quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Arquimandrita Placide Deseille - A Prece de Jesus na espiritualidade hesiquiasta

Nos últimos trinta anos, um grande número de publicações tem revelado aos Ocidentais um método de vida espiritual familiar aos cristãos do Oriente, e cuja peça mestra consiste na invocação repetida sem cessar: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador”.

É deliberadamente que falamos de método de vida espiritual: pois a Prece de Jesus não pode ser considerada como uma simples oração jaculatória comparável àquelas que a piedade católica recomenda, ainda que o método ocidental das “aspirações” possa se ligar ao mesmo veio tradicional que remonta aos Padres do deserto. Mas a Prece de Jesus é inseparável de uma doutrina de vida espiritual que os cristãos bizantinos e eslavos consideram de bom grado como o coração da ortodoxia: o Hesiquiasmo. Assim, é indispensável conhecer as grandes linhas desta doutrina, se quisermos captar o significado e o alcance da invocação do Nome de Jesus na espiritualidade ortodoxa.

1.       As origens do método

A via hesiquiasta repousa sobre um duplo fundamento: a doutrina da deificação do homem em Cristo, tal como os Padres da Igreja grega a formularam, e o ensinamento prático dos Padres do deserto sobre a guarda do coração e a prece contínua.

Confrontados com as heresias trinitárias e cristológicas, os grandes bispos e os teólogos do Oriente elaboraram uma doutrina que não era apenas especulativa, mas que carregava em si profundamente uma concepção do destino espiritual do homem. Como eles repetiram incansavelmente diante dos negadores da consubstancialidade do Verbo ou das duas naturezas de Cristo, se o Verbo não é Deus, o homem não pode ser divinizado; se uma natureza humana integral não estiver unida “sem separação nem confusão” à natureza divina em Cristo, o homem tampouco pode ser salvo e divinizado. Essa divinização deve ser concebida de uma maneira extremamente realista, sem dúvida não como uma união hipostática de cada pessoa humana com a essência divina, mas como uma co-penetração vital do agir humano pelo agir incriado de Deus, segundo o modelo e no prolongamento da deificação da natureza humana em Cristo.

As controvérsias cristológicas que levaram os Padres a trazer à luz o papel soteriológico da carne de Cristo, tiveram ainda duas consequências, aliás conexas. De um lado, o pensamento bizantino tomou cada vez mais consciência, no encontro das tendências espiritualistas que o cristianismo alexandrino herdara do helenismo, que o homem é salvo como um todo: a deificação não está reservada apenas à alma, mas se estende ao próprio corpo, como foi manifestado pelo esplendor corporal de Cristo no Tabor. Por outro lado, a importância dos signos sacramentais e litúrgicos, que prolongam até nós a ação deificadora da carne de Cristo, foi percebida mais vivamente. As catequeses batismais dos Padres nos transmitiram os primeiros ecos dessa mística sacramental, que permaneceria como uma das constantes da espiritualidade oriental.


Nos meios monásticos primitivos, a doutrina da deificação do homem estava também presente, mas aparecia sobre uma luz um pouco diversa. A ênfase estava menos nos fundamentos cristológicos e sacramentais do que sobre seu aspecto experimental. O santo monge, o abba do deserto, era um homem deificado, pneumatóforo, através de quem a presença do Espírito na criatura se manifestava visivelmente; no secreto da prece, ele fazia a experiência dessa Presença que transfigurava seu ser. Mas essa experiência deificante requeria previamente longos combates de ascese, a guarda do coração, a assiduidade na prece. A tentação fácil era de confundir a divinização do cristão pela graça, com a experiência mística, e mesmo com as suas contrafações sutis ou grosseiras; era ainda desconhecer o valor insubstituível dos sacramentos, cujos efeitos não são imediatamente perceptíveis, para não reconhecer senão a eficácia do esforço ascético, ou das técnicas de oração que favoreciam uma exaltação mística de má qualidade. A barreira foi rompida nos círculos monásticos tocados pela heresia messaliana, em que a autêntica experiência da doçura de Deus se colocava ao lado das mais perigosas aberrações.

Foi a obra de mestres espirituais do século V – notadamente Marcos o Eremita e Diádoco de Foticéia – que separou o trigo do joio e formulou uma doutrina na qual a experiência mística autêntica, livre de suas contrafações imaginativas, seria reconhecida como o desenvolvimento normal da graça batismal, mas onde a vida sacramental e litúrgica estivesse colocada na base de toda a obra de salvação.

Marcos o Eremita escreveu: “Aqueles que foram batizados em Cristo receberam misticamente a graça, mas esta opera neles na medida em que eles cumprem os mandamentos (...) Todos os que foram batizados na fé ortodoxa receberam misticamente a graça. Mas a certeza só pode ser obtida mais tarde, exercendo os mandamentos”.

A “certeza” (plerophoria), a “operação” da graça, designam aqui o aspecto experimental da divinização, o saborear a Deus, o saborear as coisas de Deus; a “prática dos mandamentos” é desde Evagro o Pôntico o termo técnico para designar o conjunto do esforço ascético do homem, a cooperação de sua liberdade com a obra da graça. Diádoco de Foticéia, utilizando a distinção frequente que os Padres faziam entre a “imagem” e a “semelhança” de Deus no homem, descreve assim os dois tempos da divinização: “Pelo batismo da regeneração, a santa graça nos confere dois bens, dos quais um ultrapassa infinitamente o outro. Ela nos outorga imediatamente o primeiro, ou seja, a imagem de Deus, apagando de nós todo traço de pecado. Quanto ao outro, ela espera nosso concurso para produzi-lo, e este é a semelhança. Então, quando o intelecto começa a experimentar, num sentimento profundo, a bondade do Espírito Santo, devemos saber que a graça começa, por assim dizer, a pintar a semelhança por sobre a imagem (...) assim, dia após dia, nosso homem interior se renova ao provar da caridade, e na perfeição desta ele encontra a sua plenitude”.

É no contexto dessa doutrina que a Prece de Jesus tomará lugar: ela se tornará, para toda a tradição hesiquiasta, o meio privilegiado para tomar consciência da presença de Cristo que habita em nossos corações desde o batismo; é por meio dela que se realizará a “prática dos mandamentos”.

Entre os Padres do deserto, o método preconizado para “realizar sua salvação”, vale dizer, para atingir o pleno desenvolvimento da vida espiritual, comportava dois elementos: de um lado, os “trabalhos corporais” – jejuns, vigílias, austeridades de todos os tipos, trabalho manual – e de outro a guarda do coração, que implicava simultaneamente um combate espiritual incessante contra os “pensamentos” – ou seja, as más sugestões semeadas no coração pelos demônios – e uma incansável assiduidade à prece. Consultado a respeito da importância relativa desses dois elementos, o Abade Agatão declarou: “O homem é semelhante a uma árvore: o labor corporal representa as folhas, enquanto que a guarda do interior é o fruto. Ora, a Escritura diz: “Toda árvore que não produz bons frutos será cortada e atirada ao fogo”. Fica assim manifesto que todo o nosso esforço deve se voltar para o fruto, a guarda do Espírito; mas também temos necessidade da cobertura e da vestimenta das folhas: é o trabalho corporal”.

