sábado, 12 de dezembro de 2015

Teófano o Recluso - Como fazer nascer o espírito da Prece



Na vida cristã, a prece vem em primeiro lugar. A prece é o sopro do espírito. Onde existe a prece, o espírito está vivo; sem ela, o espírito é sem vida.

Colocar-se diante de um ícone e se prosternar não é a prece, é apenas um atributo. Dizer as orações de memória, lendo-as ou escutando-as – isto ainda não é a prece, é apenas um modo de descoberta e de despertar. A prece em si consiste na aparição em nosso coração de uma série de sentimentos piedosos, dirigidos um após outro para Deus: sentimentos de nossa própria indignidade, de devoção, de reconhecimento, de glorificação, de súplica, de contrição, de prosternação ardente, e outros.

Todo nosso cuidado está aí: encher nossa alma com todos esses sentimentos e com outros idênticos, a fim de que o coração não permaneça vazio. Quando todos esses sentimentos, ou apenas um deles, se encontrarem aí, e se lançarem em direção a Deus, então nossa oração terá se tornado uma verdadeira prece; caso contrário, não o terá sido ainda.

A prece, ou impulso em direção a Deus, deve ser estimulada e firmada, ou, o que vem a dar no mesmo, devemos educar em nós o espírito da prece.

O primeiro procedimento para tanto consiste na leitura ou na escuta de nossas preces. Leia, ou escute com atenção, e com toda certeza você despertará e sustentará a subida da prece de seu coração até Deus, ou seja, você penetrará no seu espírito, no espírito da prece.

Nas preces dos Padres santos, uma poderosa força se coloca em movimento, e aquele que aí se introduzir desenvolvendo toda sua atenção e sua perseverança a experimentará sem dúvida alguma, pela lei da interação, na medida em que tiver aproximado do conteúdo dessa prece seu próprio estado de espírito. Para que nossas preces constituam um modo real de educar esta disposição, é indispensável realizá-las de tal modo a que o pensamento e o coração acolham seu conteúdo.

Com esse objetivo, eis aqui três procedimentos muito simples: não comece suas orações sem antes ter se preparado convenientemente; não ore de qualquer jeito, mas com atenção e sentimento; e ao terminar, não retome imediatamente suas ocupações.

Preparação para a prece

Quando você se dispuser a orar, qualquer que seja o momento escolhido, permaneça primeiro um tempo tranquilo, assente-se ou dê alguns passos, e esforce-se para liberar seu pensamento de toda preocupação ou objeto daqui de baixo. Depois reflita: quem é aquele a quem você irá dirigi sua prece, e quem é você, que irá agora se dirigir a ele; e desperte em sua alma o sentimento apropriado, um sentimento de abnegação e de temor piedoso na presença de Deus dentro do seu coração. Nisso consiste a preparação mínima, mas de um significado muito importante: manter-se com piedade diante de Deus dentro do coração.

Este é o início da prece, e um bom começo já é metade da tarefa realizada.

Observância da prece – as preces lidas

Tendo assim se preparado interiormente, coloque-se diante do ícone, faça um sinal da cruz e uma prosternação, e comece suas preces habituais. Leia sem prece, penetrando cada palavra, levando até o coração o sentido de cada palavra, e acompanhe tudo isso com prosternações e persignações. Esta leitura frutífera da prece é agradável a Deus. Aprofunde cada palavra e introduza seu pensamento no coração, ou seja: “Purifique-se de toda mancha”, sinta o mal que existe em você, deseje a pureza, e, com total esperança, peça-a ao Senhor. Você lê: “Seja feita a sua vontade” e em seu coração você entrega completamente seu destino ao Senhor, pronto a acolher de bom grado tudo o que ele lhe enviar. Você lê: “Perdoe as nossas dívidas, assim como nós perdoamos os nossos devedores”, e em sua alma perdoe tudo a todos, e então peça perdão ao Senhor por você. Se você agir assim em cada versículo da prece, terá encontrado a oração correta. E para cumpri-la o mais precisamente possível, eis o que você deve fazer:

1.       Tenha uma certa regra de preces, não muito longa, a fim de poder realizá-la sem pressa, apesar de suas ocupações habituais.
2.       No seu tempo livre, leia atentamente as orações da sua regra, para compreender cada palavra delas e senti-las, a fim de conhecer previamente o que você deve produzir em sua alma e em seu coração diante de tal ou tal palavra, a fim de que seja fácil realizá-lo e experimentá-lo no momento da oração.
3.       Se, no momento da prece, seu pensamento voar em direção a outros objetos, esforce-se para se manter atento, e retorne ao objetivo da prece; se novamente ele fugir, obrigue-o a retornar outra vez: repita a leitura a partir do ponto em que deixou de sentir e compreender cada palavra. Assim você desabituará seu pensamento da dispersão quando orar.
4.       Se uma palavra da prece exercer um efeito poderoso sobre sua alma: detenha-se e não leia além desse ponto; permaneça nesta passagem, com atenção e sentimento, alimente sua alma com ela ou com os pensamentos que ela produzir, e não destrua esse estado enquanto ele não desaparecer por si só: este é o sinal de que o espírito da prece começa a fazer seu ninho em você, e esse estado é o meio mais seguro de educar e firmar este espírito.

Depois da prece

Quando você terminar sua oração, não passe imediatamente para qualquer outra ocupação, mas outra vez permaneça tranquilo por alguns momentos e reflita sobre o que acabou de realizar e no que isto implica, salvaguardando em especial, depois da prece, aquilo que teve um efeito marcante sobre você. A própria natureza da prece é tal que se você orou corretamente, como se deve, você não sentirá necessidade de se ocupar de seus afazeres: quem saboreou o mel não irá querer fel; provar desta doçura da prece é o próprio objetivo da oração e, saboreando essa doçura durante a oração, o espírito da prece vai se educando.

Se você seguir esses poucos princípios, verá rapidamente o fruto de seus esforços. Toda oração deixa na alma um rastro da prece; segui-lo fielmente com o mesmo método a fará deitar raízes, e a perseverança no esforço enxertará nela o espírito da prece.

Este é o início, o primeiro modo de educar em nós o espírito da prece! Ele está em conformidade com sua destinação, que é a realização de nossas preces. Mas ainda não é tudo, isto não é mais do que o começo da ciência da prece. É preciso ir mais longe.

Ir além: a prece pessoal

Tendo nos habituado pelo espírito e pelo coração a nos dirigirmos a Deus com uma ajuda exterior – os livros de oração – a seguir é indispensável ensaiar a própria subida até Deus, a conseguir que a própria alma, por meio de um discurso por assim dizer pessoal, entre numa conversação de preces com Deus e se transporte até ele, se abra para ele, lhe confesse seu estado e o que ela deseja. É preciso aprendê-lo. Como ter sucesso em tal ciência?

