sábado, 19 de dezembro de 2015

Vladimir Lossky - Extratos de Teologia Dogmatica

PROCESSÃO DAS PESSOAS E ATRIBUTOS DIVINOS


Vladimir Lossky


A teologia cristão não conhece divindade abstrata: Deus não pode ser concebido fora das três Pessoas. Se ousia e hipóstase são quase sinônimos, isto é para destroncar nossa razão, para nos impedir de objetivar a essência divina fora das Pessoas e de seu “eterno movimento de amor”, nas palavras de São Máximo o Confessor. Um Deus concreto, porque a divindade única é ao mesmo tempo comum às três hipóstases e própria a cada uma delas: ao Pai, como fonte, ao Filho, enquanto gerado, e ao Espírito, que procede do Pai.

O termo de “monarquia” do Pai é corrente da grande teologia do século IV: ele significa que a própria fonte da divindade é pessoal. O Pai é a divindade, mas, justamente por ser o Pai, ele a confere em sua plenitude às duas outras Pessoas, e estas extraem sua origem do Pai, princípio único – daí o termo “monarquia”. A “divindade fonte”, como disse Denis o Areopagita. Com efeito, é dela que brota e nela se enraíza a divindade idêntica e não dividida, mas comunicada distintamente, do Filho e do Espírito Santo. A noção de monarquia anota assim em uma só palavra a unidade e a diferença em Deus, a partir de um princípio pessoal. O maior teólogo da Trindade, São Gregório de Nazianze, não pode invocar esse mistério senão por meio de verdadeiros poemas, o único meio de fazer surgir algo que ultrapassa as palavras: “Eles não estão divididos em vontade, escreveu ele, eles não estão separados em potências, nem em nenhum outro atributo. Numa palavra, a divindade não é dividida entre aqueles que partilham dela”. E: “Em três sóis que se co-penetram, uma só é a luz”, pois o Verbo e o Espírito são dois raios de um mesmo sol, ou antes “dois novos sóis”.

Assim é que a própria Trindade é o mistério inicial, o Santo dos Santos da realidade divina, a própria vida do Deus oculto, do Deus vivo. Somente a poesia pode evocá-lo, justamente porque ela celebra e não pretende explicar. Toda existência e todo conhecimento são posteriores à Trindade e encontram nela seu fundamento. A Trindade não pode ser captada pelo homem. É ela que capta o homem e nele suscita o louvor. Fora do louvor e da adoração, fora da relação pessoal da fé, nossa linguagem, ao falar da Trindade, é sempre falsa. Se Gregório o Teólogo escreve das Três que “elas não estão divididas na vontade”, é porque não podemos dizer que o Filho tenha sido gerado pela vontade do Pai: nós não podemos pensar no Pai sem o Filho, ele é o Pai-com-um-Filho, e é assim por toda a eternidade; não existe ato na Trindade, e até falar de estado implicaria uma passividade que não tem cabimento. Como diz Gregório de Nazianze: “Quando olhamos para a divindade, a causa primeira, a monarquia, o Um nos aparece; e quando olhamos para aqueles em quem está a divindade e que procedem do princípio primeiro na mesma eternidade e na mesma glória, então adoramos os Três”.

A monarquia do Pai não implicaria uma espécie de subordinação do Filho e do Espírito? Não, porque um princípio não pode ser perfeito se não for um princípio de uma realidade que o iguale. Os Padres gregos falavam propositadamente do “Pai-causa”, mas este não passa de um termo analógico do qual o uso purificador do apofatismo nos permite avaliar a deficiência: em nossas experiências a causa é superior ao efeito, mas em Deus, ao contrário, a causa, enquanto realização do amor pessoal, não pode produzir efeitos inferiores: ela os cria iguais em dignidade, sendo ela também a causa de sua igualdade. Em Deus, de resto, não existe extraposição da causa e do efeito, mas causalidade no interior de uma mesma natureza. A causalidade aqui não suscita um efeito, como no mundo material, nem um efeito que seja reabsorvido na sua causa, como nas hierarquias ontológicas da Índia e do neoplatonismo, mas permanece como a imagem impotente de uma comunhão inexprimível. O Pai “não seria o Princípio senão de um modo mesquinho e sem dignidade, se ele não fosse o rpincípio da divindade e da bondade que adoramos no Filho e no Espírito Santo: em um, como Filho e Verbo, no outro como Espírito que procede sem separação”, nos diz Gregório de Nazianze. O Pai não seria uma verdadeira pessoa se ele não fosse “pro”, ou seja, inteiramente voltado para as demais Pessoas, inteiramente comunicado a elas, a quem ele torna Pessoas, e portanto iguais, pela integralidade de seu amor.

