Sarov, ocasião em que ambos estavam no Espírito Santo. Motoviloff viu São Serafim se tornar radiante, luminoso, impregnado de um suave odor. A mística católica se distingue, por seu tipo, da mística ortodoxa. No entanto, o grande místico católico, São João da Cruz, nos fala assim do triunfo sobre o estado de criatura, sobre a união com Deus: “Essa saída me encheu de felicidade; pois num instante eu havia sido elevado da estados divinos e a conversações familiares com Deus; vale dizer: meu entendimento havia passado de um estado humano a um estado divino. Pois, ao me unir a Deus por meio dessa purificação, em já não possuía um conhecimento débil e limitado de como ela era; mas eu conhecia pela sabedoria divina à qual eu havia me unido. Minha vontade havia saído de si mesma e se tornado, de certo modo, divina; pois, estando unida ao amor divino, ela agora amava, não com suas primeiras forças, mas com as forças do espírito divino”.

 

“O estado de união divina consiste em que a vontade da alma se transforma inteiramente em vontade de Deus, de sorte que a vontade de Deus se torna o único princípio e o único motivo que a faz agir em todas as coisas, como se a vontade de Deus e a vontade da alma não fossem senão uma única vontade”.

 

O estado de união divina que São João da Cruz e outros místicos católicos descrevem constitui o triunfo sobre o estado de criatura. Esse triunfo encontra na mística de Eckart sua expressão clássica. O dominicano Denifle mostrou que Eckart era um católico ortodoxo num grau bem mais profundo do que se suspeitava até então, e que em seus tratados de teologia latina recentemente descobertos ele era completamente tomista.

 

Ora, eis o que enuncia Eckart: “Deus não espera senão uma coisa de ti, é que saias de ti mesmo, na medida em que és criatura, e que deixes Deus ser Deus em ti”. “Por amor a Deus, sai de ti mesmo, a fim de que por amor a ti Ele faça a mesma coisa. Quando ambos tiverem saído, o que restar será, de certo modo, único e simples”. A mística de Eckart admitia que a distinção entre o Criador e a criação, entre Deus e o homem, pode ser definitivamente superada na profundidade última da gnose mística. “O não-ser está além de Deus, além da diferenciação. Somente lá eu fui eu mesmo, eu quis a mim mesmo, eu vi a mim mesmo como sendo aquele que criou o homem. Lá eu sou a causa primeira, a de meu ser eterno e temporal. Somente lá eu nasci (...) Pelo princípio eterno de meu nascimento, eu era de todos os séculos, eu sou e continuarei pela eternidade (...) Em meu nascimento, nasceram todas as coisas; eu fui minha causa primeira e a causa de todas as coisas. Eu desejei que nem eu fosse, nem elas. Mas, se eu não existisse, também Deus não existiria”.

 

Encontramos o mesmo espírito no grande místico alemão Angelus Silesius: “Eu devo ser o Verbo no Verbo, Deus em Deus”. “Eu sou tão grande quanto Deus, e Ele é tão pequeno quanto eu”. “Todo cristão deve ser o próprio Cristo”. “Quem quer a Deus deve se tornar Deus”. “Em Deus só os deuses são recebidos”. Todos esses extratos, de diversos místicos, cuja enumeração poderia se estender ao infinito, estão escritos numa linguagem particular, que não pode ser traduzida pela linguagem da metafísica ou da teologia. É a descrição do caminho, da experiência, dos acontecimentos e dos encontros místicos. Nós admitimos que a teologia e a metafísica racionais contêm a verdade, no que se refere ao abismo transcendente ente o Criador e a criação, entre os mundos sobrenatural e natural. A mística suprarracional não é menos verdadeira, quando entrevê a possibilidade de superar esse abismo. Uma verdade não contradiz a outra. Elas não expressam senão momentos diferentes, diferentes estados da experiência. A mística não elimina os dogmas, mas ela alcança uma profundidade maior do que aquela na qual são elaboradas as fórmulas dogmáticas. A mística é mais profunda, mais fundamental do que a teologia, mas ela, evidentemente, comporta muitos perigos.

 

Na mística tudo se torna interior, tudo é absorvido dentro, nada existe que seja exterior, não há nenhuma objetivação. A mística me liberta do mundo natural e histórico que me é exterior e absorve no espírito toda a evolução da natureza material e da história. Viver um acontecimento de modo místico equivale a vivê-lo interiormente, espiritualmente, nas profundezas do espírito. No caminho místico, todo o universo exterior objetivado se extingue, a noite da sensibilidade se aproxima, e somente no interior do mundo espiritual e divino é que tudo se revela. As realidades últimas não se revelam senão na mística: nela, o homem se evade do mundo secundário e reflexo, do mundo dos símbolos. Tudo aquilo que, na religião, na teologia, no culto, era simbólico e prefigurado na carne, se torna realista na mística, se revela como profundeza última da vida original. Somente na contemplação e na união místicas se pode adquirir a vida eterna.

 

A mística pressupõe uma concepção simbólica do mundo, mas vai além do simbolismo, abandonando os símbolos para se voltar para as realidades. Uma consciência superficial estima que a religião é mais realista do que a mística. Mas a religião comporta sempre uma parte de mística, e dela extrai suas origens. Não há religião que não tenha encontros místicos com as realidades. Mas uma religião positiva está sempre orientada para a vida natural e histórica dos povos, ela possui uma natureza social, ela organiza a vida das massas, ela sempre pressupõe o coletivo. A religião estabelece e organiza socialmente uma ligação e um parentesco, uma comunhão com Deus que pressupõe uma divisão e uma oposição transcendente. A religião educa, ela guia, ela estabelece graus hierárquicos de vida espiritual, ela ensina os caminhos, lembrando sempre que a vida espiritual está elaborada, não apenas tendo em vista uma ascensão a Deus, como também uma descida para o mundo pecador. Na religião, os elementos heteronômicos são inevitáveis. A religião se dirige a toda a humanidade, às massas populares, aos pequenos; ela leva a todos a verdade e a luz, ela não existe somente para a aristocracia espiritual, para os eleitos. A própria experiência religiosa que nos parece heteronômica e autoritária está marcada pela piedade e pela devoção. Em cada um de nós se encontram elementos de religiosidade heteronômica.