É verdade que o hábito da oração, com piedade, atenção e sensibilidade, com o apoio do livro de orações, leva até aí, pois a prece pessoal, cheia de santos sentimentos através do livro de orações, começará por si mesma a se desenraizar do coração para se dirigir até Deus. Entretanto, para isso existem também métodos específicos que conduzem aos necessários bons resultados da prece.

Primeiro método: o ensinamento que conduz a alma a se dirigir frequentemente a Deus é o “pensamento de Deus”, ou a reflexão piedosa sobre as propriedades e ações divinas – benevolência, justiça, sabedoria, onipotência, onipresença, onisciência – sobre a criação e a providência, a salvação em Jesus Cristo, sobre a graça e a palavra de Deus, os santos mistérios e o reino celeste. Qualquer que seja o objeto sobre o qual você começará a meditar, ele preencherá a alma sem falta com um sentimento de piedade em relação a Deus: ele impulsionará diretamente a Deus o ser inteiro, e é por isso que é um meio mais direto para habituar a alma a se lançar a Deus.

Quando você tiver terminado suas orações, sobretudo pela manhã, sente-se e comece sua meditação: hoje a respeito de uma, amanhã sobre outra das propriedades e ações de Deus, e conduza sua alma à predisposição correspondente. Repita com São Dimitri de Rostov: “Venha, santo pensamento em Deus, e mergulhemos na meditação das grandes obras de Deus”. Permita assim que seu coração se comova e você começará a derramar sua alma durante a prece. Não é um esforço muito grande, e dará muitos frutos. Só é preciso querer e zelar. Comece, por exemplo, a refletir sobre a benevolência divina e você se verá cercado dos efeitos corporais e espirituais da misericórdia divina, e, cheio de reconhecimento, você se prosternará diante de Deus; medite sobre sua onipresença e você descobrirá que em toda parte você está diante dele e ele diante de você, e será impossível a você não sentir um piedoso temor; medite sobre a verdade de Deus, e logo será convencido de que nenhuma má ação permanecerá impune, e você se disporá, seguramente, a se purificar dos pecados diante de Deus com o coração contrito e arrependido; reflita sobre a onisciência divina, e você reconhecerá que nada do que está em você escapa aos olhos de Deus, e certamente você se decidirá a ser severo  consigo mesmo e atento em todas as coisas, a fim de não irritar a Deus, que a tudo vê.

Segundo método: este método para educar a alma a invocar frequentemente a Deus consiste em dedicar todas as nossas empresas, sejam grandes ou pequenas, à sua glória. Pois se tomarmos como regra, conforme o Apóstolo[1], tudo fazer – mesmo comer e beber – para glória de Deus, não apenas nos lembraremos de Deus, como ainda estaremos atentos, em todas as circunstâncias, para não agir mal e não irritar a Deus com alguma ação de nossa parte. Isso nos obrigará a nos dirigirmos a ele com temor e a pedir a ele que sempre nos ajude e nos esclareça. E como estamos em atividade quase sem parada, também sem cessar dirigiremos preces a Deus, nos manteremos constantemente em orante elevação de nossa alma a Deus. Assim ensinaremos nossa alma a se dirigir o mais frequentemente possível a ele durante cada dia.

Terceiro método: o terceiro método de educação de nossa alma consiste em habituá-la a chamar por Deus a partir do coração, com palavras curtas, segundo as necessidades e das ocupações. Ao iniciar qualquer coisa, diga: “Abençoa, Senhor”. Ao terminar, diga, não apenas com a língua, mas com o coração: “Glória a ti, Senhor!”. Se uma paixão ruim aparece, diga: “Salva-me, Senhor, estou em perigo”. Invadido por uma multidão de maus pensamentos, chame: “Livra minha alma da prisão”. Um engano surge num assunto e o pecado o chama, ore: “Guia-me, Senhor, pelos caminhos”, ou “Não deixe meu pé escorregar”. Quando os pecados pesam sobre você e o levam ao desespero, chame com as palavras do publicano: “Senhor, tem piedade de mim”. E assim em todas as circunstâncias. Ou então, diga com frequência: “Senhor, tem piedade”, “Mãe de Deus, Soberana, salve-me”, “Anjo, meu santo Guardião, defende-me”, ou peça com quaisquer outras palavras. Apenas, na medida do possível, chame constantemente, esforçando-se sobretudo para que as palavras provenham do coração, como se brotassem dele. Fazendo assim, obtemos frequentes elevações espirituais do coração para Deus, chamando-o com frequência por meio de uma prece frequente, e esta frequência nos inculcará o hábito da conversa espiritual com Deus.

Assim, portanto, além da regra de orações, o aprendizado da elevação da alma para Deus por meio da prece comporta também três procedimentos que nos conduzem ao espírito da prece: deixar tempo pela manhã para a meditação de Deus, em tudo trabalhar para a glória de Deus e se dirigir a Deus com frequência por meio de curtos apelos. Quando a medição matinal de Deus for boa, ela preservará uma disposição profunda do espírito para pensar em Deus. Este pensamento em Deus obrigará a alma a cumprir todo ato, interior ou exterior, com prudência e para a glória de Deus. E uma e outra a colocarão numa situação que a levará a fazer constantes apelos curtos a Deus. Essas três coisas – meditação de Deus, toda obra para glória de Deus e invocações frequentes – são as armas mais eficazes para a prece espiritual do coração. Cada uma delas eleva a alma para Deus. Desenraizando-se da terra, esta penetrará no seu domínio e viverá com delícia nas alturas; aqui, por intermédio do coração e do pensamento; e lá em cima, ela terá se tornado essencialmente digna de se colocar diante da Face de Deus.



[1] I Coríntios 10: 31.

São Silouane o Athonita - Sobre a Prece (excertos)



Aquele que ama o Senhor se lembra constantemente dele, e a lembrança de Deus faz nascer a prece.  Se você não se lembra do Senhor, tampouco irá rezar. Sem a prece, a alma não se manterá no amor a Deus, pois é pela prece que nos chega a graça do Espírito Santo. Pela prece, o homem se guarda do pecado, pois o espírito em estado de prece é absorvido por Deus. Com humildade, ele se mantém diante da Face do Senhor, a quem sua alma conhece (...).

Deus concede a prece a quem ora; mas a prece que realizamos unicamente por costume, sem termos o coração quebrantado por causa de nossos pecados, não é acolhida pelo Senhor.

Interromperei por um instante meus propósitos sobre a prece.

