quinta-feira, 5 de maio de 2016

Rachel Goettmann - Prece de Jesus, Prece do Coração


1.       “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador”.

Estas são as palavras que constituem a prece que a Igreja ortodoxa chama de “prece de Jesus” ou “prece do coração”. Inúmeros livros muito edificantes nos permitem descobrir essa prece, quanto às suas origens, seu desenvolvimento, seu método; aqui desejamos simplesmente fazer um resumo para nossos amigos leitores que já a praticam, e apresentá-la um o pouco àqueles que ainda não a conhecem.

Digamos inicialmente que a Prece de Jesus é um caminho no seio da prece hesiquiasta, esse “método” de meditação ou de oração que busca, no silêncio e na paz do coração, encontrar o Deus vivo na vida trinitária. O hesiquiasta é aquele faz um “retorno sobre si mesmo”, que procura se calar para que Deus possa lhe falar, sabendo que tal perspectiva não pode ser adquirida mediante um único ensinamento. Trata-se de uma experiência espiritual, de um encontro.

“A hesíquia consiste em permanecer diante de Deus numa oração constante. Deixe que a lembrança de Jesus se uma à sua respiração, e você conhecerá o valor da hesíquia[1]”.

Se trabalhar na hesíquia significa se aproximar de Deus, como conhecê-lo se ele não se manifesta a nós, se ele não se deixa conhecer por nós nem no seu Nome? Pois do contrário esse Deus não seria o Deus vivo. É nessa aproximação de Deus, nessa sede de sua manifestação, que nasceu, no monaquismo oriental, a Prece de Jesus: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador”.

Não se trata de uma prece dita por Jesus, nem de uma prece a Jesus, embora ela se dirija ao Senhor Jesus Cristo, mas de uma invocação que conduz a uma experiência. Cada palavra pronunciada constitui uma experiência e não pode ser vivida senão for no Espírito Santo, pois “ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor se não for no Espírito Santo[2]”.

A prece de Jesus contém poucas palavras, mas essas palavras contêm tudo: o céu e a terra, o criado e o incriado, Deus e o homem. É uma prece divino-humana.

Nas palavras de Teófano o Recluso, “ela une a alma ao Senhor Jesus Cristo e é a única porta para a comunhão com Deus, que é o objetivo de todo encontro”.

A prece de Jesus não se aprende, ela tem que ser experimentada. Façamos, portanto, como Moisés diante da sarça ardente e “tiremos nossas sandálias”, ou seja, façamos calar nossas ideias, nossos conceitos, para nos aproximarmos daquele a quem diremos:

SENHOR!

Senhor! Repetimo-lo... não estamos pronunciando uma palavra, estamos formulando uma invocação. Antes de ir mais longe, detenhamo-nos um pouco, fechemos os olhos e deixemos que se expresse a experiência que essa palavra suscita em nós:

SENHOR!

No pensamento egípcio e semítico, o termo “senhor” significa Mestre – Adonai em hebraico, Kyrios em grego. Trata-se daquele de quem dependemos inteiramente, de quem somos escravos, que possui um direito de vida e de morte sobre aqueles que lhe estão submetidos. Nascido dentro dessa mentalidade, o povo hebreu chamava seu Deus de “Adonai”, porque ele era seu Criador, e porque suas criaturas a ele pertencem:

“Filhos de Deus, rendam ao Senhor, rendam ao Senhor glória e honra”.

No designativo de Senhor, Deus também era reconhecido como Rei por seus servidores. Este é o título rela de YHWH, cujo nome expresso pelo Tetragrama sagrado foi traduzido como Adonai, meu Senhor:

“Cantem a Deus, cantem, cante ao nosso Rei, cantem, pois Deus é o Rei de toda a terra”.

Os discípulos de Jesus eram judeus, e eles experimentaram a Soberania de Deus, de modo que, vivendo com Jesus, eles refizeram essa mesma experiência. É por isso que inicialmente eles o chamavam de “Rabbi” ou “Rabboni”, que quer dizer “Mestre”, pois eles atribuíam a Jesus o poder soberano do “Senhor”, Mara em aramaico:

“Vocês me chamam de Mestre e Senhor, e eu lhe digo que de fato o sou[3]”.

Ainda antes do nascimento de Jesus, Isabel, grávida de João Batista, reconheceu Jesus como Senhor nas entranhas de Maria grávida, e João Batista estremeceu de alegria:

“Como me foi concedido que a Mãe de meu Senhor venha até mim?[4]”.

“Senhor” contém a um tempo a realeza de Jesus e sua divindade. O próprio Jesus, diante dos Fariseus, se apoiou no Salmo 110 para dizer que o Messias é “Senhor”, portanto superior Davi, de quem é filho:

“O Senhor disse ao meu Senhor: dente-se à minha direita, até que eu faça de seus inimigos escabelo para seus pés[5]”.

Os apóstolos se apoiavam nas mesmas palavras para afirmar a soberania absoluta de Jesus atualizada por sua Ressurreição[6]. E a Igreja nascente se dirige em prece ao Senhor Jesus dizendo: “Marana tha, Nosso Senhor, vem![7]”, apelo que ecoou até o Apocalipse[8]. Se de minha parte eu chamo Jesus de “Senhor”, que transformação acontece em minha vida, a que regresso sou chamado! Assim, eu desejo depender inteiramente do Senhor Jesus, desejo renunciar aos meus múltiplos senhores, que me possuem e aos quais me prostituo, para me prosternar aos seus pés e beijá-los como fez Maria Madalena. É com esse espírito de humildade e adoração que penetramos na prece de Jesus.

SENHOR JESUS!

Quem é Jesus em minha vida?

“Yeshouah”, assim o chamava sua Mãe. Jesus significa “Deus salva”, aquele que traz a salvação: “ele veio para salvar aqueles que estavam perdidos[9]”. Jesus é o nosso Senhor, ele resgatou a humanidade da morte, destruiu as trancas do inferno. Jesus é também meu Salvador, pois a cada dia, a cada instante, ele me liberta, me livra e me cura se eu invocar seu Nome. Na potência salvadora de seu Nome, Jesus assume a profecia do profeta Joel: “Quem quer que invocar o Nome do Senhor será salvo[10]”.

O que significa invocar o Nome? O que representa o Nome para um semita? Isso nos interessa porque é na fé do povo hebreu que estão as raízes de nossa própria fé. Na mentalidade do povo hebreu, conhecer o nome de alguém, chamar a pessoa pelo seu nome, equivale a conhecê-la intimamente e, ao mesmo tempo, significa saber como chamá-la para se aproximar dela, para se comunicar com ela doravante, para obter seu auxílio. De certa forma, implica algum tipo de poder sobre a pessoa. O mesmo acontece em relação a Deus, e isso poderia descambar para a magia a serviço de nossos próprios interesses, se nosso Deus não fosse o Deus de Abrahão, de Isaac e de Jacó, o Deus de nossos pais, o Deus revelado em Jesus Cristo que recebeu de seu Pai o Nome “que está acima de todo nome[11]”.

A invocação do santo Nome sem o fundamento da fé e do impulso do coração permanece estéril e pode até nos prejudicar. “Não basta dizer ‘Senhor, Senhor’ para entrar no Reino dos céus; é preciso fazer a vontade de meu Pai que está nos céus...[12]”. Foi assim que, em sua mentalidade semítica, Moisés se dirigiu a Deus, que o enviara ao Egito: “Eu irei aos filhos de Israel e lhes direi: ‘O Deus de seus Pais me enviou a vocês’. Mas se eles me perguntarem seu nome, o que lhes responderei?”. Deus disse a Moisés: “Eu sou aquele que é”, e acrescentou: “É assim que você responderá aos filhos de Israel: ‘Eu sou’ me enviou a vocês”. Deus disse ainda a Moisés: “Você dirá ainda aos filhos de Israel: O Senhor Deus de seus pais, Deus de Abrahão, Deus de Isaac, Deus de Jacó, me enviou a vocês. Esse é meu Nome eternamente, é assim que vocês me invocarão, de geração em geração[13]”.

O próprio Deus se designou a Moisés, não em sua Essência, mas como “Eu sou”, ou seja, como aquele que prometeu estar conosco. O Nome foi dado ao povo de Israel para que este pudesse nomear seu Deus e testemunhar a todos os homens do universo o poder do santo Nome, pois se, por um lado,  Israel conhece o Nome divino, por outro, ele não é proprietário deste Nome, mas seu testemunho. Rabbi Simeão ben Eleazar disse por volta do ano 200: “Quando os israelitas fazem a vontade de Deus seu Nome é exaltado no mundo, mas quando eles não fazem sua vontade, seu Nome é profanado no mundo vivo”. Toda a fé de Israel repousa sobre o Nome e sobre a relação que ele pode ter com o Nome, pois Deus revelou seus costumes ao seu povo revelando a ele seu Nome.

“Moisés cortou duas tábuas de pedra, como as primeiras, levantou-se de madrugada e subiu até a montanha do Sinai, como o Senhor tinha ordenado, e levou nas mãos as duas tábuas de pedra. O Senhor desceu na nuvem e ficou junto com Moisés, que invocou o nome do Senhor. E o Senhor passou diante de Moisés, proclamando: «O Senhor, o Senhor Deus misericordioso e compassivo, lento para a cólera e cheio de fidelidade e de verdade, que permanece fiel por milhares de gerações, tolerando a falta, a transgressão e o pecado, mas não deixa ninguém impune...[14]”.

Pelo fato de que Deus se nomeou para Israel em seu Ser para ele, Israel pôde saber por que e como invocar seu santo Nome. Toda oração do povo hebreu é invocação: a bênção, a ação de graças, a adoração, a súplica, os chamados. As intercessões de alegria, de lágrimas, de angústia, são sempre apelos ao Nome.

“Laços de morte me cercavam, e eu caí na angústia e aflição. Então eu invoquei o nome do Senhor: Senhor, salva minha alma![15]”.

Os mandamentos de Deus para os homens foram experimentados por Israel por meio de ações concretas; e hoje o Senhor Jesus encarna as promessas e os atos de seu Pai até nos menores detalhes de nosso cotidiano. Assim diante de nossas trevas, ele diz: “Eu sou a Luz[16]”; face à nossa prisão: “Eu sou a Porta[17]”; frente à nossa desorientação: “Eu sou o Caminho[18]”; diante de nossa fome: “Eu sou o Pão de Vida[19]”; perante nossas mentiras: “Eu sou a Verdade[20]”; frente à Morte e aos nossos mortos: “Eu sou a Ressurreição e a Vida[21]”.

E tantos outros “Eu sou”, diante de nossas faltas! Até sobre a Cruz Jesus revelou que ele é o Amor num ser de Amor que culminou na Ressurreição, pois esse amor é mais forte do que a morte. é do Senhor Jesus Cristo que jorram toda ternura, esse amor, essa misericórdia que seu Pai tem por nós, e que ele revelou a Moisés. Esse amor, é missão de Cristo no-lo manifestar. Nessa missão, ele é Messias, o Cristo, isto é, o Ungido do Senhor.

SENHOR JESUS CRISTO.

A unção era elemento essencial da investidura dos reis, considerados em Israel e em todo o Oriente antigo como salvadores dos povos. O Rei era escolhido por Deus, era o servidor do Senhor. A fim de que o rei pudesse cumprir sua missão, em fidelidade à vontade do Senhor, ele era ungido com um óleo perfumado, e assim participava do Espírito de Deus. É o que aconteceu com Davi. O rei Saulo havia sido infiel à sua missão, e assim o Senhor, respondendo ao pranto de Samuel, enviou-o a Belém para ungir de sua parte àquele que ele lhe indicasse. E este foi Davi o pastor. “Então o Senhor disse a Samuel: ‘Levante-se para ungi-lo, pois é ele’. Samuel tomou o chifre com óleo e o ungiu no meio de seus irmãos. [22]O Espírito do Senhor tomou Dai e partir deste diz e daí por diante”.

Vemos nestas linhas esboçar-se o rosto de Jesus, o Cristo. Na sinagoga de Nazaré, no dia do Shabbat, Jesus fez a leitura do profeta Isaías: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres; ele me enviou para curar aqueles que têm o coração quebrantado, para proclamar aos cativos a liberdade e aos cegos o retorno à visão, para tornar livres os oprimidos, para proclamar um ano de graça para o Senhor (...) Hoje se cumpriu estas palavras que vocês ouviram[23]”.

É pelo fato de que Jesus foi ungido por seu Pai, ou seja, que ele se encheu do Espírito Santo, que suas palavras e toda a sua vida podem testemunhar que ele é o Messias, o filho de Davi prometido pelos profetas e tão esperado por Israel: “Eis o servidor que eu escolhi, meu Bem-Amado em quem minha alma encontra prazer. Eu coloquei sobre ele o meu Espírito. Ele anunciará a justiça às nações. Ele não contestará nem elevará a voz[24]”.