 

A Igreja é sábia quando condena o orgulho da via mística. Na religião existe não somente uma heteronomia, como também um exoterismo; ela é não somente uma revelação, como também um conjunto de mistérios. Esses mistérios divinos revelam-se por degraus, na medida do conhecimento espiritual dos homens, na medida da receptividade de sua consciência. Mas, para além do exoterismo existe sempre o mistério. A mística constitui o esoterismo da religião, e assim ela só existe para alguns homens, para uma minoria, enquanto que a religião deve existir para todos, e é nisso que reside a dificuldade de sua tarefa. Os elementos heteronômicos e exotéricos da religião podem sempre degenerar e o espírito da vida religiosa pode ser calado. Então, é indispensável que se possa recorrer à mística, ao esotérico, à fonte original. Esse é um dos aspectos das relações entre a mística e a religião.

 

Mas existe outro aspecto. Nem toda mística é necessariamente boa. Ela também pode se deformar e se corromper; uma mística irreligiosa, carente do Logos, degenera facilmente e pode precipitar o homem nas trevas, nos abismos inferiores. Pode haver uma mística na qual o espiritual, o psíquico e mesmo o corporal sejam confundidos, na qual o espírito não seja mais puro, mas perturbado. Existem tipos de místicas orgíacas, nas quais o espiritual é absorvido pelos elementos psíquico ou corporal, e acaba submetido a eles. Exemplos disso são os cultos de Dionísio e dos chlistis[1]. A mística pagã aspirava a uma espiritualidade, sem, no entanto, atingi-la. Mesmo no seio do Cristianismo encontramos o êxtase místico da carne santificada, na qual o espírito infinito é submetido ao finito; existe aí uma teofania pseudomística.

 

A mística traz grandes problemas para o mundo cristão. Onde começa a mística, finda a esfera da precisão dogmática, daquilo que é universalmente válido. As relações entre a mística e a Igreja são muito complexas. A Igreja ortodoxa e a Igreja católica jamais negaram a mística, mas ela a temem e desconfiam de suas tendências. A Igreja exterior e oficial é normalmente hostil à mística, e é difícil encontrar nela o menor reflexo entre os que são cristãos por tradição. A base mística do Cristianismo é negada pela teologia oficial, e o racionalismo se expandiu fortemente entre os dignitários da Igreja. Negamos o misticismo do Cristianismo, esforçando-nos por torná-lo inofensivo e estabelecemos formas de mística que possam ser oficialmente reconhecidas. A Igreja ortodoxa, e a católica, possuem cada qual uma mística oficial. Mas existem diversos tipos de mística cristã das quais se desconfia, e que são definitivamente condenadas. Tais são em especial a mística gnóstica, que sempre se opõe a teologia e que transgride a ordem hierárquica estabelecida, e também a mística profética.

 

Existe uma dupla compreensão da mística. Ela pode ser uma forma particular diferencial da vida e do caminho espiritual, o ápice desse caminho e o ornamento dessa vida. Nesse caso, ela pressupõe uma certa disciplina e etapas específicas. Seu objetivo é a contemplação de Deus e a união com Ele. A mística autorizada pela Igreja está ligada a essa concepção. Ela está de tal forma unida ao ascetismo que as obras místicas e ascéticas são facilmente confundidas. Assim é que os extratos da literatura patrística reunidos na Filocalia possuem um caráter claramente ascético. O ascetismo ensina as maneiras de lutar contra as paixões, de superar a natureza do velho Adão, e ela revela o que provém do homem. A mística, ao contrário, nos fala da contemplação de Deus e da união com o Divino, e ela nos revela o que procede de Deus. No ascetismo oriental, reconhecido pela Igreja, houve grandes místicos. Dentre eles podemos citar acima de tudo São Macário o Egípcio, São Máximo o Confessor e São Simeão o Novo Teólogo. Mas na maior parte da literatura ascética não existe mística; ela não é alcançada aí. Em São João da Cruz, que representa o modelo clássico da mística católica ortodoxa, livros como A subida do Monte Carmelo e A noite escura da alma são acima de tudo ascéticos, e outros, como A chama viva do amor, são puramente místicos. A vida mística sancionada pela Igreja representa um cume espiritual, o coroamento da vida dos grandes santos, cada qual dotado de dons particulares. A Igreja católica, na qual tudo é tão bem organizado, também modelou sua mística e lhe assinalou um lugar específico. Ela não deve se estender a todos os graus hierárquicos, nem fundamentar nossa concepção do mundo, e deve manter-se dentro de seus limites.

 

Mas existe um outro entendimento da mística, que ocupa um lugar muito importante, e que não pode ser eliminado. A mística pode ser considerada como a profundidade da vida, como um sentimento que abarca todo o universo; ela se propaga, ela está em toda parte; de todos os lados somos rodeados por um mistério, e em tudo vemos os seus símbolos. O sentimento que nos toma diante do profundo mistério que cerca a vida, é também uma espécie de mística. Existem homens especialmente dotados, que possuem os carismas de uma sensação e de uma compreensão místicas do mundo, independentemente de qualquer santidade. É possível ser santo sem possuir um dom místico, e pode-se ter um dom místico, sem por isso ser santo. Voltamos sempre ao mesmo torturante problema referente aos dons, que não são méritos, como o gênio, que não se deve nem à perfeição, nem à santidade. Não apenas existem homens favorecidos por dons místicos, como existe também uma mística inerente à natureza humana em geral, pois o homem é um ser espiritual que não pertence unicamente a esse mundo.

