quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Georges Florovsky: Bíblia, Igreja, Tradição: Uma visão da Ortodoxia do Oriente - Capítulo I: A mente escriturária perdida

 


 

Os ministros cristãos não devem pregar suas opiniões pessoais, pelo menos não no púlpito. Eles são encarregados e ordenados na Igreja precisamente para pregar a Palavra de Deus. A eles são dados alguns termos fixos de referência – em especial, o evangelho de Jesus Cristo – e se comprometem apenas com essa única e perene mensagem. Espera-se deles que propaguem e sustentem “a fé que foi entregue aos santos”. É claro que a Palavra de Deus deve ser pregada “eficazmente”. Vale dizer que ela sempre deve ser expressa de modo convicto e a fim de conquistar a lealdade de cada nova geração e grupo específico. Ela pode ser recolocada em novas categorias, se as circunstâncias assim o exigirem. Mas, acima de tudo, a identidade da mensagem deve ser preservada.

 

Cada ministro deve se assegurar que está pregando o mesmo evangelho que foi entregue e que não está introduzindo nenhum “novo evangelho” de sua própria autoria. A Palavra de Deus não pode ser levianamente ajustada ou acomodada aos costumes efêmeros e às atitudes de alguma época em particular, o que inclui nosso próprio tempo. Infelizmente, estamos com frequência inclinados a medir a Palavra de Deus pela nossa própria estatura, ao invés de tentarmos colocar nossas mentes à altura de Cristo. A “mente moderna” ainda permanece sob o julgamento da Palavra de Deus.

 

 

O homem moderno e a Escritura

 

Mas é precisamente nesse ponto que começa a maior dificuldade. Muitos de nós perdemos a integridade da mente escriturária, ainda que alguns cacos de fraseologia bíblica tenham sido retidos. O homem moderno se queixa de que a verdade de Deus é oferecida a ele num “idioma arcaico” – isso é, na linguagem da Bíblia – que já não é o seu e que não pode ser empregado espontaneamente. Recentemente, sugeriu-se que deveríamos “demitologizar” radicalmente as Escrituras, o que implica substituir as antiquadas categorias dos Escritos Sagrados por algo mais moderno. Não podemos fugir a essa questão: será a linguagem das Escrituras de fato nada além de uma embalagem acidental e exterior, da qual alguma “ideia eterna” deve ser destrinchada e desembaraçada, ou será ela um veículo perene da mensagem divina, que foi entregue de uma vez por todas no tempo?

 

Corremos o risco de perdermos a singularidade da Palavra de Deus no processo de sua contínua “reinterpretação”. Mas como é possível interpretá-la, se perdemos a linguagem original? Não será mais seguro inclinar nosso pensamento a hábitos mentais da linguagem bíblica e reaprender o idioma da Bíblia? Nenhum homem pode receber o evangelho, a menos que se arrependa – que ele “mude sua mente”. Pois na linguagem do evangelho, “arrependimento” não significa simplesmente o conhecimento e a contrição pelos pecados, mas precisamente uma “mudança de mente” – uma mudança profunda nas atitudes mentais e emocionais do homem, uma renovação do próprio “si” do homem, que começa pela autor renúncia e que se realiza e é selada pelo Espírito Santo.

 

Vivemos hoje numa época de caos e desintegração intelectual. Possivelmente o homem moderno ainda não conformou sua mente, e a variedade de opiniões está além que qualquer esperança de conciliação. Provavelmente o único farol que temos para nos guiar através do nevoeiro mental de nossa época desesperançada seja justamente a “a fé que foi entregue aos nossos santos”, por obsoleto e arcaico que possa parecer o idioma da igreja primitiva, julgada a partir de nossas normatizações efêmeras.

 

 

Pregar o Credo

 

Então, o que pregaremos nós? O que devemos pregar aos nossos contemporâneos, “em tempos como os que correm”? Aqui não cabe hesitação: devemos pregar Jesus, o Jesus crucificado e ressuscitado. Devemos pregar a todos aqueles a quem somos chamados a dirigir a mensagem de salvação, tal como essa chegou a mim por intermédio de uma tradição ininterrupta da Igreja Universal. Não devemos nos isolar em nossa própria época. Em outras palavras, devemos pregar as “doutrinas do Credo”.