Este será o ensinamento dos mestres do Hesiquiasmo: eles não cessarão de recomendar antes de tudo que estejamos atentos a nós mesmos, que penetremos em nosso coração; ou, segundo a expressão de São João Clímaco, devemos “circunscrever o incorporal (o espírito) no corpo”, ao invés de deixá-lo se dispersar no exterior.

Com efeito, o coração do homem, no sentido bíblico do termo, designa essa fonte secreta de onde procede a vida espiritual mais profunda, feita dessas inclinações espontâneas e desse sentido íntimo das coisas, que envolvem todo o seu ser. No batismo, esse coração é recriado pelo Espírito, que nele grava sua lei e que o penetra com sua unção; em outros termos, ele aí inscreve uma atração para o bem capaz de triunfar sobre todas as solicitações do mal, e um sentido de Deus e de seus mistérios em virtude do qual o cristão não deveria mais ter necessidade de qualquer ensinamento exterior, porque essa unção o instruiria a respeito de tudo[1]. Mas de fato, essas energias divinas estão no coração apenas no estado de germes que requerem a cooperação
(sinergia) da graça e de nossa liberdade para desabrochar numa orientação, que se torna espontânea, de todos os movimentos de nosso psiquismo para Deus (apatheia) e numa experiência intuitiva e saborosa da divina Presença (contemplação, theoria). Por outro lado, o batismo deixa subsistir em nós outras atrações, vestígios do pecado, que a graça nos dá o poder de combater, mas que permanecem temíveis. Se o home deixa seu espírito (ou seu intelecto, nous) escapar pelos sentidos do corpo e se dirigir sem controle para os objetos exteriores, ele fornecerá um alimento a essas tendências centrífugas, as despertará e se exporá a lhes dar seu consentimento. A presença dos objetos exteriores não é sequer necessária para tal: basta que, com a ajuda dos demônios, nasça na alma a lembrança de objetos capazes de nos trazer uma satisfação egoísta, e que a vontade ceda à paixão assim suscitada. Então o homem viverá numa espécie de sonho desperto, num mundo irreal onde o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, não serão mais avaliados senão em função de suas próprias tendências afetivas.

2.       A sobriedade espiritual e a invocação do Nome de Jesus

A essa perniciosa embriaguez espiritual, os Padres opõem a “sobriedade” e a vigilância já recomendadas por São Pedro num texto muitas vezes retomado pelos mestres do Hesiquiasmo: “Sejam sóbrios, vigiem. Sua parte contrária, o Diabo, como um leão que ruge, ronda, buscando devorá-los[2]”. A sobriedade espiritual (nepsis) consiste assim na atividade do espírito que vigia e luta para se manter mestre de si mesmo sob o assalto dos pensamentos que se esforçam para fazê-lo perder sua lucidez interior. Ela implica primeiramente uma atenção sem falhas e um discernimento do espírito que só pode ser substituído, entre os iniciantes, pela abertura ao Pai espiritual: “A sobriedade é uma sentinela imóvel e perseverante do espírito à porta do coração, e está ali para distinguir sutilmente aqueles que se apresentam, escutar seus propósitos, espiar as manobras destes inimigos mortais, reconhecer a marca demoníaca que tenta, por intermédio da imaginação, sequestrar nosso espírito. Essa obra bem realizada nos dará, se quisermos, a uma experiência excelente do combate interior”.

Mas a essa vigilância os Padres do deserto aconselham acrescentar a repetição de uma invocação, composta de uma única e breve fórmula – a “prece monológica”. Com esta prática, os pensamentos são destruídos pelo poder vitorioso de Cristo, que se faz presente tão logo é invocado; ao mesmo tempo, ela permite opor à “lembrança do mal” a “lembrança de Deus”, que designa entre nossos autores a tomada de consciência dessa atração divina e desse sentido íntimo das coisas de Deus inscritas na alma no momento do batismo.

Cassiano deu a este método uma formulação quase definitiva, embora não conhecesse ainda a invocação do Nome de Jesus: “Todo monge que visa a lembrança contínua de Deus deve se acostumar a murmurar interiormente e a repassar sem cessar em seu coração a fórmula que vou lhes dar, e com ela expulsar a multidão de outros pensamentos, pois ele não conseguirá se manter em oração sem se liberar de todos os cuidados e solicitações do corpo. Esta é a doutrina na qual fomos iniciados pelos raros sobreviventes dos mais antigos Padres, e que não transmitimos senão a alguns raros privilegiados, que tenham realmente sede de conhecê-la. Para conservar a lembrança de Deus, vocês devem sem cessar guardar presente em seu espírito esta fórmula santa: “Meu Deus, venha em meu auxílio; Senhor, apresse-se em me socorrer[3]”. Não é sem razão que este versículo foi escolhido em meio a toda a Santa Escritura. Ele permite todos os sentimentos que se possa conceber na natureza humana, e convém perfeitamente a todos os estados e a toda as tentações. Nele encontramos a invocação de Deus contra todos os perigos, a humildade de uma humilde e piedosa confissão, a vigilância que procede de uma atenção e de um temor contínuos, a consideração de nossa fragilidade, a confiança de sermos atendidos, a segurança de um socorro sempre presente e pronto a intervir. Pois aquele que invoca sem cessar seu Protetor está certo de tê-lo sempre presente”.

Os dois elementos fundamentais da Prece de Jesus já se encontram presentes neste texto notável: a humilde confissão de nossa miséria, a única que pode nos abrir para a graça, e na qual os Padres do deserto viam, por isso mesmo, a única via de salvação e a única ligação estreita estabelecida entre a invocação e a presença íntima do Senhor. Apesar disso, foi um progresso apreciável a introdução, na fórmula dessa prece monológica, do próprio Nome do Senhor Jesus.