É até a paixão, até a cruz, até mesmo a Ressurreição, que Jesus assumiu seu messianismo, obedecendo à vontade de seu Pai. Em Jesus de Nazaré, os discípulos e depois a própria Igreja nascente, reconheceram o Messias, o Cristo. Eis porque toda a fé da Igreja primitiva se exprime nessas palavras que cantamos através dos séculos até os nossos dias: “Cristo ressuscitou dos mortos, venceu a morte com a morte, e aos que estavam nos túmulos ele deu a vida[25]”.

SENHOR JESUS CRISTO!

Muitos de nós fomos batizados e crismados, o que significa que fomos ungidos com óleo santo e que trazemos em nós o selo do dom do Espírito Santo – mas será que, hoje, Jesus é o Cristo para nós? Se, hoje, minha vida encontra sentido nele, se eu participo a todo instante, pela minha fé, à unção divina de Jesus, sem cessar, então eu posso tomar dessa unção que é alegria, felicidade, força, posso embeber-me dessa unção que é a plenitude dos dons do Espírito, e que me traz os “segredos de Deus”.

“É por isso que eu dobro os joelhos diante do Pai, de quem recebe o nome toda família, no céu e na terra. Que ele se digne, segundo a riqueza da sua glória, fortalecer a todos vocês com o poder do seu Espírito, para que o homem interior de cada um se fortifique. Que ele faça Cristo habitar no coração de vocês pela fé. Enraizados e alicerçados no amor, vocês terão forças para  compreender, com todos os santos, qual é a largura e o comprimento, a altura e a profundidade, de conhecer o amor de Cristo, que supera qualquer conhecimento, para que vocês fiquem repletos de toda plenitude de Deus[26]”.

Se nesse instante Cristo aparecesse para mim e me perguntasse: “Quem sou eu para você?”, poderia eu confessar: “Sim, Senhor, eu creio que você é o Cristo, o Filho de Deus que veio ao mundo[27]”? Esta é a confissão do discípulo, e é desse impulso de fé que brota a prece de Jesus.

SENHOR JESUS CRISTO, FILHO DE DEUS!

Muda alguma coisa na minha vida, afirmar que Jesus é Filho de Deus, e mais do que isso, Filho Único de Deus? A confissão da filiação divina de Jesus ilumina meu próprio destino. Conhecer o porvir é uma questão angustiante que pinça as entranhas de muitos seres humanos, é e a causa de muitas visitas a videntes e astrólogos. Cristo, Filho de Deus, nos revela nosso destino. Somente o homem, por seus próprios meios, pode encontrar a Deus, e é por isso que Deus veio até o homem, que ele veio pelo amor, e se fez como sua criatura. Nossa vida cristã não sairá de uma dimensão humana – por nobre que esta possa ser – se não nos voltarmos para Jesus em sua humanidade. Deus Pai, em seu louco amor pelo homem, ofereceu seu Filho Único à humanidade, O Filho de Davi segundo a carne é o Filho de Deus. Por meio dele, Cristo, a unção divina – o Espírito Santo – é oferecida a todos os homens. Todos, sem exceção, podem se tornar filhos no Filho e pelo Espírito Santo a fim de conhecer o amor do Pai e entrar assim na experiência da Vida trinitária.

Orar a Jesus, Filho de Deus, significa nos voltarmos com Jesus para o Pai e dizer com ele: “Abba, Pai que está nos céus”. Jesus é Filho de Deus e Filho do homem, e só ele pode nos revelar nosso rosto de homem que é uma conquista, um caminho, o caminho da “divinização”, ou seja, da participação na vida divina, sem a qual nossa vida não passa de morte e desolação. O caminho de nossa divinização foi aberto pela morte de Cristo, que, por amor, partiu desde o interior e assumiu nossa humanidade ferida. A Ressurreição é uma partilha de sua Vida, que ele continua a nos comunicar no amor do Espírito Santo que se derrama sobre o mundo e em nossos corações e nos transforma em filhos no Filho.

O “Caminho” está traçado, a “Porta” está aberta, e, de nosso lado, onde se situa nossa responsabilidade, nossa participação?

Em primeiro lugar, no seio de nossa liberdade, de nosso acolhimento do Espírito Santo e da Palavra de Cristo, como nessas palavras que devem se encarnar em nossa vida a cada dia: “Eu fui crucificado com Cristo; já não sou em quem vive, mas Cristo que vive em mim. Minha vida presente na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus que me amou e que se entregou por mim![28]”. 

Assim é que o caminho da filiação passa por minha própria morte e ressurreição. É por este caminho que a prece de Jesus irá me conduzir.

SENHOR JESUS CRISTO, FILHO DE DEUS,
TEM PIEDADE DE MIM, PECADOR.

Tentamos nos voltar para aquele a quem desejamos endereçar nossa oração, o Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, e também nos deixarmos penetrar pela experiência que em nós suscita cada palavra pronunciada, e de tomarmos consciência da transformação radical que essa confissão pode trazer para nossas vidas; assim é que já pressentimos que tal transformação está desde sempre contida nesse grito: “tem piedade de mim, pecador”!

No próximo capítulo tentaremos nos abrir à experiência da segunda frase da oração, e à sua prática. Enquanto aguardamos, podemos nos deixar habitar por essa confissão de fé, “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus”, trazer em nós cada uma dessas palavras conforme sua energia, sua realidade, sua expressão na minha vida e no mundo, na adoração, na confiança, na alegria, na bênção, e a acolhermos, atentos àquilo que essa invocação poderá despertar em nós. Entretanto, sejamos prudentes, e não custa repetir que a invocação do Nome não tem nada de mágico, mas demanda a adesão de nossa fé cristã e o desejo de perdoar àqueles que nos ofenderam. A invocação do Nome sagrado é poderosa, ela abraça os corações sinceros, mas queima a quem a pronuncia indignamente.

Para onde nos conduzirá a Prece de Jesus? Santo Isaac o Sírio nos revela: “O Amor é o reino que o Senhor misticamente prometeu aos seus discípulos quando lhes disse que eles comeriam em seu Reino: ‘Vocês comerão e beberão à minha mesa em meu reino[29]’. E o que comerão eles, o que beberão, senão o Amor? Quando houvermos alcançado o Amor, quando houver alcançado a Deus, nossa viagem estará terminada. Teremos chegado à ilha que está para além do mundo, onde estão o Pai, o Filho e o Espírito Santo, a quem sejam dadas toda a glória e todo o poder”.

2.       Um Deus de ternura

A prece de Jesus contem dois movimentos que se tornam a expressão de nossa fé e que ativam toda a nossa vida, se tomarmos esse caminho. Dois movimentos: a elevação, ou seja, a adoração, contida em “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus”; e o rebaixamento, na medida em que tomo consciência de minha impotência natural em me constituir como mestre de minha própria vida: “tem piedade de mim, pecador”.

Nosso tempo atual recusa essa maneira de pensar e de ser. Para muitos, o fato de implorar a piedade de Deus e, sobretudo, de se reconhecer pecador leva a comportamentos cheios de culpabilidade e rebaixa e humilha aqueles que se colocam em tais práticas. As Igrejas já foram bastante acusadas de manipular os cristãos e de mantê-los assim numa dependência que os impediria de se tornarem adultos e de construir sua identidade.

Que homem, que tipo de vida poderá forjar a Prece de Jesus? Por que dizemos essas palavras: “tem piedade de mim, pecador”? Vamos nos deter por alguns instantes e fechemos nossos olhos para dizer lentamente: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim pecador”. Que eco essas palavras produzem em mim? Quais são as minhas reações?

Deixemos por ora aquilo que aprece pode provocar em nós em termos de revolta e cólera, sem por isso pisotear nossos sentimentos; tentemos calar por um momento nossas ideias preconcebidas e nossas conotações morais, a fim de oferecer a nós mesmos a chance de penetrar na experiência de cada palavra, assim como já tentamos em relação ao primeiro movimento da oração. Para fazer isso, vamos repetir com Davi as palavras do Salmo 51, e então poderemos entrar plenamente no espírito da Prece de Jesus: “Tem piedade de mim, ó Deus, em tua bondade, segundo tua grande misericórdia apaga as minhas transgressões, lava-me completamente de minha iniquidade e purifica-me de meu pecado”.

Na Bíblia, implorar pela piedade de Deus equivale a implorar o próprio Ser de Deus, esse Ser que o Pai Celeste revelou a Moisés para seu povo, e que o Senhor Jesus Cristo encarna por intermédio de sua própria vida e de seu ensinamento. Israel pôde implorar a piedade de Deus, pois ele a experimentou de geração em geração: “Tu és um Deus pronto para perdoar; compassivo e misericordioso, lento para a cólera e rico em bondade, e não os abandonastes mesmo quando fizeram para si um bezerro fundido (...) Em tua imensa misericórdia, tu não os abandonastes no deserto (...) Tu lhes destes teu boom Espírito para os tornar sábios, tu não recusastes o maná para suas boca e lhes destes água para sua sede[30]”.

Deus não tem pelo homem nenhuma piedade condescendente. Ele está em relação com cada um de nós em particular, inclinando-se para cada qual com a mesma solicitude. Ele salva o homem, liberta-o de qualquer sofrimento em que ele se encontre. Israel colocou toda a sua fé nessa certeza que lhe permitiu jamais entenebrecer-se em desespero: “Volta para nós, Senhor, não tarde! Tem piedade de teus servidores. Cumula-nos com tua misericórdia, desde a manhã, e durante todo o dia estaremos alegres e felizes[31]”.

A misericórdia divina une o céu à terra, ela é o fermento da aliança entre Deus e o homem, aliança que Deus selou eternamente nas entranhas de Maria, a santíssima Mãe de Deus: e a misericórdia se estende pelos séculos dos séculos sobre aqueles que o temem[32]. Jesus, “Deus salva”, é a revelação em plenitude do carinho misericordioso do Pai para com os filhos que somos.

O próprio Senhor Jesus Cristo experimentou a piedade divina, o amor compassivo para com aquele que imploram: “Eis que dois cegos estavam sentados à beira do caminho e, ouvindo Jesus que passava, gritaram: ‘Tem piedade de nós Senhor, Filho de Davi!’. Jesus os interrogou e disse: ‘O que querem que eu lhes faça?’. Eles lhe disseram: ‘Senhor, que nossos olhos se abram’. Movido pela compaixão, Jesus tocos seus olhos e imediatamente eles recuperaram a visão e o seguiram[33]”.

Eles o seguiram... em Cristo, a piedade divina nos coloca numa tensão de esperança que jamais duvida da presença amorosa de Deus em nossa vida, nem do próprio sentido de nossa vida, que é o próprio Cristo, conforme testemunhou São Paulo.

Existem outros episódios no Evangelho nos quais descobrimos Jesus emocionado, tomado de piedade, curar os doentes, os enfermos, expulsar os demônios, ressuscitar os mortos. Basta reler essas passagens, que nossos corações se abrirão ao espírito de compaixão: Marcos 1: 41; 9: 22; Lucas 7: 13-14. A piedade divina é amor ativo, criador, que faz passar da morte à vida. Mas essa passagem não pode se realizar senão no perdão divino que dá todo o sentido à misericórdia divina.

No Antigo Testamento encontramos essas palavras divinas que fazem estremecer nossas entranhas: “Por um curto instante eu a abandonei, mas com imensa piedade vou unir-te a mim (...) com amor eterno, terei compaixão por ti (...) quando as montanhas se afastarem, quando as colinas vacilarem, meu amor não se afastará de ti (...) diz o Senhor que tem compaixão por ti[34]”.

Israel peca sem cessar, traindo seu Deus, e sem cessar Deus oferece seu perdão por causa de seu Nome; por causa daquilo que ele é para o homem, o Deus louco de amor renuncia à aliança rompida e permite assim a seu povo uma nova etapa, uma nova subida, num retorno para ele, que é a Vida. Jesus Cristo é a revelação do perdão que nasce do coração de Deus. Por intermédio das curas que realiza, Jesus, Deus feito homem, nos permite compreender que ele não pode suportar que morramos paralisados na morsa de nossos pecados. Nossos sofrimentos, nossas enfermidades decorrem de nossa natureza pecadora e nos conduzem à morte, e isso é insuportável ao amor divino. É por isso que o Filho do homem veio buscar e salvar o que estava perdido[35], recebendo de seu Pai o poder sobre a terra de perdoar os pecados[36].

Somente Jesus Cristo pode perdoar os pecados, ou seja, nos devolver a vida, porque ele partilhou conosco nossa vida pecadora fazendo-se solidário com nossa humanidade pecadora, ele que não cometeu pecado algum. Ele penetrou na morte, consequência do pecado do homem, e sua Cruz é a garantia de seu perdão: “Pai, perdoai-os, pois eles não sabem o que fazem[37]”.

Nesse contexto, a Prece de Jesus deve despertar em nós a um tempo a lembrança de Deus, Senhor de vida que perdoa, e a lembrança da morte engendrada pelo pecado humano. Então nossa vida poderá encontrar seu sentido luminoso, pois no reconhecimento de meu pecado, que me mergulha nas trevas e que contribui para as trevas do mundo, eu vejo a Páscoa oferecida pelo perdão de Cristo crucificado, que me faz entrar na vida nova e ao mesmo tempo conduz para o amor por meus irmãos. É isso que chamamos metanóia, o retorno. Minha vida não se esgota girando em torno de mim mesmo, mas ela desabrocha, orientada para o Deus misericordioso e compassivo, e encontra sua responsabilidade no mundo. Assim, segundo Olivier Clément, “a memória da morte se inverte em memória de Deus, que se deixou capturar pela morte para consumi-la e nos oferecer sua ressurreição”.