 

É por isso que a história da vida e da cultura espirituais da humanidade compreende místicos e uma criação mística que não provêm de nenhuma disciplina, nem de uma via em particular. Dostoievsky era um místico por seu sentimento e sua compreensão da vida, pelo caráter de sua criação, ainda que não tenha praticado nenhuma disciplina em especial. Sua mística pertencia por excelência ao tipo profético. Baader, Joseph de Maistre, Solovieff, Léon BLoy eram místicos, ainda que estivesse longe da santidade.

 

Podemos nos exprimir assim: existe a mística que consiste num aperfeiçoamento da alma, numa ascensão espiritual, numa aproximação de Deus, e existe uma outra mística, que consiste no conhecimento dos mistérios da existência, dos mistérios divinos. A primeira forma predomina oficialmente na Igreja. Esse é o reino do momento moral, ascético e purificador. Essa forma de mística professa antes de tudo a renúncia ao “mundo” e a concentração em Deus. Mas existe uma mística gnóstica, que deu à humanidade grandes gênios criadores. Basta nomear Plotino, a Cabala, Eckart, Boehme. Como os classificaríamos? A mística gnóstica sempre provocou uma certa desconfiança na consciência da Igreja. A teologia sentis, de certa forma, um ciúme em relação à gnose mística, considerando-a como um falso conhecimento. Por isso, um dos maiores dons que o homem jamais recebeu foi condenado. A mística alemã, uma das manifestações do espírito humano, era gnóstica; fora das divisões estabelecidas pela metafísica e a teologia, revelou-se nela um conhecimento espiritual, uma percepção dos mistérios divinos.

 

A história do espírito humano, da cultura humana, testemunha que o dom da gnose mística, da contemplação dos mistérios da existência, é um dom particular, que de modo algum pode ser identificado com a santidade. Jacob Boehme possuía esse dom num grau infinitamente maior do que São Francisco, do q eu São Domingos e mesmo de São Tomás de Aquino, que, todavia, era também filósofo. E, se São Serafim de Sarov possuía o dom da contemplação dos mistérios cósmicos, isso provinha não da aquisição da santidade, mas de um carisma individual. A questão dos dons, das aptidões, do gênio, que são manifestações do espírito humano, jamais foi bem resolvida pela consciência cristã. Temos um exemplo no que diz respeito ao dom místico, o gênio gnóstico. Os dons prodigiosos de um Plotino ou de um Jacob Boehme não podem preceder senão de Deus, e eles são necessários por causa da criação divina. A consciência da Igreja, inspirada por considerações pedagógicas, se esforça por submeter a mística à lei, mas, fazendo isso, seus maiores dons acabam por ser banidos.

 

 

II

 

Heiler estabeleceu uma distinção entre o tipo místico e o tipo profético. Essa distinção é importante, mas a terminologia proposta é convencional. Não se trata de opor dois tipos um ao outro, mas antes de estabelecer uma categoria particular de mística profética, na qual predominam claramente elementos escatológicos e apocalípticos. Essa é a mística que penetra nos mistérios do devir, dos destinos da humanidade e do mundo, a mística que está orientada para o fim das coisas. A mística profética, que por seu próprio espírito é transformadora, é aquela que, no Cristianismo, mais se distingue da mística sacramental, santificadora, que é, por excelência, conservadora. Na história do Cristianismo a mística profética jamais foi extinta em definitivo. Ela representou uma tradição íntima, e se ligou estreitamente ao movimento criador na Igreja.

 

O Cristianismo nasceu, no mundo, da mística escatológica da primeira comunidade cristã. A consciência da insuficiência da revelação e do caráter inacabado da Igreja, faz parte da mística profética, assim como a ideia da possibilidade de uma nova revelação no Cristianismo e de um movimento criador que se opere nele. Essa forma de mística é a que a consciência da Igreja menos reconhece, porque a mais ortodoxa não é nem profética, nem gnóstica. O que existe de profético no Cristianismo constitui precisamente sua problemática. Será a profecia possível na época cristã da Nova Aliança? A opinião que considera a profecia como apanágio da Antiga Aliança, que não podia se referir mais do que à vinda do Messias, do Cristo Salvador, é largamente difundida. Mas parece que nos esquecemos de que o Apocalipse, a revelação de São João, obra profética, faz parte dos livros santos do Novo Testamento. Esquecemo-nos de que existe no Cristianismo a profecia sobre a segunda vinda de Cristo, aquela da transfiguração, da iluminação e do fim do mundo, do novo céu e da nova terra. O sacerdócio sempre teve tendência a negar a profecia, e essa, por seu espírito, não pode se submeter a ele, nem dele depender. A profecia é livre, ela não está ligada a nenhum princípio hierárquico, ela representa uma inspiração e uma aptidão pessoal, individual. O profeta não pertence, como o sacerdote, à ordem angélica, mas à ordem humana. A ideia central de Vladimir Solovieff foi de defender, no Cristianismo, os direitos da consciência e da função proféticas; ele colocou a profecia no mesmo nível do sacerdócio e do reino.

 

No Cristianismo, o espírito profético está em conflito com o espírito da lei. Toda a orientação para a Segunda Vinda de Cristo, para a Ressurreição, é marcada pelo espírito profético. Nesse mistério escatológico, o sentimento que o homem tem de sua infinita pequenez, é superado. A mística profética é a mística do Espírito Santo. É uma mística russa por excelência. Ela é inerente ao povo russo, e nasceu sobre o terreno espiritual da Ortodoxia, ainda que essa religião e sua hierarquia oficial possam ser-lhes hostis. Isso nos conduz à distinção entre a mística ortodoxa e a mística católica.