Diádoco de Foticéia se apresenta como um dos primeiros testemunhos desta “invocação do Senhor Jesus”, que é também uma “meditação de seu santo e glorioso Nome”, dando a este termo de “meditação” seu sentido arcaico de ruminação de uma palavra ou de uma fórmula: “O intelecto exige absolutamente de nós, quando fechamos todas as suas saídas pela lembrança de Deus, uma obra que deve satisfazer sua necessidade de atividade. É preciso então dar-lhe o “Senhor Jesus”, como única ocupação a satisfazer inteiramente seu objetivo. De fato, está escrito que ninguém pode dizer “Senhor Jesus” se não for no Espírito Santo[4]. E que por todo o tempo ele contemple tão exclusivamente estas palavras dentre seus próprios tesouros, que ele não se desvie delas por nenhuma outra imaginação. Com efeito, todos os que meditam sem cessar na profundeza de seu coração este santo e glorioso Nome, verão por fim a luz de seu próprio intelecto. Pois, mantido com um estrito cuidado pelo pensamento, ele consome, num intenso sentimento, toda sujeira ou mancha que recobre a superfície da alma; e com efeito, nosso Deus, foi dito, é um fogo devorador[5]. Daí por diante, o Senhor solicitará da alma um grande amor por sua própria glória. Pois a partir do momento em que ele persiste, por intermédio da memória intelectual, no fervor do coração, este Nome glorioso e tão desejável implanta em nós o hábito de amar sua bondade sem que nada mais possa se opor a isto. Esta é a pérola preciosa que podemos adquirir vendendo todos os nossos bens, para usufruir, com sua descoberta, de uma alegria inefável”.

Diádoco indica aqui que o Nome de Jesus – assim como os versículos da Escritura que os antigos gostavam de ruminar numa meditação incessante – possui uma eficácia excepcional para despertar no coração o amor divino oculto nele, em virtude do batismo, como uma brasa sob as cinzas. Sob o choque da invocação, o gosto por Deus e pelas coisas de Deus se faz sentir e triunfa sobre as falsas doçuras do pecado. O espírito pode então “ver sua própria luz”, expressão de Evagro que designa a contemplação e significa que o espírito, ao tomar uma consciência experimental da inclinação que o empurra para Deus, prova alguma coisa do próprio Deus, porque essa atração é a manifestação da presença divinizante de Cristo e de seu Espírito no homem.

Mais adiante, Diádoco mostra a conexão íntima que deve se estabelecer entre a invocação formulada pelo espírito do homem e a aspiração do Espírito Santo que se deixa pouco a pouco experimentar no fundo do coração: “Então, com efeito, a alma se apropria da própria graça que medita e que clama com ela o ‘Senhor Jesus’, assim como uma mãe ensina a seu filhinho a palavra ‘pai’, repetindo-a com ele até que em lugar dos balbucios infantis a criança se habitue com este nome a ponto de chamar distintivamente por seu pai, mesmo dormindo. É por isso que o Apóstolo disse: “Da mesma forma, o Espírito vem em socorro de nossa fraqueza; pois nós não sabemos orar como se deve, mas o próprio Espírito intercede soberanamente por nós com gemidos inefáveis[6]”.

Este hábito da prece, que prossegue “mesmo dormindo”, é uma coisa bem diferente do que um simples reflexo automático criado pela repetição de um ato. Ele é o fruto de uma plenitude interior, de uma perfeita unificação de todas as energias da alma colocadas a serviço da caridade e animadas por ela. A constante lembrança de Deus, à qual os primeiros exercícios laboriosos da Prece de Jesus conduziram, resulta menos de uma sucessão de atos do que de um estado, de uma orientação do coração para Deus, que se torna espontânea e estável. Trata-se, como diz o Patriarca Calixto num curto tratado que se inclui entre os mais importantes da Filocalia, de “uma água viva que brota em jorro da alma como de uma fonte perpétua”. É ela que frequentava a alma de Inácio o Teóforo e que o fez dizer: “O que eu tenho em mim não é mais o fogo ávido de matéria, mas a água que opera e que fala”.

3.       A técnica corporal

O elemento fundamental do método hesiquiasta é, portanto, a prece monológica: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador”. Esta fórmula sem dúvida ainda não estava constituída em sua integralidade nos tempos de Diádoco de Foticéia, e poderia também ser abreviada “conforme as forças e o estado daquele que ora”; para alguns, ela se reduziria apenas ao Nome de Jesus.

Mas é preciso acrescentar à prática da invocação algumas condições mais exteriores. A primeira – a única que é mencionada explicitamente na tradição mais antiga – consiste no retiro para a solidão e o silêncio, longe de toda agitação mundana. E numa época bem mais tardia, muitos espirituais se dedicaram a demonstrar que os próprios leigos poderiam extrair grande benefício da Prece de Jesus. As origens do método não deixam de ser monásticas e contemplativas; ele foi criado por homens dedicados a dar testemunho absoluto de Deus e que viam na solidão o melhor auxiliar da hesíquia interior.

Gregório Palamas descreve assim o clima original da prática da Prece: “Quando o espírito se entrega à sua própria energia que consiste no retorno e na vigilância sobre si mesmo, quando, por meio desta energia, ele transcende a si mesmo, então ele pode se unir a Deus. Eis porque aquele que deseja apaixonadamente viver com Deus foge da vida sujeita à condenação. Este escolhe a vida monástica, estranha ao casamento, ele deseja habitar sem preocupações nem perturbação no santuário da hesíquia, longe de toda relação exterior. Ali ele desliga sua alma, na medida do possível, de todos os laços materiais e une seu espírito à prece ininterrupta a Deus. Por meio dela ele se concentra inteiramente em si mesmo e contra um meio novo e misterioso para subir aos céus; ali está o que podemos chamar da impalpável treva do silêncio iniciador”.

A tradição hesiquiasta acrescentou mais tarde à vida retirada uma determinada postura corporal e um certo controle da respiração. As primeiras descrições escritas sistemáticas que chegaram até nós datam do século XIII, mas diversos indícios permitem pensar que esse método psicofísico existia, ao menos num estado rudimentar, numa época muito mais recuada. A absoluta necessidade do controle de um Pai spiritual experiente justifica o caráter primeiramente oral da tradição a este respeito; as próprias exposições literárias, aliás, nunca pretenderam substituir a iniciação viva, e sempre permaneceram incompletas.

Gregório Palamas, que defendeu o método contra as acusações fáceis de seus adversários, comenta o seguinte a respeito: “Veja, irmão: João Clímaco mostrou que basta examinar o problema de um modo humano, nem ainda espiritual, para ver que é absolutamente necessário recolocar e manter o espírito no interior do corpo, quando decidimos pertencer verdadeiramente a nós mesmos e nos tornamos monges merecedores deste nome, segundo o homem interior. Por outro lado, não é fora de cabimento ensinar, sobretudo aos iniciantes, a olhar para si mesmos e a enviar seu espírito para dentro de si por meio da inspiração. Um homem sensato não proibiria, com efeito, a ninguém, que reunisse em si mesmo, por meio de determinados processos, seu espírito, ainda que este não seja capaz de contemplar a si próprio. Os que começaram a empreender essa luta veem constantemente seu espírito lhes fugir; com dificuldade eles o trazem de volta; eles precisam reconduzi-lo a si próprios continuamente; na sua inexperiência, eles não se dão conta de que nada no mundo é mais difícil de contemplar, nem mais móvel do que o espírito. É por isso que alguns recomendam controlar o vaivém da sopro e retê-lo um pouco, a fim de reter também o espírito, vigiando a respiração até que, com a ajuda de Deus, haja progresso suficiente para proibir o espírito de vagar pelo entorno, e que, com ele purificado, seja possível conduzi-lo verdadeiramente a um recolhimento unificado. Podemos constatar que este é um efeito espontâneo da atenção do espírito, pois o vaivém do sopro se torna apaziguado depois de uma reflexão intensa, sobretudo nos que se encontram em repouso de corpo e espírito”.