Minha alma desfalece diante do Senhor; eu o busco com ardor e minha alma não suporta pensar em outra coisa. Minha alma desfalece diante do Senhor vivo, e meu espírito se lança para ele como para seu próprio Pai celeste. O Senhor nos une a ele pelo Espírito Santo. O Senhor é doce ao meu coração – ele é nossa alegria, nossa felicidade e o rochedo de nossa esperança. Senhor, em sua misericórdia venha em busca de sua criatura, e mostre-se aos homens pelo Espírito Santo, como você se revela aos seus servidores. Alegre, Senhor, com a vinda de seu Espírito Santo, toda alma aflita. Faça, Senhor, com que todos os homens que oram conheçam o Espírito Santo.

Nós, todos os homens, humilhemo-nos por amor ao Senhor e pelo Reino dos Céus. Humilhemo-nos, e o Senhor nos fará conhecer a força da “prece de Jesus”. Humilhemo-nos, e o próprio Espírito divino instruirá nossa alma.

Busque conselho junto a homens experientes, se os encontrar, e interrogue humildemente o Senhor; por causa da sua humildade, o Senhor lhe concederá a inteligência.

Quando nossa prece é recebida pelo Senhor, o Espírito divino dá testemunho disto na alma; ele é doce e pacífico; de outro modo eu não saberia se o Senhor aceitou ou não minha prece, nem por quais sinais reconhecê-lo.

Ó homem! Aprenda a humildade de Cristo, e o Senhor lhe permitirá provar da doçura da prece. Se você busca a prece pura, seja humilde, seja sóbrio, confesse-se sinceramente e a prece o amará. Seja obediente, submeta-se de bom grado às autoridades, esteja contente com tudo e então seu espírito de purificará dos vãos pensamentos. Lembre-se de que o Senhor o vê e tema ferir seu irmão; não o julgue, não o faça sofrer, mesmo que só com a expressão do seu rosto – e então o Espírito Santo o amará e o socorrerá em tudo.

O Espírito Santo é como uma mãe cheia de ternura. Assim como uma mãe ama seu filho e o protege, também o Espírito Santo nos protege, nos perdoa, nos cura, nos instrui, nos alegra; ele se dá a conhecer na prece realizada com humildade.

Quem ama a seus inimigos conhecerá sem tardança seu Senhor por intermédio do Espírito Santo; ao contrário, quem não os ama... Não quero nem escrever a respeito. Apenas o lamento, pois este atormenta a si mesmo, faz sofrer os outros, e não conhecerá o Senhor.

A alma que ama o Senhor não pode jamais deixar de orar, pois se sente atraída para ele pela graça que conheceu através da prece.

As igrejas nos foram dadas para a prece; nas igrejas, celebramos os ofícios de acordo com os livros litúrgicos; mas você não pode levar a igreja consigo, nem está todo o tempo com os livros, enquanto que a prece interior está sempre e em toda parte com você. Nas igrejas, celebramos os serviços divinos, e o Espírito Santo está presente; mas a melhor igreja de Deus é a alma. Para aquele que ora em sua alma, o mundo inteiro se torna um templo. Mas isto não é concedido a todos.

Muitos homens oram com os lábios e gostam de orar apoiados nos livros de oração. Isto é bom; o Senhor acolhe suas preces e derrama sobre eles sua graça. Mas se oramos pensando em outra coisa, o Senhor não escutará nossa prece. Quem ora apenas por hábito não experimenta as transformações de sua oração, mas quem ora com todo o seu coração descobre logo as provas que advém: ele se acha em luta contra o inimigo, em luta consigo mesmo, em luta com as paixões, em luta com os homens; e, em tudo isso, é preciso ser valente e valoroso.

Os sofrimentos e os perigos ensinaram muitos homens a orar. Um dia, um soldado veio me procurar numa loja de víveres[1]; ele estava lotado em Salonica. Minha alma sentiu afeto por ele, e eu lhe disse: “Ore ao Senhor, e suas penas serão aliviadas”. Ele me respondeu: “Eu sei rezar. Eu aprendi durante a guerra, quando estava em batalha. Eu suplicava ao Senhor que guardasse minha vida. Choviam balas, os obuses explodiam e poucos homens sobreviveram; eu tomei parte de muitos combates, mas o Senhor me preservou”. Falando assim, ele me mostrou como orava, e pela atitude de seu corpo podia-se ver que ele estava inteiramente mergulhado em Deus.

Muitos homens gostam de ler bons livros, o que é bom; mas orar é melhor do que tudo. Ao contrário, quem lê livros ruins ou jornais, é ferido com a fome da alma. Sua alma se torna faminta, porque o alimento da alma e suas delícias estão em Deus. É em Deus que encontram sua vida e sua alegria.

Se você deseja orar com o espírito unido ao coração, mas não o consegue, diga a prece com os lábios e fixe sua atenção nas palavras da prece, como disse São João Clímaco em sua Escada. Com o tempo, o Senhor lhe concederá a “prece do coração”, sem distração, e você poderá orar com facilidade. Alguns, na obra da prece, tendo forçado seu intelecto a descer até o coração, o abismaram a tal ponto que já não eram mais capazes de pronunciar a prece com os lábios. Mas você conhece a lei da vida espiritual: os dons não são concedidos senão à alma simples, humilde e obediente. A quem é obediente e contido em tudo – na alimentação, nas palavras e nos movimentos – o Senhor concederá a prece, e ela se realizará com facilidade em seu coração.

A prece incessante procede do amor, mas a perdemos por causa dos julgamentos, das palavras vãs e da intemperança. Quem ama a Deus pode pensar nele dia e noite, pois nenhuma ocupação pode impedi-lo de amar a Deus. Os Apóstolos amavam o Senhor sem que os mundo os perturbasse, e mesmo assim eles se lembravam do mundo, oravam por ele e por ele se entregavam à predicação. Entretanto, foi dito a Santo Arsênio: “Fuja dos homens”; mas o Espírito divino nos ensina, mesmo no deserto, a orar pelos homens e pelo mundo inteiro.

Neste mundo, cada qual tem uma tarefa: um é rei, outro é patriarca, outro cozinheiro, ferreiro ou professor, mas o Senhor ama a todos os homens, e aquele que é contemplado com um amor ainda maior de Deus receberá também uma recompensa ainda maior. O Senhor nos deu o mandamento de amar a Deus de todo nosso coração, de toda nossa inteligência e de toda nossa alma. Mas como é possível amar sem orar? É por isso que o intelecto e o coração do homem devem sempre estar livres para a prece.

Quando amamos alguém desejamos estar com a pessoa, pensar nela, falar com ela. A alma ama o Senhor como seu Pai e Criador, e diante dele se coloca com temor e amor; com temor, porque ele é o Senhor, e com amor, porque nele a alma reconhece seu Pai. Ele é misericordioso, e sua graça é mais doce do que tudo.