Aquele que se aventura sobre o caminho da Prece de Jesus sabe estar enfermo, dividido, fora de si, ele vê seu pecado sem culpabilizar-se, mas também sem ocultá-lo. Não basta dizer “tem piedade de mim, pecador” para obter a cura, pois a fórmula não é mágica, mas é preciso tomar consciência daquilo que, em meus pensamentos, meus olhares, minhas palavras, meus atos, me afasta de Deus, ou seja, me torna doente. Não são as pessoas saudáveis que precisam do médico, mas os enfermos[38].

Mas o que isso significa para mim: estar enfermo, portanto, pecador? Não vamos aqui dar a definição do termo “pecador”, mas vamos tentar nos aproximar da realidade que podemos experimentar. Se pudéssemos simplesmente descrever o pecador da Bíblia, o pecador que sou eu, diríamos que é aquele que se engana de caminho, aquele que se separa do caminho da aliança traçado para ele por Deus, e que, por espírito de independência, se aventura a sós por outros caminhos, para um destino que só conduz à morte. Daí provém esses apelos desesperados, esses gritos de desânimo do povo hebreu, e ao mesmo tempo esses pedidos de perdão, todos cheios de esperanças de libertação.

“Ó meu Deus, tu conheces minha loucura e minhas faltas não te são desconhecidas (...) Mas eu, Senhor, te dirijo essa prece (...) Responde-me, Senhor, pois tua misericórdia se estende em tua imensa compaixão, volta para mim teu rosto (...) Aproxima-te de mim e resgata-me[39]”.

Só se peca contra Deus! Mas sejamos claros: nossos pecados não ofendem a Deus do mesmo modo como nossas faltas ofendem nossos irmãos; não, em princípio o pecado não é uma atitude que nega a moral, mas ele toca no próprio sentido sagrado da vida que Deus nos insuflou. Depois da queda, depois que Adão se recusou a obedecer a Deus, ou seja, depois que ele deixou de inclinar seu ouvido para a vontade divina a fim de se aconselhar com Deus, desde então não existe homem que não tenha pecado, o que fez com que São João Evangelista dissesse: “Se dissermos que não temos pecado, estamos enganando a nós mesmos, e a Verdade não está em nós[40]”.

Herdeiros de Adão por nossa hominidade, nascemos pecadores, mas Deus, que é a própria Liberdade, nos criou livres à sua imagem, de modo que não somos obrigados a pecar. Nossas relações com podem ser vividas dentro de um princípio de liberdade. Quando nos apoiamos sobre essa liberdade para pecar nós recusamos a Deus, nós o rejeitamos. Esse é o aspecto mortífero de nossa liberdade; mas essa mesma liberdade é o trampolim de nosso retorno para Deus. Nossa liberdade é um presente de amor de nosso Criador. Como dizem nossos Padres, “Deus pode tudo, menos obrigar o homem a amá-lo; tornar-se à sua semelhança só é possível àqueles que, por um grande amor, ligaram sua liberdade a Deus”.

Nosso caminho de retorno a Deus, nossa metanóia, só pode se realizar no amor, e é por isso que a Prece de Jesus é também chamada de “prece do coração”. Voltaremos a isso no capítulo seguinte. Nada há de mais luminoso do que a parábola do filho pródigo[41], para nos esclarecer sobre o futuro deste filho que sou eu, e que clama por seu Pai: “tem piedade de mim, pecador”.

Vamos reler essa parábola, e tentemos entrar na pele do filho que deixa seu pai, a fim de descobrirmos com o filho pródigo os meios e as condições de nosso retorno. Eu sou o filho que esgota sua herança “num país distante”, ou seja, longe do meu coração. Eu dissipei a vida que recebi de Deus. Animado por minha vontade própria, eu esqueci Deus e coloquei minhas esperanças nos homens, contando apenas com meu alimento terrestre para viver. Tornei-me avaro e ingrato, considerando a mim mesmo como proprietário dos dons e das riquezas que Deus me prodigalizou. Ora, a mais bela planta seca se não for regada: cortado de meu Deus, eu me torno uma terra ressequida e em água. Mas no fundo de mim, o melhor de mim geme e se recorda: “às margens dos rios da Babilônia, nós nos sentávamos e chorávamos, lembrando-nos de Sião...[42]”.

Assim como o filho pródigo, trazemos em nós a lembrança da paternidade divina, as palavras que o Pai celeste pronunciou e das quais seus filhos de lembraram de geração em geração. No meio da minha desordem e da miséria para a qual me levaram minha partida, o Espírito Santo suspira: “Volte, volte!”.

Eu dou meu primeiro passo sobre o caminho a partir do momento em que, movido pelo Espírito Santo, eu declaro meus desvios, minhas exigências, minhas traições. Depois, eu posso aceitar de mim mesmo: “eu sou pecador, Senhor, tem piedade de mim”.

“Enquanto eles estiverem no país de seus inimigos, eu não os rejeitarei[43]”. Eu sei que, sem temor, poderei retornar ao Pai, eu sei que ele me vê de longe, vale dizer, aonde estou, e tal como sou. Eu me lembro de que suas entranhas maternais se emocionam: “Não terá a mulher piedade do fruto de suas entranhas?[44]”.

Então ele me tomará em seus braços, como ensina a parábola, sem reprimendas, sem me punir, e ordenará um dia de festas para anunciar minha ressurreição. Sim, meu coração poderá experimentar a alegria desse retorno à vida sem ilusões nem dúvidas, pois se alguém pecou, lembre-se que terá por advogado junto ao Pai a Jesus Cristo, o Justo. É ele quem se fez vítima da propiciação por nossos pecados, e não apenas pelos nossos, mas pelos pecados do mundo inteiro[45].

“Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador!”.

Em nosso retorno a nós mesmos, não ocultemos também o filho mais velho da parábola, que se recusa a participar da festa organizada por seu pai para seu irmão ressuscitado, e a quem o pai diz: tudo o que me pertence, a você pertence. Nós fomos batizados, revestidos com a luz de Cristo, mas frequentemente nossas vidas não são o reflexo de sua luz. E no entanto vamos à Liturgia, casamo-nos na Igreja, fazemos batizar nossos filhos, até estudamos a teologia, realizamos obras de caridade... Mas o sofrimento de nossos irmãos não nos comove, seus combates pela vida, suas vitórias não nos interessam. Nossos corações se ressecam, em algum ponto nos tornamos como os fariseus ciosos de suas tradições, de seus ritos, de sua herança. Nós nos consideramos com os únicos justos a quem são devidas as graças divinas, e esquecemos quanta importância tem a ovelha perdida para Cristo. Há mais alegria no céu por um único pecador que se arrepende do que por oitenta e nove justos que não têm do que se arrepender[46]...

Para meu egocentrismo, minha vaidade, minha ingratidão: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador!”.

Pressentimos o impacto que a Prece de Jesus pode ter sobre nossa vida a partir do momento em que nos decidimos a tomar o caminho. Ela vai chacoalhar nossa vida interior e exterior, nos conduzindo a uma nova visão sobre nós mesmos, sobre o mundo de nossos irmãos, sobre a própria Igreja.

Nas palavras do Arquimandrita Sofrônio, “ela é mais eficaz do que qualquer espada de dois gumes, ela penetra até o ponto de divisão da virilha com o espírito; desde o tutano e as articulações, ela pode julgar os sentimentos e os pensamentos do coração. Da mesma forma, nada há nas profundezas de nosso espírito que permaneça invisível diante dela, mas diante de sua luz tudo se torna nu e descoberto”.

A Prece de Jesus é também uma arte. No próximo capítulo, descobriremos um método no seio de nossa tradição, que poderá nos auxiliar a entrar na prática da prece. E assim, “o homem descerá até as profundezas de seu coração, onde Deus lhe mostrará sua glória[47]”.

3.       Provem e vejam: a prática da Prece de Jesus

Nos últimos dois capítulos, tentamos nos aproximar da prece de Jesus como de uma pessoa viva, do próprio Vivo, “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus”, com as lágrimas de arrependimento e de alegria do filho pródigo: “tem piedade de mim pecador”. Vamos agora descobrir a prática da Prece de Jesus, um tesouro da Igreja ortodoxa. Não entraremos na história de sua transmissão através dos séculos, coisa que muitos bons livros nos ensinam, mas, como crianças, avançaremos lentamente pelo caminho orando ao Espírito Santo para que nos ajude.

3.1.   A Prece no dia-a-dia

Estabelecidos os fundamentos de nossa fé cristã, todos podemos dizer a Prece de Jesus, onde quer que estejamos, seja o que for que estivermos fazendo, e em todas as circunstâncias. Claro, não se trata de acumular invocações, mas de colocar em cada palavra nossa atenção e nosso coração. Cristo é a Luz verdadeira, de modo que nossos gestos mais banais, nossos momentos vazios, nossas dores, nossas angústias, serão aureoladas com sua luz e, pouco a pouco, permaneceremos com a lembrança de Deus ao longo de toda a jornada do dia: com as mãos no trabalho e o intelecto no coração, poderemos orar sem cessar[48].

Para alguns dentre nós, a prece toma a forma de um “lembrete”: em determinadas horas, por exemplo, ou em momentos precisos, decidimos dizer a fórmula, uma ou mais vezes. É bom manter-se fiel ao número de invocações e às horas estabelecidas; não se trata absolutamente de uma observância exterior, mas de uma fidelidade a si que nos esvazia o interior e que permite à Prece enraizar-se profundamente, como foi o caso do Peregrino russo.

Quando dedicamos um tempo para nos determos para orar, ou durante as viagens, um terço será de grande ajuda, simplesmente para nos concentrar mais facilmente e graduar o número de orações.

As prosternações, por causa de seu movimento, nos colocam na condição do filho pródigo que se reconhece pecador e se prosterna aos pés do Pai que o perdoa e o cumula de alegria. Assim, ajoelhados, invocamos o santo Nome: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus”, e prosternando-nos com o rosto contra o solo imploramos a misericórdia divina: “tem piedade de mim, pecador”.

A Prece pode também iluminar nossas noites insones: ela terá o efeito de um bálsamo para nossas feridas e nossas dores. Podemos também optar por nos levantarmos por algum tempo em vigília. Esse tempo sem sono não nos fará falta, bem ao contrário, pois a Prece iluminará nossas trevas interiores. “Em plena noite eu me levanto para te celebrar, por causa de tuas justas decisões[49]”.

No mosteiro fundado por São Sofrônio na Inglaterra, a Prece é recitada em comunidade. Todos os que tiveram a mesma experiência nos grupos de oração podem testemunhar de sua eficácia para fortalecer as relações fraternais. Assim como ela aquece os corações, ela aumenta o ardor na prece, ao mesmo tempo em que mantém os que oram em sobriedade e simplicidade.

A sós ou em grupos, quando dizemos a Prece em voz alta, deixamo-la escoar ao ritmo da frase sem lhe impor os movimentos de nossa sensibilidade ou de nossa vontade própria. Quando a prece é dita em comunidade, as palavras “tem piedade de mim, pecador”, que dizem respeito à nossa própria conversão, se tornam “tem piedade de nós”; assim nos reconhecemos como pecadores no seio de uma humanidade pecadora e ao mesmo tempo reconhecemos a Cristo Salvador em cada um de nossos irmãos. À custa de permanecermos fiéis na Prece, ela acabará por se estabelecer em nós e se repetirá sozinha. “Haverá em vocês um murmúrio como de um regato”, diz o Estaroste Panthene de Kiev.

Sabemos agora que a Prece de Jesus pode preencher todos os instantes de nossa vida; no próprio seio de nosso cotidiano, podemos experimentar o Reino dos Céus. São Teófano o Recluso diz: “A primeira coisa a fazer é criar o hábito de repetir sem cessar a Prece de Jesus. Comecem, repitam uma vez e outra vez, sempre e sempre, mas mantenham sempre os olhos do pensamento em nosso Senhor. Tudo está nisso. Quando vocês se estabelecerem no homem interior pela lembrança de Deus, Cristo Senhor virá e fará em vocês sua morada”.

Mas “não basta dizer: Senhor, Senhor...[50]”. É importante viver um tempo vigoroso ao longo de nossas jornadas, a fim de que todo o nosso ser aprenda a orar: corpo, alma, espírito. Somente então nossa prece se tornará prece do coração. Não votaremos aqui aos conselhos dados sobre os preparativos, nem sobre as diferentes posturas; lembraremos apenas que a Prece de Jesus se dirige ao Deus que se fez homem. É por isso que nosso corpo não pode ser um obstáculo à prece: graças aos nossos cinco sentidos, nosso corpo conhece seu Criador e o Cristo em nós nos mostra que também nosso corpo é chamado à Ressurreição e à Vida. De quanto corpos Cristo cuidou durante sua permanência na terra! Ele chegou a ressuscitar os mortos para dar ao corpo seu justo lugar, e, quando ele próprio ressuscitou dentre os mortos, ele não abandonou seu corpo no túmulo. A postura corporal influencia nossa atenção, tão necessária à prece, e permite ainda ao corpo inteiro se impregnar com a graça da oração. A propósito deste homem envolto na oração, o Bispo Briantchaninoff diz: “Suas próprias mãos, seus pés, seus dedos participam de maneira inefável, mas evidente e perceptivelmente, da prece”.