 

Estou plenamente consciente de que o Credo pode constituir uma pedra de tropeço para muita gente de nossa geração. “O Credo é constituído por símbolos veneráveis, como os vetustos estandartes nacionais que pendem das paredes de nossas igrejas nacionais; mas nas guerras atuais da Igreja na Ásia, na África, na Europa e na América, o Credo, quando compreendido, se torna tão útil como um machado de guerra ou um arcabuz nas mãos de um soldado moderno”. Isso foi escrito há poucos anos por um proeminente acadêmico Britânico, que é ao mesmo tempo um ministro devoto. Provavelmente ele não escreveria a mesma coisa hoje. Mas ainda existem muitos que fariam suas, de todo coração, essas palavras. Lembremo-nos, entretanto, que o Credo original foi deliberadamente escriturário, e que é precisamente por sua fraseologia escriturária que ele se torna difícil para o homem moderno.

 

Assim é que encaramos outra vez o mesmo problema: o que podemos oferecer no lugar da Sagrada Escritura? Eu preferiria a linguagem da Tradição, não por algum preguiçoso e crédulo “conservadorismo”, ou pela “obediência cega” a alguma autoridade “exterior”, mas apenas porque não encontro fraseologia melhor. Estou preparado para me expor ao preço inevitável de ser “antiquado” e “fundamentalista”. E devo protestar, porque essa acusação é gratuita e errada. Eu conservo e mantenho as “doutrinas do Credo” conscientemente, e de todo coração, porque pela fé eu entendi sua perene adequação e relevância em todas as épocas e em todas as situações, o que incluem os “nossos tempos”. E acredito que são precisamente as “doutrinas do Credo” que podem capacitar um geração desesperançada como a nossa a reconquistar a coragem e a visão Cristãs.

 

 

A Tradição vive

 

“A Igreja não é nem um museu em que se depositam coisas mortas, nem uma sociedade de pesquisas”. Esses depósitos estão vivos – depositum juvenescens, para usarmos a frase de Santo Irineu. O Credo não é uma relíquia do passado, mas a “espada do Espírito”. A reconversão do mundo ao Cristianismo, é isso que devemos pregar em nossos dias. Essa é a única maneira de superar o impasse ao qual o mundo foi conduzido pelos erros dos Cristãos, para que ele possa se tornar Cristão verdadeiramente. Obviamente, a doutrina Cristã não responde diretamente a nenhuma questão nos campos da política e da economia. Tampouco o faz o evangelho de Cristo. E ainda assim seu impacto sobre todo o curso da história humana foi enorme. O reconhecimento da dignidade humana, da misericórdia e da justiça tem suas raízes no evangelho. Um novo mundo só pode ser construído por um novo homem.

 

 

O que significa a Calcedônia

 

“E se fez homem”. Qual é o significado último dessa afirmação do Credo? Ou, em outras palavras, quem foi Jesus, Cristo e Senhor? O que significa, na linguagem do Concílio da Calcedônia, que o mesmo Jesus é “prefeito homem” e “perfeito Deus”, ainda que numa só e única personalidade? O “homem moderno” costuma ser muito crítico em relação a essa definição da Calcedônia. Ele se recusa a atribuir qualquer sentido a ela. As “imagens” do Credo não são para ele mais do que trechos de poesia, se tanto. Creio que toda essa perspectiva está errada. A “definição” de Calcedônia não consiste numa afirmação metafísica, e jamais pretendeu ser tratada como tal. Tampouco o mistério da Encarnação é apenas um “milagre metafísico”. A fórmula de Calcedônia é uma afirmação de fé, e assim ela não pode ser entendida quando retirada da experiência total da Igreja. De fato, ela é uma “afirmação existencial”.

