quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Georges Florovsky - Criação e Redenção - VII. A Sempre Virgem Mãe de Deus






O autor está plenamente consciente do quanto é inadequada essa exposição. Não se trata aqui de um ensaio teológico em senso estrito. Essa é apenas uma mensagem ocasional escrita apressadamente algum tempo depois de ter sido improvisada. A única intenção do autor foi a de sugerir uma maneira pela qual o objeto poderia ser enfocado, de modo a abrir uma discussão. O principal objetivo desse estudo foi o de provar que a Mariologia pertence ao próprio corpo da doutrina Cristã, ou, se podemos nos expressar assim, a um consenso doutrinal minimamente essencial, fora do qual nenhuma verdadeira unidade de fé poderá ser reclamada.
(Georges Florovsky)


Todo o ensinamento dogmático a respeito de nossa Senhora pode ser condensado nesses dois nomes atribuídos a ela: Mãe de Deus e Sempre Virgem – qeotokos e aeiparqenos. Ambos os nomes possuem a autoridade formal da Igreja Universal, bem como uma autoridade ecumênica. O Nascimento Virginal está claramente atestado no Novo Testamento e constitui uma parte integra da tradição Católica desde então. “Encarnou-se pelo Espírito Santo e a Virgem Maria” (ou “nascido da Virgem Maria”) é uma frase do Credo. Não é apenas uma afirmação de um fato histórico. Trata-se precisamente de uma afirmação do Credo, uma solene profissão de fé. O termo “Sempre Virgem” foi formalmente adotado pelo Quinto Concílio Ecumênico (553). E Theotokos é mais do que um nome ou título honorífico. Trata-se antes de uma definição doutrinal – numa única palavra. Ele foi a pedra de toque da fé verdadeira e uma marca distintiva da Ortodoxia mesmo antes do Concílio de Éfeso (432). Já São Gregório de Nazianze alertava Cledonius: “se alguém não reconhece Maria como Theotokos, está distanciado de Deus[1]”. De fato, o nome foi amplamente empregado pelos Padres do século IV, e possivelmente também do século III[2]. Ele já era tradicional quando foi contestado e repudiado por Nestorius e seu grupo. A palavra não aparece nas Escrituras, assim como o termo omoousios também não aparece. Mas, certamente, nem em Nicéia, nem em Éfeso, a Igreja estava inovando ou impondo um novo artigo de fé. Uma palavra “não escriturária[3]” foi escolhida e utilizada, precisamente para vocalizar e salvaguardar a crença tradicional e a convicção comum às eras. É verdade, sem dúvida, que o Terceiro Concílio Ecumênico se referia primariamente ao dogma Cristológico, e que não formulou nenhuma doutrina Mariológica em especial. Mas, exatamente por essa razão, é verdadeiramente notável que um termo Mariológico tenha sido selecionado e estabelecido como o teste último da ortodoxia Cristológica, para ser utilizado, digamos, como uma “palavra de ordem”, uma “senha” ou “jargão[4]” na discussão Cristológica. Tratava-se realmente de uma palavra-chave para toda a Cristologia. “Esse nome, dizia São João Damasceno, contém todo o mistério da Encarnação[5]”. Como habilmente colocou Petavius: Quem in Trinitatis explicando dogmate omoousiou vox, eundem hoc in nostro Incarnationis usum ac principatum obtinet Qeotokou nomen[6]. O motivo e propósito dessa escolha é óbvio. A doutrina Cristológica não pode ser correta e adequadamente estabelecida sem incluir um ensinamento cabal a respeito da Mãe de Cristo. De fato, todas as dúvidas e todos os erros Mariológicos dos tempos modernos dependem em última precisamente de uma absoluta confusão Cristológica. Eles revelam um irremediável “conflito em Cristologia”. Não existe espaço para a Mãe de Deus numa “Cristologia reduzida”. A teologia Protestante simplesmente não tem nada a dizer a respeito dela. Mas ignorar a Mãe implica interpretar erroneamente o Filho. Por outro lado, a pessoa da Bendita Virgem pode ser propriamente entendida e corretamente descrita apenas num contexto Cristológico estabelecido. A Mariologia consiste em adicionar um capítulo no tratado da Encarnação, jamais em estabelecer um “tratado” independente. Claro, não será um capítulo casual, nem um apêndice. Ela pertence ao próprio corpo da doutrina. O Mistério da Encarnação inclui a Mãe do Encarnado. Algumas vezes, entretanto, a perspectiva Cristológica foi obscurecida por um exagero devocional, por um pietismo desbalanceado. A piedade deve ser sempre guiada e verificada pelo dogma. Mais uma vez, deve haver um capítulo Mariológico no tratado sobre a Igreja. Mas a doutrina da Igreja em si não passa de uma “Cristologia estendida”, a doutrina do “Cristo total”, totus Christus, caput et corpus.

O nome Theotokos enfatiza o fato de que a Criança a quem Maria deu à luz não era um “simples homem”, não era uma pessoa humana, mas o Filho Unigênito de Deus, “Um da Santíssima Trindade”, ainda que Encarnado. Essa é obviamente a pedra de ângulo da fé Ortodoxa. Vamos relembrar a fórmula de Calcedônia: “Seguindo assim os santos Padres, confessamos um único e mesmo Filho (ena kai ton auton), nosso Senhor Jesus Cristo (...) gerado pelo Pai como Divindade antes de todos os séculos, mas que nos últimos dias, por nós e para nossa salvação, o mesmíssimo (ton auton), nascido de Maria, a Virgem Mãe de Deus, como Humanidade”. Toda a ênfase está na absoluta identidade da Pessoa: o Mesmo, o Mesmíssimo, unus identique segundo São Leão. Isso implica uma dupla geração do Verbo divino (mas enfaticamente não uma dupla Filiação; essa seria precisamente a perversão Nestoriana). Não existe senão um Filho: Aquele que nasceu da Virgem Maria é, em sentido pleno, o Filho de Deus. Como disse São João Damasceno, a Santa Virgem não gerou “um homem comum, mas o verdadeiro Deus[7]”, “não nu, mas encarnado[8]”. O Mesmo, nascido do Pai desde toda eternidade, “nos últimos dias” nasceu da Virgem “sem nenhuma alteração[9]”. Não existe confusão de naturezas. A “segunda genhsis” é de fato a Encarnação. Nenhuma nova pessoa veio à existência quando o Filho de Maria engravidou e deu à luz: apenas o Eterno Filho de Deus se tornou homem. É nisso que consiste o mistério da divina Maternidade da Virgem Maria. Pois, de fato, a Maternidade constitui uma relação pessoal, uma relação entre pessoas. Porém, o Filho de Maria era em verdade uma Pessoa divina. O nome Theotokos é uma consequência inevitável do nome Theantropos, o Deus-Homem. Ambos se afirmaram e nasceram juntos. A doutrina da União Hipostática implica e solicita a concepção da divina Maternidade. Infelizmente, o mistério da Encarnação foi tratado modernamente com frequência de modo demasiado abstrato, como se não passasse de um problema metafísico, ou mesmo de um enigma dialético. É fácil entregar-se à dialética do Finito e do Infinito, do Temporal e do Eterno, etc., como se esses fossem termos de alguma relação lógica ou metafísica. Corre-se o risco de passar por cima, ou de perder de vista, o ponto essencial: a Encarnação foi precisamente uma ação poderosa do Deus Vivo, sua intervenção mais pessoal na existência criada, de fato uma “descida” da pessoa Divina, de Deus em pessoa. Mais uma vez, existe aqui um sabor docético[10] sutil, mas real, nas tentativas mais recentes de reescrever a fé tradicional em termos modernos. Existe uma tendência a enfatizar excessivamente a iniciativa divina na Encarnação, a tal ponto que que a própria existência histórica do Encarnado desaparece num “Incógnito Filho de Deus”. A identidade direta do Jesus histórico de do Filho de Deus é negada explicitamente. Todo o impacto da Encarnação é reduzido a símbolos: o Senhor Encarnado é visto mais como um expoente de algum nobre princípio ou ideia (seja a Ira de Deus ou o Amor, a Cólera ou a Misericórdia, o Julgamento ou o Perdão), do que como uma Pessoa viva. Em ambos os casos as implicações pessoais da Encarnação são passadas por alto ou negligenciadas – falo de nossa adoção na verdadeira filiação de Deus no Senhor Encarnado. Ora, algo de muito real e definitivo aconteceu com o homem e para o homem quando o Verbo de Deus “se fez carne e habitou entre nós”, ou antes, “fez sua morada em nosso meio” – de fato, uma transformação pictórica, eskhnwsen em hmin[11].

