sábado, 5 de janeiro de 2019

Vladimir Lossky - Ensaios sobre a Teologia Mística da Igreja do Oriente - Capítulo I: Teologia e mística na tradição da Igreja do Oriente



Capítulo I
Teologia e mística na tradição da Igreja do Oriente

Nós nos propomos a estudar aqui alguns aspectos da espiritualidade oriental em relação com os temas fundamentais da tradição dogmática ortodoxa. O termo “teologia mística” não designa aqui, portanto, nada além de uma espiritualidade que exprime uma atitude doutrinal.

Num certo sentido, toda teologia é mística, na medida em que manifesta o mistério divino, os dados da revelação. Por outro lado, costuma-se opor a mística à teologia, como um domínio inacessível ao conhecimento, como um mistério inexprimível, um fundo oculto que pode ser antes vivido do que conhecido, entregando-se a uma experiência específica que ultrapassa nossas faculdades de entendimento, mais do que a uma apreensão qualquer de nossos sentidos e da nossa inteligência. Se adotarmos sem reservas essa concepção, opondo resolutamente a mística à teologia, chegaremos finalmente à tese de Bergson que distingue, em As duas fontes da moral e da religião a “religião estática” das Igrejas, religião social e conservadora, da “religião dinâmica” dos místicos, religião pessoal e renovadora.  Em que medida Bergson tinha razão ao afirmar essa posição? Essa questão é incômoda de resolver, tanto mais que, para Bergson, os dois termos que ele opõe no domínio religioso estão fundamentados sobre dois polos de sua visão filosófica do universo: a natureza e o impulso vital. Mas, independentemente da atitude bergsoniana, costuma-se expressar a opinião que pretende ver na mística um domínio reservado a poucos, uma exceção à regra comum, um privilégio concedido a algumas almas que desfrutam da experiência da verdade, enquanto que as outras devem se contentar com uma submissão mais ou menos cega ao dogma, que é imposto exteriormente, como uma autoridade coerciva. Acentuando essa oposição, chega-se ainda mais longe, sobretudo quando se força um pouco a realidade histórica: é assim que são postos em conflito os místicos e os teólogos, os espirituais e os prelados, os santos e a Igreja. Basta lembrar as muitas passagens de Harnack, a Vida de São Francisco de Paul Sabatier e outras obras, devidas em sua maior parte a autores protestantes.

A tradição oriental jamais fez uma distinção clara entre a mística e a teologia, entre a experiência pessoal dos mistérios divinos e o dogma afirmado pela Igreja. As palavras ditas há cerca de um século por um grande teólogo ortodoxo, o metropolita Filarete de Moscou, exprimem perfeitamente essa atitude: “Nenhum mistério da sabedoria mais secreta de Deus deve nos parecer estranho ou totalmente transcendente, mas, com toda a humildade, devemos adaptar nosso espírito à contemplação das coisas divinas[1]”. Dito de outra forma, o dogma que exprime uma verdade revelada, que nos parece um mistério insondável, deve ser vivido por nós num processo, em cujo decurso, ao invés de assimilar o mistério ao nosso modo de entendimento, será preciso, ao contrário, que cheguemos a uma mudança profunda, a uma transformação interior de nosso espírito, para nos tornarmos aptos à experiência mística. Longe de se opor, a teologia e a mística se sustentam e se completam mutuamente. Uma é impossível sem a outra: se a experiência mística constitui uma valoração pessoal do conteúdo da fé comum, a teologia é uma expressão, para a utilidade de todos, daquilo que pode ser experimentado por cada um. Fora da verdade guardada pelo conjunto da Igreja, a experiência pessoal seria privada de qualquer certeza, de toda objetividade; ela seria uma mistura de verdadeiro e falso, de realidade e ilusão, o “misticismo” no sentido pejorativo do termo. Por outro lado, o ensinamento da Igreja não teria nenhum poder sobre as almas, se não expressasse de algum modo uma experiência íntima da verdade dada, numa medida diferente, a cada fiel. Assim, não existe mística cristã sem teologia, mas, sobretudo, não existe teologia sem mística. Não é por acaso que a tradição da Igreja do Oriente reservou particularmente o nome de “teólogo” a três escritores sagrados, dos quais o primeiro é São João, o mais “místico” dos quatro evangelistas, o segundo São Gregório de Nazianze, autor de poemas contemplativos, e o terceiro São Simeão, chamado de “Novo Teólogo”, cantor da união com Deus. A mística é assim considerada aqui como a perfeição, o cume de toda a teologia, como uma teologia por excelência.

Contrariamente à gnose[2], onde o conhecimento por si mesmo constitui a finalidade dogmática do gnóstico, a teologia cristã é sempre, em último lugar, um meio, um conjunto de conhecimentos que deve servir a um fim que ultrapassa todo conhecimento. Esse fim último é a união com Deus, ou deificação, a Theosis dos Padres gregos. Chegamos assim a uma conclusão que pode parecer paradoxal: a teoria cristã teria um sentido eminentemente prático, e isso na medida mesma em que ela for mais mística, em que visar mais diretamente o objetivo supremo da união com Deus. Todo o desenvolvimento das lutas dogmáticas sustentadas pela Igreja ao longo dos séculos, se o virmos do ponto de vista puramente espiritual, surge agora como dominado pela preocupação constante que teve a Igreja de salvaguardar a cada momento de sua história a possibilidade, para os cristãos, de atingirem a plenitude da união mística. Com efeito, a Igreja lutou contra os gnósticos para defender a própria ideia da deificação como fim universal: “Deus se fez homem para que os homens pudessem se fazer deuses”. Ela afirmou contra os arianos o dogma da Trindade consubstancial, porque é o verbo, o Logos que nos abre a vida para a união com a divindade, e, se o Verbo encarnado não tivesse a mesma substância do Pai, se ele não fosse verdadeiro Deus, nossa deificação seria impossível. A Igreja condenou o nestorianismo, para derrubar o muro por meio do qual, no próprio Cristo, pretendeu-se separar o homem de Deus. Ela se levantou contra o apolinarismo e o monofisitismo, para mostrar que, tendo sido assumida pelo Verbo a plenitude da verdadeira natureza humana, toda a nossa natureza poderia entrar em união com Deus. Ela combateu os monotelitas, porque fora da união das duas vontades, a divina e a humana, não seria possível alcançar a deificação: “Deus criou o homem apenas por sua vontade, mas ele não pode salvá-lo sem a participação da vontade humana”. A Igreja triunfou na luta contra as imagens, afirmando a possibilidade de expressar as realidades divinas na matéria – símbolo e garantia de nossa santificação. Nas questões que foram colocadas sucessivamente, sobre o Espírito Santo, sobre a graça, sobre a própria Igreja – questão dogmática da época em que vivemos – a preocupação central, o desafio da luta é sempre a possibilidade, o modo ou os meios da união com Deus. Toda a história do dogma cristão se desenvolve ao redor do mesmo núcleo místico, defendido por armas diferentes contra adversários múltiplos no decurso de épocas sucessivas.