Também eu penso que é fácil orar, porque a graça de Deus nos auxilia. O Senhor nos ama e nos permite conversar com ele na prece. Faltam-me forças para descrever o quanto o Senhor nos ama. Conhecemos este amor por intermédio do Espírito Santo, e a alma de quem ora conhece o Espírito Santo.

Alguns dizem que a prece nos faz cair numa ilusão espiritual, mas isso é um erro. A ilusão provém de uma presunçosa confiança em si próprio, não da prece. Todos os santos oraram muito e chamaram os demais homens à prece. A prece é a melhor atividade para a alma. Por meio dela, chegamos até Deus; por meio dela, pedimos a humildade, a paciência e outros bens. Quem fala contra a prece claramente jamais provou o quanto o Senhor é bom. Nenhum mal provém de Deus. Todos os santos oraram sem cessar; eles não permaneciam um só instante sem a prece.

A alma, ao perder a humildade, perde também a graça e o amor a Deus, e então a prece ardente se extingue; mas quando as paixões se apaziguam na alma, esta readquire a humildade e o Senhor lhe concede sua graça. A partir daí, ela ora por seus inimigos como por si própria, e ora pelo mundo inteiro com lágrimas ardentes.



[1] São Silouane era ecônomo do mosteiro de São Panteleimon, responsável pelos questões materiais do mosteiro.

Dumitru Staniloae - A Prece num mundo secularizado (excertos)



A necessidade de oração do homem que crê não deixa dúvidas. Quanto mais forte é a fé de alguém, também maior é sua necessidade de orar. Por outro lado, a fé de uma pessoa é sustentada pela fé de outras pessoas. Nisto fica evidente a importância da Liturgia e de todo culto público. Mas na sociedade de hoje em dia constatamos um enfraquecimento da fé. Por conseguinte, surge uma espécie de indiferença em relação à prece. Talvez o conceito de sociedade secularizada não indique uma sociedade totalmente descrente, mas apenas uma sociedade na qual a maior parte dos membros não pratica a prece senão raramente, em momentos excepcionais.

Para quem deseja manter o vigor de sua fé por meio da prece, coloca-se hoje um duplo problema: defender sua fé contra a influência debilitante de um meio enfraquecido na fé, e defender a prática da fé no contexto de uma sociedade que perdeu em grande parte o uso da prece. Enquanto que o homem de outrora encontrava no meio social um fator por meio do qual ele fortalecia sua fé e sua prática da oração, atualmente este meio constitui um fator de resfriamento, um fator contra o qual aquele que pretende manter sua fé e sua prece deve se defender continuamente.

Hoje em dia o homem que crê deve buscar numa grande medida por si mesmo as razões que possam sustentar sua fé e sua prática da prece. E justamente isso pode tornar sua fé mais profunda e sua prece mais calorosa, dado que essas coisas já não são sustentadas em grande parte pelo meio social. Consequentemente, o homem que tem sucesso em fortalecer sua fé e sua prece por meio de razões pessoalmente refletidas, pode se tornar ele próprio um cadinho para o reforço da fé e a renovação da prece em seu meio social. Com isso ele pode ajudar a sociedade a sair da vida superficial, saturada do desânimo que causa o enfraquecimento da fé e da prece; em outras palavras, ele pode ajudar a reencontrar um conteúdo mais substancial, a sanar suas raízes abismadas mergulhando-as novamente numa profundidade ainda maior de vida, sem a qual a existência humana se torna de uma uniformidade monótona e desprovida de razão.

A prece e a Sagrada Escritura

Os Padres espirituais da ortodoxia encontraram um meio de fortalecer a prece na meditação das palavras da Sagrada Escritura e de outros livros espirituais. Santo Isaac o Sírio dizia que “a leitura das Escrituras divinas fortalece o espírito e refresca a prece... porque elas são uma luz para a inteligência, conduzindo-a pelo caminho reto e semeando na prece o conteúdo da contemplação, contribuindo para dar ao espírito sutileza e sabedoria[1]”.

As palavras da Sagrada Escritura têm um poder sobre nós, quando as sentimos como palavras de Deus, que faz com que nos dirijamos a ele no momento da leitura. Então, através delas, encontramos o próprio Deus, sentimo-nos atraídos por seu chamado, conforme as circunstâncias e o nível espiritual de cada qual. E descobrimos nessas palavras um grande poder e um sentido sempre renovado. Desta forma a leitura se unifica à prece. É preciso pedir a Deus que nos abra o interior das palavras, tornando-se ele próprio transparente e presente para que o sintamos nelas. É por isso que o mesmo Isaac o Sírio recomenda: “Esteja atento ao que você lê. Pois se você não lutar, não encontrará. E se você não se bater com ardor e não vigiar incessantemente à porta, você não será escutado[2]”. “Por causa disso foi escrito que a alma é auxiliada pela leitura na prece e é iluminada pela prece na leitura[3]”.

Se a meditação faz com que sejamos capazes de descobrir a Deus nas palavras da Escritura, ela nos faz descobri-lo também nas coisas do mundo. Pois as palavras da Escritura não nos falam apenas de Deus em si, mas de sua relação para conosco através das coisas do mundo e através de nosso próximo; deste modo as palavras da Escritura nos falam das coisas do mundo, elas no-lo revelam como criaturas de Deus que ele não cessa de sustentar. As palavras da Escritura e as coisas do mundo, incluindo-se aí as pessoas, nossos próximos e nossa própria pessoa, com seus pensamentos e seus problemas [que são também nossos pensamentos e nossos problemas], encontram-se indissoluvelmente ligadas entre si e a Deus: todas estão de certo modo dirigidas à nossa consciência e entregues a ela como dons e chamados de Deus, e desta forma as circunstâncias sempre mutáveis nos pedem para mostrar nossa maneira de viver segundo a vontade de Deus.

Assim somos chamados a amadurecer nosso ser, a crescer espiritualmente em direção a uma compreensão sempre mais plena da riqueza do pensamento divino e da profundidade do amor de Deus para conosco; e assim somos chamados a um amor sempre maior em relação a ele, e chamados a nos unir a ele. Pois a complexidade das circunstâncias e dos problemas coloca em relevo o caráter inesgotável e o significado infinito das coisas e das pessoas que se enraízam na infinitude de Deus. Aprofundando mais e mais o sentido das coisas e das pessoas, podemos descobrir um sentido sempre mais profundo na Escritura e inversamente. Aprofundando sem cessar esses dois tipos de revelações, progredimos na percepção do amor infinito de Deus, que nos toca até as lágrimas. Santo Isaac disse: “Leia os Evangelhos, eles foram dados por Deus para o conhecimento da criação inteira, para que sua inteligência se torna consciente de sua Providência... e para que ela mergulhe das coisas maravilhosas de Deus[4]”. E quando a graça começar a abrir seus olhos para sentir e ver as coisas em sua verdade, eles começarão a verter torrentes de lágrimas[5]” (...).