“Mas quando veio a plenitude dos tempos, Deus enviou Seu Filho, nascido de uma mulher[12]”. Essa é uma afirmação escriturária a respeito do mesmo mistério pelo qual os Padres disputaram em Calcedônia. Mas qual é o sentido pleno e o propósito da expressão “nascido de uma mulher”? A Maternidade, em geral, n]ao se esgota no mero fato da procriação física. Seria de uma cegueira lamentável se ignorássemos esse aspecto espiritual. De fato, a procriação em si estabelece uma relação espiritual íntima entre a mãe e a criança. Essa relação é única e recíproca, e sua essência consiste na afeição ou amor. Podemos nós ignorar essa implicação do fato de que nosso Senhor “nasceu da Virgem Maria”? Certamente, nenhuma redução docética é permissível nesse caso, assim como deve também ser evitada em qualquer outro aspecto da Cristologia. Jesus era (e é) o Deus Eterno, e também Encarnado, e Maria era Sua Mãe em sentido pleno. De outra forma, a Encarnação não teria sido genuína. Mas isso significa precisamente que para o Senhor Encarnado existe uma pessoa humana específica em relação à qual Ele possui uma relação especial – em termos precisos, uma pessoa em relação à qual Ele não é apenas o Senhor e Salvador, mas também o Filho. Por outro lado, Maria era a verdadeira mãe de seu Filho – a verdade de sua maternidade humana não é menos relevante e importante do que o mistério de sua maternidade divina. Mas a Criança era divina. Ainda assim, as implicações espirituais de sua maternidade não poderiam ser diminuídas pelo caráter excepcional do caso, nem poderia Jesus deixar de ser verdadeiramente humano em sua resposta filial ao afeto materno daquela de quem Ele nascera. Isso não é uma especulação vã. De fato, seria uma impertinência violar o sagrado campo dessa intimidade sem paralelo entre a Mãe e seu divino Filho. Mas seria não menos impertinente ignorar o mistério. Em qualquer caso, equivaleria a um empobrecimento da ideia se víssemos a Virgem Mãe apenas como um instrumento físico para que o Senhor tomasse a carne. Ademais, tal erro de interpretação é formalmente excluído pelo ensinamento explícito da Igreja, atestado desde os primeiros tempos: ela nunca foi um “canal” através do qual veio o Senhor Celestial, mas, realmente, a mãe de quem Ele obteve Sua humanidade. São João Damasceno resume precisamente com essas palavras o ensinamento Católico: Ele não veio como “através de um conduto” (ws dia swlhnos), mas assumiu dela (ex auths) uma natureza humana consubstancial à nossa[13].