As doutrinas teológicas elaboradas ao longo dessas lutas podem ser tratadas em sua relação direta com o objetivo vital que elas deveriam ajudar a atingir – a União com Deus. Assim, elas se apresentaram como as bases da espiritualidade cristã. É isso o que entendemos quando falamos de “teologia mística”. Não se trata da mística propriamente dita, das experiências pessoais dos diferentes mestres da vida espiritual. De resto, essas experiências permanecem, no mais das vezes, inacessíveis, mesmo quando encontraram alguma expressão verbal. Que podemos dizer, com efeito, sobre a experiência mística de São Paulo: “Eu conheci um homem em Cristo, que foi, há cerca de quatorze anos, arrebatado ao terceiro céu (se foi no corpo, não sei, se foi fora do corpo, não sei – Deus o sabe). E sei que esse homem (se foi no corpo, não sei, se foi fora do corpo, não sei – Deus o sabe) foi levado ao paraíso e ali ouviu palavras inefáveis que não é permitido ao homem expressar[3]”. Para nos arriscarmos a emitir um juízo qualquer a respeito da natureza dessa experiência, seria preciso saber mais sobre ela do que São Paulo, que confessa sua ignorância – “eu não sei, Deus o sabe”. Deixamos de lado propositadamente toda questão de psicologia mística. Tampouco são as doutrinas teológicas enquanto tais que pretendemos expor aqui, mas apenas os elementos de teologia indispensáveis para compreender uma espiritualidade, os dogmas que constituem a base de uma mística. Eis a primeira definição e delimitação de nosso tema, que é a teologia mística da Igreja do Oriente.

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 A segunda determinação de nosso tema o circunscreve, por assim dizer, no espaço: trata-se do Oriente cristão, ou, mais precisamente, da Igreja Ortodoxa do Oriente, que será o campo de nossos estudos sobre a teologia mística. É preciso reconhecer que essa delimitação é um pouco artificial. Com efeito, a ruptura entre o Oriente e o Ocidente cristãos não data senão da metade do século X, e tudo oque é anterior a essa data constitui um tesouro comum inseparável das duas partes desunidas. A Igreja Ortodoxa não seria o que ela é, se não tivesse havido um São Cipriano, um Santo Agostinho, um São Gregório o Grande, assim como a Igreja católica Romana não poderia passar sem Santo Atanásio, São Basílio, São Cirilo de Alexandria. Portanto, quando queremos falar da teologia mística do Oriente ou do Ocidente, colocamo-nos na esteira de uma das duas tradições que foram até um dado momento como que duas tradições locais da Igreja una, testemunhando uma só verdade cristã, mas que em seguida se separaram e fizeram nascer duas atitudes dogmáticas diferentes, inconciliáveis sobre muitos pontos. É possível julgar as duas tradições, colocando-nos num terreno neutro, igualmente estranho a uma e outra? Isso equivaleria a julgar o Cristianismo como um não-cristão, ou seja, recusar previamente compreender seja lá o que for daquilo que se propõe a estudar. Pois a objetividade não constitui absolutamente em se colocar fora do objeto, mas, ao contrário, em considerar o objeto em si mesmo e por si mesmo. Existem domínios nos quais aquilo que se chama ordinariamente de “objetividade” não passa de indiferença, e de uma indiferença que significa incompreensão. No estado atual da oposição dogmática entre o Oriente e o Ocidente é preciso, portanto, se quisermos estudar a teologia mística da Igreja do Oriente, escolher entre as duas atitudes possíveis: colocarmo-nos sobre o terreno dogmático ocidental e examinar a tradição oriental através daquela do Ocidente, vale dizer, criticando-a, ou bem apresentar essa tradição sob a luz dogmática da Igreja do Oriente. Essa última atitude é para nós a única possível.

Pode-se objetar, eventualmente, que a dissensão dogmática entre o Oriente e o Ocidente não foi senão acidental, que ela não desempenhou um papel decisivo, que se tratava mais de dois mundos historicamente diferentes que deveriam, cedo ou tarde, se separar para seguir cada qual seu próprio caminho; que a disputa dogmática não passou de um pretexto para romper definitivamente a unidade eclesiástica, que, de fato, já não existia há muito tempo. Essas afirmações, que escutamos com frequência tanto no Oriente como no Ocidente, são devidas a uma mentalidade puramente laica, que costuma tratar a história da Igreja segundo métodos que abstraem a própria natureza religiosa da Igreja. Para um “historiador da Igreja”, o fator religioso desaparece, e é substituído por outros, tais como o jogo de interesses políticos ou sociais, o papel das condições étnicas e culturais, considerados como forças determinantes da vida da Igreja. Acredita-se assim que se está sendo muito engenhoso, hábil e astuto ao invocar esses fatores como as verdadeiras razões que dirigem a história eclesiástica. Ainda que reconhecendo a importância dessas condições, um historiador cristão não pode se resignar em encará-los de outro modo que não exteriores à própria existência da Igreja; ele não pode renunciar a ver a Igreja como um corpo autônomo, submetido a outra lei do que aquela do determinismo desse mundo. Se considerarmos a questão dogmática sobre a processão do Espírito Santo, que dividiu o Oriente e o Ocidente, não podemos tratá-la como um fenômeno fortuito na história da Igreja, vista enquanto tal. Do ponto de vista religioso, foi a única razão que contou no encadeamento dos fatos que levaram à separação. Embora talvez condicionada por muitos fatores, essa determinação dogmática foi, para uns e outros, um compromisso espiritual, uma tomada de posição consciente em matéria de fé.

Se somos costumeiramente levados a diminuir a importância do fato dogmático que determinou todo o desenvolvimento ulterior dessas tradições, isso se deve a uma certa insensibilidade diante do dogma, considerado como algo de exterior e abstrato. É a espiritualidade que conta, diz-se; a diferença dogmática não muda nada. No entanto, espiritualidade e dogma, mística e teologia, estão inseparavelmente ligados na vida da Igreja. No que concerne à Igreja do Oriente, como dissemos, ela não faz uma distinção clara entre a teologia e a mística, entre o domínio da fé comum e o da experiência pessoal. Portanto, se quisermos falar da teologia mística da tradição Oriental, não poderemos tratar esse assunto de outro modo que dentro dos quadros dogmáticos da Igreja ortodoxa.