A Trindade, portanto, não é o resultado de um processo, mas um dado primordial. Ela não tem princípio senão nela, e nada acima dela, pois nada lhe é superior. A arché, a monarquia, não se manifesta senão na, para e pela Trindade, na relação das Três Pessoas, numa relação sempre ternária, à exclusão de toda oposição, de toda díade.

Já Santo Atanásio afirmava que a geração do Filho era uma obra de natureza. E São João Damasceno, no século VIII, distinguia a obra de natureza, geração e processão, da obra da vontade, que é a criação do mundo. A obra de natureza, de resto, não é uma obra em sentido próprio, mas o próprio ser de Deus: pois Deus é, por sua natureza, Pai, Filho e Espírito Santo. Deus não tem necessidade de revelar a si mesmo, por uma espécie de tomada de consciência do Pai no Filho e no Espírito, como acreditava Boulgakov. A revelação não é pensável senão em relação ao outro-senão-Deus, ou seja, a criação. Tanto quanto não existe na existência trinitária o resultado de um ato de vontade, é também impossível ver aí i processo de uma necessidade interna.

É preciso portanto distinguir cuidadosamente a causalidade do Pai que coloca as três hipóstases em sua diversidade absoluta e sem que seja possível estabelecer entre elas uma ordem qualquer, sua revelação ou manifestação. O Espírito, por intermédio do Filho, nos conduz ao Pai no qual descobrimos a unidade dos Três. O Pai, segundo a terminologia de São Basílio, se revela pelo Filho no Espírito. Aqui se afirma um processo, uma ordem da qual resulta a ordem dos três Nomes: Pai, Filho e Espírito Santo.

Da mesma forma todos os Nomes divinos, que nos comunicam a vida comum aos Três, nos vêm do Pai por intermédio do Filho, no Espírito Santo. O Pai é a fonte, o Filho a manifestação, o Espírito é força que manifesta. Assim é que o Pai é a fonte da Sabedoria, o Filho é a própria Sabedoria e o Espírito e força que nos traz a Sabedoria. Ou ainda, o Pai é a fonte do amor, o Filho é o amor que se revela e o Espírito o amor realizado em nós. Ou, segundo a admirável fórmula do Metropolita Filarestes, o Pai é o amor crucificante, o Filho o amor crucificado e o Espírito o amor triunfante. Os Nomes divinos são o escoamento da vida divina da qual a fonte é o Pai, que nos mostra o Filho, e que nos é comunicada pelo Espírito.

A teologia bizantina chama de “energias” a esses Nomes divinos: a palavra convém em especial a essa irradiação eterna da natureza divina: melhor do que os atributos da teologia escolar, ela evoca para nós essas forças vivas, estas irrupções, esses transbordamentos da glória divina. Pois a teoria das energias incriadas é profundamente bíblica: a Bíblia evoca com frequência a glória flamejante e tonitruante que permite conhecer a Deus fora dele próprio, dissimulando-o debaixo de uma profusão de luz. São Cirilo de Alexandria fala do esplendor da essência divina que se manifesta. Os termos luminosos, que nada têm aqui de metafóricos mas que exprimem a experiência da mais alta contemplação, retornam sem cessar para designar o resplendor de uma beleza ofuscante. A glória divina é multiforme. “Jesus fez ainda muitas coisas; se as escrevêssemos uma a uma, o mundo inteiro, penso eu, não poderia conter os livros em que estivessem escritas[1]”.

Da mesma forma, o mundo inteiro não é capaz de conter os inumeráveis nomes da glória. Dunameis, diz o Pseudo-Denis: ele tanto fala no singular como no plural. O número aqui não tem importância. Nem um, nem muitos, mas a infinidade de nomes divinos. Deus é Sabedoria, Amor, Justiça... não porque ele queira, mas porque ele é assim. Aqui não cabem disfarces: Deus mostra o que ele é. Não podemos conhecer até o fundo a essência divina, mas conhecemos essa irradiação de glória que é verdadeiramente Deus: pois se por um lado chamamos de essência a natureza divina na medida em que ela é transcendência inesgotável, e se por outro a chamamos de energia na medida em que ela se manifesta gloriosamente, ela permanece sempre sendo a mesma natureza. “Pai, glorifica-me com esta glória que eu possuía antes que o mundo fosse[2]”. A manifestação da energia não depende, portanto, da criação: ela é a irradiação de sempre, que absolutamente não condiciona a existência ou a inexistência do mundo. É certo que a descobrimos na criatura, pois “desde a criação do mundo, as obras de Deus tornam visíveis ao intelecto seus atributos invisíveis[3]”: a criatura é marcada com o selo da divindade. Mas essa presença divina é uma glória permanente, eterna, uma manifestação não contingente da essência, e, como tal, incognoscível. É a luz que por toda a eternidade banha a plenitude em si perfeita da vida trinitária.