Maria “encontrou favor em Deus[14]”. Ela foi escolhida e foi-lhe ordenado que servisse ao Mistério da Encarnação. E, por causa dessa eleição eterna ou predestinação, ela foi, de certo modo, colocada à parte e recebeu um privilégio e uma posição únicos em toda a humanidade, e mesmo em toda a criação. É como se ela tivesse recebido um grau transcendente. Em primeiro lugar, ela era representativa da raça humana, e foi assim colocada à parte. Existe uma antinomia aqui, implicada na divina eleição. Ela foi colocada à parte. Ela foi colocada numa posição única e sem paralelo com Deus e com a Santíssima Trindade, mesmo antes da Encarnação, em sua condição prospectiva de Mãe do Senhor Encarnado, exatamente porque isso não iria constituir um acontecimento histórico ordinário, mas a importante consumação do decreto eterno de Deus. Ela ocupava uma posição única, mesmo dentro do plano divino da salvação. Através da Encarnação, a natureza humana foi restaurada novamente à amizade com Deus, que havia sido destruída e ab-rogada depois da Queda. A humanidade sagrada de Jesus foi a ponte que superou o abismo do pecado. E essa humanidade foi recebida da Virgem Maria. A própria Encarnação constituiu um novo começo no destino do homem, o começo de uma nova humanidade. Na Encarnação nasceu o “homem novo”, o “Último Adão”: Ele era verdadeiramente humano, mas era também mais do que homem: “o segundo homem é o Senhor dos céus[15]”. Enquanto Mãe desse “Segundo Homem”, a própria Maria estava participando do mistério da recriação redentora do mundo. Certamente, ela deve ser contada entre os redimidos. Ela evidentemente necessitava a salvação, Seu Filho é seu Redentor e Salvador, assim como é o Redentor do mundo. Sim, ela é o único ser humano para quem o Redentor foi também um filho, seu verdadeiro filho, a quem ela gerou. Jesus realmente nasceu “não da vontade da carne, nem da vontade humana, mas de Deus[16]”, mas, ao mesmo tempo, ele é o “fruto do ventre” de Maria. Seu nascimento sobrenatural constitui o modelo e a fonte da nova existência, do novo e espiritual nascimento de todos os fiéis, que não é outra coisa do que a participação em sua santa humanidade, uma adoção à filiação de Deus – no “segundo homem”, no “último Adão”. A Mãe do “segundo homem” necessariamente deveria ter seu caminho específico e peculiar nessa nova vida. Não é demasiado dizer que, para ela, a Redenção foi, em certo sentido, antecipada no próprio fato da Encarnação em si – e antecipada de um modo peculiar e pessoal. “O Espírito Santo desceu sobre ela, e o poder do Altíssimo ocultou-a com Sua sombra[17]”.  Isso constituiu uma verdadeira “presença teofânica” – na plenitude da graça e do Espírito. A “sombra” é precisamente um símbolo teofânico. E Maria estava realmente “cheia de graça”, gratia plena, kecaritwmenh. A Anunciação foi para ela uma espécie de Pentecoste antecipado. Somos compelidos a arriscar esse ousado paralelismo pela inescrutável lógica da eleição divina. Pois, de fato, não podemos encarar a Encarnação apenas como um milagre metafísico sem qualquer relação com o destino pessoal e a existência das pessoas envolvidas. O homem jamais lidou com Deus como se não passasse de uma ferramenta nas mãos do mestre. Pois o homem é uma pessoa viva. De modo algum pode ter havido uma graça “instrumental”, quando a Virgem foi “coberta pela sombra” do poder do Altíssimo. A posição única da Virgem Maria não foi obviamente uma aquisição sua, não uma mera “recompensa” por seus “méritos” – nem mesmo foi a plenitude da graça dada a ela em “previsão” de seus méritos e virtudes. Tratou-se acima de tudo de um dom gratuito de Deus, em sentido estrito – gratia grátis data. Foi uma eleição eterna e absoluta, embora não incondicional – pois estava condicionada e relacionada ao mistério da Encarnação. Maria obteve sua posição única e constituiu-se numa “própria categoria”, não como mera Virgem, mas como Virgem-Mãe, parqenomhthr, como a Mãe predestinada do Senhor. Ela possuiu uma dupla função na Encarnação. De um lado, ela assegurou a continuidade da raça humana. Seu Filho foi, em virtude de seu “segundo nascimento”, o Filho de Davi, de Abrahão e de todos os “antepassados” (o que é enfatizado nas duas versões da genealogia de Jesus). Na frase de Santo Irineu, Ele “recapitulou em si o longo registro da humanidade[18]”, “reunindo em si todas as nações, que estavam dispersas desde Adão[19]”, e “tomou sobre si o caminho antigo da criação[20]”. Mas, por outro lado, Ele” manifestou um novo tipo de geração[21]”. Ele era o Novo Adão. Esse foi a mais drástica solução de continuidade, a verdadeira reversão do processo anterior. E essa “reversão” começa precisamente com a Encarnação, com o Nascimento do “Segundo Homem”. Santo Irineu fala de recirculação – de Maria a Eva[22]. Enquanto Mãe do Novo Homem, Maria teve antecipada sua participação nessa novidade. Naturalmente, Jesus Cristo é o único Senhor e Redentor. Mas Maria é Sua mãe. Ela é a estrela da manhã que anuncia o nascer do sol, o nascimento do verdadeiro Sol salutis: asthr emjainwn ton Hlion. Ela é a “aurora do dia místico”, augh mustikhs hmeras (ambas as frases são do Hino Akathisto). E, em certo sentido, mesmo o nascimento de nossa Senhora pertence ao mistério da salvação. “Teu nascimento, ó Mãe de Deus e Virgem, encheu de alegria todo o universo – pois de ti nasceu o Sol de Justiça, Cristo nosso Deus[23]”. O pensamento Cristão se move sempre na dimensão das personalidades, não no domínio de ideias gerais. Ele apreende o mistério da Encarnação enquanto mistério da Mãe e da Criança. Essa é uma salvaguarda definitiva contra qualquer docetismo abstrato, uma salvaguarda contra a concretude evangélica. O ícone tradicional da Bendita Virgem, na tradição Oriental, é precisamente um ícone da Encarnação: a Virgem está sempre com o Menino. E, certamente, nenhum ícone, isso é, nenhuma imagem da Encarnação, será jamais possível sem a Virgem Mãe.

Mais uma vez, a Anunciação é “o começo de nossa salvação e a revelação do mistério que existe desde a eternidade: o Filho de Deus se tornou Filho da Virgem, e Gabriel proclamou as boas novas da graça[24]”. A vontade divina foi proclamada e declarada pelo arcanjo. Mas a Virgem não permaneceu em silêncio. Ela respondeu ao chamado divino, respondeu com humildade e fé. “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a Sua vontade”. A vontade divina foi aceita e recebeu sua resposta. A obediência de Maria contrabalança a desobediência de Eva. Nesse sentido, a Virgem Maria é a Segunda Eva, assim como seu Filho é o Segundo Adão. Esse paralelo foi estabelecido desde muito cedo. O mais antigo testemunho foi dado por São Justino[25], e em Santo Irineu encontramos uma concepção elaborada, organicamente conectada com a ideia básica da recapitulação. “Assim como Eva foi seduzida pela fala de um anjo, também Maria recebeu as boas novas por meio da fala de um anjo, para que carregasse a Deus em seu seio, sendo obediente a essas palavras. E, embora a primeira tenha desobedecido a Deus, a outra foi atraída no sentido de obedecer a Deus; assim, a Virgem Maria se tornou a advogada de Eva. E assim como a raça humana foi levada à morte por uma virgem, por uma virgem foi salva, e assim o equilíbrio foi preservado, entre a desobediência de uma virgem e a obediência de outra[26]”. E ainda: “Assim o nó que constituiu a desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria; e o que foi amarrado pela incredulidade de Eva, soltou-se pela fé de Maria[27]”. Essa concepção era tradicional, especialmente no ensinamento catequético, tanto no Leste como o Oeste. “Trata-se de um grande sacramento (magnum sacramentum) que, por causa de uma mulher, a morte tenha se tornado nosso fado, e que a vida tenha nascido de uma mulher”, diz Santo Agostinho[28]. “A morte veio por Eva, a vida por Maria”, declara São Jerônimo[29]. Permitam-me citar ainda uma passagem admirável e concisa de um dos sermões do Metropolita Filarete de Moscou (1782-1867), no dia da Anunciação: “Durante os dias da criação do mundo, quando Deus proclamou suas palavras vivas e poderosas: “Faça-se...”, Suas palavras trouxeram as criaturas à existência. Mas no dia, único na existência do mundo, em que a Santíssima Maria expressou seu humilde e obediente “faça-se”, eu não ouso expressar o que se passou então – a palavra da criatura causou a descida do Criador ao mundo. Também Deus proclamou sua palavra então: “Você irã conceber em seu seio e gestar um filho (...) Ele será grande (...) Ele reinará sobre a casa de Jacó para sempre[30]”. E mais uma vez acontece aquilo que é divino e incompreensível – a própria palavra de Deus posterga sua ação, permitindo-se ser recusada pela palavra de Maria: “Como pode ser isso?”. Seu humilde “faça-se” era necessário para a realização do poderoso “Faça-se” de Deus. Que secreto poder está contido nessas simples palavras: “Eis aqui a serva do Senhor: faça-se em mim segundo a Sua vontade” – para produzir um efeito tão extraordinário? Esse poder maravilhoso é a pura e perfeita autodedicação de Maria a Deus, a dedicação de sua vontade, de seu pensamento, de sua alma, de todo o seu ser, de todas as suas faculdades, de todas as suas ações, de todas as suas esperanças e expectativas[31]”. A Encarnação foi de fato um ato soberano de Deus, mas foi uma revelação não só de seu poder onipotente, como, acima de tudo, de seu amor e compaixão paternais. Ali estava implicado mais uma vez um chamado à liberdade humana, assim como um apelo à liberdade esteve implicado no próprio ato da criação, especificamente na criação dos seres racionais. Naturalmente, a iniciativa era divina. Porém, como os meios de salvação escolhidos por Deus consistiam numa verdadeira assumpção da verdadeira natureza humana pela Pessoa divina, era preciso que o homem tivesse uma participação ativa no mistério. Maria estava vocalizando a resposta obediente do homem ao decreto redentor do amor divino, e dessa maneira ela se tornou representativa de toda a raça humana. É como se ela exemplificasse em sua pessoa toda a humanidade. Sua aceitação obediente e alegre do propósito redentor de Deus, tão belamente expresso no Magnificat, foi um ato de liberdade. De fato, foi uma liberdade de obediência, não de iniciativa – mas ainda assim uma verdadeira liberdade, uma liberdade de amor e adoração, de humildade e crença – e uma liberdade de cooperação[32]. É isso que significa a liberdade humana. A graça de Deus jamais pode ser acrescentada, como que mecanicamente. Ela precisa ser recebida em livre obediência e submissão.