3.2.  O sopro do Todo-Poderoso me anima[51]

Também nossa respiração deve permitir que a oração se aposse de nosso ser. É preciso irmos além da concepção racional da respiração, e considerá-la enquanto sopro. Se existimos, é porque somos animados pelo sopro que Deus que sopra em nosso sopro a cada inspiração. Na maior parte do tempo estamos inconscientes da dimensão sagrada de nossa respiração, esquecemos que nossa vida está ligada à graça insuflada por Deus em nós a cada inspiração, como um verdadeiro influxo de vida. Na inspiração recebemos o pneuma, o espírito, da mesma forma como participamos do Espírito de Deus.

Teófilo de Antioquia afirma: “Deus deu à terra o sopro que a alimenta. É seu hálito que dá vida a todas as criaturas. Se ele retivesse seu sopro, tudo desapareceria. Esse sopro vibra com o seu sopro na sua voz. É o sopro de Deus que você respira e você não sabe disso”.

Nossa respiração influencia todo o tempo nosso comportamento superficial, ela nos arrasta a uma vida vegetativa psicológica que nos enfraquece e faz de nós semimortos. Inversamente, se nossa respiração se torna sopro, e, portanto, acolhe o sopro divino, entramos numa comportamento vivo criado a cada instante pelo sopro de Deus, um comportamento inspirado por Deus, em sinergia com a vontade divina para conduzir a história humana rumo ao seu cumprimento. Dessa forma se estabelece um verdadeiro diálogo entre o homem e Deus no seio da respiração consciente em nosso sopro que recebe o Sopro divino. Mas esse diálogo pode descambar para a ilusão ou a confusão, enquanto que a Prece de Jesus colada ao sopro impede a criatura de confundir a si mesma com o Criador. “Que a lembrança de Jesus esteja unida à sua respiração, diz São João Clímaco (...) A Prece de Jesus deve ser continuamente respirada, pois ela purifica e aprofunda o homem interior”.

Na prática, dizemos a cada inspiração “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus”, e assim acolhemos o Senhor que se torna nosso mestre interior; quando expiramos, reconhecemo-nos como pecadores e dizemos: “tem piedade de mim, pecador”, para abandonar nossos pensamentos passionais que nos dividem e nos afastam de Deus. Temos muito pouca consciência do impacto destruidor dos nossos pensamentos, que nos impedem de viver no instante presente à escuta da vontade divina, e que permitem ao Maligno de nos dispersar e nos por a perder. A respiração consciente nos ancora no instante presente, e é no aqui e agora em que encontramos a Deus que bebemos do Sopro divino que é a fonte da vida. “Se alguém tiver sede, que venha até mim e beba[52]”.

Se quisermos orar ao Pai em espírito e verdade como nos ordena Cristo, devemos nos apoiar sobre o verbo e o sopro que estão em nós, à imagem de Cristo e do Espírito Santo. Se deixarmos que Cristo e o Espírito ajam em nós conjuntamente, então passaremos da exterioridade das coisas para nossa própria interioridade, e nos encaminharemos lentamente para o coração, nossa interioridade mais profunda, que é ao mesmo tempo o lugar de Deus, a câmara nupcial.

3.3. Meu coração está preparado, ó Deus, meu coração está preparado

O coração possui uma importância especial na espiritualidade ortodoxa: ele é uma realidade ao mesmo tempo física, psíquica e espiritual. Como na Bíblia, ele expressa o homem interior que se dirige para encontrar com seu Senhor.

Diz São Teófano o Recluso: “Concentrem-se em si próprios e procurem não deixar o coração, pois o Senhor se encontra aí. Tentem chegar até o coração, e trabalhem nele”. Mas, como fazer para permanecermos no coração? Peçamos ao próprio Teófano que nos esclareça: “Você deve descer desde sua cabeça até seu coração. Por enquanto, seus pensamentos estão dentro de sua cabeça, e Deus parece estar fora de você. Enquanto você estiver dentro de sua cabeça, você não conseguirá dominar seus pensamentos, que continuarão a turbilhonar como a neve ao vento de inverno, ou como os mosquitos no calor do verão...”.

A Prece de Jesus favorece a concentração do intelecto sobre um único ponto, um único Ser, sobre o Único, e a respiração consciente nos permite não nos afastarmos daí. Quando ritmamos a Prece de Jesus com nosso sopro, este se adapta lentamente às palavras da Prece. Então, durante a inspiração, nós nos abrimos, corpo, alma, espírito, e nos tornamos como um cálice que recebe o Senhor Jesus Cristo; e na expiração nós nos abandonamos, deixamos nossas tensões que nos endurecem e nos fecham. Assim, podemos concentrar nosso intelecto sobre a Prece que, levada pelo sopro, abre lentamente um caminho para o coração, a morada de Deus.

Segundo nossos Padres, o intelecto significa nosso espírito, nossa inteligência. É preciso ultrapassar o sentido racional da inteligência que é o domínio da alma, para entrar na compreensão daquilo que Vladimir Lossky chama de “sua faculdade contemplativa, por meio da qual o homem se dirige a Deus, a parte mais pessoal do homem, princípio de sua consciência e de sua liberdade”.

Por que essa insistência de nossos Padres para que o intelecto desça até o coração? Pelo intelecto podemos apenas saber coisas a respeito de Deus, mas não podemos ter a experiência de Deus; da mesma forma, nosso coração, privado da luz da inteligência, permanece como um lugar de sombras invadido pelos vícios e as paixões. Somente aquele que ama conhece a Deus[53], e esse amor não pode surgir senão do coração que, em união com a inteligência, encontra a Deus numa consciência iluminada. A partir desse momento o coração se torna um coração –espírito. É perigoso colocar suas esperanças apenas nas técnicas, a fim de unir o intelecto ao coração. As técnicas não passam de muletas, meios que nos permitem nos colocarmos humildemente no caminho. Então venceremos lentamente cada etapa que os Padres nos descreveram.

3.4. Evolução espiritual da Prece

Nos primeiros tempos, a Prece de Jesus é vocal como toda prece, ou seja, formulada em voz alta ou baixa. Nossos lábios e nossa língua participam do esforço de nossa vontade. Essa primeira etapa é árdua e fatigante. Frequentemente somos tentados a renunciar a nossos esforços, e nossas penas parecem não trazer nenhum fruto. “Eu não sinto nada”, ou: “Tenho a impressão de ser um moinho de palavras”. Quem se enche de paciência e de desapego penetra então na segunda etapa.

A Prece se interioriza, se torna mental. O intelecto se deixa capturar e a repete sem precisar do movimento dos lábios; a atenção se torna mais fácil, mais espontânea, e às vezes a prece surge sem que nos tenhamos decidido a fazê-la. Então nós nos detemos e gozamos dessas momentos de paz e alegria.

Essas são as primícias da terceira etapa: pesado com o santo Nome, o intelecto busca se unir ao coração, no qual fizemos um trabalho de desencobrimento e de purificação, a fim de acolher o santo Nome. Essa é a etapa que os Padres denominam “descida do intelecto para o coração”: “Quando essa ordem se estabelece em nós, diz São Teófano o Recluso, ela se faz acompanhar de uma sensação de calor no coração, e ela expulsa rodos os pensamentos ordinários, inofensivos, bem como os passionais. Quando a chama do desejo [por Deus] começa a queimar sem interrupção no coração, experimentamos um sentimento de paz interior na alma, na medida em que o intelecto se aproxima de Deus com humildade e contrição”.

Um dia, talvez, sob a ação do Espírito Santo, a Prece se tornará perpétua, e fluirá por si mesma, espontaneamente, no interior de nosso coração. Já não será a “minha” prece, mas a prece de Cristo em mim, e então caminharemos sem cessar na presença de Deus: “Os justos confessarão teu Nome, e os corações puros habitarão diante de tua Face[54]”.

3.5. Aprender a amar

Qual é o impacto da Prece de Jesus sobre aqueles que oram? Passo a passo, caminhos para a restauração de nosso ser interior e, portanto, de nossa cura. Se o Nome que invocamos é vivo, então ele nos vivifica, e nascemos para a Vida, pois Cristo se encarnou e ressuscitou para que possamos renascer para a mesma Vida de Deus. Esse renascimento que nos transforma é para hoje mesmo, nesse mesmo instante em que nosso coração invoca o santo Nome. Dessa forma o Cristo vivo em nós está também ativo em nós. Ele vivifica nossos pensamentos, nossos atos e nossas decisões. Na sua presença, nos tornamos seres livres, portadores da paz, pois ele nos deixou a sua Paz[55]. O Nome acende em nós também o fogo do amor, esse fogo que aqueceu o coração dos discípulos sobre o caminho para Emaús[56]. “Eu vim trazer fogo à terra, e como gostaria que ele já estivesse aceso![57]”.

Quando nosso coração queima de amor por Deus sob o efeito da Prece, ele se volta com Cristo para o próximo, o mais próximo e o mais distante. Nas palavras do Arquimandrita Spiridon, “o discípulo de Cristo deve viver unicamente por Cristo. Quando ele chegar a amar a Cristo a este ponto, forçosamente ele amará também a todas as criaturas de Deus”.

3.6. O que é amar?

Oferecer sentimentos? Presentes? Fazer boas obras? Realizar atos heroicos? Frequentemente recebemos por transmissão uma imagem do amor, um ideal de amor que passa pelo fazer e pelo esforço, e com isso podemos nos desvirtuar, nos gastarmos em obras de amor e descobrir um dia que na realidade não amamos, mas que nos entregamos para sermos amados. Sem a prece que nos une a Deus, não temos como conhecer o amor, nem como colocá-lo em prática: amar é, em primeiro lugar, deixar-se amar por Deus. O amor divino que eu imploro: “tem piedade de mim, pecador”, de mim que não sei amar, se derrama em meu coração, e só então eu posso partilhá-lo com meu próximo, este amor que é misericórdia e perdão e que culmina no meu perdão aos meus inimigos.

“Deixe-se ser perseguido, mas não persiga, dizia Santo Isaac o Sírio. Deixe-se ofender, mas não ofenda. Alegre-se com aqueles que se alegram, chore com os que choram – este é o sinal da pureza. Sofra com os que sofrem, derrame lágrimas pelos pecadores. Fique feliz com os que se arrependem, e seja amigo de todos; mas em seu coração, permaneça só”.

Permaneça só, e somente para Jesus, a fim de que a Prece possa despertar em seu coração a ternura de Deus.

3.7. Os embustes pelo caminho

Se a Prece de Jesus é simples em sua formulação, se seus efeitos nos fazem penetrar no caminho de nossa transformação e de nossa divinização, lembremo-nos também de que ela pode ser muito perigosa para aqueles que tentam se servir dela para fins de poder. Os Padres hesiquiastas são unânimes em afirmar, com São João Crisóstomo, que “a menção do Nome de Jesus excita o inimigo ao combate”. Nosso coração não é apenas a morada de Deus, também os espíritos malignos ali se escondem e se ocultam. O Nome de Jesus traz nossas paixões e nossos vícios à luz para expulsá-los, mas o Nome não possui um poder mágico, ele apenas nos revestirá e nos fará participar do combate. Assim poderemos atravessar momentos penosos, pois o Maligno tem horror em nos ouvir invocar o Senhor Jesus. Ele tentará nos perturbar ao máximo, mergulhando-nos na angústia e no medo, empurrando-nos para a cólera e mesmo para o ódio. Ele pode também atacar nosso corpo, travando a coluna vertebral, congestionando o fígado ou o pâncreas... Ele tentará nos desencorajar e nos inquietar. Ele é maligno e conhece nossas falhas melhor do que nós as conhecemos ou aceitamos. Se não formos prudentes, deixaremos de dizer a Prece, e aí será pior do que antes, pois ele terá se tornado o mestre de nosso coração.

Eis porque não devemos nos aventurar a sós pelo caminho; é ilusório pensar que um livro bastará para nos servir de guia. Na Prece de Jesus se expressa a confissão de nossa fé, ela nos torna participantes da comunidade eclesial e monástica da qual ela mesma saiu. Através dos séculos, a Prece permaneceu sendo uma transmissão aos batizados que se nutriam da vida sacramental. Pois os sacramentos nos fazem participar da natureza divino-humana do Senhor Jesus, a quem invocamos na Prece. Quanto às técnicas psicossomáticas, é impensável praticá-las sem se colocar junto a alguém que já tenha uma longa experiência nelas.