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Antes de abordar nosso tema, é necessário que digamos algumas palavras sobre a Igreja ortodoxa, que até hoje é pouco conhecida no Ocidente. O livro do Pe. Congar, Cristãos desunidos: Princípios de um ecumenismo católico[4], muito louvável sob muitos aspectos, nas páginas consagradas à Ortodoxia, malgrado todos os cuidados com a objetividade, não deixa de ser tributário de certas opiniões preconcebidas a respeito da Igreja ortodoxa. “Onde o Ocidente, diz ele, sobre a base a um tempo desenvolvida e ajustada da ideologia agostiniana, reivindica para a Igreja a autonomia de uma vida e uma organização próprias, e fixa nesse sentido as linhas mestras de uma eclesiologia positiva, o Oriente admite praticamente, e às vezes teoricamente, para a realidade social e humana da Igreja, um princípio de unidade política, não religioso, parcial, não verdadeiramente universal”. Para o Pe. Congar, como para a maior parte dos autores católicos ou protestantes que se manifestaram a respeito desse ponto, a Ortodoxia se apresenta sob o aspecto de uma federação de igrejas nacionais, tendo por base um princípio político – a Igreja de um Estado. É preciso ignorar os fundamentos canônicos, tanto quanto a história da Igreja do oriente, para se arriscar a semelhantes generalizações. A opinião que pretende fundamentar a unidade de uma igreja local sobre um princípio político, étnico ou cultural, é reputado pela Igreja ortodoxa como uma heresia especificamente denominada pelo nome de filetismo[5]. É o território eclesiástico, a terra consagrada pela tradição mais ou menos antiga do Cristianismo que constitui a base de uma província metropolitana, administrada por um arcebispo ou um metropolita, com bispos para cada diocese, que se reúnem de tempos em tempos em sínodos. Se as províncias metropolitanas se reúnem em grupos e formam igrejas locais sob a jurisdição de um bispo que recebe o título de patriarca, trata-se ainda da comunidade de tradição local e de destino histórico, bem como da comodidade de convocar um concílio de muitas províncias, que presidem a formação desses grandes círculos jurisdicionais, cujo território não corresponde necessariamente aos limites políticos de um Estado[6]. O patriarca de Constantinopla desfruta de um certo primado de honra, fazendo-se ocasionalmente árbitro em disputas, sem exercer uma jurisdição sobre o conjunto da Igreja ecumênica. As igrejas locais do Oriente tinham mais ou menos a mesma atitude perante o patriarcado apostólico de Roma, primeira sede da Igreja antes da separação, símbolo de sua unidade. A Ortodoxia não reconhece um chefe visível da Igreja. A unidade da Igreja se expressa pela comunhão dos chefes das igrejas locais entre si, pelo acordo de todas as igrejas a respeito de um concílio local, que por isso mesmo adquire um valor universal; enfim, em casos excepcionais, a Igreja pode se manifestar por meio de um concílio geral[7]. A catolicidade da Igreja, longe se ser privilégio de uma sede ou centro determinado, se realiza na riqueza e na multiplicidade das tradições locais que testemunham unanimemente um só Verdade – a que é conservada sempre, em toda parte e por todos. Sendo a Igreja católica em todas as suas partes, cada um de seus membros – não apenas o clero, mas também cada leigo – é chamado a confessar e defender a verdade da tradição, opondo-se inclusive aos bispos, caso esses incorram em heresia. Um cristão que tenha recebido o dom do Espírito Santo no sacramento do santo crisma não pode estar inconsciente em sua fé; ele é sempre responsável pela Igreja. Daí o caráter agitado e às vezes perturbado da vida eclesiástica em Bizâncio, na Rússia e em outros países do mundo ortodoxo. Mas é o preço que se paga por uma vitalidade religiosa, por uma intensa vida espiritual que penetra o povo dos fiéis, unido pela consciência de formar um só corpo coma hierarquia da Igreja. Daí provém igualmente essa força invencível que permitiu à Ortodoxia atravessar todas as provações, todos os cataclismos e revoluções, sempre se adaptando à nova realidade histórica, mostrando-se mais forte do que as condições exteriores. As perseguições contra a fé na Rússia comunista, cuja fúria metódica não foi capaz de destruir a Igreja, são o melhor testemunho dessa força que parece não ser desse mundo.

A Igreja ortodoxa, apesar de ser comumente chamada de Igreja do Oriente, não se considera por isso menos como uma Igreja ecumênica. E isso é verdade no sentido em que ela não está limitada por um tipo de cultura determinada, pela herança de uma civilização, seja helênica ou outra, ou pelas formas culturais estritamente orientais. De resto, “oriental” significa muitas coisas: o Oriente é menos homogêneo do ponto de vista cultural do que o Ocidente. O que existe de comum, por exemplo, entre o helenismo e a cultura russa, apesar das origens bizantinas do Cristianismo na Rússia? A Ortodoxia foi o fermento de muitas culturas diferentes, para ser considerada como uma forma cultural do Cristianismo oriental: suas formas são muitas, a fé é uma. Ela jamais opôs às culturas nacionais uma cultura que fosse considerada como especificamente ortodoxa. É por isso que a obra da missão pôde se desenvolver de forma tão prodigiosa: a cristianização da Rússia nos séculos X e XI e, mais tarde, a predicação do Evangelho por toda a Ásia. No final do século XVIII a missão ortodoxa alcançou as ilhas Aleutas e o Alasca, passando a seguir para a América do Norte, criando novas dioceses da Igreja russa fora da Rússia e se propagando na China e no Japão. As variedades antropológicas e culturais, da Grécia até as extremidades da Ásia, do Egito até o Oceano Glacial não destruíram o caráter homogêneo dessa família de espiritualidade, muito diferente daquela do Ocidente cristão.

A vida espiritual na Ortodoxia conhece uma grande riqueza de formas, dentre as quais o monaquismo continua sendo a mais clássica. Entretanto, contrariamente ao monaquismo do Ocidente, o do Oriente não compreende uma multiplicidade de ordens diferentes. Isso se explica pela própria concepção da vida monástica, cujo objetivo não pode ser outro do que a união com Deus na renúncia total à vida desse século. Se o clero secular (sacerdotes e diáconos casados), ou as confrarias de leigos podem se ocupar de obras sociais ou se dedicar a outras atividades exteriores, o mesmo não acontece com os monges. Eles tomam o hábito, antes de tudo para se dedicarem à oração, à obra interior, num mosteiro ou num eremitério. Entre um mosteiro de aspecto comum à solidão de um anacoreta que continua as tradições dos Padres do deserto, existem muitos tipos intermediários de instituições monásticas. Podemos dizer em geral que o monaquismo oriental é exclusivamente contemplativo, se a distinção entre as duas vias, ativa e contemplativa, tivesse o mesmo sentido no Oriente que tem no Ocidente. Na realidade, as duas vias são inseparáveis para os espirituais orientais: uma não pode ser exercida sem a outra, porque a maestria ascética, a escola da oração interior, recebe o nome de atividade espiritual. Se os monges ocasionalmente exercem trabalhos físicos, é sobretudo com finalidade ascética, para melhor domar a natureza rebelde; assim, por exemplo, para evitar o ócio, inimigo da vida espiritual. Para alcançar a união com Deus, na medida em que essa é realizável aqui em baixo, é preciso um esforço contínuo, ou, mais precisamente, uma vigília incessante para que a integridade do homem interior, “a união entre o coração e o espírito” (para empregarmos uma expressão do ascetismo ortodoxo) resista a todos os assaltos do inimigo, a todos os movimentos irracionais da natureza decaída. A natureza humana deve mudar, ela deve ser transfigurada mais e mais pela graça sobre o caminho da santificação, que tem um alcance não apenas espiritual, mas também corporal, e, a partir daí, cósmico. A obra espiritual de um cenobita ou de um anacoreta que vive retirado do mundo, mesmo que passe desapercebida por todos, mantém todo seu valor para o universo inteiro. É por isso que as instituições monásticas sempre gozaram de grande veneração em todos os países do mundo ortodoxo.

O papel dos grandes centros de irradiação da espiritualidade foi considerável, não apenas na vida eclesiástica, como no domínio cultural e político. Os mosteiros do Monte Sinai, de Studion, perto de Constantinopla, a “república monástica” do Monte Athos, reuniram religiosos de todas as nações (incluindo monges latinos antes da separação), enquanto outros grandes centros fora do Império, como o mosteiro de Tirnovo, na Bulgária, e as grandes abadias (lavra) da Rússia – Petcheri em Kiev, Santa Trindade próxima a Moscou – foram cidadelas da Ortodoxia, escolas de vida espiritual cuja influência religiosa e moral foi de primeira ordem na formação cristã dos novos povos. Mas, se o ideal do monaquismo teve tão grande poder sobre as almas, essa não foi a única forma de vida espiritual que a Igreja propôs aos fiéis: a via de união com Deus pode ser seguida fora dos claustros, nas condições normais da vida humana. As formas exteriores podem mudar, os mosteiros podem desaparecer, como desapareceram na Rússia[8], mas a vida espiritual continuou com a mesma intensidade, encontrando novos meios de expressão.