 

É preciso buscar a diferença entre a ortodoxia e o catolicismo, antes de tudo, na esfera da mística, na diferença entre as experiências espirituais, entre os caminhos seguidos. Todo o universo cristão é único em sua profundidade. A mística ortodoxa e a mística católica são místicas cristãs com igual direito. Mas esses dois mundos caminharam por vias diferentes e elaboraram duas formas diversas de espiritualidade, ainda que se dirigindo a um só e mesmo objetivo. A mística ortodoxa aspira à aquisição da graça do Espírito Santo; nela, a natureza humana se transfigura, se ilumina, se deifica interiormente. É a mística do coração, do coração que é o centro da vida. Para adquirir a integridade espiritual, a inteligência deve se unir ao coração. Cristo penetra no coração, modificando toda a natureza humana, e o home se torna outra criatura. A noção da theosis é a noção fundamental da mística ortodoxa, que está orientada era a transfiguração da criatura. Ela pressupõe uma façanha ascética, uma luta heroica contra o antigo Adão. Mas a mística ortodoxa é luminosa e feliz, e nela se revela o mistério da criação divina. A graça do Espírito Santo é obtida pela humildade, não pelo sofrimento.

 

A mística católica e mais “Cristocêntrica” e mais antropológica. Ela é a mística eucarística por excelência. Existe em geral no catolicismo uma tendência a compreender a natureza do Espírito Santo de maneira subordinada. Costuma-se identificar o Espírito Santo com a graça. A mística católica consiste numa imitação de Cristo, na qual são revividas as paixões do Senhor. Daí provêm os estigmatas, inconcebíveis para a ortodoxia. O sacrifício, a cooperação na obra da redenção pelo sofrimento humano, pelos méritos supererrogativos, são essenciais na mística católica. Nela, o caminho do homem, o da ascensão mais elaborada, é organizada e disciplinada. Na forma clássica da via mística, são estabelecidas três etapas: a vida purgativa, a vida iluminativa e a vida unitiva. É indispensável passar, na vida mística, por aquilo que São João da Cruz chamou de “noite escura”, a noite dos sentimentos e da razão, a morte para o mundo. A mística ortodoxa não conhece essa noite escura considerada isoladamente como um estado particular do caminho místico. O ascetismo ortodoxo, ainda que muito austero, não constitui ainda um mergulho na “noite escura”; essa pressupõe um antropologismo mais intenso da via mística. Permanecer na “noite escura” não quer dizer estar no Espírito Santo. Na mística católica e nas vidas dos santos, existe o êxtase do sofrimento e do sacrifício. Não podemos negar sua grandeza original, sua profundidade e seu caráter essencialmente cristãos, mas seu tipo é diferente do nosso, e é mais antropológico.

 

Podemos encontrar exemplos clássicos da mística ortodoxa russa em São Serafim de Sarov e numa obra, encantadora por sua simplicidade, que devemos a um autor desconhecido: “Relatos de um peregrino a seu Pai espiritual”. A prática da prece santa, da prece de Jesus, situa-se no centro da mística ortodoxa. Através dessa prece, Jesus penetra em nosso coração e toda nossa natureza se ilumina. A prece de Jesus (“Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador”) é o ponto de partida da concentração mística.

 

 A mística católica atinge a união divina, a fusão com Deus, depois de passar por diversas etapas, pela “noite escura”. Na mística ortodoxa, o caminho é outro. Não podemos pretender que, ao passar por diferentes etapas desse caminho místico, o homem se eleve à união com Deus. O homem se ilumina, ele se deifica pela aceitação do Espírito Santo nele. A glorificação do Nome é uma tendência característica da mística ortodoxa. O próprio Jesus está presente nessa oração. O Nome divino encerra a energia divina que se transfere para o homem, que penetra nele e modifica sua natureza. O Nome possui um significado ontológico e, num certo sentido, mágico. A distinção que faz São Gregório Palamas entre a essência e a energia divina, é característica e permite compreender a mística ortodoxa. A glorificação do Nome, como de resto o platonismo, são estranhos ao catolicismo. Mas a energia divina age no homem e no mundo, e se transfere para a criação. O abismo, a oposição entre o natural e o sobrenatural não existe para a mística e a patrística orientais, num grau tão profundo como existe para a consciência católica e para a escolástica, a qual, nesse domínio, deixou sua marca na mística católica.

 

 A patrística oriental, tendo absorvido em si o espírito do platonismo, jamais afirmou a não-divindade do natural como algo absoluto. A humilhação da criatura não pode ser senão a humilhação do pecado que existe nela, e não a da criação divina, do desígnio divino. não é o mundo criado, o cosmo, a natureza, mas unicamente o pecado, o mal, que não são divinos e que se opõem ao divino. nosso mundo natural é um mundo pecador e, em seu estado de pecado, ele é não-divino. Mas o mundo autêntico é o mundo em Deus. O panenteísmo[2] exprime as relações entre Deus e o mundo do modo mais perfeito. O panteísmo é um engano, mas possui em si uma parte de verdade, que encontramos no panenteísmo, o qual se resume a nos descrever o estado do mundo transfigurado. O mundo, a humanidade, a vida cósmica, são coisas divinas por princípio, e neles agem as energias divinas. O “natural[3]” pode ser superado. O não-ser, ao qual ele se liga, pode ser vencido. O mundo criado pode ser deificado, mas essa deificação não pode ser senão a obra da graça e da liberdade. A criação inicial de um mundo deificado ignoraria a liberdade. A vitória sobre o pecado e o mal constitui a deificação do mundo criado. O mundo natural, falso e enganador, deixa então de existir e a natureza se revela em Deus. O tomismo, que de um lado afirma o sobrenatural e de outro afirma o elemento mau e pecador, tende também a afirmar a existência de uma natureza neutra, de caráter fundamentalmente não-divino e oposto ao sobrenatural. Daí provém o temor da intuição que rompe a distância entre o natural e o sobrenatural, a desconfiança em relação ao misticismo, a condenação da ontologia platônica.