Maria foi escolhida e eleita para ser a Mãe do Senhor Encarnado. Devemos assumir que ela foi moldada para esse ofício temível, que ela foi preparada para esse chamado excepcional – e preparada por Deus. Podemos definir com propriedade a natureza e o caráter dessa preparação? Estamos aqui diante de uma antinomia crucial (de que já falamos acima). A Virgem Abençoada era representativa da raça, isso é, da raça humana decaída, do “velho Adão”. Ela foi colocada à parte pelo plano eterno de Deus, mas essa “separação” não tinha como objetivo destruir sua solidariedade essencial para com o resto da humanidade. Será possível resolvermos esse mistério antinômico por meio de algum esquema lógico? O dogma Católico Romano da Imaculada Concepção da Virgem Maria constitui uma nobre tentativa de sugerir uma solução. Mas essa solução só é válida no contexto de uma doutrina específica e altamente irregular a respeito do pecado original, e não funciona fora desse quadro particular. Estritamente falando, esse “dogma” consiste numa complicação desnecessária, e sua terminologia infeliz só obscurece a indiscutível verdade da crença Católica. Os privilégios da divina Maternidade não dependem de uma “libertação do pecado original”. A plenitude da graça foi verdadeiramente concedida à Virgem Maria, e sua pureza pessoal foi preservada pela assistência perpétua do Espírito. Mas isso não implicou a abolição do pecado. O pecado só foi destruído no lenho da Cruz, e nenhuma isenção era possível, simplesmente pelo fato de que ele constituía a condição geral e comum a toda a existência humana. Ele não foi destruído nem mesmo aquando da Encarnação, embora a Encarnação tenha sido a inauguração da Nova Criação. A Encarnação não foi outra coisa que a base e o ponto de partida da obra redentora do Senhor. E o próprio “Segundo Homem” entrou em Sua plena glória pela porta da morte. A Redenção constituiu um ato complexo, e é preciso distinguir cuidadosamente seus diversos momentos, embora eles fossem supremamente integrados no único e eterno plano de Deus. Estando integrados no plano eterno, esses momentos se refletem em cada representação temporal, e sua consumação final está prefigurada e antecipada desde os primeiros estágios. Existiu de fato um progresso real na história da Redenção. Maria recebeu a graça da Encarnação, enquanto Mãe do Encarnado, mas essa não foi ainda a graça total, uma vez que a Redenção ainda não havia se realizado. Ainda assim, sua pureza pessoal era possível mesmo num mundo não redimido, ou melhor – num mundo que estava em processo de Redenção. A verdadeira questão teológica é a da eleição divina. A Mãe e o Menino estão inseparavelmente ligados no decreto único da Encarnação. Enquanto evento, a Encarnação constitui o ponto de mutação da história – e esse ponto de mutação é inevitavelmente antinômico: ele pertence ao mesmo tempo ao Velho e ao Novo. O resto é silêncio. Devemos permanecer em tremor e temor no limiar do mistério.