Palamas prossegue: “Quem busca fazer seu espírito retornar a si mesmo a fim de empurrá-lo, não num movimento em linha reta – para o exterior – mas num movimento circular e infalível – do retorno sobre si mesmo – ao invés de passear seu olhar por aí, como não tirará esta pessoa o maior proveito em fixar os olhos sobre seu peito ou seu umbigo, como sobre um ponto de apoio? Pois ele não apenas se recolherá exteriormente sobre si mesmo, tanto quanto lhe seja possível, em conformidade com o movimento interior que ele busca para seu espírito, mas ainda, impondo tal postura ao seu corpo, ele enviará para o interior do coração o poder do espírito que de outro modo escoaria pela vista em direção ao exterior”.

Essa disciplina corporal está fundamentada em definitivo sobre a concepção bíblica do composto humano. É todo o ser que deve participar da vida espiritual, porque é todo o ser, corpo e alma, que deve receber a salvação. A mentalidade bíblica, junto com a experiência tradicional, tornou os mestres espirituais do Oriente cristão atentos para não dissociar o espírito do corpo e a simbolizar as atitudes da alma por meio de gestos corporais, a fim de permitir “a integração harmoniosa de todo o nosso ser em sua subida para Deus”. E quaisquer que tenham sido os exageros ou as simplificações perigosas que atingiram o método hesiquiasta em algumas ocasiões, eles sabiam ao menos que seu método não poderia desempenhar mais do que uma função puramente instrumental, diante de uma experiência que sempre permaneceu em sua essência como um dom da graça: “É a graça divina que coroa a invocação monológica dirigida a Jesus Cristo com uma fé viva, com toda pureza, sem distrações, pelo coração. Não é o efeito puro e simples do método natural da respiração praticada num local tranquilo e escuro. Não. Os santos Padres, ao inventar este método, não tinham em vista mais do que um auxílio, se posso dizê-lo, para recolher o espírito, para retirá-lo de sua distração habitual e fazê-lo buscar a atenção. Graças a essas disposições nasce no espírito a prece constante, pura e sem distração. Quanto a você, meu filho, se desejar percorrer seus dias feliz, ‘vivendo incorporeamente em seu corpo’, viva segundo a regra que lhe expus”.

4.       Conclusão

Nossa informação sobre as origens do método hesiquiasta comporta muitas lacunas para que seja possível determinar se existem relações de influência entra as espiritualidades muçulmanas, hindus ou budistas que relacionam igualmente a invocação de um Nome divino a uma técnica respiratória. Uma influência com esta nada que possa desmerecer o método: as leis do psiquismo humano são universais, e a graça, longe de destruir a natureza, assume seu dinamismo profundo e a transfigura. Sobretudo, a técnica é aqui sustentada por uma doutrina que nos parece, junto com seus melhores representantes, autenticamente bíblica e cristã. Sem a fé nos dogmas da criação do universo espiritual e material, da salvação pela graça em Cristo, da ressurreição corporal, da deificação pelos sacramentos, o ensinamento que os santos Padres népticos nos transmitiram sobre a prece do coração seria ininteligível. O fundamento último do método permanece sendo a confissão do corifeu dos Apóstolos diante do Sanedrim: “Pois não existe sob o céu outro Nome dado aos homens pelo qual seja possível a salvação[7]”.

Numa época em que muitos cristãos estão em busca de uma disciplina total de vida, inclusive corporal, que seja favorável ao seu equilíbrio e ao seu desenvolvimento espiritual, não é sem interesse que podemos escutar os velhos monges que souberam colocar a serviço do desenvolvimento da graça de Cristo no homem uma sabedoria humana da qual nosso Ocidente perdeu por completo o segredo.




[1] Cf. I João 2: 27.
[2] I Pedro 5: 8.
[3] Salmo 69: 2.
[4] I Coríntios 12: 3.
[5] Deuteronômio 4: 24.
[6] Romanos 8: 23.
[7] Atos 4: 12.

sábado, 12 de dezembro de 2015

Olivier Clement - A oração do Espírito Santo


Rei Celestial, Consolador, Espírito de Verdade,
Presente em toda parte e ocupando todo lugar,
Tesouro dos bens e dispensador da vida,
Vem e habita em nós,
Purifica-nos de toda mancha
E salva nossas almas, Tu que és bom.

Esta é a prece ao Espírito Santo mais difundida na Igreja Ortodoxa. Ninguém inicia uma ação importante, seja na Igreja, seja no mundo, sem antes a pronunciar. Na Igreja, esta é a prece que introduz qualquer outra prece, pois toda prece autêntica se desenvolve pelo sopro do Espírito. “O Espírito vem em socorro de nossa fraqueza, pois nós não sabemos o que pedir em nossas orações. Mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis”.  Observações que valem para nossa prece no mundo onde somente o Espírito é capaz de unir o visível ao invisível, os quais, diz São Máximo o Confessor[1], devem simbolizar-se mutuamente – imagem crística.

Com efeito, Cristo existe no Espírito Santo e no-lo comunica. Seu Corpo eclesial é o lugar de onde jorra, ou de onde brota gota a gota, esta comunicação. Unção de Jesus, portanto de seu Corpo, ele unge seus membros, cristificando-os, fazendo deles um povo de profetas. Se o Pentecostes começou no dia descrito simbolicamente nos Atos dos Apóstolos, ele não se encerrou aí. Ele continua, se desenvolve, ou se oculta, num impulso finalmente irredutível em direção ao Último, seja de forma subterrânea, seja resplendente, preparando e antecipando, na eucaristia e nos homens eucarísticos, o retorno de todas as coisas em Cristo.

Rei Celestial, Consolador, Espírito de Verdade

A palavra “rei” afirma a divindade do Espírito, como o fez em 381 o Segundo Concílio Ecumênico. O Espírito não é uma força anônima, criada ou incriada: ele é Deus, um modo único de “subsistência” da divindade, uma misteriosa hipóstase divina.