Oferecer as pessoas e o mundo a Deus

O amor de Deus adquire em nós uma força purificadora, por nossas relações com as coisas e as demais pessoas, porque Deus não pode ser encerrado por nenhuma fronteira estreita de modo a servir a apenas uma pessoa; ao contrário, ele só se dá na medida em cada um o recebe em comunhão com todos. Assim, aproximar-se de Deus e abrir-se para ele significa implica uma purificação, porque em Deus vemos as coisas e as pessoas além de suas limitações, em mútua união, e vemos a nós mesmos em comunhão com elas. É por isso que São Marcos o Asceta recomendava, como meio de adquirir um verdadeiro olhar sobre as coisas, oferecer como sacrifício a Cristo a representação de cada coisa no exato momento em que ela aparece em nosso pensamento. Essa oferenda a Cristo das representações das coisas se identifica com sua entrada na profundeza mais interior e mais sensível de nosso ser. É aí que Cristo de fato habita em nós desde o batismo[6]. Devemos assim realizar uma postura que comporta três aspectos: pensar de uma maneira verdadeira, portanto desinteressada, em cada coisa, oferece-la a Cristo e, por ele, a todos a quem ele ama, buscar nosso centro mais central e atualizá-lo cada vez que pensamos em algo, ou seja, definitivamente, de maneira ininterrupta (...).

Oferecer a representação de cada coisa ou pessoa que vemos ou nas quais pensamos, significa agradecer a Deus por esta coisa ou esta pessoa, ou glorificá-lo ou pedir seu auxílio para realizar o serviço que se espera de nós.

Os Padres chamaram cada gesto, cada ato de “prece”, ou mesmo “liturgia”. Essa liturgia pode se tornar incessante. Assim podemos adquirir o hábito de fazer de cada representação, de cada encontro, a oportunidade para uma prece ininterrupta. Esse encontro com as coisas e os seres é um caminho para alcançar um estado de oração e mesmo de liturgia pessoal incessante, unida à prece contínua de Cristo, nosso Grande Sacerdote, que a tudo santificou e deseja a tudo santificar incessantemente para nós recebendo nossos sacrifícios e oferecendo-os ao Pai, juntamente com seu próprio sacrifício. E essa forma de prece tem um efeito purificador pelo amor que está contido nela. “A prece é a purificação do intelecto”, são palavras de São Gregório de Nazianze retomadas por Santo Isaac o Sírio[7].

A purificação na oferenda de si a Deus

Para São Cirilo de Alexandria ninguém pode ser salvo senão pelo ato de se oferecer a Deus numa doação integral de si mesmo. Mas ninguém pode se se oferecer como sacrifício puro de outro modo que pela união com Cristo, que se oferece continuamente por nós como sacrifício puro e total ao Pai. É de Cristo que recebemos o poder de nos purificar e de nos oferecer, unindo-nos a ele numa ato único de sacrifício. Este é o tema único da obra de São Cirilo, “A adoração em espírito e verdade” (PG 68). Aquele que se oferece a Deus se oferece com todos os seus atos e todos os seus pensamentos. Este vive totalmente em Deus.

A ênfase direta que São Cirilo coloca, em primeiro lugar, sobre a oferenda de sua própria pessoa, não é desprovida de importância. Não podemos purificar nosso olhar, e portanto as imagens das coisas e das pessoas, bem como nossas relações com elas, se não purificarmos nossa própria pessoa. Não podemos entregar as coisas a Deus se não nos entregamos a nós mesmos. É uma coisa de primeira importância que enxerguemos a nós mesmos, em tudo o que fazemos, em referência a Deus, e estarmos sempre conscientes dessa dimensão profunda e misteriosa de nossa pessoa. E aqui o próprio Deus vem em nosso socorro, ele que se tornou próximo a nós assumindo a humanidade e entregando-a ao Pai (...).

Se devemos oferecer a Cristo a representação de cada coisa e também nossa própria pessoa, é natural que ofereçamos também nossa relação com os outros. E novamente isso tem uma grande importância, não apenas para nossa purificação, mas também para aprimorar nossas relações com os demais. É uma grande coisa nada pensar de mal em relação aos outros. Isto implica pensar no outro e comungar com ele sempre com amor e compreensão por seus defeitos, que não definem sua essência, com um sentimento de perdão, com o sentimento de comunicar com um mistério. O fato de que alguém cometeu uma falta contra mim ou contra outro não deve diminuir aos meus olhos o valor e o sentido incomensurável de seu mistério, este dom inesgotável para mim, este dom absolutamente superior em relação às coisas, dado que o outro representa, em seu encontro comigo, uma reserva infinita de mistério. Santo Isaac dizia: “Você não deve distinguir o digno do indigno, mas considerar que todos os homens são iguais para você em sua bondade. Pois neste mundo você também poderá atrair o bem para os indignos. O Senhor sentou-se à mesa com publicanos e prostitutas e jamais se separou dos indignos, para atrair os homens ao temor de Deus e para os atrair, dos bens materiais, aos Bens espirituais[8]” (...).

Meus próximos me colocam os problemas mais complicados; seus encontros comigo produzem circunstâncias sempre novas e em tudo isso eu devo enxergar o chamado de Deus para que eu cresça no amor. Ao responder ao seu chamado, eu aceito o diálogo continuamente renovado entre Deus e eu. Ao colocar em ligação com Deus a representação de meu próximo, em todas as situações, eu respondo a Deus não apenas agradecendo pelo fato de ele ter me concedido este próximo para meu crescimento espiritual, mas ainda pedindo a ele seu auxílio para responder às novas necessidades de meu próximo, não apenas para meu crescimento espiritual como para o crescimento dele. Por outro lado, eu oro para que meu próximo seja ajudado em cada nova situação para realizar o sentido de sua existência.

A prece: lançar uma ponte para o próximo

O segundo ponto que deve ser encarado nesta exposição consiste em saber se minha oração pode ter um efeito salutar sobre o plano das relações sociais, na sociedade secularizada de hoje.

Um traço característico dessa sociedade é que o homem se sente nela muito mais solitário do que na sociedade de antigamente, na qual não faltava a preocupação com Deus. O fiel sente hoje a necessidade de orar, talvez mais até do que no passado, porque por meio da prece ele se salva da solidão tão difícil de suportar. Na prece ele obtém um meio de estar em comunicação com Deus. E na prece o próprio Deus dialoga com ele através de todas as coisas e ele próprio vê e escuta a Deus em todas elas. Quem ora toma consciência de suas raízes na realidade pessoal infinita de Deus e não é atirado às ondas superficiais da vida, de uma vida encerrada num único horizonte terrestre. Ele se torna capaz de preencher sua vida com um conteúdo infinito.