A experiência íntima da Mãe do Senhor está oculta a nós. Ninguém jamais esteve apto a partilhar dessa experiência única, pela própria natureza do caso. Trata-se do mistério da pessoa. Isso explica a reticência dogmática da Igreja em relação à doutrina Mariológica. A Igreja fala dela mais numa linguagem de poesia devocional, numa linguagem de metáforas e imagens antinômicas. Não existe necessidade, nem motivo, para assumir que a Virgem Abençoada tenha realizado desde o início toda a plenitude e todas as implicações desse privilégio único concedido a ela pela graça de Deus. Não existe necessidade, nem motivo, para interpretar a “plenitude” da graça num sentido literal, incluindo aí todas as perfeições possíveis e toda a variedade dos dons espirituais particulares. A plenitude era para ela, ela estava cheia de graça. E, inclusive, tratava-se de uma plenitude “especializada”, a graça da Mãe de Deus, da Virgem Mãe, da “Noiva sem noivo”, Numjh anumjeuth. De fato, ela tinha seu próprio caminho espiritual, seu próprio crescimento na graça. O significado completo do mistério da salvação foi apreendido por ela gradativamente. E ela teve sua própria parte no sacrifício da Cruz: “Quanto a você, uma espada há de atravessar-lhe a alma[33]”. Somente na Ressurreição a luz brilhou com toda sua intensidade. Até esse momento, o próprio Jesus ainda não havia sido glorificado. É depois da Ascensão que encontramos a Virgem Abençoada entre os Doze, no centro da Igreja crescente. Um ponto está fora de dúvida. A Virgem Abençoada ficou para sempre marcada, se podemos nos exprimir assim, pela saudação angélica, pela anunciação e pelo surpreendente mistério do nascimento virginal. Como poderia ela não ter sido marcada? Mais uma vez, o mistério de sua experiência se oculta a nós. Mas podemos nos esquivar a essa piedosa suposição sem trair o próprio mistério? “Maria, porém, conservava todos esses fatos, e meditava sobre eles em seu coração[34]”. Sua vida interior estava concentrada nesse evento crucial de sua história. Pois, de fato, o mistério da Encarnação foi para ela também o mistério de sua própria existência. Sua situação existencial era única e peculiar. Ela tinha que se adequar à dignidade sem precedentes dessa situação. Talvez seja aí que reside a essência de sua dignidade particular, que é descrita como “Sempre Virgem”. Ela é a Virgem. Ora, a virgindade não consiste simplesmente numa condição corpórea ou numa configuração física em si. Acima de tudo está uma atitude espiritual e interior, e, fora dessa, a condição corporal seria totalmente desprovida de sentido. O título de Sempre Virgem significa certamente mais do que uma afirmação “fisiológica”. Ele não se refere apenas ao nascimento virginal. Ele não implica apenas uma exclusão de qualquer intercurso marital posterior (que, aliás, seria por completo inconcebível se de fato crermos no nascimento virginal e na Divindade de Jesus). Em primeiro lugar, ele exclui todo e qualquer envolvimento “erótico”, todo e qualquer desejo ou paixão egoísta e sensual, toda e qualquer dissipação do coração e da mente. A integridade corporal, ou a incorrupção, não passam de um sinal exterior de uma pureza interior. O ponto em questão é precisamente a pureza de seu coração, essa condição indispensável para “ver a Deus”. Trata-se da libertação em relação às paixões, da verdadeira apaqeia, que sempre foi descrita como a essência da vida espiritual. A liberdade em relação às paixões e desejos constitui a epiqumia, a impermeabilidade aos maus pensamentos, conforme São João Damasceno coloca. Sua alma era governada apenas por Deus (Qeogubernhton), ela estava supremamente ligada a Ele. Todo seu desejo estava voltado para dignas de desejo e afeição – São João diz tetammenh, atraída, inclinada. Ela não tinha paixões, qumon. Ela preservou para sempre a virgindade ne mente, na alma e no corpo[35]. Tratava-se de uma orientação imperturbável de toda sua vida pessoal para Deus, uma autodedicação completa. Ser verdadeiramente a “serva do Senhor” significa exatamente ser sempre-virgem, e não possuir nenhuma preocupação carnal. A virgindade espiritual é imaculada, sem pecado, mas ainda não consiste na “perfeição”, e não liberta das tentações. Mesmo o Senhor esteve, nesse sentido, sujeito às tentações, e foi realmente tentado por Satanás no deserto. Talvez nossa Senhora tenha também tido suas tentações, mas ela as superou com sua firma confiança no chamado de Deus. Mesmo o amor materno comum culmina numa identificação espiritual com a criança, que tantas vezes implica o sacrifício e a autonegação. Nada menos do que isso deve ser entendido no caso de Maria: seu Filho seria grande e iria ser chamado de Filho do Altíssimo[36]. Obviamente, Ele era “o que estava por vir”, o Messias[37]. Isso é especificamente professado por Maria no Magnificat, um hino de louvor e ação de graças. Maria não poderia ter deixado de se dar conta disso, ainda que fracamente, por algum tempo, e gradualmente, na medida em que ela ponderava todas as gloriosas promessas em seu coração. Esse era o único caminho concebível para ela. Ela teve que ser absorvida por esse pensamento único, numa confiança obediente ao Senhor “que viu a baixeza de Sua serva” e “fez grandes coisas [por ela]”. É exatamente assim que São Paulo descreve o estado e o privilégio da virgindade: “a mulher solteira e a virgem meditam nas coisas do Senhor, a fim de serem santas de corpo e espírito[38]”. O clímax dessa aspiração virginal constitui a santidade da Virgem Mãe puríssima e imaculada.

O Cardeal Newman, em seu admirável “Carta ao Ver. E. B. Pusey, D. D., por ocasião de seu Eirenicon[39]” (1865), diz com acerto: “A Teologia se ocupa de assuntos sobrenaturais, e está sempre caminhando entre mistérios que a razão não é capaz de explicar nem resolver. Suas linhas de pensamento chegam a um fim abrupto, e tentar prosseguir com elas equivale a mergulhar no abismo. Santo Agostinho nos alerta a esse respeito, dizendo que se tentarmos unir as pontas de duas linhas que se estendem ao infinito, só entraremos em contradição conosco mesmos”. É de geral acordo que as considerações definitivas que determinam uma verdadeira avaliação de quaisquer pontos específicos da tradição Cristã, são doutrinais. Nenhum argumento puramente histórico, seja da antiguidade, seja esquecido, poderá ser decisivo. São sempre objeto de escrutínios teológicos ulteriores e de revisão segundo a perspectiva da fé Cristã tomada em sua totalidade. A questão definitiva é simplesmente essa: somos realmente capazes de conservar a fé na Bíblia e na Igreja, aceitamos e recitamos o Credo Católico exatamente no sentido em que ele foi desenhado e no qual se supõe seja entendido, realmente acreditamos na verdade da Encarnação? Permitam-me citar Newman mais uma vez: “Eu já disse antes, quando trabalhamos essa ideia, que Maria gerou, amamentou e carregou nos braços o Eterno em forma de um menino, e assim, qual é o limite concebível para o dilúvio de pensamentos que essa doutrina envolve? Quanto espanto e surpresa devemos esperar desse conhecimento, do fato de que uma criatura tenha chegado tão perto da Essência Divina?[40]”. Felizmente, o teólogo Católico não está abandonado à lógica e à erudição. Ele é conduzido pela fé: credo ut intelligam. A fé ilumina a razão. E a erudição, a memória do passado, é impulsionada pela experiência contínua da Igreja. O teólogo Católico é guiado pelo ensinamento sob a autoridade da Igreja, por sua tradição viva. Mas, acima de tudo, ele próprio vive na Igreja, que é o Corpo de Cristo. O mistério da Encarnação, podemos dizer, continua a ser representado na Igreja, e suas “implicações” são reveladas e abertas à experiência devocional e à participação sacramental. Na Comunhão dos Santos, que é verdadeiramente a Igreja Católica e Universal, o mistério da Nova Humanidade é revelado como uma nova situação existencial. E nessa perspectiva e nesse contexto vivo do Corpo Místico de Cristo a pessoa da Abençoada Virgem e Mãe aparece em sua plena luz e glória. A Igreja a contempla agora num estado de perfeição. Ela agora é vista inseparavelmente unida ao seu Filho, que “está sentado à direita do Pai”. Para ela, a consumação da vida já chegou, como uma antecipação. “Foste além da Vida, tu que és a Mãe da Vida”, reconhece a Igreja, “nenhum sepulcro ou morte teve poder sobre a Mãe de Deus (...) pois a Mãe da Vida veio à Vida por Aquele que habitou em seu seio eternamente virgem[41]”. Mais uma vez, não se trata tanto de uma recompensa celestial por sua pureza e virtude, mas de uma “implicação” por seu ofício sublime, por ser a Mãe de Deus, Theotokos. A Igreja Triunfante é, acima de tudo, a Igreja de adoração, e sua existência constitui uma participação no ofício de intercessão de Cristo e no Seu amor redentor. A incorporação a Cristo, que constitui a essência da Igreja e de toda a existência Cristã, é, antes de qualquer coisa, uma incorporação ao seu amor sacrificial pela humanidade. E existe aqui um lugar especial para aquela que está unida ao Redentor pela íntima e única afeição e devoção maternal. A Mãe de Deus é verdadeiramente a mãe comum a todos os vivos, a toda a raça Cristã, nascida ou renascida no Espírito e verdade. Uma identidade afetiva com a criança, consuma-se aqui em sua perfeição última. A Igreja não dogmatiza muito respeito desses mistérios de sua própria existência. Pois o mistério de Maria é precisamente o mistério da Igreja. Mater Ecclesia e Virgo Mater, ambas deram nascimento à Nova Vida. E ambas são orantes. A Igreja convida o fiel e o ajuda a crescer espiritualmente nesses mistérios da fé que são também os mistérios de sua própria existência e de seu destino espiritual. Na Igreja o fiel aprende a contemplar e a adorar o Cristo vivo, junto com toda a assembleia e a Igreja do Primogênito, que está inscrita no céu[42]. E nessa assembleia gloriosa ele distingue a eminente pessoa da Virgem Mãe do Senhor e Redentor, cheia de graça e amor, de caridade e compaixão – “Mais venerável que os Querubins, e mais gloriosa que os Serafins, que ilibadamente deste à luz o Verbo de Deus”. À luz dessa contemplação e no espírito de fé, o teólogo deve realizar seu ofício de interpretar aos fiéis e aos que buscam a verdade, o mistério insuperável da Encarnação. Esse mistério continua a ser simbolizado, como o era no tempo dos Padres, por um nome simples e glorioso: Maria, Theotokos, a Mãe do Deus Encarnado.