“Rei Celestial”: este último termo designa aqui o “Mar da Divindade”, como diz a tradição siríaca. Rei é aquele que rege. O Espírito do Pai, que repousa no Filho, “Reino do Pai e Unção do Filho”, como diz, dentre outros, São Gregório de Nisse[2], rege, ou seja, serve, a comunhão das hipóstases divinas das quais a Tradição, perscrutando as Escrituras, afirma ser a “terceira”. Existe o Um, o Pai, e o Outro, o Filho, e a superação de toda oposição se faz no Terceiro, não por reabsorção do Outro no Um, como, ao que parece, costuma acontecer nas espiritualidades asiáticas e gnósticas, mas por uma Diferença três vezes santa sem a menor exterioridade.

Simultaneamente, esse Rei vem a nós para nos comunicar o celeste, para nos confortar, nos transmitir a vida ressuscitada. É por isso que Cristo, no Evangelho de João, no seu discurso de adeus, o nomeia Paráclito, que traduzimos por Consolador, ou talvez “confortador”, aquele que conforta transmitindo a verdadeira força. “O outro Paráclito”, diz Jesus, pois eles são inseparáveis: a imensa consolação, troca de vidas, transfusão da força que reside em Cristo, é revelada e manifestada pelo Espírito ao longo da história, segundo as buscas, as angústias, as instituições que a lacera ou exalta.

Rei Celestial, Consolador: no Espírito, Deus transcende sua própria transcendência, segundo uma “transdescendência amorosa”, se podemos nos exprimir assim, um dom que Deus faz de si mesmo, e que, embora inteiramente inacessível, se torna totalmente participável. Como dizia Vladimir Lossky, Deus “rompe o muro de sua transcendência” no Espírito Santo, por quem e em quem o Logos, o Verbo, não cessa de se manifestar através das múltiplas expressões da Sabedoria e da profecia, “luz que ilumina todo homem que vem ao mundo[3]”, por quem e em quem o Verbo não cessa de se fazer carne: pois a encarnação do Verbo se realiza pelo Espírito – e pela liberdade lúcida e forte da Virgem, pois o Espírito é inseparável da liberdade.

É por isso que quando dizemos “Espírito de Verdade”, ou mais precisamente: “da Verdade”, não estamos designando uma noção, um conjunto de conceitos, um sistema qualquer – e existem tantos! – mas Alguém que nos disse que era e que é “o Caminho, a Verdade e a Vida”, sendo que as palavras “caminho” e “vida” estão incluídas naquele que é a Verdade, o Fiel, o Verídico, coisas que designam, conforme é sugerido, especialmente o Espírito Santo.

A Verdade, a revelação inseparável da verdade de Deus e da verdade do homem, é o Verbo encarnado, o Deus feito Homem. É ele que o Espírito torna presente a nós nos sacramentos, nos “mistérios” da Igreja, na Igreja-mistério do Ressuscitado, no sacramento da ressurreição, pela graça, e graças, ao Espírito.

Cristo caminha com os peregrinos de Emaús, mas estes não o reconhecem: mas suas palavras, que levam seu Sopro, abrasam seus corações. E quando ele parte o pão já eucarístico, ele se revela e, ao mesmo tempo, se retira, pois ele só pode estar entre eles no Espírito Santo. É por isso que a Igreja Corpo de Cristo é também o Templo do Espírito Santo. Em Cristo, a Igreja é a Igreja do Espírito Santo.

Presente em toda parte e ocupando todo lugar

Tudo é penetrado pela graça, tudo freme, vibra, desperta no Sopro imenso da vida, como a árvore ao vento, o incomensurável invisível, como o mar “de mil sorrisos”, como o impulso que empurra o homem e a mulher um contra o outro. As línguas modernas tendem a opor o espírito à matéria, ou ainda, por causa de um platonismo degenerado, o inteligível ao sensível. Mas o Espírito Santo, Ruah em hebraico, Pneuma em grego, Spiritus em latim, é o Sopro, o Vento que sopra onde quer e cuja voz ouvimos[4], pois é ele quem traz a Palavra e, com ela, os mundos visíveis e invisíveis.

A palavra Ruah, nas línguas semíticas pode ser tanto masculina como feminina. Não que possamos empobrecer, “naturalizar” a Trindade numa espécie de esquema familiar de Pai, Mãe, Filho, mas porque, nos signos confusos de nossa linguagem, o fogo do Espírito é viril, enquanto seu murmúrio, “no limite do silêncio[5]”, é feminino, como uma mãe que nina seu filho cantando com a boca fechada. Aí talvez possamos pressentir essa misteriosa Sabedoria que perpassa os últimos livros do Antigo testamento e que nos lembra que Deus é “matricial” (como o traduz André Chouraqui), rahamin, plural enfático de rehem que significa “matriz”.

São Máximo o Confessor evoca a presença do Espírito Santo na própria existência do mundo, nos seres e nas coisas que são logoi do Logos, das palavras que Deus nos dirige. Paulo, em sua Carta aos Efésios[6], evoca o Deus que está acima de tudo, através de tudo e em tudo.  Com efeito, o Pai é o Deus que está sempre além, princípio de toda realidade. O Verbo é o Logos que estrutura o mundo por meio de suas ideias-vontade criadoras. E o Espírito é verdadeiramente Deus em tudo, que vivifica e conduz todas as coisa à sua realização na beleza. Deus alado, representado por signos de movimento, de voo, como o vento, o pássaro, o fogo, a água viva, não a terra mas aquilo que faz da terra um sacramento.

Tesouro dos bens e Dispensador da vida

 A palavra “bem”, assim como a palavra “bom” ao final dessa prece, possui um sentido ontológico, um sentido que diz respeito ao ser, ou seja, ao amor, pois “Deus é amor”, como repete São João, e assim o ser não é outra coisa que a profundidade e a densidade inesgotável deste amor. O ser, poderíamos dizer, é relacional, e reside como no interior (e na irradiação) da comunhão. Assim sendo, os “bens” que o Espírito dispõe e dos quais ele é o “tesouro” – vale dizer, o lugar de doação e difusão – são a graça, a vida ressuscitada, a “luz da vida”, como diz ainda São João: “O Espírito Santo se torna em nós tudo o que as Escrituras dizem a respeito do Reino de Deus – a pérola, o grão de cevada, o fermento, a água, o fogo, o pão e a bebida da vida, a câmara nupcial...[7]”

É por isso que o texto da prece especifica a palavra “bens”, que poderia possuir algo de estático, por meio da palavra “vida”. O Espírito, como diz o Credo Niceno-Constantinopolitano, é o “dispensador da vida[8]”. A Vida parece ser a palavra-chave quando se fala do Espírito. Em grego encontramos dois termos distintos: bios, para designar a vida biológica, e zoé, para designar a vida espiritual e, no seu limite (ou antes como fundamento e realização), a vida ressuscitada em Cristo. Mas sem dúvida não devemos distinguir aqui mais do que graus crescentes de intensidade. Tudo o que é vivo é animado pelo Sopro divino. É o que acontece com essas estruturas invisíveis, sempre em ação, que fazem com que a tendência universal à desagregação e ao caos, à entropia, se veja transformada em reintegração, em complexidades mais e mais sutis, de tal maneira que a vida nasce e morre sem cessar numa imagem elementar da Cruz, do ciclo da morte e ressurreição. Um grande físico já disse que o mundo está pleno de inteligência. O Espírito está presente e ativo em tudo o que é vivo, da célula à união mística, passando por este grande movimento do eros que marca e intensifica toda existência, e que, por intermédio do homem, a torna para a graça, voltando-a para o ágape.