 

Com semelhante concepção, a ação da energia divina no mundo, a transfiguração desse mundo, se tornam inexplicáveis. O dualismo radical entre o natural e o sobrenatural não favorece a mística, e ele provém do fato de que a natureza do Espírito Santo, a Terceira Hipóstase da Trindade, não foi suficientemente revelada. No Espírito se manifesta a natureza divina do mundo, do natural, mas de um natural iluminado, transfigurado, deificado. É pelo fato de que a natureza do Espírito está revelada de modo incompleto, que a natureza do mundo aparece também dessa maneira. O dualismo inerente à mística católica fornece uma visão do homem que é intensamente trágica. A mística ortodoxa nada tem de dramático. Ela aceita um dualismo moral e religioso, mas não um dualismo ontológico. Ela está mais aparentada à mística alemã do que à mística católica latina, embora seja menos gnóstica. A mística alemã é em sua maior parte católica. Eckart, Tauler, Suso, Ruysbroeck, Angelus Silesius, são todos católicos. Mas eles estão ligados a uma mística que se diferencia da mística espanhola latina. A mística católica alemã não foi reconhecida e sancionada pelo catolicismo, tal como foi a mística espanhola. Jacob Boehme era luterano, mas ele é na realidade supraconfessional, como aliás o são, num certo sentido, todos os místicos.

 

A grande obra realizada pela mística alemã foi a divulgação da natureza do espírito, de sua profundidade; ela é a mística espiritual por excelência. Mergulhada nas profundezas do espírito, ela se encontra, por isso mesmo, além da oposição entre o natural e o sobrenatural. Para Boehme, a profundidade da oposição não reside na correlação entre o natural e o sobrenatural, mas na que existe entre a luz e as trevas. A mística alemã se coloca fora da distinção clássica entre as místicas ortodoxa e católica. Mas a mística de inspiração profética e apocalíptica nasce de preferência sobre o solo da ortodoxia russa, porque é nela, precisamente, que a natureza do Espírito Santo se encontra mais revelada. Nem a mística católica latina, nem a alemã, favorecem o profetismo e o apocalipse.

 

A mística da Igreja é sempre uma mística organizada e disciplinada, que leva à ascensão a Deus. Mas existe uma mística que não possui uma forma determinada e que não é organizada, uma mística em estado de matéria e de potência. Essa mística constitui a trama fundamental da vida. Essas energias virtuais se atualizam por meio da disciplina, pelo estabelecimento de etapas sobre a via mística. A contemplação pressupõe uma purificação e um desimpedimento da pessoa. O ascetismo é a etapa preparatória indispensável para essa via. Sem ela, a concentração é impossível. Somente nos libertando do poder desse “mundo”, libertando-nos dos laços que nos encadeiam à multiplicidade universal, podemos obter a contemplação do Deus único. A possibilidade de se absorver imediatamente na contemplação de outros mundos não é dada ao homem. mas aqui nos encontramos na presença do paradoxo fundamental da mística, do problema para o qual não existe solução pronta, do eterno problema dos dons humanos.

 

Existe um dom místico que é, como todo dom, concedido gratuitamente ao homem por Deus. A mística não pode ser obtida por um esforço laborioso; somente o ascetismo pode ser obtido assim. Homens que possuem uma vida espiritual intensa, que seguem uma via religiosa disciplinada, bem organizada, podem não possuir nenhum dom místico e se totalmente desprovidos de sensibilidade e de intuição.   O que constitui o paradoxo desse problema é que, de um lado, o dom místico é gratia gratis data, e que, de outro, a mística pressupõe em suas aquisições que se haja seguido um caminho e uma disciplina. O que podemos chamar de “iluminismo”, termo ao qual se atribui às vezes um sentido odioso, é precisamente a um tempo a possibilidade de uma iluminação da inteligência humana, que jorra semelhante à luminosidade de um raio. A inteligência pode permanecer num estado natural e normal, assim como pode também conhecer um estado iluminado, no qual são dadas clarividências intuitivas. Esse é um problema essencial para toda filosofia religiosa, pois uma filosofia religiosa será sempre, no sentido que dissemos, um iluminismo. São Boaventura, contrariamente a São Tomás de Aquino, fazia depender a filosofia autêntica de uma iluminação da inteligência pela fé.

 

Em geral, a consciência da Igreja não reconhece o valor da mística senão para os monges e para os mosteiros. Os livros místicos, ortodoxos e católicos, nasceram no meio monástico e eram destinados aos monges, como manuais de vida espiritual. Será possível uma mística que não seja monástica? De fato, ela existe e inclusive ocupa um lugar preponderante na história. Mas ela inspira desconfiança na Igreja, como mística gnóstica ou profética. A mística coloca problemas particulares à consciência cristã. Se um renascimento místico algum dia se produzir no mundo, ele não será exclusivamente monástico; ele constituirá uma regeneração e um aprofundamento da vida e da compreensão do mundo. Aqui se coloca uma questão que diz respeito não apenas à mística no Cristianismo, mas também ao Cristianismo místico. Existe um perigo nos caminhos da mística. Fantasmas podem ser tomados por realidade. A mística oriental conhece e descreve esse estado de “encantamento”. A mística pode ser ilusória. O homem pode não discernir os espíritos, e aqueles das trevas podem lhe aparecer sob a forma de espíritos de luz. No caminho do misticismo pode haver uma condensação de obscuridade e não de luz.  

 

Mas a vida espiritual e perigosa em geral. A ausência de vida espiritual é, em si, uma forma de segurança. A vida ordinária, a religião feita de costumes e de gestos exteriores oferece o máximo de quietude. Toda iniciativa criativa traz em si oculto um perigo; se não fosse assim, a vida espiritual se atrofiaria. A mística e o novo nascimento, o nascimento no espírito. Isso é o que nos ensinaram todos os místicos. As formas de vida religiosa mais ao abrigo do perigo são as que estão adaptadas à ordem social estabelecida, aos interesses dos seres que não conhecem mais do que o primeiro nascimento. A mística não organiza a vida dos homens e dos povos da terra. É por isso que ela tantas vezes se choca com a religião, à qual cabe esse trabalho organizador.