A IMAGEM E A SEMELHANÇA


Vladimir Lossky


A filosofia antiga conhecia a condição central do homem e a exprimia por meio da noção de “microcosmo”. Para os estoicos em particular, se o homem é superior ao cosmos é porque ele o resume e lhe dá sentido: pois o cosmos é um grande homem, e todo homem é um pequeno cosmo.

A ideia de microcosmo foi retomada pelos Padres, mas com uma vigorosa superação de todo imanentismo. “Não existe nada de notável, disse São Gregório de Nissa, em que o homem seja a imagem e a semelhança do universo: pois a terra passa, o céu muda, e todo o seu conteúdo é tão efêmero como o continente”. Diante das magias cósmicas da antiguidade decadente, um mero broto confirma a liberdade: “Acreditando exaltar a natureza humana com esse nome grandiloquente, acrescenta Gregório, não notamos que o homem é gratificado ao mesmo tempo com as qualidades dos mosquitos e dos brotos”. A verdadeira grandeza do homem não está em seu incontestável parentesco com o universo, mas em sua participação na plenitude divina, no mistério que há nele da imagem e da semelhança. “Por minha qualidade de terra, escreve Gregório de Nazianze, estou ligado à vida daqui de baixo; mas como também sou uma parcela divina, trago em meu seio o desejo da vida futura”.

O homem é um ser pessoal como Deus, não uma natureza cega. Este é o caráter da imagem divina nele. Sua relação com o universo se acha de certo modo invertida em relação às concepções antigas: ao invés de se “desindividualizar” para se “cosmiquizar” e assim se fundir num divino impessoal, sua relação absoluta de pessoa com um Deus pessoal deve permitir-lhe “pessoalizar” o mundo. O homem já não se salva através do universo, mas o universo através do homem. Pois o homem é a hipóstase do cosmo como um todo, o qual participa de sua natureza. E a terra encontra s eu sentido pessoal e hipostático no homem. O homem, para o universo, é a esperança de receber a graça e de se unir a Deus, mas também o perigo do fracasso e a decadência; “A criação aguarda ansiosamente essa revelação dos filhos de Deus, escreve São Paulo; ela foi submetida às vaidade, não por sua vontade, mas por causa daquele que a sujeitou, mas com a esperança de que também a criação será liberta da escravidão da corrupção para participar da liberdade gloriosa dos filhos de Deus[1]”. Submetida à desordem e à morte pelo homem, a criação aguarda também do homem, tornado filho de Deus pela graça, sua libertação.

O mundo acompanha o homem, porque ele é como sua natureza: a antroposfera, podemos dizer. E essa ligação antropocósmica se realiza ao mesmo tempo em que se realiza a ligação da imagem humana com Deus, seu protótipo: pois a pessoa não pode, sem se destruir, pretender possuir sua natureza, sua qualidade notória de microcosmo no mundo, mas ao contrário ela encontra sua plenitude quando ele a entrega, quando ela assume o universo para oferecê-lo a Deus.

Assim é que nós somos responsáveis pelo mundo. Somos a palavra, o logos, através do qual ele fala, e ele só depende de nós para blasfemar ou orar. Somente através de nós o cosmos, como o corpo do qual ele é um prolongamento, pode receber a graça. Pois não somente a alma, mas o próprio corpo do homem foi criado à imagem de Deus. “Juntos foram criados à imagem de Deus”, escreveu Santo Gregório Palamas.