E no entanto, se podemos dizer que toda a vida, no mundo, é sustentada pelo Espírito, por sua energia que por tanto tempo e ainda agora permanece anônima – aquilo que Santo Irineu de Lyon no século II chamava de afflatus[9] – esta vida está sempre ligada à morte. Mas desde que Cristo ressuscitou, a fonte pessoal do afflatus, o Spiritus (para retomarmos o vocabulário de Irineu) foi para sempre revelado. Ou antes, foi revelado-velado, o que pode ser uma definição do sacramento, caso contrário já se trataria da Parúsia. Ora, o Spiritus comunica, a partir do cálice eucarístico, uma vida pura, uma vida que assume e como que devolve a morte: de modo que tantas mortes parciais, estigmas inevitáveis de nossa existência, e finalmente nossa morte biológica, são doravante páscoas, passagens iniciáticas: como se diz, o véu do amor rasgado pouco a pouco. A morte, no sentido global, a um tempo física e espiritual, está de certo modo atrás de nós, enterrada nas águas de nosso batismo (de desejo inclusive, ou de lágrimas, ou de sangue – que sabemos nós?). O fundo de nossa existência não é mais a morte, mas o Espírito. E se prestarmos atenção a esta presença, se cavarmos até ela, até suas grandes camadas de silêncio, de paz e de luz, a angústia em nós se transforma em confiança, as lágrimas se tornam nossa veste de bodas, a roupa dos mendigos – bom ou mau, pouco importa, diz o Evangelho de Mateus, convidado ao festim por pura graça.

O Espírito é também o Deus oculto, o Deus secreto, interior, esta superação que se identifica com a própria raiz de nosso ser, este transbordamento do coração que se torna uma atestação e que nos permite dizer que Cristo é o Senhor e de murmurar com ele e nele, Abba, Pai, uma palavra de ternura, de confiança e de respeito. O Espírito abraça o coração, desperta em nós o “olho do coração”, o “olho de fogo”, que manifesta em todo homem a imagem de Deus e nas coisas a “sarça ardente” das coisas que virão. “O olho pelo qual eu vejo a Deus e o olho com o qual Deus me vê são um só e mesmo olho”, dizia Maître Eckahrt[10], e este olho único é o Espírito em Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. A prisão do espaço-tempo fissura, uma respiração mais profunda se abre em nós com uma alegria rasgada, nós “respiramos o Espírito”, segundo a admirável fórmula de São Gregório Sinaíta[11]. Então, tornando-nos pouco a pouco “separados de todos e unidos a todos[12]”, começamos a amar verdadeiramente, com um amor que nada sabe de perdas nem de conquistas.

O olho do coração, olho aberto pelo Espírito, adivinha, para falarmos como o Metropolita Georges Khidr, o Cristo que dorme no secreto das religiões em acrescentarei eu, no secreto dos humanismos e dos ateísmos providencialmente revoltados com tantas caricaturas de Deus. O olho do coração vê não apenas a Igreja no mundo, forma sociológica tantas vezes derrisória, mas o mundo na Igreja, uma Igreja sem fronteiras na qual a comunhão dos santos alarga-se em comunhão com todos os grandes vivos, criadores da vida, da justiça e da beleza, de todos os grandes dilacerados que também desejaram “terminar com o julgamento de Deus”, como Antonin Artaud, que pressentiu talvez e nos fez pressentir que “a cruz é o juízo do juízo[13]”.

No coração dessa Igreja sem limites, deste “amor sem limites”, como “um Monge da Igreja do Oriente” intitulou seu belo livro, adivinhamos, celebramos Maria, a Mãe de Deus, aquela que ao aceitar o Espírito para gerar o Verbo, rompeu o nó da tragédia da liberdade humana. Pois o Espírito, acolhido por nossa liberdade, a liberta e fecunda, oferecendo-lhe um espaço infinito de criação, esculpindo-a de eternidade. É por isso que a Igreja Ortodoxa emprega a mesma expressão para qualificar o Espírito e a Virgem: o Espírito panagion, santíssimo, e a Virgem panagia...

Vem e habita em nós

“Vem”, diz agora nossa prece. O Espírito, já qualificado e atestado, está presente em toda parte e preenche tudo. E no entanto, agora ele nos faz implorar: “Vem”. Se devemos chamar deste modo àquele que nos chama, é porque, evidentemente, ele, que a tudo preenche, não nos preenche ainda.

Deus, tendo criado e mantido o mundo, de certo modo se retira para dar às criaturas sua consistência própria. E esse espaçamento, como dizem os Padres, se inscreve na liberdade do homem – e do anjo, sendo que este dá à recusa do homem, ao exílio voluntário do “filho pródigo”, uma dimensão cósmica, de tal modo que a beleza do mundo, originalmente de celebração, se torna mágica, nostálgica, pesada de tristeza, escorregando para uma paralisia desesperada. Assim é que o esplendor do eros pode se tornar uma raiva de possessão, uma droga, na ignorância e na destruição do outro. O Espírito que nos sustenta e nos dá a vida, nos envolve como uma atmosfera pronta a penetrar pela menor falha da alma, mas não pode fazê-lo sem nosso consentimento, sem o nosso chamado. Por isso devemos orar: “Vem”.

“Vem, Pessoa incognoscível; vem, alegria incessante; vem, luz que não declina... Vem, ressurreição dos mortos... Vem, você que permanece para sempre imutável, e que, a toda hora, se move e vem até nós, que jazemos no inferno... Vem, meu sopro e minha vida[14]”. Esta é bem a parte do homem, e a demanda se especifica.

O mundo tem sua morada no Espírito. Este universo que podemos sondar até extensões de milhares de anos-luz é o mesmo que São Bernardo de Núrsia viu subitamente como um grão de poeira num raio de luz divina. O papa Gregório o Grande reportou esta visão em seus Diálogos e São Gregório Palamas entendeu esse raio como as energias divinas irradiando através do Espírito Santo.

A criação só existe porque Deus quis assim, e porque ele a ama e guarda, mas mesmo assim ele é excluído do coração desta criação – porque este coração é o próprio homem. Podemos então antecipar que, se por um lado a criação reside em Deus, por outro Deus não pode habitá-la, pois o homem detém em si o poder invertido e luciferiano das chaves: ele pode fechar o universo a Deus. Daí provêm as forças do nada, paradoxalmente substancializado.