 

A fórmula de Calcedônia é como se fosse um contorno intelectual de um mistério que precisa ser apreendido pela fé. Nosso Redentor não é um homem, mas é o próprio Deus. Aqui reside a ênfase existencial da afirmação. Nosso Redentor é aquele que “desceu” e que, ao “se fazer homem”, se identificou com os homens numa comunhão de vida e natureza verdadeiramente humanas. Não apenas a iniciativa foi divina, como o Guia de nossa Salvação era uma Pessoa divina. A plenitude da natureza humana de Cristo significa simplesmente a concordância e a verdade de sua identificação redentora. Deus penetrou na história humana e se tornou uma pessoa histórica.

 

Isso soa paradoxal. E, de fato, existe um mistério: “Sem maior controvérsia é o mistério da divindade: Deus manifestou-se na carne”. Mas esse mistério foi uma revelação: o verdadeiro caráter de Deus foi revelado na Encarnação. Deus estava de tal modo e tão intimamente envolvido com o destino humano (e em especial com os destinos de cada um de seus “pequeninos”), que Ele interveio em pessoa no caos e na miséria da vida perdida. Assim é que a divina providência não constitui meramente um governo onipotente do universo a partir da augusta distância da divina majestade, mas uma kenosis, uma auto humilhação do Deus da glória. Existe uma relação pessoal entre Deus e o homem.

 

 

A tragédia sob uma Nova Luz

 

Toda a tragédia humana aparece agora sob uma nova luz. O mistério da Encarnação foi um mistério do amor divino, da divina identificação com o homem perdido. E o clímax da Encarnação foi a cruz. É o ponto de virada do destino humano. Mas o terrível mistério da cruz só é compreensível a partir de uma perspectiva mais ampla de uma Cristologia integral, ou seja, ap0enas se crermos que o Crucificado era verdadeiramente “o Filho do Deus vivo”. A morte de Cristo significou a entrada no mistério do homem morto (uma vez mais, em pessoa), uma descida ao Hades, e isso implicou o fim da morte e a inauguração da vida eterna para o homem.

 

Existe uma espantosa coerência no corpo da doutrina tradicional. Mas ela só pode ser entendida e apreendida no contexto vivo da fé, vale dizer, de uma comunhão pessoal com o Deus pessoal. Somente a fé torna convincentes as fórmulas, somente ela torna vivas as fórmulas. “Parece paradoxal, embora seja essa a experiência de todos os que acreditam nas coisas espirituais: ninguém tira pro9veito das Escrituras, a menos que primeiro ame a Cristo”. Pois Cristo não é um texto, mas uma Pessoa viva, e Ele habita seu corpo, a Igreja.

 

 

Um novo Nestorianismo

 

Pode parecer ridículo sugerir que é preciso pregar a doutrina de Calcedônia “em tempos como esses de agora”. Mas é precisamente essa doutrina – a realidade da qual essa doutrina dá testemunho – que pode mudar toda a perspectiva espiritual do homem moderno. Ela traz a ele uma verdadeira liberdade. O homem não está só nesse mundo, e Deus se interessa pessoalmente pelos eventos da história humana. Essa é uma implicação imediata da concepção integral da Encarnação. É uma ilusão pensar que as disputas Cristológicas do passado sejam irrelevantes para a situação contemporânea. De fato, elas continuam se repetem nas controvérsias de nossa época atual. O homem moderno, deliberada ou inconscientemente, é tentado por um Nestorianismo extremo. Vale dizer, ele não leva a Encarnação a sério. Ele não ousa acreditar que Cristo seja uma Pessoa divina. Ele quer ter um redentor humano, apenas assistido por Deus. Ele está mais interessado na psicologia humana do Redentor do que no mistério do amor divino. Porque, em última instância, ele acredita otimistamente na dignidade humana.