Portanto, a imagem não pode ser objetivada, “naturalizada”, poderíamos dizer, sendo atribuída a alguma parte do ser animal. Ser à imagem de Deus, afirmam os Padres em última instância, equivale a ser um se pessoal, ou seja, um ser livre, responsável. Mas por que, podemos perguntar, terá Deus criado o homem como um ser livre e responsável? Justamente porque ele desejava chamá-lo para uma vocação suprema: a deificação, ou seja, tornar-se, pela graça, e num impulso tão infinito quanto Deus, aquilo que Deus é por sua própria natureza. Ou seja, este chamado exige uma livre resposta, pois Deus deseja que este impulso seja um impulso de amor. A união sem amor seria uma coisa automática, e o amor implica a liberdade, a possibilidade da escolha e da recusa. Claro que existe um amor não pessoal, um movimento cego do desejo, servo de uma força natural. Mas este não é o amor do home ou do anjo por Deus: caso contrário, seríamos não mais do que animais ligados a Deus por algum tipo de obscura atração sexual. Para que as coisas aconteçam como devem nesse amor a Deus, é preciso admitir que elas possam ser ao contrário, é preciso admitir a possibilidade da revolta. Somente a resistência da liberdade dá sentido à adesão. O amor que Deus exige não consiste numa imantação física, mas numa tensão viva entre contrários. Essa liberdade provém de Deus: ela é o selo de nossa participação divina, a obra prima do Criador.

Um ser pessoal é capaz de amar a qualquer um mais do que sua própria natureza, mais do que sua própria vida. A pessoa, vale dizer, a imagem de Deus no homem, consiste, portanto, na liberdade do homem em relação à sua natureza. “o torna livre da necessidade e o livra de estar submetido à dominação da natureza, podendo assim determinar livremente a si próprio”, disse São Gregório de Nissa. Normalmente o homem age sob impulsos naturais: ele é condicionado por seu temperamento, seu caráter, sua hereditariedade, o ambiente cósmico ou psicossocial, sua própria historicidade. Mas a verdade do home  está além de todo condicionamento, e sua dignidade está em poder se libertar de sua natureza, não para consumi-la ou abandoná-la a si mesma como os sábios antigos ou orientais, mas para transfigurá-la em Deus.

O objetivo da liberdade, explica São Gregário de Nazianze, consiste em que o bem pertença a quem o escolheu. Deus não quer ser o possuidor do bem que ele mesmo criou: ele espera do homem mais do que uma participação cega, puramente natural. Ele quer que o homem assuma conscientemente sua natureza, para possuí-la livremente como boa, para reconhecer com gratidão, na vida como no universo, os dons do amor divino.

Os seres pessoais constituem o apogeu da criação, por que eles podem se tornar Deus por sua livre escolha e pela graça. Com ele a onipotência divina suscita uma “intervenção” radical, uma novidade integral: Deus criou seres que, como ele, podem – lembremo-nos do Conselho divino do Gênesis – decidir e escolher. Mas esses seres podem se decidir contra Deus: não é este, para ele, um risco de destruir sua criação? Este risco, devemos responder, se inscreve paradoxalmente no cúmulo da onipotência. Para se “inovar” verdadeiramente, a criação suscita o “outro”, ou seja, um ser pessoal capaz de recusar aquele que o criou. O ápice da onipotência se apresenta assim virtualmente como uma impotência de Deus, como um risco divino. A pessoa não é a mais alta criação de Deus senão na medida em que Deus introduz nela a possibilidade do amor e, portanto, de sua recusa. Deus arrisca a ruína eterna de sua mais alta criação, exatamente para que ela seja a mais alta. O paradoxo é irredutível: em sua própria grandeza, que é poder se tornar Deus, o homem é falível – mas sem falibilidade, não há grandeza. É por isso, afirmam os Padres, que o homem deve passar pela prova, a fim de tomar consciência de sua liberdade, do livre amor que Deus espera dele.

“Deus criou o homem como um animal que recebeu a ordem de se tornar Deus”, diz São Basílio gravemente, referindo-se a palavras de São Gregório de Nazianze. Para executar esta ordem, e preciso poder recusá-la. Deus se torna impotente diante da liberdade humana: ele não pode violá-la, por que ela procede de sua onipotência. É verdade que o homem foi criado pela simples vontade de Deus, mas ele não pode ser deificado apenas por ela: uma só vontade bastou para a criação, mas são necessárias duas para a deificação. Uma só vontade pode suscitar a imagem, mas são precisas duas para tornar esta imagem semelhante. O amor de Deus pelo homem é tão grande que ele não pode constrangê-lo: pois não existe amor sem respeito. A vontade divina se submeterá sempre às hesitações, aos desvios, às revoltas da vontade humana para conduzi-lo a um livre consentimento: esta é a providência divina, e a imagem clássica do pedagogo parecerá frágil a quem quer que tenha pressentido a Deus como um mendicante do amor, esperando à porta da alma sem jamais ousar forçá-la.

Extraído de Théologie dogmatique,
conferências orais registradas,
transcritas e preparadas por Olivier Clément.


[1] Romanos 8: 19-21.



[1] João 21: 25.
[2] João 17: 5.
[3] Romanos 1: 20.

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