Aquele que ora lança também para os próximos pontes mais consistentes do que as frágeis e superficiais pontes que encontramos numa sociedade secularizada. No fundo, todos os homens de hoje desejam essas pontes, mais do que nunca, mas eles não sabem que elas não podem ser descobertas senão pela prece. Segundo nossa convicção, os que oram podem não apenas lançar, oferecer tais pontes, como também abrir o coração dos outros para que eles recebam e respondam à comunicação de amor daqueles que oram, pela comunicação de seu próprio amor.

Santo Isaac o Sírio dizia: “Apresse-se, ao encontrar seu próximo, em honrá-lo além de toda medida. Beije seus pés e mãos e louve-o, mesmo por virtudes que ele não possua”. “Ame os pecadores... e não os despreze por suas faltas”. “Por estas e outras ações semelhantes, você poderá atrair o bem para eles[9]” (...).

Responder ao próximo, responder a Deus

A ligação de cada homem a outro por intermédio da palavra é tão absoluta que devo responder ao seu chamado incondicionalmente e devo também chamá-lo incondicionalmente. Ninguém pode evitar responder ao chamado de outrem. E se minha resposta for negativa, eu não poderei escapar da inquietação. Esse caráter absoluto de nossa ligação pela palavra significa que somos ligados pela palavra no próprio Deus o Verbo. Ele próprio me chama por meio do chamado de meu próximo e eu devo responder a meu próximo como responderia ao próprio Deus. Foi Deus quem colocou o próximo na situação de me chamar e me colocou diante dele, com o dever de responder-lhe e de chamar por ele. E a alegria que produzimos com a resposta positiva de um ao outro é uma alegria que nos vem e que distribuímos da parte de Deus também. Nossa ligação pela palavra exige, assim, nosso aperfeiçoamento no amor. o próximo constitui a palavra ontológica viva e vivificadora de Deus para comigo, e por meu turno sou a palavra viva e vivificadora de Deus para com meu próximo (...).

Se penso em Deus quando meu próximo me chama, quando vejo que ele precisa de mim, quando me regozijo com sua presença e sua atenção, estou escutando um mandamento de Deus e devo agradecer a Deus pelo dom e pela palavra que ele me dirige através daquela pessoa. Meu diálogo com o próximo é ao mesmo tempo meu diálogo com Deus e o diálogo dele com Deus. Mas esse diálogo não se realiza de maneira perfeita, tanto entre nós os homens, como entre cada um de nós e Deus, senão na forma da prece, ou seja, quando eu escuto o chamado do outro e respondo a ele em espírito de oração, orando no ambiente deste diálogo e buscando uma possibilidade de servir. Na prece eu me sensibilizo plenamente com o outro, como exige o diálogo.

O diálogo é, assim, perfeito em espírito de oração e deve acontecer não somente por meio das palavras ditas, mas também pelas palavras incorporadas nas obras de auxílio mútuo e, quando necessário, mas obras de misericórdia. Pelas obras nós nos oferecemos ainda mais um ao outro e a Deus. Por isso a prece pelo outro deve ser unificada com a obra por ele, e quando necessário com a misericórdia.

Santo Isaac o Sírio disse: “Nada aproxima tanto o homem de Deus como a misericórdia”. E: “Se num dia você tiver mais do que o que necessita, dê aos pobres, depois venha e faça suas orações com coragem[10]”. E: “Que a medida da misericórdia cresça em você até que você sinta a misericórdia de Deus para com o mundo[11]” (...).

Mesmo a prece para o outro deve ser feita de tal maneira com ele que você possa sentir a sua dor como se fosse sua própria dor. Desta maneira você se apresenta a Deus trazendo o outro em si, e assim você pode se aproximar de Deus. Deus não pode ser encontrado no seu amor ao outro a menos que este amor chegue até a apropriação de sua dor por você, pois, se Deus é amor, ele não pode ser vivido senão no estado de seu amor pelo outro. Nisto reside o sacerdócio universal dos leigos, que faz com que eles orem uns pelos outros. Então podemos compreender a prece do sacerdote da comunidade por todos os fiéis de sua paróquia (...).

A prece plena pelo outro é aquela que é acompanhada pela dor por ele, ou pelo sacrifício, ou pelo dom de sua obra. É somente nesse estado de sacrifício que se pode penetrar em Deus, junto com Cristo, de quem emprestamos seu poder de sacrifício. Devo fundir-me no amor e na misericórdia pelo outro em Deus e no outro, para participar deste Deus que é misericórdia e amor.

É apenas pela sensibilidade do sacrifício e da misericórdia para com o outro que eu penetro como um perfume na zona divina, que é, ela também, um perfume penetrante de amor e misericórdia (...).



[1] Santo Isaac o Sírio, Obras Espirituais, Sermão 29, pg. 123.
[2] Ibid. Sermão 23, pg. 102.
[3] Ibid. Sermão 23, pg. 98.
[4] Ibid. Sermão 23, pg. 95.
[5] Ibid. Sermão 23, pg. 96.
[6] São Marcos o Asceta, Sobre o batismo.
[7] Santo Isaac o Sírio, Obras Espirituais, Sermão 32, pg.140.
[8]. Ibid. Sermão 23, pg. 99.
[9] Ibid. Sermão 6, pg. 30.
[10] Ibid. Sermão 23, pg. 99.
[11] Ibid. Sermão 34, pg. 151. 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Padre José o Hesiquiasta - Duas cartas sobre a Prece de Jesus



 Padre José o Hesiquiasta (1897-1959) foi uma das figuras mais importantes da espiritualidade Ortodoxa no século XX. Apesar de ter levado uma existência discreta no Monte Athos, tornou-se, na realidade, um dos principais restauradores do modo de vida hesiquiasta, e, em especial, da “prece de Jesus”, ou “prece do coração”. Após sua morte, seus discípulos levaram seus ensinamentos a todo o Monte Athos, à Grécia e Chipre, chegando até a América do Norte. As duas cartas a seguir são apresentadas a nós por um discípulo seu, que se assina simplesmente como “um filho do Padre José”.

Introdução

Algumas palavras introdutórias serão úteis para estas duas cartas do Padre José o Hesiquiasta referentes à prece de Jesus.

“A prece interior para mim é como a arte de cada um...”: é assim que no Padre José descreve sua relação com a prece do coração, pretendendo desta maneira mostrar que ele recebeu seu aprendizado junto a um mestre, da mesma forma como um jovem aprendiz se coloca na escola de um artesão para aprender a arte de seu ofício. Ora, depois de muitos anos na ascese da prece do coração, o Padre José se tornou, por sua vez, um mestre. Por “mestre” não se deve entender que ele adquiriu o “domínio” da prece interior, mas sim que ele acabou por dominar os movimentos de seu espírito.