A hagiografia oriental, extremamente rica, mostra ao lado dos santos monges muitos exemplos de perfeição espiritual adquirida no mundo por simples leigos e por pessoas casadas. Ela conhece também vias de santificação estranhas e insólitas, como a dos “loucos em Cristo”, que cometem atos extravagantes para esconder seus dons espirituais aos olhos da multidão sob a aparência assustadora da loucura, ou também para se libertar dos laços desse mundo em sua expressão mais íntima e mais difícil para o espírito, a do “eu” social. A união com Deus se manifesta às vezes por meio de dons carismáticos, como, por exemplo, o da direção espiritual exercida pelos startzy, ou “anciãos”. No mais das vezes esses são monges que passaram muitos anos de sua vida em oração, fechados a todo contato com o mundo, e que, no final de sua existência, abrem largamente as portas de sua cela a todos. Eles possuem o dom de penetrar nas profundezas insondáveis das consciências, de revelar os pecados e as dificuldades interiores que nos restam, frequentemente desconhecidos, de endireitar as almas oprimidas, de dirigir os homens não apenas em sua via espiritual, mas também em todas as peripécias de sua vida no século.

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A experiência individual dos grandes místicos da Igreja ortodoxa permanece para nós, em geral, desconhecida. Salvo raras exceções, a literatura espiritual do Oriente cristão não possui quase relatos autobiográficos que toquem a vida interior, como os de Santo Ângelo de Foligno, de Henri Suso, ou como a História de uma alma de Santa Tereza de Lisieux. O caminho da união mística é quase sempre um segredo entre Deus e a alma, que não se expõe fora, a não ser para o confessor e alguns discípulos. O que se publica são os frutos da união: a sabedoria, os conhecimentos dos mistérios divinos que se exprimem num ensinamento teológico ou moral, em conselhos para a edificação dos irmãos. Quanto ao lado íntimo e pessoal da experiência mística, ele permanece oculto aos olhos de todos. É preciso reconhecer que o individualismo místico aparece na literatura ocidental bastante tarde, por volta do século XIII. São Bernardo não fala diretamente de sua experiência pessoal senão muito raramente, uma única vez nos Sermões sobre o Cântico dos Cânticos – e ainda assim com uma espécie de pudor, como São Paulo. Foi preciso que uma espécie de cisão acontecesse entre a experiência pessoal e a fé comum, entre a vida individual e a vida da Igreja, para que a espiritualidade e o dogma, a mística e a teologia se tornassem dois domínios distintos, para que as almas, não encontrando mais o alimento suficiente nas sumas teológicas, se pusessem a buscar com avidez os relatos de experiências místicas individuais, a fim de se reavivarem em uma atmosfera de espiritualidade. O individualismo místico permaneceu estranho à espiritualidade da Igreja do Oriente.

O Pe. Congar tem razão, quando disse: “Nós nos tornamos homens diferentes. Temos o mesmo Deus, mas diante dele somos homens diferentes e não podemos concordar sobre a natureza de nossa relação com Ele[9]”. Mas para julgar essa diferença espiritual seria preciso examiná-la em suas expressões mais perfeitas, nos diferentes tipos de santos do Ocidente e do Oriente, depois da separação entre as duas Igrejas. Poderíamos então nos dar conta da ligação estreita que existe entre o dogma confessado pela Igreja e os frutos espirituais que ela produz, pois a experiência interior de um cristão se realiza dentro do círculo traçado pelo ensinamento da Igreja, dentro do quadro dos dogmas que modelam sua pessoa. Se uma simples doutrina política professada pelos membros de um partido já e capaz de moldar as mentalidades até produzir tipos de homens que se distinguem dos outros por determinadas marcas morais e psíquicas, como mais razão o dogma religioso consegue transformar o próprio espírito daqueles que o professam; ele são homens diferentes dos outros, daqueles que foram conformados por uma outra concepção dogmática. Jamais compreenderemos uma espiritualidade se não levarmos em conta o dogma que está em sua base. É preciso aceitar as coisas tal como elas são e não tentar explicar a diferença entre as espiritualidades do Ocidente e do Oriente por meio de causas de ordem étnica ou cultural, quando uma causa maior, uma causa dogmática está em jogo. Não se deve dizer, tampouco, que a questão da processão do Espírito Santo ou da natureza da graça não tenha grande importância no conjunto da doutrina cristã, que seria assim mais ou menos idêntica entre católicos romanos e ortodoxos. Em dogmas tão fundamentais, é esse “mais ou menos” que importa, pois ele empresta um acento diferente a toda a doutrina e a apresenta sob uma nova luz, ou seja, ela dá lugar a outra espiritualidade.

Não pretendemos fazer aqui “teologia comparada”, e menos ainda renovar as polêmicas confessionais. Nós nos limitamos aqui a constatar o fato de que existe uma diferença dogmática entre o Oriente e o Ocidente cristãos, antes de passar em revista alguns elementos de teologia que estão na base da espiritualidade oriental. Caberá aos nossos leitores julgar em que medida esses aspectos teológicos da mística ortodoxa podem ser úteis para a compreensão de uma espiritualidade que é estranha à cristandade ocidental. Se, mesmo permanecendo fiéis às nossas atitudes dogmáticas, possamos chegar a nos conhecer mutuamente – sobretudo naquilo que nos torna diferentes – essa poderia certamente ser um caminho de união mais seguro do que outro que passasse ao largo das diferenças. Pois, para citarmos as palavras de Karl Barth, “a união das Igrejas não se faz, se descobre[10]”.



[1] Sermões e discursos do Metropolita Filarete, Moscou, 1884.
[2] Ver M. H.-Ch. Puech, Où em est le problème du gnosticisme?, in Revue de l’Université de Bruxelles, 1934, nos. 2 e 3.
[3] II Coríntios 12: 2-4.
[4] Éditions du Cerf, 1937.
[5] Atas do Sínodo de Constantinopla, agosto-setembro 1872.
[6] Assim é que o patriarcado de Moscou compreende as dioceses da América do Norte e de Tóquio. Os territórios dos patriarcados de Constantinopla, de Alexandria, de Antioquia e de Jerusalém pertencem politicamente a diferentes potências.
[7] O nome de concílios ecumênicos atribuído no Oriente aos sete primeiros sínodos responde a uma realidade de ordem puramente histórica; trata-se dos concílios do território “ecumênico”, o do Império Bizantino que se estendia (ao menos teoricamente) por todo o universo cristão. Nas épocas posteriores, a Igreja ortodoxa conheceu concílios gerais que, sem receber o título de “ecumênicos”, nem por isso foram menos numerosos nem menos importantes.
[8] No período da União Soviética, de 1922 a 1991.
[9] Pe. Congar, op. cit.
[10] A Igreja e as igrejas, in Ecumenica III, Julho 1936.



terça-feira, 1 de janeiro de 2019

São João Crisóstomo - Homilias sobre a Natividade do Senhor - Nona Homilia: Livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abrahão - Capítulo II, versículos 16 a 23






1.      Herodes não deveria se enfurecer. Ele devia temer, se humilhar e reconhecer a nulidade de seu plano. Mas nada podia detê-lo. Pois a partir do momento em que uma alma se torna ímpia e desesperadamente enferma, ela rejeita todos os remédios que Deus lhe oferece para curá-la. Considerem então como esse príncipe acrescenta novos crimes, como prologa a cadeia de seus homicídios, e atire a si próprio de precipício em precipício. Sua cólera e sua inveja são como um demônio que o agita e transporta, sem que ninguém possa detê-lo. O insensato se declara contra a própria natureza; e, furioso por ter sido iludido pelos magos, ele volta seu furor contra as crianças inocentes. Parece que ele desejava fazer na Judéia o que outrora fez o Faraó no Egito.