Hoje em dia muitas pessoas descobrem a Prece, sem pertencerem à Igreja. Muitas vezes elas foram seduzidas pelos Relatos do Peregrino ou por outros livros sobre a Prece de Jesus. Em outras pessoas, a Prece se impõe espontaneamente, e cada vez mais encontramos gente assim. Se seu caminho é sincero, se sua sede é a de encontrar a Cristo, então o Espírito Santo as guiará e iluminará. Oremos por uns e outros, totalmente confiantes na Divina Providência.

É certo que não dissemos tudo neste capítulo a respeito do “método” e das etapas da Prece. Permanecemos discretos propositadamente, erguendo pudicamente um véu sobre esta experiência, que é uma imagem da Sarça Ardente. Mas voltamos a frisar que é o homem total, inclusive em seus ritmos corporais, que é chamado por Deus para se unir a ele numa sinergia amorosa na qual o esforço humano encontra a graça divina, o amor gratuito de Deus, e esse encontro culmina num dia no silêncio, o silêncio da Presença. Sobre esse caminho que nos conduz à Prece, coloquemos nossos passos sobre as pegadas de Maria, a primeira da fila. A Santíssima Mãe de Deus carregou o Nome em seu coração e em suas entranhas, e nela a Prece foi inteiramente realizada. Maria é de nossa raça. Ela conheceu todos os embustes do caminho, e superou a todos. Se rogarmos a ela, ela nos acompanhará, nos protegerá e o Nome que invocamos no Espírito Santo virá habitar em nós, como o fez nas entranhas de Maria.

Assim, encerramos essas palavras nos inclinando diante de Maria, com o arcanjo Gabriel: “Salve, cheia de graça, o Senhor está contigo e tu és bendita dentre todas as mulheres, e Jesus, fruto de tuas entranhas, é bendito”. Para todo o sempre. Amém.


Artigo da revista Le Chemin, no. 21, 1993.




[1] Santo Isaac o Sírio, século VI.
[2] I Coríntios 12: 3.
[3] João 13: 13.
[4] Lucas 1: 43.
[5] Salmo 110.
[6] Atos 2: 34.
[7] I Coríntios 16: 22.
[8] Apocalipse 20: 22.
[9] Lucas 19: 20.
[10] Joel 2: 32.
[11] Filipenses 2: 9.
[12] Mateus 7: 21-23.
[13] Êxodo 3: 13-15.
[14] Êxodo 34: 4-7.
[15] Salmo 115: 3-4.
[16] Marcos 4: 31.
[17] Mateus 7: 13.
[18] João 14: 6.
[19] João 6: 34.
[20] João 14: 6.
[21] João 11: 24.
[22] I Samuel 16: 12-13.
[23] Lucas 4: 16-20, 21.
[24] Isaías 42: 12.
[25] Tropário da Páscoa.
[26] Efésios 3: 14-19.
[27] João 11: 27.
[28] Gálatas 2: 20.
[29] Lucas 33: 30.
[30] Neemias 9: 17-25.
[31] Salmo 90: 13-14.
[32] Lucas 1: 50.
[33] Mateus 20: 30-34.
[34] Isaías 54: 7-10.
[35] Lucas 19: 10.
[36] Marcos 2: 10.
[37] Lucas 23: 34.
[38] Marcos 2: 17.
[39] Salmo 69.
[40] I João 1: 8.
[41] Lucas 15? 11-52.
[42] Salmo 137: 1.
[43] Levítico 26: 44.
[44] Isaías 49: 15.
[45] I João 2: 1-2.
[46] Cf. Lucas 15: 7.
[47] Salmo 64: 8.
[48] I Tessalonicenses 5: 17.
[49] Salmo 119: 62.
[50] Cf. Mateus 7: 21-27.
[51] Jó 33: 4.
[52] João 7: 37.
[53] I João 37.
[54] Salmo 139: 14.
[55] João 14: 27.
[56] Lucas 24: 32.
[57] Lucas 12: 19.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Higoumeno Simeão - A busca de Deus na Tradição Hesiquiasta



Eu gostaria de abordar de maneira simples o tema da hesíquia, a busca de Deus. Talvez seja importante, para começar, tentar dar uma tradução, uma definição da palavra hesíquia. Trata-se de uma palavra de origem grega que podemos traduzir como “paz, silêncio”, mas também como “tranquilidade do coração”. Vocês sabem como é difícil, a partir de um termo estrangeiro, dar uma tradução justa e é por essa razão que eu invoco diversos significados. Em todo caso, nesse termo que significa paz, silêncio, repouso, é preciso tomar cuidado para não deformar o sentido da tradução. Por exemplo, se utilizamos o sentido de “repouso”, não se trata de um repouso que evoque o sono. Não se trata de adormecer na tradição hesiquiasta. Veremos mais adiante que se trata, ao contrário, de uma tradição ativa e de vigilância.

Não pretendo dar um curso de história sobre as origens do Hesiquiasmo, mas gostaria de lembrar rapidamente como se desenvolveu a hesíquia. Como e onde ela nasceu? Pois bem, eu diria que nós a recebemos, como tantas outras coisas, diretamente da parte de Cristo. Podemos aprender a partir das atitudes de Cristo no Novo Testamento: uma curta passagem do Evangelho que nos mostra esse tipo de atitude nos permitirá compreender o que é a hesíquia.

Esse episódio é aquele que narra a entrada de Jesus na sinagoga de Nazaré, seu país de origem. Ali ele fala e é mal recebido. O final do relato nos diz o seguinte: “Eles todos se encheram de cólera na sinagoga depois de ouvirem essas coisas e, levantando-se, eles o expulsaram da cidade e o conduziram até o alto da montanha onde ela estava construída, a fim de atirá-lo lá de cima. Mas Jesus, passando no meio deles, se foi dali[1]”. A última frase desse texto é significativa. O hesiquiasta, aquele que busca viver na paz do coração, na quietude, encontra seu modelo nessa atitude de Cristo, que, agredido, contestado, violentado, pôde passar pelo meio da multidão sem nada dizer, sem mostrar nenhuma agressividade, porque ele possuía, evidentemente até a perfeição, um coração cheio de paz. Somente um coração silencioso, banhado na hesíquia, poderia responder à agressividade da massa.

A partir do estudo e da meditação sobre o modo de ser de Cristo durante sua vida, os cristãos, e em especial os primeiros monges, buscaram adquirir essa hesíquia, essa paz silenciosa, essa tranquilidade do coração. E podemos dizer que o movimento monástico, o ideal monástico, é totalmente ligado à tradição hesiquiasta. Às vezes ouvimos dizer, entre cristãos ortodoxos, que existem monges hesiquiastas e monges não hesiquiastas. Não me agrada fazer esse tipo de diferenciação. O monge, que é fundamentalmente um buscador de Deus – assim como outros buscam o ouro – deve obrigatoriamente passar por essa procura de paz, de silêncio, de abandono, que trazem consigo outras virtudes, como veremos mais adiante. Assim, eu não faço diferença entre monges hesiquiastas e não hesiquiastas. Para mim, são todos igualmente hesiquiastas.

Os primeiros monges foram também os primeiros eremitas; pois sabemos que o monaquismo nasceu no século IV depois que homens e mulheres, dos quais Santo Antônio foi o mais célebre, partiram para o deserto para buscar a Deus. Ali imediatamente se estabelece o objetivo da hesíquia: esse objetivo é a descoberta de Deus. Direi, antes, é o desejo de encontrar a Deus. O hesiquiasta é um homem que deseja, seu coração está cheio com o desejo de Deus, e, por causa disso, ele vai buscar um modo de libertar seu coração de suas paixões para encontrar a Deus. Os primeiros monges partiam para o deserto, o que é significativo. O deserto, sabemos, é um lugar de retiro, um lugar de silêncio. De certo modo ele se opõe à cidade turbulenta. Essa solidão e esse isolamento são desejados e serão um dos terrenos do hesiquiasta, do monge, para encontrar a Deus.

Não podemos encontrar a Deus no meio da agitação. O próprio Deus no-lo diz em certos textos do Antigo Testamento. Ele explica ao profeta Elias: “Eu não estou na tempestade, nem nos relâmpagos, nem no turbilhão do vento violento, mas na brisa suave que você sente[2]”. Deus só pode ser encontrado no silêncio e é preciso que o monge hesiquiasta parta para o deserto, ou que ele busque a solidão interior. Se eu falo em monge, é porque tudo isso proveio da tradição monástica, mas é evidente que cada um pode viver essa tradição hesiquiasta, se desejar encontrar a Deus. Um leigo pode ser um hesiquiasta e alguns leigos foram canonizados e reconhecidos como santos pela Igreja.

De início, o movimento monástico foi essencialmente eremítico, e os primeiros monges eram acima de tudo solitários. Em seguida aconteceu uma evolução que se deu muito rapidamente, privilegiando a vida em comunidade. Isso se deu notadamente ao redor de São Basílio, no século IV, de São Teodoro Estudita no século IX e muitos outros. Eles organizaram o monaquismo e propuseram as regras de conduta referentes ao modo de viver em comunidade nessa busca de Deus. Isso deu nascimento aos mosteiros que conhecemos e que sustentam essa tradição até hoje.

Vemos, assim, duas correntes: os eremitas, que retiravam verdadeiramente na distância e na total ou quase total solidão, e os monges que viviam em comunidade. Ambos tinham a mesma busca, e ambos passaram pela tradição da hesíquia, e não apenas pelo método. Eu sou reticente em empregar a expressão “método”, porque é preciso muita atenção para isto. A hesíquia não pode constituir um método, no sentido de técnica, como nos arriscamos a entender esse termo hoje em dia, e que é uma coisa ambígua. O homem moderno está como que perdido, e ele busca – e todos nós buscamos, desde que existimos sobre esta terra – ele busca como encontra a si mesmo. Ele esquece de que é se voltando para aquele que o criou, a saber, Deus, seu Criador, que ele poderá encontrar a si mesmo. Mas ele vive essa busca numa tal agitação, em tamanha desordem, que ele está disposto a experimentar não importa que meios para lograr se encontrar.

A hesíquia não é um método similar a um método para aprender inglês, ou como qualquer outro método existente que conduza necessariamente a um dado resultado, desde que bem aplicado. Não, a hesíquia não é dessa mesma ordem. A hesíquia é uma atitude, e não é porque o monge se retira para o deserto, não é porque o monge foge do mundo, não é porque o monge busca o silêncio, que ele vai encontrar a Deus. O método não é mágico. Ele é um suporte, mas necessita de uma tensão de amor, de um profundo desejo de encontro com Deus, e só então o método se colocará no lugar e no momento conveniente para que o monge comece a buscar viver essa hesíquia. Ele viverá no silêncio, como foi dito, num certo retiro, e irá orar. Ele utilizará aquilo a que chamamos de prece do coração, ou prece de Jesus. Essa forma de prece é completamente ligada à tradição hesiquiasta. Qual é essa oração? Nós repetimos usando um terço que temos sempre à mão: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim pecador”. Essa é a fórmula mais completa. Mas a oração pode ser simplificada, dizendo-se simplesmente “Senhor”, ou “Jesus”.

Os Gregos dizem Kyrie eleison, “Senhor, tem piedade”. É a mesma coisa, é a mesma fórmula, mais ou menos desenvolvida. Essa prece repetitiva que o monge utiliza tampouco constitui um meio para que, ao final de 200 ou 300 repetições, encontremos a Deus. Ela é simplesmente um grito de amor, pois quando amamos queremos chamar a pessoa amada por seu nome ou apelido. O amor, sabemos bem, passa pela palavra, mas pela palavra mais despojada. Quando um casal se encontra e decide se casar, sabemos que o efeito amoroso lhes dá uma possibilidade de encontro que passa pelas palavras. Cada qual quer dizer ao outro sem cessar que o ama, mas, quando reencontramos este casal ao fim da vida, ele já não dizem mais nada, e apenas olham um para o outro. O simples olhar lhes basta para manifestar esse amor, que agora é vivido em silêncio, na paz, num coração inteiramente despojado de tudo o que o torturava no início, provavelmente por causa da paixão.

O monge vive essa mesma coisa, à sua maneira, transpondo para si essa experiência. É preciso que ele se cale, é preciso que ele se dirija para o silêncio, e é preciso que ele repita esse nome de amor: “Jesus”. “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim”: trata-se de uma declaração de amor. Nós reconhecemos nosso Deus e lhe dizemos: “Tem piedade de mim”, não numa atitude miserabilista em que Deus tivesse pena de nós. Não se trata disso, de modo algum. Nós simplesmente reconhecemos, com toda humildade, que não sabemos amar. É por causa disso – por não sabermos amar, mas por queremos amar – que dizemos: “Tem piedade, tem piedade de mim, ajude-me a amar”. Pois se quisermos ser amorosos para com Deus, é preciso que ele, que nos criou e que é Amor, nos mostre esse Amor, nos torne parte dele e nos acolhe em si. Não existe outra fonte. Então o monge hesiquiasta se esforça ao longo de toda a sua vida em orar a Cristo, a esse Cristo que disse: “Orai sem cessar[3]”. E nós podemos lhe responder: “Mas como, Senhor, poderemos orar sem cessar?”.