O Padre José não foi um teórico dentre muitos outros que escreveram sobre a prece de Jesus. Embora muitas de suas cartas sejam verdadeiros tratados sobre a prece do coração, dignos de se igualar aos Padres Népticos, o Padre José se revelou mais um guia seguro do que um teólogo para aqueles que desejam aprender a orar a prece de Jesus. “Deus, diz ele numa carta, é a origem e o todo” da prece interior. E se alguém achar que ele insiste sobre a técnica, poderá observar que o Padre José simplificou-lhe a forma, mas que a intenção fundamental não foi alterada: alcançar, pela prece de Jesus, um estado no qual a graça desça sobre o coração: “Pois o objetivo da prece interior é a descida da graça”. Ora, quando a graça se apossa do coração, ela não apenas o renova, mas o transforma num Templo vivo onde a Santíssima Trindade possa vir habitar. A partir daí já não estamos submetidos a nós mesmos, mas à prece de Jesus. Bem-aventurado é aquele em quem reine a prece interior, pois ele sentirá uma alegria e uma paz permanentes! “Ó alegria, ó alegria!, que preenche nosso ser modelado do barro!”. Em certos momentos, sentimos nas cartas a impotência do Padre José em encontrar palavras, ou em inventá-las, para expressar esta felicidade que por sua natureza transcende toda expressão.

O Padre José considera – e isto pode surpreender algumas pessoas – que a prece de Jesus é a única que assegura sem falhas a guarda do coração contra a imaginação, enquanto que as outras formas de prece, mesmo sendo boas, não são impermeáveis ao devaneio do espírito. “Como é aterrorizante a desorientação do espírito!”. Por essa razão, ele coloca acima de tudo o valor seguro da prece interior: “A prece circular do coração não teme a desorientação”.

Carta 1: a um jovem que pergunta sobre a maneira de se aplicar à prece do coração.

Bem-amado em Cristo.

Eu espero que você esteja bem. Recebi sua carta ainda hoje, e estou agora respondendo às coisas que você me escreveu. As informações que você me pede não exigem nem tempo nem dificuldade de minha parte para dá-las a você.

A prece interior para mim é como a arte de cada um, assim como eu a exerço há mais de trinta anos. Quando cheguei à Montanha Santa, logo me pus à procura de eremitas que se dedicassem à prece[1]. Naquele tempo, eles eram numerosos, antes dos quarenta anos, e cheios de vida. Homens de virtude, pais espirituais experimentados. Escolhemos um dentre eles, mas os tínhamos a todos como nossos guias.

Quanto à prece, sua atividade (praxis) consiste em violentar-se continuamente para repeti-la sem relaxar com a boca. De início rapidamente, para não dar tempo ao espírito (nous) de formar qualquer ideia de grandeza. Cuide simplesmente de aplicar toda sua atenção às palavras: “Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim”. Depois de um longo tempo nessa atividade, o espírito acabará por se habituar e recitará essas palavras sem esforço. Ele sentirá prazer e as provará como mel. Então ele tentará praticar continuamente. Se ele a abandonará, sentir-se-á pesaroso.

Depois que o espírito se habitua e se sacia – assimilando bem o método – ele envia a prece ao coração. Pois o espírito é o fornecedor do coração e seu trabalho principal consiste em levar até ele tudo o que ele encontra de bom e de mau; pois o coração é o centro do poder espiritual e corporal do homem, o trono do espírito. Assim, quando aquele que ora guarda seu espírito longe de qualquer imaginação, e aplica sua atenção às palavras da prece, respirando levemente com um certo esforço e com sua própria vontade, ele empurra seu espírito em direção ao coração e o mantém apertado, retendo seu sopro e dizendo no ritmo da prece: “Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim”.

De início, ele repetirá a prece muitas vezes antes de tomar fôlego. Depois, quando o espírito se acostumar a se manter no coração, ele pronunciará a cada inspiração a prece “Senhor Jesus Cristo” e a cada expiração “tem piedade de mim”. Este procedimento durará até que a graça desça até a alma e se ative. Depois virá a contemplação (theoria).

A prece é assim recitada em qualquer lugar e em diferentes posturas: sentado, deitado, em pé, parado ou caminhando. “Orai sem cessar e dai graças em todas as circunstâncias”, disse o Apóstolo[2]. Não basta simplesmente orar deitado, no leito. É preciso lutar. Em pé ou sentado. Quando você se cansar, sente-se. Depois se levante. E não ceda ao sono.

Todos esses exercícios têm o nome de praxis. Desta maneira você mostrará a Deus sua disposição interior; pois o resultado depende dele. É dele que provém a força necessária. Deus é a origem e o fim da prece do coração. Sua graça opera tudo, ele é a força motriz.

Ora, o amor aparece e opera em quem guarda os mandamentos: quando você se levanta à noite para orar, quando você é movido de compaixão por um enfermo, quando você se mostra misericordioso para com uma viúva, os órfãos ou os anciãos, nestas horas Deus o ama. E você, por sua vez, lhe mostra seu amor. Mas foi ele quem o amou primeiro e lhe derramou sua graça. Quanto a nós, lhe entregamos “o que lhe pertence, o que é seu”. Quando você busca a Deus apenas com a prece, não deixe escapar um sopro de sua boca sem associá-lo a ela. Tente sempre manter seu espírito longe de quimeras. Pois o divino é sem forma, sem figura e sem cor. Ele é mais do que perfeito. Ele rejeita todo formato de silogismo. Ele opera e age como uma brisa leve sobre nosso espírito. Quanto à compunção, ela chega quando você medita sobre as coisas que entristeceram a Deus. Pense o quanto ele é bom, doce, misericordioso, como ele é o bem e a plenitude do amor, e como ele foi crucificado e suportou todos os sofrimentos; se você meditar sobre todas essas coisas e muitas outras ainda, seu coração se encherá de compunção.

E se você puder, aplique-se à prece em voz alta e incessantemente. Em dois ou três meses você se habituará. A graça o cobrirá e refrescará. E quando o espírito receber a prece, você não mais a dirá com a boca. Você terá um repouso. Mas quando o espírito o abandonar, sua língua retomará a prece. A violência contra si mesmo deve incluir o esforço vocal de dizer a prece até que o costume se instale. Depois disso, o espírito pronunciará a prece sem dificuldade por toda a vida.

Quando você vier à Montanha Santa, como nos anunciou, venha nos ver. Então falaremos de outras coisas. Você não terá tempo para a prece. Você não a poderá manter sem realizar a paz (hesíquia) em seu espírito. Aqui, visitando os mosteiros, seu espírito estará ocupado em escutar e ver.