 

 

III

 

Mas a mística oculta ainda outros perigos. Ela pode tomar a forma de uma extinção, ao invés de uma iluminação da vida anímica do homem, de sua psique, vale dizer, da multiplicidade concreta das personalidades humanas. O problema que se coloca é o das relações entre o um e o múltiplo. A via mística parte sempre do múltiplo para chegar ao único, ela emerge do mundo e do homem para se orientar a Deus. Ela é antes de tudo a via do desprendimento. A multiplicidade desaparece na unicidade; a alma desaparece no espírito. Mas o ser humano é um agregado no qual o espiritual, o psíquico e o corporal estão unificados. No yoga, assim como no jesuitismo (falamos da mística de Inácio de Loyola), a experiência mística é de certo modo “mecanizada”, e o elemento psíquico no homem se extingue. O mesmo acontece no quietismo, no qual a alma individual desaparece. A mística do único em Plotino ou Eckart não resolve o problema do sentido místico da individualidade humana, da personalidade. A teosofia mística da Cabala, de Boehme, de São Martin, de Baader se reveste de um caráter totalmente diferente.

 

O problema mais delicado da mística é o de sua atitude em face do problema do homem e do mundo, do mundo criado múltiplo. Esse problema perturbador se coloca a cada vez que, dentre os místicos – inclusive entre os que estão ligados à Igreja – se aprofunda a doutrina do amor. Eles preconizam o desprendimento em relação ao mundo criado. A impassibilidade, a indiferença diante de todas as criaturas é a exigência fundamental da disciplina místico-ascética. Santo Isaac o Sírio ensina que é preciso endurecer, tornar-se insensível em relação a todas as criaturas, a fim de amar a Deus de todo coração. A mesma ideia é expressa em São João da Cruz. Eckart coloca o desprendimento acima do amor, e nele falta o espírito do amor. São Basílio o Grande, nos seus preceitos de vida monacal, alerta dos monges contra todo amor individual, contra toda amizade. A impassibilidade, a indiferença perante todos os homens e para com tudo o que é humano parece ser a condição indispensável do ascetismo. O homem é uma criatura e, como tal, não podemos amá-lo, pois não devemos nos ligar a nada do que é criado.

 

Existe uma imensa diferença entre a moral evangélica e a moral ascética dos Padres. Pouco numerosos são os que, como São Francisco de Assis e São Serafim de Sarov, souberam conciliar o desprendimento ascético e a contemplação mística, com o amor a toda a criação, a toda criatura divina. A natureza humana parece ser incapaz de conter em si a plenitude da revelação evangélica, do amor a Deus e do amor ao homem. na literatura ascética e mística, encontramos com frequência um apelo em favor do amor impessoal e impassível, do amor que seria o mesmo para todos, que não conheceria pessoa humana. São Máximo o Confessor declara: “Feliz o homem que pode amar cada ser com um amor igual”. Essas palavras parecem ser a negação de toda eleição, de toda individualização no amor, de toda amizade. O amor aí não é nada senão impessoal; ele não é afirmado como via, mas como coroamento; a via é a humildade.

 

Esse é um dos mais torturantes problemas da mística e do ascetismo cristãos, que parecem trair o Evangelho e as epístolas ao recusar seguir o caminho indicado por João, o discípulo favorito de Jesus. O Cristianismo de João, cujo espírito é o amor, é o oposto desse endurecimento do coração preconizado pela patrística e a mística ascética. Nós devemos amar toda criatura, toda criação divina e toda figura humana, e é precisamente a personalidade que devemos amar em Deus e através de Deus. Não se trata do amor humanista que é sempre impessoal e abstrato, mas do amor de Cristo. Nós o encontramos em São Serafim. Ele é a revelação do Espírito Santo na vida do homem e do mundo. Assim poderemos acreditar na possibilidade de uma nova mística, cuja atitude para com o mundo humano será diferente, pois ela será capaz de unir em si o desprendimento e a contemplação, ao amor iluminado por toda a criação divina, por toda personalidade humana. Nisso reside um grande problema da consciência cristã colocado pela mística. Existe uma mística do amor; seu apóstolo foi João, e é ela que também nos ensinou São Paulo. O Cristianismo é a revelação da personalidade, do valor absoluto de toda alma humana individual; ele é a religião do amor pelo próximo, nascido do amor a Deus. Assim é que um ascetismo que resseca o coração e o torna insensível à criatura, à alma individual, que é incapaz de assimilar a luz e a verdade cristã, se aproxima do ascetismo hindu.

 

Dostoievsky foi, entre nós, o profeta de um espírito novo e diferente, de uma nova e outra mística. Ele se liga, assim como Solovieff, à tradição do Cristianismo russo, à maneira como os russos entenderam a obra de Cristo. Existe uma tradição de erotismo místico. Nós a encontramos na criação mitológica de Platão, na Cabala, em Dante, em São Francisco de Assis, na teosofia de Jacob Boehme, em Baader e em Solovieff. Ela provém da doutrina relativa à imagem andrógina do homem. Ela muitas vezes se apresenta misturada com elementos confusos, mas ela está profundamente enraizada na simbólica cristã. O Cristianismo nos ensina o amor espiritual, mas esse amor tem por missão espiritualizar o psiquismo, e não destruí-lo.