“Herodes, enviando seus guardas, matou todas as crianças que havia em Belém e região, com idades inferiores a dois anos, segundo o tempo que ele havia calculado pelas informações dos magos”. Prestem atenção nisso. Muitos falam levianamente dessas crianças, e de que sua triste sorte seria um libelo contra a justiça divina. Os mais moderados dentre esses apenas suspendem seu julgamento; mas outros são mais ousados e agressivos. Permitam que nos detenhamos um pouco sobre esse assunto, a fim de curar a uns de sua ignorância e suas dúvidas, e a outros de seus excessos e sua loucura. Se ousamos acusar a Deus por ter permitido a morte daquelas crianças, devemos acusá-lo também da morte do soldado que guardava São Pedro. Assim como essas crianças morreram no lugar do menino Jesus, que se salvou, mas que era quem deveria ser morto, também São Pedro foi libertado por um anjo de suas cadeias e de sua prisão, e o tirano, que tinha o mesmo nome e era tão cruel como o outro, fez com que em seu lugar morressem os soldados que o guardavam.

Mas de que serve esse exemplo, dirão vocês? Ele aumenta a dificuldade ao invés de resolvê-la. Eu lhes disse isso com esse objetivo, e se eu acrescento uma dificuldade a mais, é para assim responder às duas. Qual será então essa resposta, e o que poderemos dizer a respeito? É que não foi o menino Jesus a causa da morte daquelas crianças, mas apenas a crueldade de Herodes, assim como não foi São Pedro que fez com os soldados morressem, mas a brutalidade do príncipe. Se ele tivesse encontrado as portas da prisão quebradas, ou as muralhas destruídas, Herodes poderia ter razão em condenar os vigias. Mas, como tudo estava no mesmo estado, as portas fechadas, os soldados ainda com as correntes que os prendiam ao Apóstolo, ele poderia concluir, se julgasse corretamente as coisas, que isso não seria obra e artifício de homens, mas efeito de um poder extraordinário e divino. Ele deveria adorar o autor de tão grande milagre, ao invés de exercer sua crueldade sobre os soldados. Deus, ao operar esse milagre, fez o que era necessário, não apenas para não expor os guardas à morte, como para levar o príncipe ao conhecimento da verdade. Se o tirano persistiu em sua impiedade, por que atribuir ao sábio médico das almas, àquele que é benevolente em todas as suas obras, um mal que não adveio senão do desregramento do doente?

Podemos dizer a mesma coisa aqui. Por que, ó Herodes, você ficou colérico quando pensou ter sido iludido pelos magos? Você não sabia que essa gravidez tinha origem divina? Não reuniu os sacerdotes e os escribas? Não lhe fizeram esses ver que o profeta havia predito esses acontecimentos, e que muito tempo antes havia previsto esse nascimento? Não percebeu a admirável relação entre o presente e o passado? Não soube que os magos foram guiados por uma estrela? Não se enrubesceu com o zelo daqueles estrangeiros? Não admirou sua liberdade de linguagem? Não tremeu diante do oráculo do profeta? Não deveria ter compreendido facilmente qual deveria ser a sequência de tantas maravilhas? Não pôde julgar o futuro pelo passado? Por que todas essas coisas não o fizeram concluir por si mesmo, que não se tratava de uma manobra enganadora dos magos, mas do poder de Deus, que a tudo conduzia com sabedoria admirável? E, ainda que os magos o tivessem iludido, por que tomar as crianças, que não lhe fizeram mal algum?

2.      Muito bem dirão vocês, você mostrou perfeitamente que Herodes era um homem sanguinário, e que crueldade era indesculpável; mas você não solucionou a objeção relativa à injustiça do fato. Se foi Herodes que cometeu a injustiça, que seja, mas por que Deus permitiu que ele o fizesse?

Que posso responder-lhes, senão o que tantas vezes tenho lhes mostrado, na igreja e fora dela, e que eu lhes peço que retenham na memória? Pois trata-se de uma regra que deve servir a vocês em outras dificuldades semelhantes. Eis o que eu lhes responderei. Existem muitas pessoas que desejam fazer mal às outras. Mas eu sustento que não existe homem que possa fazer um mal verdadeiro a outro homem. E para não deixá-los em suspense, direi numa palavra, que, quem quer que, dentre os homens, os ofenda, Deus transformará o mal em benefício nosso, e se servirá disso, ou para nos perdoar, ou para aumentar nossa recompensa. A fim de esclarecer o que eu digo, darei um exemplo. Suponhamos que um servidor tenha uma dívida considerável para com seu senhor, e que homens injustos o maltratem, roubando-lhe uma parte do que possui; suponhamos ainda que o senhor pudesse ter impedido o roubo e ordenar a restituição, mas que, em lugar de agir assim, ele considera essa quantia para indenizar seu servidor. Podemos dizer que esse foi lesado? Absolutamente. Mas se o senhor pagar ao servidor mais do que lhe foi roubado, esse terá ganhado, ao invés de perder. Evidentemente sim.

Vamos transpor esse raciocínio para os males que nos afligem injustamente. Estejamos certos de que as aflições, ou obterão para nós a remissão de todos os nossos pecados, ou, se nossos pecados não forem tão numerosos quanto aquelas aflições, elas nos farão merecer uma coroa mais rica. Vocês têm a prova disso no que disse São Paulo ao homem que caíra na fornicação: “Entreguem esse homem a Satanás para fazer morrer sua carne, a fim de que sua alma seja salva[1]”. Vocês dirão que se trata aqui dos males que nossos inimigos nos fazem sofrer, e não das correções que nossos pastores nos impõem com justiça. Mas, se vocês considerarem uns e outros com cuidado, não encontrarão nenhuma diferença. Nossa dificuldade era de saber se o mal que sofremos é verdadeiramente um mal para aquele que o sofre. Mas eu posso lhes dar um exemplo que se aproxima ainda mais da questão que nos ocupa. Lembram-se de que Davi, no auge de sua infelicidade, foi insultado por Semei, que fazia chover sobre ele as mais violentas injúrias; seus soldados queriam matar o ofensor, mas ele os deteve, e lhes disse: “Deixem que faça, deixem que maldiga. Talvez o Senhor veja minha aflição, e talvez me conceda alguma graça pelas maldições que eu estou suportando[2]”. É o que ele diz também em seus salmos: “Veja como meus inimigos se multiplicam, e como é injusta a raiva que têm de mim, e devolve a eles meus pecados[3]”. Da mesma forma, Lázaro repousou, porque havia sofrido nessa vida uma infinidade de males. Aqueles a quem se faz mal, esses não o recebem, conquanto que sofram com paciência; ao contrário, esse mal se transformará para eles num grande bem, seja esse mal vindo de Deus, que os castiga pela aflição, seja do demônio, que os persegue.

Mas que crimes, me dirão vocês, teriam cometido aquelas crianças para que devessem expiá-los com uma morte tão sangrenta? O que vocês dizem pode ser verdadeiro para pessoas de idade avançada, e que cometeram muitos pecados; mas, para os inocentes que morrem no berço, que pecado poderiam eles ter cometido, que precise ser lavado com sangue? Lembrem-se do que eu lhes disse, que se a injustiça que nos é feita não encontrar em nós pecados a punir, ela nos trará uma grande recompensa. Que mal pode ter acontecido àquelas crianças, uma vez que, morrendo desse modo, elas passaram por uma morte tão rápida, como por uma curta tempestade, chegando logo ao porto eterno da paz?