[1] Epístola 101.
[2] Por Orígenes, por exemplo, cf. Sócrates, Hist. Eccl., VII, 32, e nos textos preservados em séries, como In Lucam Hom. 6-7, ed. Rauer, 44. 10 e 50. 9.
[3]  (inglês) Unscriptural word.
[4] (inglês) Shibbollet.
[5] De Fide Orth., III, 12.
[6] De Incarnatione, liv. V, cap. 15.
[7] Ou gar anqrwpon yilon ... ala Qeon alhqinon.
[8] Ou gumnon, ala sesapkwmenon.
[9] De Fide Orth. III, 12.
[10] Docetismo (do grego δοκέω, "para parecer") é o nome dado a uma doutrina cristã do século II, considerada herética pela Igreja primitiva. Antecedente do gnosticismo, acreditavam que o corpo de Jesus Cristo era uma ilusão, e que sua crucificação teria sido apenas aparente.
[11] “...e habitou entre nós” (João 1: 14).
[12] Gálatas 4: 4.
[13] De Fide Orth. III, 12.
[14] Lucas 1: 30.
[15] I Coríntios 15: 47.
[16] João 1: 13. Esse versículo se refere tanto à Encarnação quanto à regeneração batismal.
[17] Lucas 1: 35.
[18] Adv. Haeres, III, 18, 1: longam hominum expositionem in se ipso recapitulavit.
[19] III, 22, 3.
[20] IV, 23, 4.
[21] V, 1, 3.
[22] III, 22, 4.
[23] Tropário da Festa da Natividade de nossa Senhora.
[24] Tropário da Festa da Anunciação.
[25] Diálogos, 100.
[26] V, 19, 1.
[27] III, 22, 34.
[28] De Agone Christ., 24.
[29] Epist. 22.
[30] Lucas 1: 30-33.
[31] Coletânea de Sermões e Discursos do Metropolita Filarete de Moscou, pg. 187, Paris, 1866.
[32] Cf. Santo Irineu, Adv. Haeres., III, 21, 8: “Maria cooperou com a economia”.
[33] Lucas 2: 35.
[34] Lucas 2: 19.
[35] Kai nw, kai yuch, kai swmati aeiparweneuousan (Homil. 1, in Nativitatem B.V. Mariae 9 e 5, Migne, Ser. Ger. XCVI 676A e 668C.
[36] Lucas 1: 32.
[37] Lucas 7: 19.
[38] I Coríntios 7: 34.
[39] Difficulties felt by Anglicans in Catholic Teaching, 5th ed., page 430.
[40] Op. cit., pg 431.
[41] Tropário e Kondakion para a festa da Assunção da Virgem Maria, koimhsis.
[42] CF. Hebreus 12: 23.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Georges Florovsky - Criação e Redenção - VI. As Dimensões da Redenção







Cur Deus Homo?
O motivo da Encarnação.

“Eu sou o Alfa e o Ômega”.
(Apocalipse 1: 8)

I

Desde o princípio, a mensagem Cristã foi uma mensagem de Salvação, e, de acordo com isso, nosso Senhor foi retratado basicamente como um Salvador, que veio para redimir Seu povo da escravidão do pecado e da corrupção. O próprio fato da Encarnação era usualmente interpretado, na teologia do Cristianismo primitivo, a partir de uma perspectiva de Redenção. As concepções equivocadas a respeito da Pessoa de Cristo, contra as quais a Igreja primitiva teve que lutar, foram criticadas e refutadas precisamente porque tendiam a solapar a realidade da Redenção humana. Era de opinião geral que o próprio sentido da Salvação estava em que a união íntima entre Deus e o homem havia sido restaurada, e isso se inferia devido a que o Redimido tinha que permanecer imutável de ambos os lados, ou seja, que Ele, em primeiro lugar, era tanto Divino como humano, pois, de outro modo, a comunhão entre Deus e o homem, que havia se partido, não poderia ser restabelecida. Essa foi a principal linha de raciocínio de Santo Atanásio em sua contenda com os Arianos, de São Gregório de Nazianze em sua refutação ao Apolinarianismo, e ainda de outros escritores dos séculos IV e V. “Pois é salvo aquilo que está unido a Deus”, disse São Gregório de Nazianze. O aspecto redentor e o impacto da Encarnação eram enfaticamente reforçados pelos Padres. O propósito e o efeito da Encarnação eram definidos precisamente como a Redenção do homem, e sua restauração às condições originais que haviam sido destruídas pela queda e o pecado. O pecado do mundo foi ab-rogado e eliminado pelo Único Encarnado, e somente Ele, por ser a um tempo Divino e humano, poderia tê-lo feito. Por outro lado, seria injusto afirmar que os Padres viam o propósito redentor como a única razão para a Encarnação, de maneira a que ela não teria acontecido caso o homem não houvesse pecado. Essa questão, assim colocada, nunca foi desenvolvida pelos Padres. A questão a respeito do motivo último da Encarnação nunca foi discutida na era Patrística. O problema da relação entre o mistério da Encarnação e o propósito original da Criação nunca foi colocado pelos Padres; eles jamais elaboraram esse ponto sistematicamente. “Talvez seja verdadeiro dizer que o pensamento de uma Encarnação independente da Queda se harmonize com o teor geral da teologia Grega. Algumas frases patrísticas parecem implicar que esse pensamento tenha aparecido aqui e ali, e talvez mesmo, tenha sido discutido[1]”. Mas essas “frases patrísticas” nunca foram coletadas e examinadas. De fato, os mesmos Padres se expressaram a favor de opiniões opostas. Não é o bastante reunir frases, retirando-as de seu contexto e ignorando o propósito, muitas vezes polêmico, por cuja razão tenham sido escritas. Muitas dessas “frases patrísticas” eram colocações “ocasionais”, e só é possível empregá-las com grande cuidado e precaução. Seu significado específico só pode ser alcançado quando lidas dentro do contexto, vale dizer, a partir da perspectiva do pensamento de cada escritor em particular.