 

 

IV

 

É possível que se produza, no caminho da mística e do ascetismo, uma acumulação de trevas, devido à concentração do espírito sobre o mal, sobre o pecado, sobre a antiga natureza. A verdadeira mística sobrepuja o medo que Satanás inspira. Quando sentimos esse medo, quando nos sentimos vencidos, arrasados pelo mal, isso significa que ainda estamos sob o império da natureza criada, da natureza pecadora abandonada por Deus. Sobrepujá-la implica sobrepujar o medo a Satanás, a obsessão do mal. Dominar a natureza criada significa iluminá-la, significa banir dela o espírito do mal que isola o mundo criado de Deus. O caminho que conduz a essa vitória é antes de tudo o do ascetismo, do sacrifício e da santidade. Mas isso não é tudo, e ele é igualmente o caminho da criação, da iluminação, do voo extático da natureza humana. Existirá uma mística da criação, e a via mística poderá conduzir a criação?

 

Essa questão pertence igualmente à problemática da consciência cristã. Existe uma mística eterna e o Cristianismo deve retornar às suas origens, a fim de não se petrificar definitivamente. Mas, em nossa época, o renascimento místico do Cristianismo encara uma tarefa particular. Habituamo-nos a ver na mística um desligamento absoluto em relação ao mundo e ao homem, uma orientação exclusiva para Deus. A mística deve vencer o “mundo”, no sentido pejorativo do termo, no sentido em que ele é empregado na Santa Escritura e nos Padres ascéticos. Somente a mística pagã, orgíaca, está voltada para o mundo, para a natureza, para a terra, mas a mística cristã sempre a combate. Nós nos encontramos diante do seguinte problema: como poderá a mística cristã se orientar para a vida do cosmos, para a vida da humanidade? Será isso possível? Superar o estado de criatura não significa extinguir e negar a vida do cosmos, da humanidade, mas antes iluminá-la e transfigurá-la. A mística pré-cristã, que alcançou seu auge em Plotino, se afastou do mundo para se dirigir para o Único. Plotino, o último grande helenista, lutava contra o dualismo dos gnósticos, que renegavam a beleza do mundo. Talvez ele também pressentisse o Cristianismo. Toda sua grandeza provém precisamente de que ele abandonou o mundo pagão, agonizante e corrompido, para se dirigir a um novo mundo espiritual, levando consigo a noção helênica da beleza do cosmo. Mas ele não chegou a encontrar a solução para esse dilema.

 

O problema que me inquieta poderia se expressar, na terminologia que adotei, da seguinte maneira: de que forma, no mundo espiritual, poderá o mundo natural ser restabelecido e transfigurado naquilo que ele possui em si de autêntico, de não ilusório? Como poderá o psíquico se agregar ao espiritual? Para a mística, a questão se coloca assim: como poderão o homem e o cosmo espiritualmente transfigurados se afirmarem na experiência e na via místicas? Deus não deseja ser simplesmente Ele próprio, Ele quer que o homem, o cosmo, a criação divina existam, não somente nos tempos, mas por toda a eternidade. A deificação da criação não é nem seu rebaixamento, nem sua extinção. O homem e o mundo não se extinguem em Deus, mas se iluminam, se transfiguram, se transformam definitivamente em ser, libertando-se do não-ser.

 

Não se deve amar o “mundo”, tomado no sentido evangélico, pois é preciso libertar-se de seu jugo, mas é preciso amar a criação divina, o cosmos, é preciso amar o homem. A atitude monástica e ascética, que maldiz e despreza o mundo e o homem, deve ser superada; ela é incapaz de conter a plenitude da verdade crista; ela constitui uma inaptidão em seguir o próprio Cristo. Com efeito, essa atitude não é conciliável com a moral evangélica. O homem, de um lado, deve viver com os outros homens e como o mundo, ele deve tomar sobre si o fardo de seu destino trágico comum, e, de outro lado, ele deve se libertar do mundo, desligar-se de suas paixões, ele deve ser monge no mundo. Existe uma inimizade monástica e ascética em relação a humanidade, uma incompreensão, uma profunda falta de interesse em relação aos movimentos que se realizam no mundo. Mas há aí uma autossuficiência, um enfraquecimento do amor, que se “vitrifica”, como dizia Rosanov. Semelhante mística monástica ou ascética é abstrata e negativa por excelência. E aí ainda, na maior parte dos casos, não se chega a atingir a mística. Pois em Deus, na união com Ele, é impossível que o homem e o mundo não ressuscitem, que a plenitude do ser não seja alcançada. São Serafim superou o que havia nele de sombrio no estado monástico, em benefício de uma mística mais luminosa. Dostoievsky profetizou esse estado de coisas através da pessoa do staretz Zossima.

 

Sobre os caminhos da mística, como de resto por toda parte, os meios costumam se afirmar com vistas aos finas. Esse ascetismo hostil ao homem e ao mundo pode dissimular o objetivo da transfiguração mística em Deus. Ele pode impor ao homem fardos insuperáveis, pesos enormes, e exigir grandes tensões da alma. A dificuldade de nossa vida espiritual consiste precisamente na necessidade de unir o desligamento em relação ao múltiplo, a concentração sobre o único, à libertação e à transfiguração do Espírito da diversidade inerente ao mundo e à humanidade. Duas vias se abrem diante do homem, difíceis para ele conciliar. Uma delas é aquela que, a partir do mundo e do homem, se dirige para Deus, aquela que deixa o múltiplo e o movimento, em favor da Unidade e da Eternidade imutáveis. A outra é a que está orientada para o mundo e para o homem, para a multiplicidade e o movimento. A filosofia grega foi incapaz de resolver o problema gerado por esse dualismo de dois mundos. Platão não o superou, embora tenha pressentido a possibilidade de consegui-lo através do Eros. O pensamento grego estava sob o peso da concepção que Parmênides e os Eleatas tinham do ser único e imóvel, e nisso ele exerceu uma influência inconteste sobre a teologia cristã. Mas o Cristianismo admite, ao menos em princípio, uma solução para esse problema perturbador, e chegou a vencer o dualismo. A plenitude da verdade cristã não pôde ser assimilada pela humanidade, nem mesmo pelos místicos e os santos. Nós nos encontramos mais uma vez diante do problema que se colocara para os gregos, para Platão e Plotino.