 

 

Um novo Monofisitismo

 

No outro extremo, temos em nossos dias uma revivência das tendências “monofisitas” na teologia e na religião, na qual o homem é reduzido a uma completa passividade e a ele só é permitido ouvir e esperar. A tensão presente entre “liberalismo” e “nova Ortodoxia” é de fato uma re-promulgação da velha luta Cristológica, num novo patamar existencial e numa nova chave espiritual. O conflito jamais será colocado ou resolvido no campo da teologia, a menos que se adquira uma visão mais ampla.

 

Na Igreja primitiva a pregação era enfaticamente teológica. Não se tratava de especulação vazia. O próprio Novo Testamento é um livro teológico. Negligenciar a teologia na instrução dada aos leigos nos tempos modernos é responsável tanto pela decadência da religião pessoal, como pelo sentido de frustração que domina o mundo moderno. O que precisamos numa Cristandade “em tempos como os de agora” é precisamente uma teologia existencial de peso. De fato, tanto o clero como os leigos têm fome de teologia. E, uma vez que nenhuma teologia costuma ser pregada, eles adotam qualquer “ideologia estranha”, combinando-a com os fragmentos de crenças tradicionais. Todo o apelo dos “evangelhos rivais” de nossos dias está em que eles oferecem algum tipo de pseudoteologia, um sistema de pseudodogmas. Eles são aceitos alegremente por aqueles que não encontram teologia alguma no Cristianismo reduzido ao estilo “moderno”. Essa alternativa existencial que muitos veem em nossos dias foi formulada com competência por um teólogo inglês. “Dogma ou... morte”. A idade de um não-dogmatismo e pragmatismo está encerrada. E assim os ministros da Igreja têm que voltar a pregar as doutrinas e os dogmas – a Palavra de Deus.

 

 

A crise moderna

 

A primeira tarefa do pregador contemporâneo consiste na “reconstrução da fé”. Não se trata absolutamente de um esforço intelectual. A fé é como o mapa do verdadeiro mundo e não deve ser confundida com a realidade. O homem moderno esteve muito ocupado com suas próprias ideias e convicções, suas próprias atitudes e reações. A crise moderna precipitada pelo humanismo (um fato inegável) foi provocada pela redescoberta do mundo real, aquele no qual acreditamos. A redescoberta da Igreja é o aspecto mais decisivo desse novo realismo espiritual. A realidade já não é escondida de nós pelo muro das nossas próprias ideias. Ela voltou a ser acessível. Outra vez se percebe que a Igreja não é apenas uma sociedade de crentes, mas o “Corpo de Cristo”. Essa é uma redescoberta de uma nova dimensão, a redescoberta da presença contínua do Redentor divino no meio de seu rebanho de fiéis. Essa descoberta lançou um jorro de luz na miséria de nossa existência desintegrada num mundo completamente secularizado. Já muitos reconhecem que a verdadeira solução dos problemas sociais reside, de alguma maneira, na reconstrução da Igreja. “Em tempos como os de agora”, é preciso pregar o “Cristo total”. Cristo e a Igreja – totus Christus, caput et corpus, para usarmos a frase famosa de Santo Agostinho. Possivelmente esse tipo de pregação seja ainda pouco comum, mas ela parece ser a única forma de pregar a Palavra de Deus eficientemente num período de tristeza e desespero como o nosso.

 

 

A relevância dos Padres

 

Eu costumo ter uma estranha sensação. Quando eu leio os antigos clássicos da teologia Cristã, os Padres da Igreja, eu acho que eles são mais relevantes para as preocupações e problemas do nosso tempo do que os teólogos modernos. Os Padres estavam lutando contra problemas existenciais, com aquelas revelações das questões eternas descritas e reportadas nas Sagradas Escrituras. Eu arriscaria a sugestão de que Santo Atanásio e Santo Agostinho são mais atuais do que mitos de nossos teólogos contemporâneos. A razão para isso é muito simples: eles estavam lidando com as coisas e não com os mapas, eles não estavam tão preocupados com o que o homem pode acreditar, mas com aquilo que Deus fez pelo homem. Temos que, “em tempos como os nossos”, alargar nossa perspectiva, aceitar os mestres antigos, e tentar uma síntese da experiência Cristã voltada para nossa época.

 

 

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