II

Rupert de Deutz (1075-1129) parece ter sido o primeiro dentre os teólogos medievais a levantar formalmente a questão do motivo da Encarnação, e sua posição era de que a Encarnação pertencia ao desígnio original da Criação e que, portanto, era independente da Queda. Em sua interpretação, a Encarnação constituía a consumação do propósito criativo de Deus, um objetivo em si e não meramente um remédio redentor para a falha humana. Outro teólogo, o alemão Honorius de Autun (1080-1151) tinha a mesma convicção. Os grandes doutores do século XIII, como Alexandre de Hales (1185-1245) e Albert Magnus (1193-1280), admitiam a ideia de uma Encarnação independente da Queda, como a solução mais conveniente para o problema. Duns Scotus (1266-1308) foi quem elaborou toda a concepção com grande cuidado e consistência lógica. Para ele a Encarnação independente da Queda era não apenas a assumpção mais conveniente, como também uma pressuposição doutrinal indispensável. Para ele, a Encarnação do Filho de Deus era a verdadeira razão de toda a criação. De outro modo, essa suprema ação de Deus teria sido algo meramente acidental, ou “ocasional”. “Mais uma vez, se a Queda fosse a causa da predestinação de Cristo, seguir-se-ia daí que a maior obra de Deus seria não mais do que ocasional, pois a glória de tudo não seria tão intensa como a de Cristo, e pareceria irrazoável pensar que Deus tivesse renunciado a essa obra por causa das boas ações de Adão, caso este não houvesse pecado”. Para Duns Scotus, toda a questão residia precisamente na ordem da “predestinação” ou propósito divino, isso é, na ordem dos pensamentos no Divino conselho da Criação. Cristo, o Encarnado, foi o primeiro objeto da vontade criativa de Deus, e foi por causa de Cristo que todo o resto foi criado. “A Encarnação de Cristo não foi prevista ocasionalmente, mas foi vista como um fim imediato por Deus desde a eternidade; assim, falando a respeito de coisas que foram predestinadas, Cristo, em sua natureza humana, foi predestinado antes do que tudo, uma vez que é Ele quem está mais próximo do fim”. Essa ordem dos “propósitos” ou das “previsões” era, evidentemente, apenas lógica. A ênfase principal de Duns Scotus estava no caráter incondicional e primordial do decreto Divino da Encarnação, visto dentro da perspectiva total da Criação. Tomás de Aquino (1225-1274) também discutiu extensamente a questão. Ele viu o peso total dos argumentos em favor da opinião de que, mesmo independente da Queda, “Deus teria se tornado Encarnado”, e citou a frase de Santo Agostinho: “na Encarnação de Cristo, mais coisas devem ser consideradas além da absolvição do pecado[2]”. Mas Aquino não pôde encontrar, nem na Escritura, nem nos textos Patrísticos, um testemunho definitivo dessa Encarnação independente da Queda, e assim ele se inclinou a acreditar que o Filho de Deus não teria se encarnado se o primeiro homem não tivesse pecado: “Ainda que Deus pudesse se encarnar independentemente da existência do pecado, não obstante seria mais apropriado dizer que, se o homem não houvesse pecado, Deus não teria se tornado encarnado, dado que na Sagrada Escritura a razão da Encarnação está no pecado do primeiro homem”. O mistério insondável da vontade Divina só pode ser compreendido pelo homem se for plenamente atestado pela Sagrada Escritura, “somente na medida em que essas coisas são transmitidas pela Sagrada Escritura”, ou, como diz Aquino em outra parte, “somente quando informadas pela autoridade dos santos, a quem Deus revelou Sua vontade”. Somente Cristo conhece a resposta certa para essa questão: “A verdade a respeito disso somente Ele a conhece, Ele que nasceu e que não erra, porque também Ele o quis”. Boaventura (1221-1274) sugeriu a mesma cautela. Comparando as duas opiniões – uma a favor da Encarnação independente da Queda, a outra dependente dela – ele concluiu: “Ambas as opiniões excitam a alma à devoção por meio de diferentes considerações: a primeira, é verdade, é mais condizente com o julgamento da razão; mas a segunda parece ser mais agradável à piedade da fé”. É preciso confiar mais no testemunho direto das Escrituras do que nos argumentos da lógica humana. De modo geral, Duns Scotus foi seguido pela maior parte dos teólogos da Ordem Franciscana, e por muitos fora dela, como, por exemplo, Dionysius Carthusianus, Gabriel Biel, John Wessl, e, por ocasião do Concílio de Trento (1545-1563), por Giacomo Nachianti, Bispo de Chiozza, bem como por alguns dos primeiros Reformadores, como Andreas Osiander. Essa opinião recebeu forte oposição de outros, não apenas dos Tomistas radicais, e todo o problema foi muito discutido, tanto por Católicos Romanos como por teólogos Protestantes ao longo do século XVII. Dentre os defensores Católicos Romanos do decreto absoluto da Encarnação podemos mencionar especialmente Francisco de Sales e Malebranche. Esse último insistiu fortemente na necessidade metafísica da Encarnação, praticamente independente da Queda, pois, caso contrário – afirmava – não haveria razão adequada, nem propósito para o ato da Criação em si. A controvérsia prossegue entre os teólogos Católicos Romanos, algumas vezes acalorada e vigorosamente, e a questão não ficou resolvida. Dentre os Anglicanos, no último século, o Bispo Westcott arguiu uma “motivação absoluta”, em seu admirável ensaio “O Evangelho da Criação”. Mais recentemente, o Padre Sergei Bulgakov foi de opinião de que a Encarnação deveria ser vista como um decreto absoluto de Deus, anterior à catástrofe da Queda.