Maria entregou a Deus, “este Rei sem cidade[15]”, uma cidade, uma morada. Ela lhe permitiu se encarnar no seio mesmo da criação, como para recriá-la. “Deus criou o mundo para encontrar uma mãe”, dizia Nicolas Cabasilas. A humanidade acolhe seu Deus pela liberdade, no seio de Maria. Jesus não tem uma pedra sobre a qual repousar a cabeça, s não ser pelo amor “marial” daqueles que o acolhem. O Espírito, que é a morada do Filho por toda a eternidade, pode fazer de cada um de nós a morada do Filho encarnado. Mas com uma condição fundamental: a de que o homem ore – “Vem e habita em nós, purifica-nos de toda mancha...”.

Purifica-nos de toda mancha

Sem dúvida basta uma centelha de alegria mesclada à gratidão, sem dúvida é suficiente diante das muralhas de Hipólito[16] ou de Sartre um suspiro de angústia no qual sucumba a autossuficiência, basta um recuo diante do horror – não, não quero ser cúmplice de um olhar de criança cuja inocência espantada me desmascara, ou de um momento de paz em que o coração desperta: somente os rostos e a face oculta da terra, a terra-anjo[17], a terra celeste, a terra sacramento que eu evocava todo o tempo a propósito do êxtase, ao mesmo tempo celeste e telúrico, de um Aliocha Karamazov.

Se existe uma beatitude que os espirituais do Oriente cristão amam especialmente, é: “Bem-aventurados os corações puros, porque verão a Deus”. Esta Beatitude não é de ordem moral como se costuma interpretá-la. Trata-se da abertura e da limpidez do “olho do coração”: espelho manchado, que importa lavar e polir, fonte enterrada sob uma vida sem valor, e que é preciso resgatar para que brote a água viva.

O coração, este centro mais central onde todo o homem – inteligência, ardor, desejo – é chamado a se reunir para se ultrapassar em Deus, o coração deve ser purificado anão apenas dos “maus pensamentos”, obsessão culpabilizante, mas de todo pensamento, qualquer que seja. Então, imersa em sua própria luz, que não pode ser senão uma transparência, a consciência da consciência se torna um “ponto nulo”, puro acolhimento, copa oferecida, humilde cálice no qual pode descer para nos recriar, como um Pentecostes interiorizado, o fogo do Espírito.

Este tema da sujeira – da corrupção, como dizem os ascetas – nos envia aos textos mais fundamentais do Evangelho, à revolução evangélica que liberta o homem da mecânica infinitamente complexa e codificada do sagrado e do profano, do puro e do impuro. O que suja e mancha o homem, diz Jesus, não é esquecer-se de lavar ritualmente as mãos, não é o que entra pela boca segundo uma dieta do permitido e do proibido. Santo Agostinho foi maniqueísta durante muitos anos, ele havia sido ensinado sobre toda uma gnose para distinguir o luminoso do tenebroso – trevas do presunto, por exemplo, e luz do melão! E hoje em dia, quanto mais somos locupletados, mais encontramos distinções análogas, e o sagrado passa a se constituir da esbeltez do corpo que pretendemos para sempre jovem!

Mas, disse Jesus, o que suja é o que sai da boca do homem, vindo de seu coração: os dialogismoi; o jogo cego do medo, da raiva, da libido narcísica, do orgulho, da avidez, da “loucura”. Essas sugestões afloram dentro do coração, vindas dos abismos do inconsciente – pessoal, mas também coletivo, segundo as hipnoses da política – e é preciso saber atirá-las ao fogo do Espírito, para que ali elas se consumam e se transfigurem... É assim que podemos destruir a sujeira e a corrupção em suas raízes, que não são outra coisa que a morte e suas inumeráveis máscaras. A sujeira aparece então como tudo o que isola e confunde, que bloqueia e desvia as foças da vida, que impede o homem de compreender que ele precisa ser salvo, do contrário morrerá e não lhe restará mais do que o nada ou os pesadelos do nada. Tudo o que impede os homens de compreender que eles formam um único Adão, membros do mesmo Corpo, membros uns dos outros. E não podemos por nós mesmos nos lavar de toda essa sujeira. É por isso que imploramos aos Espírito: “Vem e purifica-nos de toda mancha”.

Nem a melhor psicanálise pode – o que já é muito – mais do que nos tornar lúcidos sobre os jogos e as apostas que acontecem em nós, do desejo e da morte; no máximo ela permitirá alguns deslocamentos para nos aliviar, como passamos um fardo pesado de um ombro a outro, mas sem nos liberarmos verdadeiramente de seu peso. Freud considerava Helmholtz como seu deus porque ele havia descoberto a lei da conservação da energia. Esta energia – aqui vital, psíquica – deslocada, mas sempre conservada, só pode ser pacificada pela vinda da graça, pela vinda do Espírito que a metamorfoseia em alegria pascal. A tampa da morte se parte. Ou: desta vez, não nos contentamos em trocar os móveis de lugar, mas abrimos as janelas ao Vento de muito distante para que ele entre e purifique a atmosfera.

Sim, implorar ao Espírito in profundis, das entranhas da terra, por uma ascese de abandono, uma ascese de confiança e de humildade.

E salva nossas almas

Salvar – ou seja, colocar a salvo, tornar são, santo, equivale a libertar da morte e do inferno, desta “vida de morte” que tanto confundimos com a vida, do assassinato do outro e do nosso assassinato, e sem dúvida do assassinato de Deus. O homem foi criado do nada e, se ele se deixar possuir pelo medo e pela fuga desesperada e paroxista diante deste medo, ele irá desembocar na ilusão, nos sonhos ou na lucidez sem saída que o amor ofendido manifesta.

Cristo “desce” aos infernos e à morte pelas escarpas noturnas nas quais o ser se extenua, para dai arrancar cada um e a humanidade inteira. Cristo fez de todas as feridas de nossa alma, identificando-as com as suas, fontes de luz – da “luz da vida”, a luz do Espírito Santo. Em Caná Cristo transformou toda nossa seiva num vinho abrasado pelo fogo do Espírito. Ele concedeu a terra dos vivos aos que não enterram seus “talentos”, mas que os multiplicam. A salvação não é um mero resgate, mas uma vivificação.

É por isso que quando a prece diz: “Salva nossas almas”, não se trata de um espiritualismo, uma salvação que consistiria em liberar a alma da prisão do corpo. A alma, aqui, designa a pessoa que transcende e faz existir todo o nosso ser, que o torna opaco ou luminoso; mesmo a escravidão do horror pode se transformar em blasfêmia ou em grito de fé, como nos mostra o exemplo contrastante dos dois ladrões crucificados à direita e à esquerda de Cristo. Poderíamos dizer ainda que a alma é a vida em sua unidade na qual o visível se torna o símbolo do invisível e o invisível o sentido do visível. Nós encontramos isso em alguns textos evangélicos onde não sabemos se traduzimos por “alma” ou por “vida”.