O que significa esse convite à prece perpétua? Pois Cristo não disse: “Falem comigo sem parar”, mas, ao contrário, ele advertiu: “Em suas orações, não usem muitas palavras, como os pagãos: eles imaginam que falando muito eles serão melhor ouvidos[4]”. Como vocês sabem , nós lhe falamos muito, para pedir, pedir e pedir. Existem momentos em que ele deve colocar algodão nas orelhas, dizendo: “Porque ele não para de me pedir sempre seja lá o que for?”. Me parece que Cristo, nosso Deus, ao nos pedir que oremos sem cessar, nos convida antes a contemplá-lo, a desejá-lo: esta é a oração. Não se trata forçosamente de uma formulação exterior. É claro que pode existir uma formulação exterior, mas trata-se, sobretudo – e aqui eu volto ao que dizia no início – de uma atitude do coração: é preciso desejar o Senhor. É neste desejo que se instala a prece perpétua. A prece de Jesus, a prece do coração que utilizamos, nos ajuda a isso, por ser ela tão despojada. Ela se torna, na verdade, um hábito, um apelo interior ao qual nós devemos responder.

Frequentemente, quando chegam jovens monges ao meu mosteiro, eles me dizem: “Ensine-nos a orar”. Eles não sabem orar direito, e então eu sempre lhes dou um terço de oração. De resto, eles o recebem, diria eu, liturgicamente, quando tomam o hábito, e eu lhes digo: “Agora, comecem essa oração!”. Como se trata de jovens monges cheios de desejo, energia e ímpeto, eles pedem uma regra de oração forte, densa, para dizer o máximo possível. Então eu deixo que façam isso, e digo sim. Depois de quinze ou vinte dias eles vêm bater à minha porta e dizem: “Não estou conseguindo”. Eles não entenderam que não se trata de um método. Eles se cansam, se afadigam, e isso pode ser perigoso, repetindo essa invocação obstinadamente. Isso não tem nenhum interesse sobre o plano espiritual e pode representar um risco, sobre o próprio plano físico. Eles não compreendem que é preciso começar suavemente, mas tendo uma atitude de desejo por Deus.

De fato, talvez baste dizer simplesmente o Nome de Jesus. Vocês sabem como, nas tradições espirituais, o Nome tem importância. Assim, basta apenas dizer esse Nome e deixar fluir interiormente, suavemente, sem desejo de heroísmo. É preciso que nossa prece seja humilde se ela quiser ser verdadeira e hesiquiasta. A humildade é absolutamente indispensável. É preciso que, passo a passo, aprendamos a ser humildes. É bem evidente que nenhum homem sobre a terra é absolutamente humilde, nenhum. Somos todos aprendizes do amor e da humildade. Devemos aceitar isso, mas também é preciso lutar para adquirir o máximo possível dessa humildade que nos permitirá um verdadeiro encontro com Deus. Essa é outra atitude indispensável ao monge hesiquiasta: buscar a humildade, pedir a humildade a Deus.

Gostamos muito de um santo russo do século XIX, São Serafim de Sarov, um homem extremamente humilde. Um dia ele explicou a alguém que o procurava para saber como viver a hesíquia, como viver essa quietude em Deus, dizendo esta frase: “Se você tiver paz em seu coração [ou seja, se você for hesiquiasta] você salvará milhares de almas ao seu redor”. O que significa essa frase? É preciso compreendê-la. Se São Serafim disse: “Se você tiver paz em seu coração você salvará milhares de almas ao seu redor”, é porque ele passou por todo um caminho que será para nós como um exemplo. Ele nos mostrou por toda a sua vida que é preciso ser humilde, que é preciso aceitar que somos pequenos, que nada sabemos, que não conhecemos a Deus e, sobretudo, que não possuímos Deus, e que não devemos tentar possuí-lo, o que seria um erro fundamental. É preciso passar pela humildade, e São Serafim passou por ela. É preciso passar pelo abandono.

O que é a humildade senão a descoberta objetiva de que somos pobres, desprovidos e não amorosos? Isso pode nos conduzir ao desespero, o que não é um bom caminho. É preciso que essa descoberta na humildade nos conduza à paz. E o único caminho possível é o abandono nas mãos de Deus. Se eu descubro que sou pobre, não devo me desesperar nem me revoltar; essa não é uma boa solução. Pois se eu me desespero e me revolto, a quem faço referência? A mim, é claro, não ao meu Criador! Mas se sou capaz de ver humildemente minha fraqueza, se eu sei não me revoltar, se sei verdadeiramente me voltar para Deus, com toda confiança, dizendo-lhe: “Eu sou pequeno e pobre, mas você, que pode tudo, tome a mim na palma de sua mão e me guie...”, então, esse abandono, que é a segunda etapa – primeiro a humildade, depois o abandono – esse abandono vai me conduzir à quietude, à paz do coração, porque estarei enfim nas mão do Único, do Único que pode me dar essa paz, aquele que é amor, nosso Deus. Eis aí, pelo exemplo de São Serafim de Sarov, como é possível viver a tradição hesiquiasta.

Eu gostaria de terminar esta pequena exposição por um exemplo bíblico, mais precisamente evangélico, que vocês devem conhecer. Trata-se do episódio em que Jesus se encontra na casa de seus amigos Lázaro, Marta e Maria, judeus que amavam o Senhor e que o acolhiam com frequência. Nesse episódio não se fala muito de Lázaro, mas de suas irmãs Marta e Maria. Uma delas, Marta, atarefada, prepara o jantar, se agita, põe a mesa, enfim, tudo aquilo que podemos imaginar. A outra, Maria, está aos pés do Senhor, e apenas o olha e escuta. Então aquela que põe a mesa vem e diz a Jesus: “Diga a ela para que venha me ajudar”. E o Senhor responde: “Você se agita demais, e ela escolheu a melhor parte[5]”.

Dito de outra forma, nessa passagem evangélica, nessa experiência de Marta e Maria, Cristo nos ensina: “Atenção à agitação inútil”. Ele não quis dizer que essa agitação não era hospitaleira, ele não condenou aquela que preparava a refeição, mas disse simplesmente: atenção, Maria escolheu a melhor parte. Também nós, tentemos isso, pois no interior de cada um de nós vive uma Marta e uma Maria: tentemos escolher sempre a melhor parte.


Exposição do Higoumeno Simeão
(mosteiro Saint-Silouane, Saint Mars de Locquenay, Sarthe)
Ao Institut des Hautes Études Islamiques, Paris, 13 de Maio de 1995.
Revista Contacts, no. 173, 1996.



[1] Lucas 4: 28-30.
[2] Cf. I Reis 19: 11-13.
[3] Cf. Lucas 18: 1; também I Tessalonicenses 5: 17.
[4] Mateus 6: 7.
[5] Lucas 10: 38-42.

domingo, 24 de abril de 2016

Vladimir Lossky - O dogma da Imaculada Concepção





A Virgem real, revestida dos verdadeiros títulos
De glória e de dignidades,
Não necessita de uma falsa glória.
(Bernard de Clairvaux)


Certas pessoas que se deixam enganar por uma semelhança de expressões verbais ou por uma falsa associação de ideias, são levadas a confundir o ensinamento da Igreja romana sobre a Imaculada Concepção de Maria com o dogma da concepção virginal de nosso Senhor Jesus Cristo. O primeiro desses ensinamentos, que representa uma inovação do catolicismo romano, se refere ao nascimento da própria Virgem, enquanto que o segundo, tesouro comum da fé cristã, diz respeito à Natividade de nosso Senhor Jesus Cristo, “que, por nós homens e para nossa salvação, desceu dos céus e se encarnou pelo Espírito Santo na Virgem Maria, e se fez homem[1]”.

A doutrina da Imaculada Concepção tem sua origem na devoção específica que alguns meios espirituais do Ocidente separado dedicavam à Virgem desde o fim do século XIII. Ela foi proclamada como “verdade revelada” em 8 de Dezembro de 1854 pelo Papa Pio IX, sem convocação de concílio (moto proprio). Esse novo dogma foi promulgado com a intenção de glorificar a Santa Virgem, que, como instrumento da Encarnação de nosso Senhor, se tornou Cooperadora de nossa redenção. Segundo essa doutrina, ela desfrutaria de um privilégio especial, o de ter sido isenta do pecado original desde o momento de sua concepção por seus pais Joaquim e Ana. Esta graça especial que a tornaria, por assim dizer, resgatada antes ainda da obra da Redenção, lhe teria sido concedida em previsão do mérito futuro de seu Filho. Para se encarnar e se tornar “Homem perfeito”, o Verbo divino teria necessidade de uma natureza humana não contaminada pelo pecado: seria preciso assim que o vaso no qual ele assumisse sua humanidade fosse puro de toda mancha, previamente purificado. Daí, segundo os teólogos romanos, a necessidade de conceder à Virgem, embora tendo ela sido concebida naturalmente e do mesmo modo como toda criatura humana, um privilégio especial, colocando-a fora da posteridade de Adão e liberando-a da falta original comum ao ser humano. Com efeito, segundo o novo dogma romano, a Santa Virgem teria participado, desde o seio de sua mãe, do estado primigênio do homem antes do pecado.

A Igreja ortodoxa, que sempre rendeu um culto especial à Mãe de Deus, exaltada acima dos espíritos celestes, “mais venerável que os querubins e incomparavelmente mais gloriosa do que os serafins[2]”, jamais admitiu – ao menos no sentido como o entende a Igreja de Roma – o dogma da Imaculada Concepção. A definição de “privilégio concedido à Virgem em vista do mérito futuro de seu Filho” repugna ao espirito da ortodoxia cristã; ela não pode aceitar esse formalismo exagerado que apaga o caráter real da obra de nossa Redenção, vendo aí não mais do que um mérito abstrato de Cristo, imputável a uma pessoa humana antes da Paixão e da Ressurreição, antes mesmo da Encarnação de Cristo – tudo por um decreto especial de Deus. Se a Santa Virgem pudesse desfrutar dos efeitos da Redenção antes da obra redentora de Cristo, não vemos porque esse privilégio não poderia se estender a outras pessoas, a toda a linhagem de Cristo, por exemplo, a toda esta posteridade de Adão, que contribuiu de geração em geração para preparar a natureza humana assumida pelo Verbo no seio de Maria. Com efeito, isso seria lógico e conforme a ideia que temos da bondade de Deus, e, no entanto, o absurdo de tal conjectura é chocante, de uma humanidade que desfrutasse de um “não-lugar” malgrado sua queda, salva previamente e que aguardasse, entretanto, a obra de sua salvação por Cristo! O que parece absurdo quando aplicado a toda a humanidade anterior a Cristo, não deixa de sê-lo quando se trata de um único ser humano. O contrassenso não faz senão aparecer mais claramente: a fim de a obra da Redenção pudesse se realizar para toda a humanidade, seria preciso que ela se realizasse previamente para um de seus membros. Dito de outra forma, para que acontecesse a Redenção, seria preciso que ela já existisse, e que alguém já usufruísse previamente de seus frutos.

Poder-se-ia sem dúvida responder a isso argumentando que é legítimo esse privilégio, uma vez que se trata de um ser excepcional como a Santa Virgem, predestinada a servir de instrumento para a Encarnação, e, por isso mesmo, para a Redenção. Numa certa medida isso é verdade: a Virgem que engravidou sem mácula do Verbo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, não foi um ser comum. Mas podemos separá-la assim de modo  tão absoluto, desde o momento de sua concepção por Joaquim e Ana, do resto da posteridade de Adão? Isolando-a assim, não corremos o risco de depreciar toda a história da humanidade antes de Cristo, de abolir o próprio sentido do Antigo testamento, que foi uma espera messiânica, uma preparação progressiva da humanidade para a Encarnação do Verbo? Com efeito, se a Encarnação não fosse condicionada senão pelo privilégio concedido à Virgem, “em vista do mérito de seu Filho”, a vinda do Messias ao mundo poderia ter se cumprido em qualquer outro momento da história; poderia Deus em qualquer momento, a partir de um decreto especial que só dependesse do arbítrio divino, criar o instrumento imaculado de sua Encarnação, sem levar em conta a liberdade humana nos destinos do mundo decaído? No entanto, a história do Antigo testamento nos ensina outra coisa: o sacrifício voluntário de Abrahão, os sofrimentos de Jó, a obra dos profetas, enfim, toda a história do povo eleito com suas ascensões e quedas, não constituem simplesmente um arranjo da prefiguração de Cristo, mas também uma prova incessante da liberdade humana que respondesse a um chamado divino, fornecendo a Deus, nesse encaminhamento lento e trabalhoso, as condições humanas necessárias à realização da promessa.

Toda a história bíblica se revela assim como uma preparação da humanidade para a Encarnação, para essa “plenitude dos tempos”, quando o anjo foi enviado para saudar Maria e recolher de seus lábios as palavras de consentimento da humanidade para que o Verbo se fizesse carne: “Eis a serva de Deus, faça-se em mim segundo a sua palavra[3]”.