No entanto, estou certo de que você terá sucesso em se formar na prece. Não o duvide. Apenas bata à porta da divina misericórdia e o Senhor abrirá. Ame-o muito, para receber muito. Pois é conforme o grau de amor que lhe mostrarmos, que receberemos menos ou mais.

Carta 2: ao mesmo, ainda sobre a prece e muitos outros assuntos.

Estou feliz em constatar seu ardor que só trará benefícios à sua alma. De minha parte, tenho sede de ser útil a cada irmão que deseja ser salvo. Então, bem-amado e mais do que querido irmão, abra bem os seus ouvidos. A predestinação do homem, desde que ele nasce para esta vida, é de encontrar a Deus. Ele não pode chegar até aí se Deus não o buscar primeiro. “Nele vivemos e nele morremos”, mas as paixões nos fecharam os olhos da alma e nos impedem de ver. Quando o Deus mais do que bom volta seu olhar sobre nós, despertamos como de um sonho e começamos a buscar nossa salvação.

Quanto à sua primeira questão: Deus já o viu, já o iluminou e o está guiando. Trabalhe para fazer sua vontade onde quer que esteja. Diga sem descanso a prece, com a boca e com o espírito. Quando sua boca se cansar à força de dizer a prece, o espírito tomará a frente. E novamente, quando o espírito lacear, a boca recomeçará. Apenas não se detenha. Faça muitas metanias. Vele à noite, tanto quanto sua força permitir. Quando uma chama se iluminar em seu coração, quando este se sentir abrasado por uma amor a Deus, quando você encontrar a hesíquia por já não poder permanecer encerrado neste mundo – porque a prece queima em seu foro interior – quando você experimentar todas essas coisas, escreva-me e eu lhe direi o que fazer. Mas se acaso a graça não se ativar dessa maneira, mesmo você não relaxando seu zelo e praticando os mandamentos do Senhor em relação a seu próximo, então encontre nisso seu repouso, porque você estará bem do modo como você é. Não procure receber mais... Sobre o sentido da diferença entre os trinta os sessenta e os cem, você lerá no Evergetinos. Ali você encontrará muitas outras coisas úteis.

Resposta às outras questões: em princípio a prece deveria ser praticada mentalmente. Mas porque de início o espírito ainda não está habituado, ele esquece. É por isso que é preciso alternar entre recitar a prece tanto com a boca como com o espírito até que este se sinta saciado e que aprece se torne atividade (energia).

Chamamos de atividade a sensação de alegria e contentamento que você experimenta no seu interior durante a prece. Assim, quando o espírito entra “na posse” da prece, esta se torna a emoção de alegria de que falei e diz a si mesma continuamente sem esforço de sua parte. Damos a este estado o nome de sensação – atividade (energia) – porque a graça opera sem concurso da vontade do homem. Quem atinge este estado, caminha, dorme, desperta e mantém em seu interior a prece incessante. Este está cheio de paz e alegria.

No que diz respeito às horas da prece, como você vive no mundo e tem muitas preocupações, quando você tiver algum tempo livre, dedique-se à prece. Violente-se para nunca negligenciá-la. Quanto à contemplação, é uma coisa muito difícil por ela exige uma paz interior absoluta.

A condição espiritual se divide em três estados segundo a atividade da graça em cada homem. O primeiro estado é o da purificação, quando a graça purifica o homem; é neste estado que você se encontra. Cada impulso que você sente pelas coisas espirituais é tributário dela. Nenhuma iniciativa neste estado cabe a você; a graça opera misticamente tudo. Esta graça, portanto, quando você se violenta, faz morada em você por um certo número de anos. E quando o homem progride na prece interior, ele recebe outra forma de graça, bem diferente da anterior.

Então, o primeiro estágio se chama sensação-energia e é idêntico à graça purificadora, pois o orante sente no interior de si mesmo um impulso-energia divino.

O segundo estágio corresponde à iluminação; pois nele recebemos a luz do conhecimento que conduz à contemplação de Deus. Não devemos confundi-lo com “as luzes”, as fantasias, as diferentes representações. Mas ela ilumina o espírito, tornando-o límpido e luminoso, opera a purificação dos pensamentos e abre a inteligência aos pensamentos elevados. Para adquirir esta graça, o orante deve estar num estado de perfeita paz interior (hesíquia) e possuir um guia experiente.

O terceiro estágio – a descida propriamente dita da graça (no coração) – é aquele da graça perfeita que constitui um grande dom. não lhe escrevi antes a respeito porque não era necessário. Mas se você quiser ler a respeito, eu escrevi, malgrado minha ignorância, sobre as energias operantes da graça, uma obra intitulada “Trombeta espiritual”. Tente encontrá-la. Adquira também os escritos de São Macário com o editor Schinias, e os do abade Isaac (Santo Isaac o Sírio), dos quais extrairá muitos benefícios. Escreva-me sobre as transformações (espirituais) que você experimentar e eu lhe responderei prontamente.

Nestes tempos, não deixo de responder às cartas que recebo. Neste ano, algumas pessoas vieram da Alemanha com o único objetivo de conhecer a prece do coração. Eu recebi cartas da América que requerem pressa, assim como de Paris, e, em todas, seus autores perguntam pela prece interior. Mas aqui, entre nós acontece o contrário. Será muito trabalho invocar sem cessar o nome de Jesus para atrair sobre nós sua misericórdia?

Para encerrar, uma ideia errônea que provém do maligno, predomina: a saber, que ao praticar a prece caímos no erro – quando é exatamente o contrário. Quem sentir o desejo pela prece, dedique-se a ela. E quando a atividade da prece tiver durado o suficiente, ele se tornará um paraíso por si só. O homem se libertará das paixões e se transformará em homem novo. E se a pessoa que se dedica à prece viver no mundo, ela receberá muito mais benefícios do que aqueles que escolheram o deserto.

“Ó homem! Aprenda a humildade de Cristo, e o Senhor lhe permitirá provar da doçura da prece. Se você busca a prece pura, seja humilde, seja sóbrio, confesse-se sinceramente e a prece o amará. Seja obediente, submeta-se de bom grado às autoridades, esteja contente com tudo, e assim seu espírito se purificará dos pensamentos vãos. Lembre-se de que o Senhor o vê e tema ferir seu irmão; não julgue, não o faça sofrer, ainda que somente com a expressão do seu olhar – e assim o Espírito Santo o amará e o auxiliará em tudo”.  (São Silouane o Atonita)



[1] Nessas cartas, “a prece” significa sempre a prece interior ou do coração.
[2] I Tessalonicenses 5: 17-18.