Dirão vocês que elas poderiam se tornar grandes santos, se tivessem sobrevivido. Mas vocês acham que sua recompensa foi medíocre, por terem sido mortas no lugar de Jesus Cristo? E podemos ainda afirmar que se Deus previsse que essas crianças viriam a se elevar a um grande mérito, ele não teria permitido que elas fossem mortas no berço. Pois se ele tolera com paciência infatigável, mesmo aqueles que ele sabe que permanecerão no crime, ele teria impedido a morte daquelas crianças, se previsse que elas chegariam um dia a um alto grau de virtude.

3.      Isso é o que podemos dizer a esse respeito, mas existem outras razões bem mais secretas sobre essa conduta, que só são conhecidas Daquele que regulou esses acontecimentos com uma providência incompreensível. Deixando assim a Deus o conhecimento exato e inteiro desse segredo, passemos adiante e aprendamos com a aflição dos outros a sofrer com coragem todos os males que possam nos acontecer. De fato, que trágica calamidade atingiu Belém naqueles tempos, quando se via de todos os lados crianças arrancadas ao seio de suas mães para serem cruelmente imoladas à fúria de um tirano!

Pois se vocês são fracos, se sofrer com paciência e sem se queixar lhes parece uma sabedoria que está acima de suas forças, lancem o olhar sobre a morte de Herodes e respirem um pouco ante essa visão. A justiça de Deus não tardou a atingi-lo, e lhe infligiu uma punição proporcional ao seu crime, fazendo- o sofrer uma morte cruel, mais deplorável do que tudo o que ele fez com que aqueles inocentes suportassem: ela o oprimiu com males sem conta, que os que leram sua história em Josefo conhecem bem. Eu não reporto essas coisas aqui para não me alongar demãos e para não interromper a sequência de nosso Evangelho.

 “Foi então que se realizou o que havia sido predito pelo profeta jeremias: Um grande barulho se fez ouvir em Ramá, e ouviram-se prantos, choro e gritos lamentáveis; Raquel chora seus filhos e não aceita se consolar, porque eles já não existem”. Como o Evangelista havia enchido o espírito do leitor de horror e espanto, apresentando-lhe uma carnificina tão desumana, injusta, cruel e bárbara, ele agora o consola dizendo que isso não aconteceu por impotência ou ignorância de Deus; ao contrário, isso havia sido previsto muito tempo antes por seu profeta. Retomem assim sua coragem, e não temam mais ao olhar essa providência de Deus, que é a mesma, quando ela age e quando ela deixa que ajam os homens.

É o que outrora Jesus Cristo disse aos seus apóstolos. Depois de prever que eles seriam arrastados aos tribunais e conduzidos ao suplício, que toda a terra se levantaria contra eles e lhes faria uma guerra irreconciliável, ele acrescentou, para os consolar: “Não é verdade que se vendem dois pardais por um óbolo? E, no entanto, não cai um só por terra sem que seja a vontade do seu Pai celeste[4]”. Ele lhes falou assim, para ensiná-los que nada lhe é oculto, e que ele vê tudo, embora não faça tudo. Não temam, disse a eles, não se preocupem. Aquele que vê o que vocês sofrem, e que poderia impedi-lo se quisesse, mostra suficientemente que se ele permite que vocês sofram alguma coisa, é porque ele cuida de vocês e os ama. São sentimentos que devemos ter em todas as nossas aflições, e então encontraremos nelas todo o consolo que podemos desejar.

Mas alguém poderá dizer: o que existe de comum entre Raquel e Belém? “Raquel, diz o Evangelho, chora seus filhos”. E o que existe de comum entre Rama e Raquel? Raquel, meus irmãos, era a mãe de Benjamin, e depois de morta ela foi enterrada num campo próximo de Belém. Como seu sepulcro fosse muito próximo, e como esse campo foi deixado à tribo de Benjamin, sendo que Rama pertencia também a essa tribo, o Evangelho chama os pequenos inocentes de “filhos de Raquel”, por causa do chefe dessa tribo e do lugar de sua sepultura. E, para frisar que essa praga era cruel e incurável, ele acrescenta: “Ela não quer ser consolada porque seus filhos já não existem”.

Nós aprendemos ainda aqui o que eu disse, que não devemos jamais nos perturbar quando nos acontecem coisas contrarias às promessas que Deus nos fez. Pois assim que Aquele que veio para salvar seu povo, ou melhor, toda a terra, nasceu, considerem com quantas provações ele começou sua grande obra. Sua mãe fugiu, seu país caiu na maior das aflições, houve uma carnificina de crianças, mais lamentável do que tudo que se vira antes, e de todas as partes eram ouvidos prantos, suspiros e gritos de mães desesperadas. Entretanto, não se perturbem. Deus costuma cumprir seus desígnios por vias que parecem opostas a eles, para que admiremos sua onipotência. É assim que ele formou seus discípulos, preparando-os para grandes ações por meios que pareciam contrários a essa finalidade, a fim de que o milagre parecesse maior. Pois, sofrendo a chibata, o exílio e mil outros males, eles se tornaram mestres inclusive daqueles que trataram dessa maneira.

4.      “Depois, estando Herodes morto, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, que estava no Egito, e lhe disse: Levante-se, pegue o menino e sua mãe e vá para a terra de Israel”.

“E José, levantando-se, tomou o menino e sua mãe, e foi para a terra de Israel”. O anjo já não diz: “Fuja”, mas: “Vá”. Vemos ainda que a calma sucede à tempestade, e que a tempestade vem depois da calmaria. Pois, ao deixar a terra estrangeira, ele retornou ao seu país, onde ficou sabendo da morte funesta daquele assassino de tantas crianças. Mas uma vez chegado, ele encontrou alguns dos perigos precedentes, pois o filho do tirano vivia e reinava na Judeia. “Sabendo que Arquelau reinava na Judeia no lugar de seu pai Herodes, ele teve medo de ir lá, e tendo sido advertido em sonhos por Deus, retirou-se ao país da Galileia”. Mas como Arquelau reinava na Judeia, se o Evangelho diz que seu governador era Pôncio Pilatos? Fazia pouco tempo que Herodes havia morrido, e seu reino fôra dividido em muitas partes. Assim, durante um tempo, Arquelau reinou no lugar de Herodes, que é chamado de seu pai, para distingui-lo de outro Herodes, filho daquele e irmão de Arquelau.

Mas, dirão, se José temia ir à Judeia por causa de Arquelau, ele devia temer também a Galileia por causa de Herodes, seu irmão e filho do tirano. Eu respondo que José se colocara suficientemente a coberto de seus temores, não permanecendo na Judeia; porque todo o furor de Herodes desabara sobre Belém e região. Arquelau acreditava que, depois dessas precauções sangrentas, já não havia nada a temer, e que a criança que eles procuravam havia sido morta com as demais. De resto, depois de ver seu pai terminar a vida da maneira como terminou, ele devia temer seus excessos, e continuar a lutar contra ela com crueldade.