Nicolas Cabasilas, um teólogo bizantino do século XIV, diz na sua homilia sobre a Anunciação: “A Encarnação foi não apenas obre do Pai, de sua Virtude e de seu Espírito, mas também obra da vontade e da fé da Virgem. Sem o consentimento da Imaculada, sem o concurso da fé, esse desígnio teria sido tão irrealizável como sem a intervenção das próprias três Pessoas divinas. Foi somente depois de havê-la instruído e persuadido, que Deus a tomou por Mãe, e dela emprestou a carne que ela concordou em emprestar. Do mesmo modo como ele encarnou voluntariamente, também quis ele que sua Mãe engravidasse livremente e de sua plena vontade[4]”.

SE a Santa Virgem tivesse sido isolada da humanidade por um privilégio de Deus que lhe conferisse previamente o estado do homem antes do pecado, então seu consentimento livre perante a vontade divina, sua resposta ao arcanjo Gabriela, perderia a ligação de solidariedade histórica com todos os demais atos que contribuíram para preparar, ao longo de séculos, a vinda do Messias: ter-se-ia rompido a continuidade com a santidade do Antigo Testamento, que se acumulou de geração em geração para cumprir-se finalmente na pessoa de Maria, Virgem toda pura cuja humilde obediência deveria constituir o último passo que, do lado humano, tornou possível a obra de nossa salvação. O dogma da Imaculada Concepção, tal como foi formulado pela Igreja romana, rasga essa santa continuidade dos justos ancestrais de Deus, que encontra seu termo final no ecce ancila Domini[5]. A história de Israel perde seu sentido intrínseco, a liberdade humana fica privada de todo seu valor e a própria vinda de Cristo, efetuando-se em virtude de um decreto arbitrário de Deus, recebe o caráter de uma aparição de deus ex machina[6], irrompendo na história humana. Tais são os frutos de uma doutrina artificial e abstrata que, pretendendo glorificar a Virgem, a priva de sua ligação íntima, profunda, com a humanidade e, conferindo a ela o privilégio de ser isenta do pecado original desde o momento de sua concepção, diminui singularmente o valor de sua obediência à mensagem divina no dia da Anunciação.

A Igreja ortodoxa rejeita a interpretação católica romana da Imaculada Concepção. No entanto, ela honra a Santa Virgem com os designativos de “imaculada”, “sem mancha”, “toda pura”. Santo Efrém o Sírio (século IV) chega a dizer: “Você, Senhor, assim como sua Mãe, são perfeitamente santos, pois você não possui nenhuma mancha, Senhor, e sua Mãe nenhum pecado”. Como será isso possível fora do enquadre jurídico (privilégio de isenção) do dogma da Imaculada Concepção?

Em primeiro lugar, é preciso distinguir entre o pecado original, enquanto falta cometida contra Deus e comum a toda humanidade desde Adão, e o próprio pecado, força do mal que opera na natureza da humanidade decaída; da mesma forma, é preciso distinguir entre a natureza comum a toda a humanidade e a pessoa própria a cada qual em particular. Pessoalmente, a Virgem foi estranha a toda mácula, a todo pecado, mas, me virtude de sua natureza, ela trazia com todos os descendentes de Adão a responsabilidade pela falta original. Isso pressupõe que o pecado, enquanto força do mal, não agia na natureza da Virgem eleita e progressivamente purificada pelas gerações de seus justos ancestrais e protegida nela pela graça, desde o momento de sua concepção.

A Virgem foi protegida de toda mancha, mas não isenta da responsabilidade pela falta de Adão, falta que não poderia ser abolida na humanidade decaída senão pela Pessoa divina do Verbo.

A Escritura nos fornece outros exemplos de assistência divina e de santificação no seio da mãe: Davi[7], Jeremias[8] e João Batista[9]. É neste sentido que a Igreja ortodoxa festeja, desde a antiguidade, o dia da Concepção da Santa Virgem (8 de Dezembro), assim como a festa da Concepção de São João Batista (24 de Setembro). É preciso notar, a esse respeito, que o dogma romano estabelece, no que se refere à concepção da Virgem por Joaquim e Ana, uma distinção entre “concepção ativa” e “concepção passiva”, sendo aquela obra natural da carne, ato dos pais geradores, e esta se referindo apenas ao efeito da união conjugal; o caráter de “Imaculada Concepção” só se aplica ao aspecto passivo da concepção da Virgem.

A Igreja ortodoxa, estranha a essa aversão diante de tudo o que se refere à natureza carnal, não conhece a distinção artificial entre “concepção ativa” e “concepção passiva”. Ao celebrar a concepção da natividade da Santa Virgem e de São João Batista, ela dá testemunho do caráter milagroso desses nascimentos, ela venera a casta união dos pais, e ao mesmo tempo a santidade de seus frutos. Tanto para a Virgem como para João Batista, essa santidade não reside num privilégio abstrato de não-culpabilidade, mas numa mudança real da natureza humana progressivamente purificada e reforçada pela graça nas gerações precedentes. Essa ascensão constante de nossa natureza, destinada a se tornar a natureza do Filho de Deus encarnado, prossegue na vida de Maria: através da festa da sua Apresentação no Templo (21 de Novembro) a Tradição testemunha essa santificação contínua, essa proteção exercida pela graça divina contra toda mancha do pecado. A santificação da Virgem é consumada no momento da Anunciação, quando o Espírito Santo a torna apta a uma Concepção imaculada, no sentido pleno da palavra: a Concepção virginal do Filho de Deus feito Filho do homem.

Nota que acompanhou a publicação do artigo – “Do dogma da Imaculada Concepção”.

Escritas há mais de doze anos (c. 1942) essas precisões a respeito do dogma romano da Imaculada Concepção deverão ainda ser modificadas e consideravelmente desenvolvidas. Esperando fazê-lo um dia, nos contentaremos neste momento, a fim de não retardar sua publicação neste ano, complementar o texto com um rápido esboço de dois aspectos que devem afastar certos mal-entendidos.

1)      Alguns ortodoxos, animados por um zelo pela verdade bastante compreensível, se veem na obrigação de negar a autenticidade da aparição da Mãe de Deus a Bernadette e se recusam a reconhecer as manifestações da graça em Lourdes, sob o pretexto de que esses fenômenos espirituais servem para confirmar o dogma mariológico estranho à tradição cristã. Essa atitude, acreditamos, não tem justificativa, porque provém de uma falta de discernimento entre um fato de ordem religiosa e sua utilização doutrinal pela Igreja romana. Antes de aplicar um julgamento negativo sobre a aparição de Nossa Senhora em Lourdes, e correr o risco de cometer um pecado contra a graça ilimitada do Espírito Santo, seria mais prudente (e mais justo) examinar com sobriedade de espírito e atenção religiosa as palavras escutadas pela jovem Bernadette, bem coo as circunstâncias nas quais essas palavras lhe foram dirigidas. Durante todo o período de suas quinze aparições em Lourdes, a Santa Virgem falou uma única vez para se apresentar. Ela disse: “Eu sou a Imaculada Concepção”. Ora, essas palavras foram pronunciadas no dia 25 de Março de 1858, na festa da Anunciação. O sentido direto fica claro para quem não está obrigado a interpretá-lo contra a sã teologia e as regras da gramática: a Concepção imaculada do Filho de Deus e o supremo título de glória da Virgem sem mácula.

2)      Os autores católicos romanos costumam insistir no fato de que a doutrina da Imaculada Concepção foi reconhecida, explícita ou implicitamente, por muitos teólogos ortodoxos, sobretudo nos séculos XVII e XVIII. As listas impressionantes dos manuais de teologia redigidos nessa época, a maior parte proveniente do sul da Rússia, testemunham de fato até que ponto o ensinamento teológico da Academia de Kiev e de outras escolas da Ucrânia, da Galícia, da Lituânia e da Bielorrússia foram afetados pelos temas doutrinais e devocionais próprios da Igreja de Roma. Ainda que defendendo heroicamente sua fé, os ortodoxos dessas regiões limítrofes sofreram inevitavelmente a influência de seus adversários católicos romanos, pois eles pertenciam ao mesmo mundo de civilização barroca, com suas formas particulares de piedade.

Sabemos que a teologia “latinizada” dos Ucranianos provocou um escândalo dogmático em Moscou pelo fim do século XVII a respeito da epiclese. O tema da Imaculada Concepção seria tanto mais assimilável na medida em que se exprimia mais pela devoção do que por uma doutrina teológica definida. É sob essa forma devocional que encontramos alguns traços da mariologia romana nos escritos de São Dimitri de Rostiv, prelado russo de origem e educação ucraniana. É o único nome de importância dentre as “autoridades” teológicas que são citadas habitualmente para mostrar que o dogma da Imaculada Concepção de Maria era aceito pelos ortodoxos. Não vamos aqui colocar, de nossa parte, uma lista (bem mais extensa, aliás) dos teólogos da Igreja de Roma, cujo pensamento mariológico se opunha resolutamente à doutrina transformada em artigo de fé há [mais de] um século. Basta citar um único nome, o de São Tomás de Aquino, para constatar que o dogma de 1854 vai contra tudo o que existe de mais são na tradição teológica do Ocidente separado. Devemos reler as passagens dos Comentários às Sentenças (I, 111, 3, I, art. 1 e 2; 4, I) e da Suma Teológica (IIIa, 27), bem como de outros textos nos quais o Doutor angélico trata da questão da Imaculada Concepção da Virgem: encontraremos ali exemplos de um juízo teológico sóbrio e preciso, de uma pensamento claro, que sabe utilizar os textos dos Padres ocidentais (Santo Agostinho) e orientais (São João Damasceno) para mostrar o verdadeiro título de glória da Santíssima Virgem e Mãe de nosso Deus Passados cem anos, essas páginas mariológicas de São Tomás de Aquino parecem seladas para os teólogos católicos romanos, obrigados a se conformar com a “linha geral”; ,mas elas não deixarão de ser um testemunho da tradição comum para aqueles ortodoxos que sabem apreciar o tesouro teológico de seus irmãos separados.


Vladimir Lossky – Em la fête de la Conception de la três Sainte Vierge Marie
Artigo publicado no:
Messager de l’Exarcat di Patriarcat Russe em Europe Occidentale, no. 20, Dez. 1954




[1] Símbolo da fé Niceno-constantinopolitano.
[2] Hino do rito bizantino.
[3] Lucas 1: 38.
[4] Patrologia Orientalis, XIX, 2.
[5] “Eis a serva do Senhor”.
[6] “Deus surgido da máquina”. Refere-se essa expressão ao recurso empregado no antigo teatro Grego para justificar a aparição de um deus no decurso de uma peça, cuja função seria a de dar uma solução arbitrária a algum impasse vivido pelos personagens.
[7] Cf. I Samuel, 16.
[8] Jeremias 1: 5.
[9] Lucas 1: 41.

sábado, 23 de abril de 2016

Antoine de Sourouge - O ícone da Mãe de Deus



Existem dois tipos de ícones da Mãe de Deus. O tipo mais conhecido é aquele que pode ser encontrado no Oriente e no Ocidente: a Virgem que segura o Menino. Essa imagem é mais do que uma representação ou um retrato da Mãe de Deus. Ela é uma imagem da Encarnação, uma afirmação da Encarnação e de sua realidade. Ela é uma afirmação da realidade e da verdade da maternidade da Virgem. Se observarmos o ícone com atenção, constatamos que a Mãe de Deus que segura o Menino jamais está olhando para ele. Em todos esses ícones, ela tampouco fixa o olhar, nem naqueles que a miram, nem ao longe: seus olhos grandes e abertos olham para dentro de si mesma. Ela está mergulhada numa intensa contemplação. Ela não olha para os objetos exteriores. Seu carinho se expressa pela timidez de suas mãos: ela segura o Menino sem apertá-lo contra ela. Ela o segura como quem segura algo de sagrado apresentado em oferenda, e todo o carinho, todo o amor humano estão expressos pelo Menino e não por sua Mãe. Esta permanece sendo a Mãe de Deus; ela trata o Menino não como “o pequeno Jesus”, mas como o Filho de Deus encarnado, tornado filho da Virgem; e é ele que, verdadeiro homem e verdadeiro Deus, manifesta todo o amor e todo o carinho de um homem e de um Deus àquela que é simultaneamente sua Mãe e sua criatura.

Outra imagem, esta muito rara, é a imagem da Mãe de Deus sozinha, sem a presença visível de Cristo. Penso aqui especialmente num ícone russo do século XVII. Nós nos vemos em presença de uma camponesa russa, sem véu, cujo planejamento emoldura um rosto quase quadrado. Ela tem dois grandes olhos que fixam não aquilo que se oferece ao seu olhar, mas o infinito ou profundezas insondáveis. Olhando mais atentamente, percebemos duas mãos, duas mãos cuja posição singular é um desafio à anatomia; elas estão ali não como elementos de uma obra realista, mas para traduzir aquilo que nem o rosto, nem as mãos, nem os olhos poderiam expressar sem deixar de exprimir algo ainda mais importante. São mãos de angústia. Enfim, no canto do ícone, quase invisíveis, destacando-se numa amarelo pálido sobre um fundo amarelo claro, uma colina e uma cruz nua. Esta Virgem é a Mãe que contempla a crucificação e a morte de seu filho único.