III

No decurso dessa longa discussão, um apelo recorrente foi feito ao testemunho dos Padres. Estranhamente, o item mais importante foi deixado de lado nessa antologia de citações. Uma vez que a questão do motivo da Encarnação nunca foi formalmente levantada durante a era Patrística, muitos dos textos empregados nas discussões ulteriores não forneceram nenhuma orientação direta. São Máximo o Confessor (580-662) parece ter sido o único dos Padres que estava diretamente preocupado com o problema, embora não da mesma maneira que os teólogos do Ocidente. Ele colocou claramente que a Encarnação devia ser vista como um propósito absoluto e primário de Deus no ato da Criação. A natureza da Encarnação, dessa união da majestade Divina com a fraqueza humana, permanece um mistério insondável, mas podemos pelo menos captar a razão e o propósito desse mistério supremo, seu logos e seu skopos. E essa razão original, esse propósito último, na opinião de São Máximo, era precisamente a Encarnação em si e nossa consequente incorporação ao Corpo do Encarnado. As frases de São Máximo são diretas e claras. Nas Questio ad Thalassium, existe um comentário a I Pedro 1: 19-20: “Cristo era como um cordeiro sem inculpável e imaculado, que havia sido predestinado desde a fundação do mundo”. Agora, a questão é: São Máximo começa por sumarizar brevemente o verdadeiro ensinamento a respeito da Pessoa de Cristo, e então prossegue: “Esse é o fim abençoado, por cuja causa todas as coisas foram criadas. Esse é o propósito Divino, que foi pensado desde o início da Criação, e ao qual denominamos como a plenitude almejada. Toda a criação existe tendo em vista essa plenitude, mas essa plenitude não existe em função de nada que tenha sido criado. Uma vez que Deus teve totalmente em vista esse fim, então Ele produziu as naturezas das coisas. Esse é verdadeiramente o cumprimento da Providência e de todo o planejado. Através disso existe uma recapitulação a Deus daquilo que foi criado por Ele. Esse é o mistério que circunscreve todas as eras, o maravilhoso plano de Deus, acima do infinito e infinitamente pré-existente às eras. O Mensageiro, que é essencialmente Ele próprio o Verbo de Deus, se tornou homem tendo em vista essa realização. E devemos dizer que foi Ele próprio que restaurou as profundezas mais interiores manifestadas da bondade ordenada pelo Pai; e Ele revelou a plenitude em Si próprio, por quem a criação recebeu o começo de sua verdadeira existência. Pois foi por causa de Cristo, vale dizer, por causa do mistério referente a Cristo, que todo o tempo e tudo o que existe no tempo teve sua existência, do começo ao fim, em Cristo. Pois antes do tempo existiu secretamente uma determinação da união das eras, do determinado com e Indeterminado, do mensurável com o Incomensurável, do finito com o Infinito, da criação com o Criador, do movimento com o repouso – uma união que foi tornada manifesta em Cristo nos últimos dias[3]”. É preciso distinguir cuidadosamente entre o ser eterno do Logos, no seio da Santa Trindade, e a “economia” da Encarnação. A “previsão” se refere precisamente à Encarnação. “Dessa maneira Cristo estava previsto, não tal como Ele era de acordo com Sua natureza, mas como mais tarde ele viria a aparecer encarnado para nossa salvação de acordo com a economia final[4]”.  A “absoluta predestinação” de Cristo é aludida aí com toda clareza. Essa convicção estava em total acordo com o teor geral do sistema teológico de São Máximo, e ele voltou a esse problema diversas vezes, tanto em respostas a Thalassius como em sua Ambigua. Por exemplo, em conexão com Efésios 1: 9, São Máximo diz: “[por Sua Encarnação e por nossa era] Ele nos mostrou o propósito pelo qual fomos feitos e a enorme boa vontade de Deus para conosco antes das eras[5]”. Por sua simples constituição o homem antecipa em si “o grande mistério do propósito Divino”, a consumação última de todas as coisas em Deus. Para São Máximo, toda a história da Divina Providência está dividida em dois grandes períodos: o primeiro culmina com a Encarnação do Logos, e constitui a história do rebaixamento Divino (a condescendência, “através da Encarnação”); o segundo é a história da ascensão humana à glória da deificação, como se fosse uma extensão da Encarnação a toda a criação. “Dessa forma, podemos dividir o tempo em duas partes de acordo com seu desígnio, e podemos distinguir cada uma das eras relativamente ao mistério da Encarnação do Divino, e as eras concernentes à deificação do humano pela graça (...) Resumidamente: tanto as eras que se referem à descida de Deus ao homem, como as que começam com a ascensão do homem a Deus (...) Ou, para expressar melhor, o começo, o meio e o fim de todas as eras, as que já se foram, as do tempo presente e aquelas que ainda virão, tudo isso é nosso Senhor Jesus Cristo[6]”. Na visão de São Máximo, a consumação última está ligada com a vontade e o propósito primordiais criadores de Deus, e assim toda sua concepção é estritamente “teocêntrica”, ao mesmo tempo de também é “Cristocêntrica”. Mas, claramente, em sentido algum isso obscurece a triste realidade do pecado, da absoluta miséria da existência pecadora. A grande ênfase é colocada por São Mácimo na conversão e na limpeza da vontade humana, na luta contra as paixões e o mal. Mas ele vê a tragédia da Queda e a apostasia do criado a partir de uma perspectiva mais ampla do plano original da Criação.


IV

Qual é o verdadeiro peso do testemunho de São Máximo? O que existe aí além de uma “opinião pessoal”, e onde repousa a autoridade de tal “opinião”? É bastante claro que, em relação à “motivação” primeira e última da Encarnação, nada além de uma resposta “hipotética” (ou “conveniente”) pode ser dada. Mas muitas afirmações doutrinais são precisamente afirmações hipotéticas, ou “teologúmenas”. E parece que a “hipótese” de uma Encarnação independente da Queda é, no mínimo, possível dentro do sistema da teologia Ortodoxa, e se encaixa bastante bem na principal linha do ensinamento Patrístico. Uma resposta adequada para a questão do “motivo” da Encarnação pode ser dada apenas dentro do contexto da doutrina geral da Criação.




[1] A frase é do Bispo Anglicano Brooke Foss Westcott, em “O Evangelho da Criação”, 1892 (NT).
[2] De Trinitate, XIII, 17.
[3] P.G. XC, 621, A-B.
[4] P.G., XC, 624D.
[5] P.G., 1097C.
[6] P.G., XC, 320 B-C.