“Ele foi morar numa cidade chamada Nazaré, a fim de que se realizasse o que o profeta disse: Ele será chamado de Nazareno”. José foi a Nazaré, para evitar o perigo, e para rever seu país, de que gostava muito; e, para fazê-lo com mais segurança, ele recebeu a ordem de um anjo. São Lucas não diz que José tenha ido lá por ordem do anjo, mas apenas que, tendo se cumprido a purificação da Virgem, eles retornaram a Nazaré. Como podemos conciliar os dois Evangelistas, senão dizendo que a purificação de que fala São Lucas precedeu a fuga para o Egito: pois Deus não lhes prescreveu que fossem para o Egito antes da purificação, para que nada da lei fosse violado; mas, uma vez cumprida essa cerimônia, eles retornaram a Nazaré, de onde receberam ordem de ir para o Egito. E foi no retorno desse banimento que o anjo lhes ordenou que fossem morar em Nazaré, para onde haviam retornado por si próprios da primeira vez, pelo prazer que tinham de morar naquele país. Como eles só tinham ido a Belém para obedecer às ordens do imperador, sem sequer encontrar lugar onde pudessem se hospedar, eles logo retornaram a Nazaré; é por isso que o anjo, quando do regresso do Egito, para permitir que repousassem, os enviou àquele país. Isso não foi feito ao acaso, porque os profetas o haviam predito. Diz o Evangelho: “A fim de cumprir o que o profeta disse: Ele será chamado de Nazareno”.

Qual profeta disse isso? Não sejam demasiado curiosos, nem detalhistas ao extremo. Pois existem muitos profetas que foram perdidos, como podemos ver no livro dos Paralipomenos. A negligência e a preguiça dos Judeus fizeram com que se perdessem muitos livros santos, assim como sua impiedade queimou e destruiu um grande número deles. O profeta Jeremias lamenta sua impiedade; e sua negligência é atestada no livro IV de Reis, onde está marcado que depois de um longo período foi muito difícil encontrar o livro do Deuteronômio, que tinha sido escondido enterrado, e cujos caracteres estavam quase apagados. Se eles deixaram que se perdessem esses livros tão santos, quando seu país estava em paz, como teriam agido melhor no meio da irrupção de tantos povos estrangeiros? Nada mais era certo, e os profetas previram que Jesus Cristo seria chamado de Nazareno, e é por isso que os Evangelistas muitas vezes o chamaram por esse nome.

Estariam então os Judeus desculpados, dirão vocês, por não serem capazes de compreender a profecia de Belém? Absolutamente. Por isso mesmo, eles deveriam ter tido a curiosidade excitada e tentado conciliar entre si dois oráculos que pareciam se contradizer. Foi o nome de Nazaré que levou Natanael a inquirir Jesus, dizendo: “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?[5]”. Pois esse lugar era pequeno e miserável; e não apenas esse lugar, mas toda a Galileia. É por isso que os fariseus disseram a Nicodemos: “Leia bem a Escritura, e verá que nuca surgiu um profeta da Galileia[6]”. Entretanto, Jesus não se envergonhava de ser chamado por esse nome, para nos mostrar que ele não tinha necessidade das coisas que aprecem grandes aos homens. Ele escolheu seus apóstolos na Galileia, pais desprezado pelos Judeus, para evitar toda escusa às pessoas preguiçosas, e para lhes ensinar que nada do que é exterior pode prejudicar a quem se aplica seriamente à virtude. É por isso que o Filho de Deus não quis possuir uma casa para si: “O Filho do homem, disse ele, não tem onde repousar a cabeça[7]”. Por esse mesmo motivo ele fugiu quando Herodes tentou matá-lo; por esse mesmo motivo, ele nasceu e foi colocado numa manjedoura; habitou num estábulo, e escolheu uma mãe pobre, para nos acostumar a não nos envergonharmos de todas essas coisas; para nos ensinar, desde sua entrada nesse mundo, a pisotear todo orgulho do século, e não buscar mais do que os bens da alma, que são as virtudes.

5.      Por que, poderão dizer vocês, ser tão fiel à sua pátria, se em qualquer lugar da terra em que estivermos, nos é ordenado de aí estar como um estrangeiro; e, se o obedecermos, poderemos nos tornar tão grandes, que todo o mundo não será digno de nós? Poderemos nós estimar essas coisas, depois que os filósofos pagãos as desprezaram, considerando-as como estranhas a nós, considerando-as como coisas que deveriam ocupar o último lugar dentre os bens do mundo?

Entretanto, São Paulo – dirão vocês – não rejeitou essas vantagens, quando disse: “Quanto à eleição divina, Deus os ama, por causa dos patriarcas que são seus pais[8]”. Mas, eu lhes peço, considerem a quem São Paulo se dirige, e o que diz, e em que tempo. Ele escrevia a pagãos que, tendo se tornado fiéis, orgulhavam-se de sua fé e tratavam os Judeus com desprezo, pretendendo empurrá-los às fileiras dos infiéis. É por isso que São Paulo tratou de reprimir seu orgulho, ao mesmo tempo em que incitava os Judeus à fé e os encorajava a abraçar o culto de Jesus Cristo. Mas quando ele fala dos maiores homens do Antigo Testamento, vejam o que ele diz: “Aqueles que falam assim fariam bem em ver que eles buscam sua pátria. Pois, se eles tivessem no espírito aquela da qual saíram, eles teriam tempo bastante para retornar a ela; mas eles desejam uma pátria melhor, que é a pátria celeste[9]”. E um pouco antes: “Todos esses morreram na fé, mesmo não tendo recebido os dons que Deus lhes prometera, mas vendo-os, e como que os saudando de longe[10]”.

Também São João disse, àqueles que vinham ao seu batismo: “Não digam: temos a Abrahão como pai[11]”. E São Paulo: “Nem todos os que são de Israel são Israelitas, e os filhos da carne não são os filhos de Deus[12]”. Que vantagem tiveram os filhos de Samuel, sendo filhos de tal pai, sem terem sido herdeiros de sua virtude? De que serviu aos filhos de Moisés tê-lo por pai, se degeneraram seu zelo? É por isso que eles não foram os sucessores de sua autoridade depois de sua morte, porque se contentaram em ser filhos apenas no nome; e o governo do povo passou às mãos de outro, que era seu filho, não de nascimento, mas de virtude. Timóteo era filho de um pagão, e no que foi ele prejudicado pela sua origem? Que ganho o filho de Noé tirou da virtude de seu pai, porque, de livre que era, não deixou de se tornar escravo? Ilustre exemplo que mostra que a nobreza do pai nem sempre basta para preservar o filho da decadência; o desregramento da vontade nesses casos prevalece sobre a lei da natureza, e não apenas priva esses filhos culpados das vantagens de seu nascimento, como ainda faz com que percam a liberdade.

Não era Esaú filho de Isaac, e especialmente querido por seu pai? Não queria Isaac lhe dar a bênção, como o mais velho, porque Esaú o agradava em todas as coisas? Mas, como ele era mau, essas vantagens não lhe serviram para nada. Ainda que a natureza lhe tivesse dado o direito da progenitura, e que seu pai a quisesse conservar, ele perdeu tudo, porque Deus não estava com ele. Mas, para não falarmos dessas particularidades, os Judeus foram feitos filhos de Deus, mas esse título tão glorioso lhes foi inútil. Se, então, aqueles mesmos que se tornam filhos de Deus, se não respondem à dignidade de tão alto nascimento, são ainda punidos por isso, como podem vocês se vangloriarem da nobreza de seus pais e ancestrais?

 Isso que eu digo é tão verdadeiro no Novo como no Antigo Testamento: “Todos os que o receberam, diz São João, receberam de Deus o poder de se tornarem filhos de Deus[13]”. Mas São Paulo declara que essa adoção divina seria inútil a muitos dentre eles, ao dizer: “Se vocês se fizerem circuncidar, Jesus Cristo não lhes servirá de nada[14]”. Se Jesus Cristo de nada vale para aqueles que não cuidam da guarda de suas almas, de que poderá servir termos nascido de tal ou qual homem? Não sejamos orgulhosos de nosso nascimento, bem de nossas riquezas, e desprezemos os que têm esse orgulho.