Quando na prece nos voltamos para a Mãe de Deus, deveríamos estar conscientes, com mais frequência do que normalmente estamos, de que toda prece à Mãe de Deus significa: “Mãe, eu matei seu Filho! Se você me perdoar, eu serei perdoado. Se você não me der seu perdão, nada poderá me salvar da danação”. E é verdadeiramente surpreendente que a Mãe de Deus, em tudo o que nos revela o Evangelho, nos tenha feito entender, nos concedendo a audácia de lhe dirigir essa oração, que não há nada além que possamos lhe pedir.

Ela é para nós a Mãe de Deus, aquela que introduziu o próprio Deus em nossa terra. É nesse sentido que insistimos na expressão “Mãe de Deus”, pois foi por meio dela que Deus se fez homem. Por intermédio dela ele nasceu em nossa condição humana. E para nós ela não é apenas o instrumento da Encarnação, mas também o do abandono pessoal a Deus: seu amor a Deus, sua disponibilidade para tudo o que Deus quis dela, sua humildade – no sentido que expusemos acima – foram tais, que Deus pôde nascer dela.

Um de nossos grandes santos e teólogos observou a esse respeito: “A Encarnação teria sido tão impossível sem o “eis aqui a serva do Senhor” da Virgem, quanto sem a vontade do Pai”. Descobrimos nesse mistério uma cooperação total entre ela e Deus. Em seu romance All Hallows Eve, o escritor inglês Charles Williams expressa admiravelmente, me parece, aquilo que eu quero sublinhar a propósito da Encarnação e da atitude da Virgem. Ele diz que o caráter único da Encarnação provém de que “um dia, uma virgem de Israel foi capaz de pronunciar o nome sagrado de todo seu coração, com todo seu espírito, com todo seu ser, com todo seu corpo, de tal sorte que nela o Verbo se fez carne”. Estas linhas constituem um excelente enunciado teológico que mostra perfeitamente o lugar da Virgem na Encarnação.

Nós amamos a Virgem Maria; talvez vejamos nela, de modo especial, o Verbo de Deus dizer, como exprime São Paulo: “É em minha fraqueza que se manifesta meu poder”. Vemos essa frágil virgem de Israel, essa frágil menina vencer o pecado, vencer o inferno, triunfar sobre todos os obstáculos pelo poder de Deus que estava nela. É por isso que, nos períodos de perseguição, por exemplo, quando o poder de Deus não se manifesta senão na fraqueza, que a bem-aventurada Virgem se ergue diante de nossos olhos, tão milagrosamente e com tanto poder. Se a ela foi possível vencer a terra e o inferno, ela será para nós um bastião, aquela que pode interceder por nós e nos salvar; e nós sublinhamos o fato de que ela está inteiramente de acordo com a vontade de Deus, que ela se encontra em total harmonia com o querer divino, dirigindo a ela esta invocação, que é reservada exclusivamente a Deus e à ela: “Salva-nos!”. Nós não dizemos: “Reze por nós.”.


Extraído de L’École de la prière, 1972.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Antoine de Sourouge - A ascese da oração



Quando estamos no estado de espírito apropriado, quando nosso coração está cheio de louvor, de amor ao próximo, quando falamos como disse São Lucas, do fundo pleno de nosso coração, orar não é problema; falamos com Deus livremente com palavras que nos são familiares. Mas se tivéssemos que deixar nossa vida de oração à mercê dos nossos humores, sem dúvida rezaríamos de tempos em tempos com fervor e sinceridade, mas durante longos períodos perderíamos todo contato fervoroso com Deus. É uma grande tentação delongar a prece até o momento em que nos sintamos levados a Deus, e considerar que toda prece ou todo impulso a Deus em outros períodos como falta de sinceridade. Mas sabemos por experiência que existem em nós muitos sentimentos que não sentimos a cada instante de nossas vidas; a doença ou o desânimo podem varrê-los do campo da consciência. Mesmo quando amamos profundamente, existem momentos em que não estamos conscientes disso, mesmo sabendo que esse amor vive em nós. O mesmo acontece com relação a Deus: existem causas, internas e externas, que às vezes obscurecem a consciência que temos de crer, de esperar e de amar a Deus. Em tais momentos devemos agir não em função daquilo que sentimos, mas daquilo que sabemos. Devemos ter fé naquilo que nos habita, mesmo que não o percebamos num dado instante. Devemos nos lembrar de que o amor ainda está lá, mesmo que ele não encha nosso coração de alegria ou de inspiração. E devemos nos postar diante de Deus lembrando-nos de que ele não cessa de nos amar, que ele está sempre presente, mesmo que não o sintamos então.

Quando nos sentimos frios e secos, quando nos parece que nossa prece é falsa, pura rotina, que devemos fazer? Seria melhor nos determos até que nossa prece recupere sua vida e seu calor? Mas quando saberemos se o momento chegou? Existe um grande perigo em nos deixarmos seduzir pelo gosto de uma perfeição na prece, da qual estamos tão afastados. Quando nossa prece carece de calor, ao invés de renunciar, devemos renovar com vigor nosso ato de fé, e perseverar nele. Devemos dizer a Deus: “Eu estou nas últimas, já não consigo rezar como se deve, aceite, ó Senhor, essa voz monocórdica e essas palavras que eu pronuncio, e venha em meu auxílio”. Faça da prece uma simples quantidade, se você se sentir impotente para imprimir-lhe qualidade. É certo que vale mais dizer um único Pai Nosso com a consciência de toda a profundidade dessa invocação, do que repetir dize vezes a Prece do Senhor; mas é precisamente isso que somos incapazes de fazer, às vezes. Que nossa prece seja “quantitativa” não significa que pronunciamos mais palavras do que de costume; mas sim que nos atemos à regra de oração que nos fixamos, aceitando o fato de que ela se resuma a uma certa quantidade de palavras repetidas. Como dizem os Padres, o Espírito Santo está sempre presente quando existe oração e, segundo São Paulo, “ninguém pode dizer ‘Jesus é o Senhor’ senão sob a ação do Espírito Santo[1]”. Quando chegar o momento, é o Espírito Santo que concederá à nossa prece fiel e paciente seu significado e sua profundidade de vida nova. Quando nos colocamos diante de Deus nesses momentos de vazio interior, é preciso usarmos de nossa vontade, orar por convicção senão por sentimento, em nome da fé que sabemos possuir, intelectualmente senão com o coração fervoroso.

Se em tais períodos a prece  nos parece ter um aspecto diferente, não é isso que acontece para Deus; como disse Julienne de Norwich[2]: “Ore no secreto de seu coração, mesmo que você pense que isso não o salvará, pois sempre será proveitoso, mesmo que você não o sinta, mesmo que você não veja, mesmo que você não se creia capaz. Pois na secura e na aridez, na doença e na fraqueza, é então que sua prece agrada [a Deus] mesmo que você pense que ela não o salvará, pois Deus conhece toda oração feita com fé”.

Nos períodos de secura, quando a prece se torna um esforço, nossa principal sustentação é a fidelidade, a determinação; é por um ato de vontade, que inclui essas duas coisas, que nos obrigamos, sem apelar para o sentimento, a nos postar diante de Deus e a falar, simplesmente porque Deus é Deus e nós somos suas criaturas. Seja o que for que experimentemos num momento dado, nossa posição deve permanecer a mesma: Deus continua sendo nosso criador, nosso salvador, nosso Senhor, aquele para quem marchamos, o objeto de nosso desejo e o único que pode preencher totalmente nossa espera.

Talvez pensemos ser indignos de orar, e até que não temos esse direito; isso também é uma tentação. Cada gota d’água, venha de onde vier, de um lago ou do oceano, é purificada ao longo do processo de evaporação; o mesmo acontece com nossa prece que sobe até Deus. Quanto mais nos sentimos abatidos, mais a prece é necessária, e é certamente isso que João de Cronstadt[3] sentiu, num dia em que orava, ameaçado por um demônio que lhe murmurava: “Hipócrita, como ousa orar com esse coração impuro, cheio de pensamentos que eu leio?”. João respondeu: “É justamente porque meu coração está cheio de pensamentos que desgostam e que eu combato, que eu oro a Deus”.

Quer se trate da Prece de Jesus ou de qualquer outra fórmula de oração, as pessoas costumam dizer: que direito tenho eu de fazê-lo? Como posso fazer minhas tais palavras? Quando dizemos preces que foram redigidas por santos, por homens de oração, e que são fruto de sua experiência, podemos estar certos de que, se estivermos suficientemente atentos, suas palavras se tornarão nossas, desfrutaremos dos mesmos sentimentos que os animaram e eles nos remodelarão pela graça de Deus, que responde aos nossos esforços. Com a Prece de Jesus a situação é, num sentido, mais simples, porque quanto pior for nossa situação, mais facilmente nos persuadiremos de que, diante de Deus, não podemos dizer senão kyrie eleison, “tem piedade”.

Com mais frequência do que ousamos confessar, oramos esperando alguma misteriosa iluminação, esperando que algo nos aconteça, que iremos conhecer alguma experiência apaixonante. Isso é um erro, o mesmo tipo de erro que cometemos frequentemente em relação aos demais, e que pode facilmente destruir uma relação. Abordamos uma pessoa e esperamos determinada reação; então, se não acontece reação alguma, ou se não é a que esperávamos, nos decepcionamos, ou passamos ao largo da realidade da resposta. Quando oramos, devemos nos lembrar de que o Senhor, que nos permite aproximarmos livremente dele, é igualmente livre em relação a nós; isso não significa que a liberdade que ele toma seja arbitrária, como o é a nossa, que nos torna amáveis ou desagradáveis segundo nosso humor; isso significa que ele não está obrigado a se revelar a nós apenas porque estamos ali e voltamos nosso olhar para ele. É muito importante lembrarmo-nos de que tanto Deus como nós somos livres para irmos ou não um ao encontro do outro; e essa liberdade é de uma importância capital, pois ela é característica de uma verdadeira relação pessoal.

Uma jovem, depois de um período de sua vida de oração no qual Deus parecia espantosamente próximo e familiar, subitamente perdeu contato com ele. Porém, mais do que a dor de havê-lo perdido, ela temia a tentação de escapar dessa ausência de Deus inventando uma falsa presença dele; pois a ausência e a presença reais de Deus são as melhores provas de sua realidade e do caráter concreto da relação implicada na prece.

Assim devemos também estar prontos para oferecer nossa oração e a receber aquilo que agradar a Deus. Esse é o princípio básico da vida ascética. Na luta para manter nosso olhar voltado para Deus e para combater tudo o que existe de opaco em nós, tudo o que nos impede de olhar na direção de Deus, não podemos ser nem totalmente ativos nem totalmente passivos. Não podemos ser ativos no sentido que, quando nos agitamos e fazemos esforços, não podemos nos içar até os céus ou fazer com que Deus desça até nós. Mas também não podemos permanecer passivos, e ficar plantados sem agir, pois Deus não nos trata como objetos; não haveria relação verdadeira se fôssemos simplesmente manipulados por ele.

A atitude ascética é feita de vigilância, da vigilância do soldado que, durante a noite, se faz tão silencioso quanto pode, tão atento e consciente quanto possível, de tudo o que se passa ao seu redor, e pronto para reagir correta e rapidamente a qualquer coisa que sobrevenha. De certo modo, ele permanece inativo, porque está ali em pé e nada faz; mas, de outro lado, ele é intensamente ativo, pois está acordado e totalmente concentrado. Ele escuta e observa com uma percepção aguda, pronto para tudo.

Exatamente o mesmo acontece na vida interior. Devemos nos colocar na presença de Deus no mais completo silêncio, concentrados, lúcidos e em paz. É possível que esperemos por horas, ou mais ainda, mas chegará o momento em que nossa vigilância será recompensada, pois algo haverá de acontecer. Mas, repetimos, se estivermos vigilantes, é para tudo o que puder nos acontecer, e não em relação a um evento específico. Devemos estar prontos para receber de Deus qualquer coisa que eles nos enviar. Depois de havermos orado por um certo tempo, se sentirmos um pouco de calor, teremos a tentação de voltar a Deus no dia seguinte esperando o mesmo resultado. Se ontem oramos com calor e lágrimas, com contrição ou com alegria, voltaremos à presença de Deus esperando ter de novo a mesma experiência, e, muitas vezes, por esperarmos ter com Deus o mesmo contato que ontem, perdemos o contato com ele hoje.

A aproximação de Deus pode suscitar em nós atitudes diversas; pode ser a alegria, o terror, a contrição e muitas outras ainda. Devemos lembrar de que o que vamos perceber hoje é uma coisa desconhecida para nós, porque o Deus que encontramos ontem não é o mesmo que irá se revelar a nós amanhã.

Extraído do livro do Metropolita Antoine Bloom de Sourouge, Prière vivante, 1971



[1] I Coríntios 12: 3.
[2] Mística inglesa que viveu entre 1342 e 1416, considerada santa pela Igreja Anglicana.
[3] Santo russo ortodoxo, que viveu entre 1829 e 1908.