A alma salva, mesclada ao sopor do Espírito, penetra a partir do coração – “este corpo no mais profundo do corpo”, como disse Palamas[18] – todas as nossas faculdades, todos os nossos sentidos e até a ambiência humana e cósmica. Desta forma se prepara, se antecipa por saturação de vida – “meu corpo morre, mas jamais me senti tão vivo” – a ressurreição dos mortos na unidade do Adão total e a transfiguração do cosmos: quando o Espírito Santo, o Espírito de ressurreição, se revelará plenamente, ele, o Desconhecido, através da comunhão dos rostos, dos corpos transformados em rostos, da terra “imagem da imagem” onde as almas possuirão corpos a um tempo fiéis ao seu segredo original e renovados no Último.

Salva nossas almas, tu

A prece culmina neste “tu” que nos lembra que o Espírito é uma “pessoa” oculta mas bem real, a quem ouvimos falar, que vimos agir nos Atos dos Apóstolos. Uma pessoa, chamemo-lo, mas não no sentido psicológico e social que esta palavra adquiriu, mas uma “hipóstase”, ou seja, o próprio Deus fazendo-se nosso sopro, nossa profundidade insondável, nossa vida. Entre nosso pertencimento fatigante ao mundo das coisas e nossa certeza irredutível de sermos outra coisa, esta chama de fogo indestrutível: o Espírito.

E a conclusão:

Tu que és bom

É preciso voltar aqui à ressonância ontológica, hebraica tanto quanto grega, da palavra “bom”. No Gênesis, ao final de cada dia simbólico do processo criador, lemos: “E Deus viu que isto era tov”, palavra que significa ao mesmo tempo “belo” e “bom”. É por isso que na versão grega dos Setenta, feita em Alexandria entre os séculos V e II antes de nossa era, tov foi traduzido por kalon, que significa “belo”, e não por agathon, “bom”. Trata-se da plenitude do ser que, criado e recriado pelo Verbo, animado e realizado pelo Espírito, reflete a vida divina e, pelo homem, retornado em Cristo criador criado, é chamado a se unir a ele. Vocabulário de artesão, de ofício, para quem o bom, se verdadeiramente bom, não pode ser senão belo. Mas deixemos de lado nossas distinções estéticas: as velhas ferramentas eram belas porque eram úteis.

A bondade-beleza do Espírito designa este êxtase de Deus em sua criação, êxtase que produz ao mesmo tempo a unidade e a diversidade desta. A ação do Espírito, diz Denis o Areopagita, consiste justamente nessa expansão da Uni-diversidade trinitária no mundo onde o múltiplo se tornou guerra, a fim de conduzi-lo, não a uma reabsorção no indiferenciado, mas a uma harmonia tanto mais vibrante na medida em que nasce da extrema tensão dos contrários. Com efeito, como disse Heráclito, no Espírito “tudo o que se opõe concorda, e daquilo que difere resulta a mais bela harmonia[19]”. Pois não é apenas a unidade, como imagina vagamente um espiritualismo viscoso, trata-se também da diferença que provém de Deus e que o nomeia. O Espírito de bondade e de beleza preserva definitivamente, na unidade de Cristo, a figura única de cada criatura: “Seu ser inteiro será salvo e viverá plenamente para sempre[20]”. O Espírito, dizia Serge Boulgakov, é a Hipóstase da Beleza, uma beleza na qual se expressa a força da bondade.

Aqui se impõe o tema da deificação: “Deus se fez homem para que o homem possa se tornar Deus”, diziam os Padres, mas não retirando sua humanidade, mas dando a ela sua plenitude em Cristo, sob as chamas do Espírito. Atanásio de Alexandria especificava: “Deus se fez sarcóforo (portador da carne) para que o homem pudesse se tornar pneumatóforo (portador do Espírito)[21]”. No homem santificado, com efeito, para empregarmos um vocabulário espacial aproximativo mas significativo, a alma, penetrada pelo Sopro, já não está no corpo: é o corpo que está na alma, e, através dela, no Espírito. O barro original se tornou “corpo espiritual”, corpo do Sopro.

A bondade do Espírito não se manifesta somente na transfiguração por vezes evidente dos santos, mas também nos humildes gestos que reconstituem inconsutilmente o tecido do ser, que o ódio e a crueldade despedaçaram. O Espírito é o grande costureiro do cotidiano: como essas velhas senhoras de rosto de argila craquelada, crisálida que se abre pouco a pouco para deixar escapar, no momento da morte, o corpo do Sopro.

A beleza do Espírito se exprime na qualidade de um olhar que não julga, mas que acolhe e faz existir. Na boca-pássaro do sorriso.

“Tu que és bondade, tu que és beleza”, que é plenitude no sacramento do instante, venha! Que é o sopro de meu sopro e “vida de minha vida”, como dizia Santo Agostinho.

No coração de toda ação sacramental, eminentemente na eucaristia, toma lugar necessariamente a epiclese, esta súplica dirigida ao Pai, fonte da divindade, para que ele envie seu Espírito Santo “sobre nós e sobre os dons que aqui estão”, o pão e o vinho, quando se trata da eucaristia, a fim de integrar ao corpo de Cristo a assembleia como oferenda e a oferenda como assembleia.

A prece que tentei canhestramente comentar é uma imensa epiclese, um epiclese sobre a humanidade e o cosmos para que venha o Reino, este Reino que uma antiquíssima variante do Pai Nosso nos diz não ser outra coisa do que o Espírito Santo.




[1] Mystagogie 2.
[2] De l’oraison dominicale.
[3] Cf. Paul Florensky, La Colonne et le Fondement de la Verité.
[4] Assim podemos traduzir o Versículo 9 do Prólogo de São João.
[5] I Reis 19: 12.
[6] Efésios 4: 6.
[7] São Simeão o Novo Teólogo, Sermon 90.
[8] “Creio no Espírito Santo, Senhor vivificante...”.
[9] Contre les hérésies, IV, 2.1.
[10] Sermon 12.
[11] Petite Philocalie de la prière du coeur.
[12] Evagro o Pôntico, in I. Hausherr, Les leçons d’um contemplatif.
[13] Máximo o Confessor, Questions à Thalassius, 43.
[14] São Simeão o Novo Teólogo, prefácio de Hymnes de l’amour divin.
[15] São Nicolas Cabasilas, Homélies mariales.
[16] Dostoievski, O idiota.
[17] Cf. Henry Corbin, La terre est um ange.
[18] Cf. Jean Meyendorff, Introduction à l’étude de Gregóire Palamas.
[19] Fragment 8.
[20] São Denis o Areopagita, Noms Divins VIII, 9.
[21] Sur l’incarnation e contre les Ariens.