Não nos envergonhemos por sermos pobres, mas trabalhemos para nos tornar ricos pelas boas obras. Fujamos dessa pobreza que é a companhia dos vícios, e que reduziu a tão extrema pobreza o rico do Evangelho. Pois ele não pôde sequer obter uma gota d’água, apesar de pedir com tanta insistência. Quem dentre vocês é tão pobre como esse rico foi então? Os que morrem de fome têm ao menos água, e não apenas algumas gotas, mas em abundância, sem falar dos outros consolos. Mas aquele rico ficou pobre, até o ponto de não ter sequer uma gota daquilo que pedia; e, o que é mais terrível, sem ter o menor alívio em seus males.

Por que temos tanta avidez por riquezas, uma vez que elas não podem nos adquirir o céu? Se um rei da terra declarasse que nenhum rico seroa honrado em sua corte, não renunciariam todos às suas riquezas? Qual! O perigo de ficar malvisto na corte de um príncipe faria com que todas as riquezas se tornassem desprezíveis; mas quando o Rei do céu nos grita todos os dias: “Como é difícil um rico entrar no reino do céu!”, nós hesitamos e não renunciamos a tudo, como deveríamos fazer para assim podermos entrar com confiança nesse reino eterno.

6.      Depois disso, seremos nós desculpáveis, por ajuntar assim com tanto ardor aquilo que não pode nos servir senão para nos fechar as portas do céu? Mas não é só em nossos cofres que guardamos esse dinheiro, nós o enterramos debaixo da terra, quando poderíamos dá-lo a Deus, que o conservaria para nós na outra vida. Não se parecem vocês com o trabalhador que, tendo recebido trigo para semear numa terra bem preparada, o atira a um lago onde ele logo morrerá, ao invés de lhe trazer algum fruto?

Mas o que dizem essas pessoas, quando as reprovamos por isso? Não é para nós pouca consolação, dizem elas, ver entre nós esses tesouros em segurança. Ao contrário, grande consolação é saber que não existe tesouro para guardarmos conosco. Pois, ainda que vocês não temam mais a fome, nem por isso poderão evitar outros temores mais desagradáveis: a morte, a guerra, as violências secretas de seus inimigos. Se houver uma fome, o povo, pressionado pela necessidade, virá invadir sua casa a mão armada. Assim, com sua avareza, vocês contribuirão para esfomear toda uma cidade, e exporão sua casa a um mal maior do que a fome e a pobreza poderiam fazê-lo.

Eu não tenho ouvido que em nossos tempos algum pobre tenha morrido de fome. Existe uma infinidade de remédios contra esse mal. Mas eu posso mostrar quantas pessoas foram mortas, em segredo ou em público, por causa de seus bens e de suas riquezas, ou por motivos afins. Temos mil exemplos disso nas ruas, nas praças públicas, e nos próprios lugares onde se exerce a justiça. Toda a terra está cheia. Ora, digo eu, toda a terra? O próprio mar está tinto de sangue daqueles que saem a buscar riquezas. Há os que se expõem ao mar na busca de ouro, e os que encontram algum pirata que o mata por causa desse mesmo ouro. O mesmo desejo de riqueza que torna a um, comerciante, faz do outro pirata e homicida. O que existe, então, de mais pérfido do que o dinheiro, porque ele arrasta tantas pessoas, ou a exílios voluntários, ou a perigos extremos, ou a mortes sangrentas e infelizes? “Quem terá compaixão, diz o Eclesiastes, do encantador que é picado pela serpente?[15]”. Seria preciso, no mínimo, que o conhecimento que os homens têm da cruel dominação da avareza os impedisse de se submeterem a ela, e que os livrasse de uma paixão tão violenta e tirânica. Mas como isso pode ser feito, perguntarão vocês? Vocês o farão se substituírem a esse amor pelo ouro, um outro amor, o desejo das coisas do céu. Quem suspira por esse reino, se ri da paixão da avareza. O verdadeiro servidor de jesus Cristo não será jamais escravo, mas sim mestre do dinheiro. Pois normalmente o dinheiro persegue quem dele foge, e foge daquele que o persegue. Ele respeita menos quem o deseja do que quem o despreza. Ele se diverte com quem corre atrás de si, e não apenas ele se diverte, como ainda lhe deita milhares de cadeias.

Rompamos essas correntes tão pesadas, irmãos. Por que haveremos de submeter uma alma racional a uma matéria morta e desprovida de razão, que é a mãe de mil males? Mas, ó loucura inconcebível dos homens! Nós fazemos a guerra à avareza em palavras, mas ela nos sujeita de fato. Ela nos arrasta por toda parte como almas venais, e coo escravos que ela comprou com dinheiro. Existe no mundo coisa mais vergonhosa e mais infame para os cristãos? Se não formos capazes de nos elevar acima da matéria sem alma e sem movimento, como poderemos vencer as potências espirituais que nos atacam? Se não podemos desprezar um pouco de terra, e meia dúzia de pedrinhas que brilham, como sujeitaremos os principados e as potestades? Como poderemos praticar a castidade, se não podemos resistir à avareza? Se o brilho do dinheiro nos fascina, como resistiremos à atração de um belo rosto? Existem pessoas que são de tal modo apaixonadas pelo dinheiro, que não podem vê-lo sem se sentirem transportadas, e dizem então que “a visão do dinheiro é a alegria dos olhos”. Não diga tal tipo de asneira, ó homem! Nada é mais pernicioso para os olhos do corpo e da alma, do que um olhar concupiscente lançado sobre o dinheiro. Foi esse olhar que extinguiu as lâmpadas das virgens tolas, e que as excluiu da câmara do esposo. Essa visão do ouro, que vocês dizem ser tão agradável aos olhos, é a mesma que cegou Judas, que lhe fechou o coração para que não ouvisse mais a voz de seu mestre, que o levou a matar e a perder a si próprio; e que fez com que suas entranhas se derramassem por terra, e arrastou sua alma ao inferno.

O que pode existir de mais funesto do que essa paixão? O que pode ser mais perigoso? Eu não falo da matéria do ouro, falo do desejo furioso que têm os homens por possuí-lo. É essa paixão, que tantas vezes pinta a terra com o sangue dos homens, que a enche de assassinatos, e que é mais cruel do que os animais mais temíveis. Pois ela despedaça todos aqueles que ela possui, e o que é mais terrível, é que ela os despedaça sem que eles sintam. Deveríamos, quando ficamos expostos às suas violências, estender nossa mão aos que passam, e chamá-los em nosso socorro, mas, ao contrário, ficamos felizes com que ela nos devore, e amamos suas feridas, o que é o cúmulo de todos os males. Compenetremo-nos, então, dessas verdades tão úteis; fujamos dessa doença incurável, curemos suas feridas envenenadas; e retiremo-nos para bem longe dessa perigosa peste, a fim de podermos levar aqui uma vida tranquila, e obtermos um dia os tesouros do céu pela graça e a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, com quem está o Pai e o Espírito Santo, a quem pertencem a glória, o poder e a honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.

Final das Homilias sobre a Natividade do Senhor



[1] I Coríntios 5: 5.
[2] II Reis 16: 10.
[3] Salmo 24: 19.
[4] Mateus 10: 29.
[5] João 1: 46.
[6] João 7: 12.
[7] Mateus 8: 20.
[8] Romanos 11: 28.
[9] Hebreus 11: 14-15.
[10] Ibid. 13.
[11] Lucas 3: 2.
[12] Romanos 9: 16.
[13] João 1: 12.
[14] Gálatas 5: 2.
[15] Eclesiastes 22: 13.