 

A solução não é possível senão no amor de Cristo, na plenitude do amor. A energia criativa do homem é igualmente uma manifestação do amor, do Eros, que une e ilumina. A tarefa da vida espiritual é particularmente difícil, ela é insuperável para o homem natural, pois ela consiste em unir, por uma prece incessante, o livre desapego espiritual, a concentração sobre o Único e o Eterno, ao amor pelo mundo e pelo homem, amor que ilumina e transfigura. O auge da via mística não consiste apenas na união com Deus; ele é, na verdade, por meio dessa união, a orientação para toda criatura, ele é a realização do amor e da força criativa. O amor é precisamente a criação, é assim que se realiza o mandamento de Cristo: amor a Deus, amor ao homem.

 

 No amor cristão devem se manifestar todos os dons, todos os carismas conferidos ao homem por Deus. “Existem uma diversidade de dons, mas um só e mesmo Espírito (...) a um é dado, por meio do Espírito Santo, a palavra de sabedoria; a outro, a palavra do conhecimento, segundo o mesmo Espírito; a outro, o dom da cura, por esse mesmo Espírito; a um outro, o poder de operar milagres; a outro, a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a esse, o dom de falar em línguas; àquele, a interpretação dessas línguas[4]”. E o mesmo apóstolo Paulo nos diz: Não extingais o Espírito; não desprezeis as profecias; experimentai todas as coisas e retende o que é bom[5]”. O Cristianismo monástico e ascético às vezes conduzia à extinção do espírito e à negação dos dons, vale dizer, a um dualismo intenso, no qual a vida, a força criativa e toda nossa atitude para com o mundo e o homem não eram justificados. Eis como se coloca o grande problema da mística. Sua missão consiste em libertar o espírito humano desse estado de abatimento e de não justificação de sua via criativa. A própria mística foi muitas vezes responsável por esse rebaixamento da natureza humana e por essa condenação da vida criativa. A experiência mística da via conhece esse “estado de criatura”, e o considera como um estado de pecado que isola de Deus. Mas, em Deus, o ser natural é superado, e então é uma outra natureza humana que se vê restabelecida em sua força criativa.

 

Na experiência mística, o mundo natural e humano é absorvido no espírito, e já nada se opõe como sendo algo extrínseco. A mística autêntica nos liberta dessa opressão provocada por tudo o que é “estranho” e “extraposto”. Nela, tudo é vivido como fazendo parte de mim, como sendo profundamente interior a mim. A mística constitui uma penetração nas profundezas do mundo espiritual, onde tudo se passa de modo diferente do que no mundo natural, pois aí não se encontram mais divisões, e nenhuma coisa é exterior a outra. Nada existe que esteja fora de mim, tudo está em mim e comigo, tudo se encontra nas minhas profundezas. Mas essa verdade mística é radicalmente oposta a todo subjetivismo, a todo psicologismo, a todo solipsismo; ela não significa que não exista nada exterior a mim, que as coisas não passem de meu estado pessoal. Essa verdade implica a eclosão do mundo espiritual, no qual tudo está oculto numa profundidade íntima; ela implica a revelação interior, e não exterior, de toda realidade. Eu estou em tudo e tudo está em mim, toda orientação da vida se transforma, produz-se uma transmutação. Viver, do ponto de vista místico, já não consiste em experimentar o estado de opressão causado por uma realidade que me é oposta e exterior, como é o caso do mundo natural, mas é ter a convicção de que tudo faz parte de meu próprio destino íntimo, e de que tudo se realiza numa profundidade que me é mais próxima do que eu próprio. A mística é o oposto do realismo histórico. Mas existe uma mística da história. Toda a história do mundo é a história de meu espírito; no espírito, essas duas histórias não estão “extrapostas” uma em relação à outra. Isso não significa que eu me anulo enquanto realidade, que eu me confundo com tudo e me transformo em tudo. Isso significa que eu não recebo a existência, a realidade e a personalidade senão dali, de onde nada me é mais exterior, estranho, impenetrável e morto, de lá onde se realiza o reino do amor.

 

Nós entramos na era de uma nova espiritualidade, que será a contrapartida da materialização desse nosso mundo. A essa época do Cristianismo corresponderá uma nova forma de mística. Daí por diante será impossível se opor a uma vida superior, invocando o pecado da natureza humana, que devemos superar. Já não há mais lugar, no mundo, para um Cristianismo exterior e feito de costumes. A via espiritual e mística constitui precisamente o caminho que conduz à vitória sobre o pecado. O mundo penetra numa época catastrófica de eleição e de divisão, na qual serão exigidas de todos os cristãos uma grande elevação e intensidade de vida interior. O Cristianismo exterior, da zona mediana, se corrompe; mas aquele que é eterno, interior e místico se fortifica e se intensifica. Assim é que a própria Igreja deverá determinar de outra maneira sua atitude em relação à mística e à vida espiritual interior. Não é senão nos períodos em que os costumes e as tradições exteriores se impõem com obstinação, que a religião pode se ver desprovida de mística. Mas ela a reencontra inevitavelmente quando esses costumes e essas tradições sofrem comoções e catástrofes. Então, na própria mística, o tipo paraclítico começa a dominar. A época de uma nova espiritualidade no Cristianismo não pode ser outra coisa do que a época de uma manifestação sem precedentes do Espírito Santo.



[1] Adeptos de uma seita russa orgíaca, cujos ritos lembravam os mistérios de Dionísio, e na qual os elementos pagãos e cristãos estavam confundidos.

[2] Termo criado pelo pensador alemão Christian Krause 1781-1832para designar sua doutrina, caracterizada como uma síntese entre o teísmo e o panteísmo, pois calcada na suposição de que a totalidade do universo está situada no interior de uma única divindade primordial.

[3] Naturlichkeit.

[4] I Coríntios 12: 8-10.

[5] I Tessalonicenses 5: 19-21.